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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

# atleticania (ix)

 
Vejo as fotos da Baixada, praticamente pronta, e está um espetáculo.

Mas também vejo que em mais um ato da ópera bufa de desprezo ao futebol, à sua história e à sua torcida, o recheio do estádio, na cor de cada uma das cadeiras, é... cinza.

Sim, ordens do mandatário da Casa.

Que parece, pois, não conhecer o nosso valor.

E como se perpetrasse transfundir o sangue de cada um dos atleticanos, aquilo ali nos empalidece, nos deslustra e nos abafa.

E tira o vigor, e jaça e usurpa parte do tom da alma rubro-negra.

Subtrai-se a cor da paixão, a cor apaixonada do clube, a cor da vida de um clube de cuja paixão sabemos de cor: o vermelho.

Esfria-se, mortifica-se, enluta-se no cinza o vivo que se tinha no nosso caro vermelho, que esquentava, que enfogava e que sempre tornou aquilo ali um fervoroso caldeirão.

Quer-se, agora, as cinzas de uma quarta-feira qualquer, desprezando todos os santos dias em que o nosso futebol foi eternizado sob o manto das nossas sagradas cores.

Quer-se um cinza mercantil, um cinza frio e calculista, um cinza à moda dos negócios, um cinza à la carte, um cinza que nos fatia, que nos apunhala pelas costas e que nos debulha.

Um cinza gelado, neutro, nulo, duro, inodoro, insípido.

E um cinza sem cor, sem grito e sem vida.

Roubaram-nos o vermelho, meus amigos.


Em construção, cadeira com cadeira num desenho ilógico



terça-feira, 17 de dezembro de 2013

# um conto sem fadas


Era uma vez um campeonato de futebol na Ilha de Vera Cruz.  

Sendo o futebol o esporte nº 1 do lugar, o torneio, mesmo com a fama de desorganizado e cheio de cambalacho, era disputadíssimo e comovia toda a Ilha.

O dinheiro envolvido era enorme e, logo, os interesses eram muitos.

Neste ano, porém, teve uma uma equipe, o Cruzado, que jogou muito mais que todas as outras e por isso não demorou muito para se sagrar campeã.

Porém, havia muitas outras coisas em disputa.

E nada causava tanto alvoroço do que a disputa para ver qual equipe seria a última rebaixada para a segundona do campeonato insular, ao lado do Vasko da Gema, Makaka e Nautibus.

E eis que chega o derradeiro fim de semana do campeonato.

Pelo fato de, em tese, ter duas equipes que não tinham mais interesses em jogo, marcou-se a partida entre ambas para sábado e as demais foram para o domingo.

Assim, no sábado, Mullambus contra Cruzado tinha tudo para ser um amistoso, pois o primeiro abrira 4 pontos da "zona da morte" e parecia que não teria risco de cair, enquanto o segundo já era o campeão da Ilha de Vera Cruz. 

Partida modorrenta, sem compromisso, e ao final o placar de 1 x 1.

Mas o que parecia insosso adquiriu ares de dramático com uma constatação ao fim do jogo: por absoluta incompetência da desestruturada direção do Mullambus, um dos seus jogadores acabou sendo escalado irregularmente.

Punição? Perda de 3 pontos, além dos pontos ganhos na partida – 1 (um), no caso –, num total de 4 pontos.

Ou seja, a depender dos resultados dos jogos do domingo, esta perda de 4 pontos levaria o Mullambus à inédita segunda divisão.

Clima tenso.

Clima financeiramente tenso, pois em jogo estariam os multimilionários interesses do showbizz, dos sponsors e, em especial, da Rainha Vênus Platinada.

Afinal, como aceitar que o time com a maior torcida – leia-se, mais audiência, mais anúncios e, logo, mais grana – da ilha fosse rebaixado?

O que fazer? O que não fazer? O que fazer? O que não fazer? Era o zum-zum-zum do ambiente...

“Fazemo-lo, amada Mestre!” – propõe alguém, ardida de ódio.

“É, armemos alguma coisa, pois só torcer não vai adiantar, será muito arriscado!” – outra pessoa, também ardida, vaticina.

“Hey!! Liguemos para a turma da Lusitânia!” – as ardidas, junto, sugerem como mágica.

Ora, Lusitânia era uma equipe pequenina, esquecida por tudo e todos, simpatizada por minguados torcedores, sem qualquer apelo midiático, sempre com campanhas pífias nos torneios nacionais e que, mais uma vez, estava lá no bloco de baixo. 

“Sim, se ela também perder 4 pontos quem cai é ela, e não nós!”, exclamam.

Portanto, Lusitânia parecia ser a isca perfeita... e, por um arranjo do destino, ela jogaria amanhã, num cenário que já poderia ser bem preparado.

“Ora, vão ver isso! E cortem-lhe a cabeça!”, exclama a Rainha, dando o veredicto.

E com os baús entupidos de moedas de ouro, lá foram os representantes mullambus atrás dos representantes lusitânios.

Chegam até a sede da Lusitânia e, para espanto delas, quem lá encontram? 

Sim, eles, os folclóricos representantes de um rival regional, da tribo tricolor Flordelince.

“O que fazem aqui?”, o mullambu, surpreso, indaga.

“Ah, pelo visto o mesmo que vocês...”, sentencia o dirigente da equipe de três cores, com cara de quem já rondava por ali há dias.

Bem, o Flordelince, coitado, estava em situação ainda pior que o Mullambus.

Praticamente rebaixado, ainda jogaria no domingo e só um milagre por debaixo dos panos, como de praxe, parecia fazê-lo não cair.

E, coincidentemente, o mesmo milagre desejoso pelo Mullambus: que Lusitânia perdesse 4 pontos e sucumbisse.

“Mas vamos ao que interessa...”, já emenda, rasgando, Joaquim, o dono da Lusitânia.

Já eram quase 10 da noite quando, enfim, a reunião começou pra valer.

Na mesa, muito bem definidas as propostas da Rainha Vênus, por parte do Mullambus, e da Yunymedi, o rico ente reitor, já com ares sagrados, do Flordelince.

No fundo, um só fim: em troca de milhões e milhões, 4 pontos.

Um rio de dinheiro, um rio de janeiro a dezembro para Lusitânia usar como bem quisesse, onde quisesse e com quem quisesse.

Bastaria, simplesmente, perder 4 pontos e cair.

“Mas como fazer isso, se um jogo vale só 3?”, indaga o mandatário lusitânio.

“Escale um jogador irregular na tua equipe!”, respondem, em uníssono, os representantes outrora rivais.

E sobe à mesa mais um baú de dinheiro.

Fama, fortuna, mulheres, viagens, carros de luxo... tudo surge na conversa com poder de convencimento.

“Ah, mas e o futebol? E os meus torcedores? São poucos mais lhes devo satisfação!”, lamuria Joaquim.

“Não se preocupe, é tanto dinheiro que ano que vem Lusitânia poderá montar um ótimo time, já sobe pra 1ª divisão de novo e todo o povo esquece...”, diz o sujeito de cartola e pasta tricolor.

Era verdade. 

O mundo mineral sabia que, não fosse por uma questão de ética institucional, a Lusitânia não perderia nada com essa história de rebaixamento, pois não tinha pressão de patrocinadores, nem pressão de mídia, nem pressão de torcida... 

"Sim, e a Rainha promete que mandará toda a mídia mostrar vocês, acho até que vão inventar um apelido pra vocês, misturado com um desses times quem tem lá na Zoropa... tipo "Barcelusi!", o mullambu de sorriso sinistro emenda. 

“Ai meu Jesus...”, murmura aflito o homem.

Passa da meia-noite. Dá-se a impressão que toda a Ilha de Vera Cruz pesa sobre os ombros do Seu Joaquim e da Lusitânia.

Cabeça baixa, e ele, frio, sua muito.

E pensa, pensa, pensa... 

Até erguer-se para gritar: “Tá bem... Chama lá o Héverton!”.

E todos viverem felizes para sempre.


sexta-feira, 5 de julho de 2013

# memórias de um estudante sem malícias


Em “Memórias de um Sargento de Milícias”, por muito pouco meu reino não ruiu.

E foram estas “memórias” que hoje me vieram à tona, quando, para desasnar, conversava rapidamente com uma amiga sobre literatura, mais precisamente sobre parte da literatura brasileira dos séculos XVIII e XIX.

Inicialmente, uma conclusão já óbvia: por que cargas d´água nós, no auge dos 12 anos, somos obrigados a ler Manuel Antonio de Almeida, Raul Pompéia, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e outras feras, em cujos livros pouco de significativo há para quem (ainda) não quer começar a ter o gosto pela literatura?

E de pronto sempre vem uma contra-pergunta, a afirmar que ninguém nesta fase infanto-juvenil gosta de estudar coisa alguma. Porém, é diferente: aqui temos coisas que se avolumam em duzentas ou trezentas páginas e que se rastejam para se impregnarem em nossas almas por luas e mais luas, quase meses, tudo muito diferente de um estudo com fórmulas químico-físicas, exercícios matemáticos ou curtos contos de história e geografia com começo-meio-fim e que duram alguns parágrafos ou páginas.

Sendo assim, vejamos: o que falar da poesia arcadista a ser decorada em todos os seus quadrantes? E dos parnasianos da gema que nos mandavam ler e a eles nos prostrar?

Ora, a leitura desta nossa antiga e arcaica literatura, quase pré-socrática, parece durar seis vidas, tempo suficiente para quereremos largar tudo e ir direto para o Inferno, ou ir lutar contra moinhos gigantes, ou ir tentar fugir de uma baleia enfurecida, ou quem sabe ir tomar chá com algum chapeleiro tresloucado. No mundo literário, todas estas opções são muito mais gratificantes.

Enquanto a nossa prosa pré-realista jamais conseguirá ser recebida pelos olhos juvenis, o que veio antes dos modernistas também poderia passar sem deixar vestígios. Ouso, inclusive, ser radical e dizer que, não fosse o brilhantismo máximo de Machado de Assis e de mais uns e outros da sua época, o nosso mundo literário iniciar-se-ia com a Semana de Arte Moderna, em cuja contemporaneidade temos a chegada dos nossos grandes gênios de verso e prosa.

Não estamos a exaltar o desconhecimento da nossa história, tão-pouco se trata de uma apologia à ignorância ou uma renegação aos estudos da nossa língua.

Mas, creio eu, se poderia dispensar um aprofundamento impertinente para aquele alucinante momento da vida, cujos efeitos, ainda que num ponto de vida utilitarista, são negativos, pois afasta potenciais leitores da nossa inculta e bela, afasta aqueles que, talvez poucos anos à frente, poderiam mergulhar no passado literário da última flor do lácio sem dor e sem preconceitos.

Foi então que minha amiga trouxe à nossa conversa a obra de Camilo Castelo Branco, escritor lusitano de dois séculos atrás e cujos textos confessei jamais ter lido.

“Relaxe e dispense, não perde nada”, disse ela, com uma segurança ímpar.

Meu mundo, oh, meu mundo por esta frase naquela tarde dos idos de 1985, quando o professor de Língua Portuguesa, ao invés de pular esta fase da literatura – que, é claro, está umbilicalmente relacionada à nossa – e os seus autores, obrigou-nos a leitura e a apresentação de um complexo trabalho daquela obra (resumo, análise dos personagens, aspectos sociais, culturais...) que fala das lembranças e desventuras de um milico de araque.

Era coisa para uma vida, pensava eu. E talvez tenha sido a partir dali meu ressábio quando sujeitos de verde-oliva me aparecem, a carregar o mau-agouro daquele período em que fiquei semanas e semanas trancafiado em meu quarto com aquele livro e com aqueles histórias absolutamente chatas e longas de um sujeito que militava em torno da funesta turma da farda.

Mas não foi este o fato mais significativo daquele momento.

Na verdade, o meu desespero foi ainda maior em razão da certeza que passava a ter: era eu uma besta, um jumento incapaz de compreender uma frase daquele livro se não lida seis vezes, ou um parágrafo se não repetido à exaustão. Confesso que até o título eu tive que ler e reler para sacar.

Assim, desesperava-me o fato de que, dali a poucos meses, não conseguiria traduzir meia-dúzia de vírgulas acerca daquilo que se passava como aquele sujeito naquele Rio de Janeiro quase medieval; angustiava-me a certeza de que não iria enxergar nenhum aspecto – ainda mais "aspectos" das mais variadas estirpes – para relatar; e saíam-me brotoejas por imaginar não conseguir escrever bulhufas de nenhum daqueles toscos personagens.

Impotente em buscar a exegese da obra ou de entender os objetivos do autor, peguntava-me, absoluto: o que serei no futuro, diante de tanta incapacidade de leitura? O que será de mim perante todos os meus colegas, com certeza mais sabichões e que muito bem entenderam as aventuras do sargento e cia?

E passados tantos e tantos dias, e passadas dezenas de folhas de papel-almaço num mequetrefe manuscrito, eis que na véspera da entrega supus finalizar aquilo que mal sabia como tinha começado.

Chegado o dia, adentra o professor em classe.

A sala muda, mas ninguém mais mudo do que eu, numa mudez que chegava a me cegar, impossibilitando-me sequer olhar para o colega ao lado e comparar forma ou tamanho. Era como se eu estivesse num mictório, em repouso e acabrunhado com o momento.

Ele faz a chamada e, ato contínuo, pede para cada um se levantar e deixar o trabalho feito sobre a mesa.

Ele termina a chamada, pega a pilha de trabalhos e passa a chamar um a um para devolvê-los, sem correção, sem contestação, sem comoção – e sem a minha humilhação.

Sim, era um blefe para provar a nossa leitura e os nossos estudos. E passa aquela aula toda, e parte da seguinte, a explicar a obra e seus texto e contextos.

E assim, mais do que aliviado pela minha ignorância ter sido resguardada e rasgada no silêncio da lixeira do pátio externo, vi que talvez eu não era tão asnil assim, pois coisa ou outra até havia captado daquilo tudo. 

Embora ainda hoje continue sem saber: afinal, por que Leonardo-Pataca foi abandonado pela cigana?



terça-feira, 29 de junho de 2010

# uma reles margarina


fdsOs anunciantes e as suas marcas, pela dinâmica do mercado, não podem admitir o vácuo, assim como ocorre na política.

fdsE, por isso, a cada renovação, a cada ciclo, a cada mudança de estação, a cada grandes fatos novos, precisam já impor um novo produto, uma nova cara, um novo personagem que lhes seja útil, que lhes dê visibilidade e, claro, que lhes traga lucro; não podem, pois, ficarem ligados à coisa velha, ao antigo, ao ultrapassado, ao démodé, ou mesmo deixar o seu negócio esfriar.

fdsDestarte, antes mesma da irreversível decadência de Ronaldinho, a superempresa prontamente já elegeu Cristiano Ronaldo, o dublê de ator e de futebolista português, e o impôs goela abaixo de todo o mundo.

fdsEra ele quem seria a bola da vez, embora com muito menos bola.

fdsEsta, pois, é a trajetória circunstancial do atacante lusitano, o atual garoto-propaganda e ícone da maior marca de material esportivo do planeta.

fdsNa verdade, ele foi inventado, fabricado, moldado, carimbado, selado e registrado para voar, para brilhar, para ser o grande astro do mundo da bola e para se tornar a grande vedete do showbusiness chamado futebol.

fdsE patentearam-no, bien sûr.

fdsFaz pose, caras & bocas. Não cansa de gestos milimetricamente calculados e nauseabundas firulas treinadas. Vive de olho nos telões, nas câmeras, nos paparazzi e na claque. ]
fdsMas não joga, ou, ao menos, joga muito menos do que querem nos fazer crer que joga.

fdsE não vive o jogo, pois, a todo instante, usa de uma imensa máscara, de uma fantasia criada à imagem e à semelhança dos desejos midiáticos para se reproduzir e se multiplicar, artificialmente.

fdsA sua mínima e mais óbvia ou comum jogada é repetida à exaustão, insistentemente, em todos os cantos da Terra e por todos os meios de comunicação. E passa a ser considerada genial. Mas não é.

fdsÉ, sim, apenas fantasiada. E embrulhada para imediato consumo de tantos jovens cara-pálidas.

fdsSim, Cristiano Ronaldo é um produto, uma submarca fantasia de uma gigantesca marca transnacional. E um produto ruim, que não cumpre o que faz prometer, razão pela qual o povo português merece, a tempos, uma substancial indenização.

fdsAssim, a pobre torcida portuguesa é lograda pela empaturração em alta-voltagem daquele pseudo-craque, que não decide partidas, que não trabalha em grupo e que não aparece para o jogo, tal qual (não) fez hoje na derrota para a Espanha (e tal qual sempre faz em jogos decisivos pela Europa afora). Uma vergonha.

fdsMas, fica já uma certeza: Portugal não deve chorar pela total omissão e incapacidade técnica deste seu jogador.

fdsAfinal, ninguém chora pelo que nunca teve ou existiu.
fds


sexta-feira, 18 de junho de 2010

# a-deus



fdsO escritor é assim: vai o corpo e a sua obra fica para a eternidade. Ele não morre, é o seu consolo fazer-se perpétuo nas palavras escritas.

fdsCessam as novidades, interrompem-se os renovados ciclos criativos, congelam-se as palavras curtidas, mas o que sempre pensou, imaginou, defendeu e escreveu cá fica, talhado em papel ou eletronicamente fixado no mundo virtual.

fdsNão há um fim.

fdsE o escritor que não trabalha apenas com a redação de ficção ou com a literatura de conveniência, vai muito além disso, e supera-se.

fdsAo conseguir aliar as ideias e os ideais de vida, de sociedade, de Estado e de cultura com a ficção -- mas uma ficção bastante real, próxima e presente --, este escritor transcende as simples palavras vivas de um romance, irrompe os meros limites do publicado descartável, fulmina a tergiversação matemática das ciências humanas e sepulta a vã filosofia oportunista.

fdsNeste estado de espírito e nesta práxis, o escritor pretenda deixar o mundo melhor, e se afasta daqueles preocupados apenas em rechear os bolsos ou contentar suseranos.

fdsJosé Saramago, em carne-e-osso, foi; mas o que sempre nos ensinará e nos fará pensar, com os seus livros e o seu "caderno virtual" (v. aqui), está aí, para sempre, ao alcance de todos.

fdsBasta abrirmos os olhos, e querer enxergar. Com bastante lucidez.

fds
fds"Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a  parte nenhuma."  (José Saramago)


sexta-feira, 16 de abril de 2010

# o belo milagre das vaias


fdsFalamos na vaia que trucidou Paulo Baier no jogo de quinta-feira contra o Palmeiras.
fdsFalamos da injúria racial contra Manoel, naquele mesmo jogo.
fdsE já estamos na iminência de vermos a nossa Seleção embarcar para mais uma Copa do Mundo.
fdsEntão eis, aqui, a crônica de Nelson Rodrigues, escrito n'O Globo no distante 1° de maio de 1970, com o título dado para esta bula e no qual o maior cronista esportivo brasileiro disserta sobre aqueles assuntos. É de chorar, quão sublime é o seu texto.

fdsO escrete parte hoje. Termina o seu exílio e, se não ouviram bem, repito: — o seu exílio era o Brasil. Os nossos jogadores são tratados como se fossem estrangeiros. Ou pior. Porque os estrangeiros merecem, não raro, uma polidez convencional, sim, um mínimo de cerimônia. Vocês viram, não viram, Brasil x Inglaterra?
fds“Não somos os melhores”, afirma um cronista machadiano. E, não sendo os melhores, e sendo os ingleses sim, nós os derrotamos. Como se não bastasse a vitória brasileira, ainda infligimos aos campeões do mundo um ignominioso olé. Mas eis o que eu queria dizer: — no segundo tempo, um dos visitantes fez uma coisa que, em futebol, é a vergonha inapelável e eterna: — atrasou do meio de campo. Ao meu lado, na tribuna de imprensa, o botafoguense Serginho explodia em arroubos: — “Como eles atrasam bem! Com que tranqüilidade!”.
fds Por aí se vê que admiramos mais os defeitos ingleses do que as virtudes brasileiras. Conversei com um dos jogadores do escrete e ele abriu-me a alma, de par em par. Contou-me que, jogando sob uma cúpula de vaias, não era um brasileiro a jogar para brasileiros. Não e nunca. Tinha a sensação de que era um brasileiro a jogar para javanês, tirolês, congolês, tibetano, caucasiano e birmanês.
fdsDe brasileiros, a maioria dos assistentes só tinha — o palavrão. Era, sim, o palavrão, rugido no idioma de Camões, era o palavrão, repito, que localizava o Morumbi no Brasil, E disse mais o pobre craque. Como se não bastassem as vaias de boca, sofria também as vaias impressas. Os jornais, em sua maioria, não tinham uma palavra solidária, amiga, fraterna. O escrete era negado de alto a baixo, isto é, a partir da manchete.
fdsO mal-amado sente-se hostilizado até pelas paredes, pelos edifícios, pela paisagem. E ele, não raro, começou a sofrer de mania de perseguição. Passou pelo morro da Viúva, achou que o Pão de Açúcar tinha-lhe horror; que o Corcovado, idem. De outra vez, sentiu-se malquerido até pelo poente do Leblon. Disse-me várias vezes, obsessivamente, o jogador: — “Precisamos sair daqui! Precisamos ir embora!”.
fdsOuvi em silêncio o craque patrício e, sem nada dizer, dei-lhe toda a razão. Perguntará o leitor, em sua espessa ingenuidade: — “O brasileiro não gosta do brasileiro?”. Exatamente: — o brasileiro não gosta do brasileiro. Ou por outra: — o subdesenvolvido não gosta do subdesenvolvido. Não temos sotaque, eis o mal, não temos sotaque.
fdsAinda agora, no Morumbi, jogamos com a Bulgária [Brasil 0 x 0 Bulgária, 26/4/1970, penúltimo amistoso antes do embarque para a Copa do México]. Embora entre os búlgaros existissem carecas, pais de família, que fez a nossa crônica? Na hipótese de uma vitória nacional, passaram a dizer que os adversários eram infanto-juvenis do seu país. E se, porventura, ganhássemos de 17 x 0, diriam as manchetes: — “Brasil ganha do berçário búlgaro!”.
fdsNão sei se vocês se lembram de uma passagem que contei, aqui mesmo, nesta coluna. Era o caso de um patrício meu que assim se apresentava nas esquinas, botecos e retretas: — “Chegou o quadrúpede!”. Fazia uma volta no local e dava outro berro: — “Sou um quadrúpede de 28 patas!”. Era esse o seu triunfal cartão de visitas. Ligava para a namorada e começava assim: — “É o quadrúpede!”.
fdsLembrei-me desse conhecido, que assim se aviltava, ao ouvir uma mesa-redonda numa das nossas emissoras. O assunto era o escrete. Ora, o escrete é feito à nossa imagem. E os cronistas reunidos não fizeram outra coisa senão cuspir, como Narciso às avessas, na própria imagem. Negaram a seleção, negaram o jogador, negaram o técnico, negaram o preparador, negaram o médico, negaram tudo. Justo seria que terminassem assim: — “E, agora, com licença, porque vamos urrar no bosque mais próximo!”.
fds Os brasileiros empataram com os carecas da Bulgária por um escore que humilha os dois lados: — 0 x 0. Mas o resultado em nada influiu. A vaia começou antes do jogo, continuou durante o jogo e depois do jogo. Mas se me perguntarem quem empatou com os húngaros, eu diria: — a antitorcida. Uma multidão que só vaia não pode chamar-se a si mesma de torcida nem tem o direito de exigir vitória.
fdsO que fizeram com Paulo César é indesculpável. Ele não era nem culpado de estar ali e, repito, estava ali porque o escalaram. Setenta, ou oitenta, ou noventa mil sujeitos contra um só. Não se conhece outro brasileiro tão humilhado. A vaia é um prazo. Dura um minuto, dois, três. Vaia é esforço e não temos, como os ingleses, a saúde e a resistência de uma vaca premiada. Pois bem. A vaia que trucidou Paulo César durou noventa minutos.
fdsDigo noventa minutos e já retifico: — mais. Mais, porque começou antes do jogo. A aluna de psicologia da PUC, que entende nossos sentimentos, dizia-me: — “Só o ódio sustenta uma vaia de noventa minutos”. Aí está: — só o ódio. E seria lícito dizer-se que Paulo César foi linchado, fisicamente linchado, por uma vaia.
fdsHá outra observação que eu desejaria fazer. A vaia contra um atinge e ofende os demais, inclusive os adversários. Claro, pois a vaia não tem nome e endereço como os envelopes. Os destinatários eram os 22 jogadores e mais os reservas, de ambos os lados. Mas volto à mesa-redonda da TV. Houve pouquíssimas exceções; e uma delas, e a mais veemente, a mais otimista, foi o “Marinheiro Sueco”. Vibrante de justiça e de procela, tratou de defender o maravilhoso craque do Brasil.
fdsGraças a Deus o escrete parte. O que nem todos percebem é que o time nacional leva um maravilhoso trunfo. No México, ele se sentirá muito menos estrangeiro do que aqui. E estará protegido pela distância. Acreditem que a distância será a nossa ressurreição. Se me perguntarem o que deverá fazer a seleção para ganhar a Copa, direi, singelamente: — “Não nos ler”. Sei que as nossas crônicas vão aparecer, por lá, como abutres impressos. Não importa. O que interessa é fugir da feia e cava depressão que dos nossos textos emana.
fds Quando o jato subir, o escrete assumirá a sua verdadeira dimensão. Cada cronista há de ter uma palavra final para o time nacional. Já vimos que um dos colegas escreveu, a título de juízo final: — “Não somos os melhores”. Esse tom de catástrofe é de quase toda a imprensa brasileira. Mas não é, repito, o meu tom. Dirão vocês que adoto, diante da Jules Rimet, uma posição romântica. Nego. Justamente porque sou realista é que sinto, inevitável, fatal, a vitória brasileira.
fds Os pessimistas são os alienados. Por exemplo: — o ilustre cronista diz que data de 66 o ocaso do nosso futebol. Quem fala assim é, obviamente, um ressentido contra os fatos. Ele não os aceita e parece dizer: — “Se os fatos não confirmam o que escrevo, pior para os fatos”. Quem quer que tenha um mínimo de isenção, de objetividade, de apreço aos fatos, sabe que o futebol brasileiro é o melhor do mundo. Não sou eu que o digo, mas o óbvio, sim, o óbvio ululante.
fds Seremos campeões de 70, conquistaremos para sempre o caneco, porque somos melhores. Mas isso seria pouco. Além de melhores, levamos para o México as vaias ainda não cicatrizadas. De vez em quando, eu relembro o que acontecia com o “Tigre da Abolição”. Nos comícios, José do Patrocínio começava gelado de pusilanimidade. Era preciso que os amigos, no meio da multidão, o chamassem de “negro”, “negro”, “negro” e “negro”. E a humilhação racial o potencializava. Dizia então coisas como aquela: — “Sou negro, sim! Deus deu-me sangue de Otelo para ter ciúmes da minha pátria!”.
fds Com o escrete, já começa o belo milagre das vaias. Foi milagre o segundo tempo de Brasil x Áustria [Brasil 1 x 0 Áustria, 29/4/1970, no Maracanã, último amistoso antes do embarque]
. Aquela bola que Pelé passou de calcanhar ou o gol de Rivelino, cada jogada era um momento de eternidade do futebol.fds Vou ao aeroporto dizer aos nossos jogadores: — “Vocês já são campeões do mundo”.
fds

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

# aspas (xxix)

Recentemente, o escriba (e fariseu?) Nêgo Pessôa fez uma das maiores declarações de amor já vista neste trópicos.

Era uma jura de amor eterno e total.

E acertou a mão, em cheio, como de regra acontece quando ele trata do cotidiano, dos modas e das modas e da vida, como ela é -- nessas áreas, a sua verve é ímpar (v. aqui).

Mas atenção, o Ministério da Saúde adverte: se o assunto for política-economia-sociologia-e-direito, data venia, fuja do nobre escritor, para o bem de todos e a felicidade geral da nação...
fds
"
A caminho da senectude (maravilhosa palavra) me tornei um comedor de pão. Ontem, depois de fazer a barba, tomar banho, me produzir, fui ao Marcolini, na praça Espanha; mandei descer o estoque. Comprei todos os pães. Tenho pão até 2014, ano da copa no Brasil – se não houver acidente.


PÃO&CIA
Gosto de pão de qquer jeito. E em todas as companhias, especialmente nas más, não abonadas pelas tradicionais famílias curitibocas. Gosto de pão a sair do forno, a queimar dedos&língua; gosto de pão dormido, de ontem; gosto de pão ao ponto, mal passado; gosto de casquinha de pão e gosto também da árdua casca do pão italiano, rústico, excelente teste para as renovadas arcadas.

PÃO S/A
Gosto de pão com manteiga e pão com margarina. Mas gosto também de pão sem manteiga e de pão sem margarina… como o Fernando Sabino jurava q viu em Portugal. E no azeite, então? E no azeite com sal&pimenta? E no sal? E na pimenta? E afogado no grosso caldo de feijão preto? E na minestra generosa? E nos molhos nos fundos dos pratos?

PÃO MATABORRÃO
Ah! O pão mata borrão! E no café com leite q minha mãe deixava pronto antes de partirmos de calças curtas pras aulas das manhãs frias do inverno iratiense? E o pão no vinho da italianada civilizadora? E o pão abrigo da cebolada dos nossos adoidados polacos? E o pão sírio? Filho da puta! Refratário ao enxuga-encharca-absorve! E as broas? Com miolo a 1000 graus Celsius! Com manteiga a se derreter? E as surubas, ié, e os sanduíches?

PAUSA PRA INTOLERÂNCIA
Não tolero pão de hamburger, pão só miolo como a faca só lâmina do poema do João; aposto q aquela carne moída melhoraria muito entre metades do velho de guerra pão dágua. Varrido do mapa pelo – filho da puta! – francesinho.

(...)
As vezes vou a Saint Germain só pra comprar pão dágua. As vezes desconfio q sou o último dos moicanos comedores de pão dágua. Estou tentado a armar confraria ou sociedade secreta dos comedores de pão dágua. Amo os perdedores. Tenho alma compassiva. Nos reuniremos nas catacumbas e compartilharemos irmamente, fraternalmente, o pão dágua q se extingue não com uma explosão, mas com um suspiro. Para degustar o pão v tem de mastigá-lo bem, com paciência, calma. Capriche."
fds

terça-feira, 29 de setembro de 2009

# reis & magos

fds Acabo de assistir a um momento sublime da história.
fds Ainda que nascido, à época somente teria tido o privilégio de ouvir, vez que os olhos no Brasil ainda não eram capazes de acompanhar os fatos.
fds Eram os tempos do rádio, nada de tv.
fds Era o tempo do mundo, vasto mundo.
fds Hoje, a pequenez do mundo e a infinda tecnologia permitiram-me ter e ver essa história.e
fds E então me preparei. Terno, chapéu e sapato, lenço e relógio nos bolsos e, sentado, liguei a televisão, apertei o "play" e, apagada as luzes, regressei no tempo.
fds Lá estava eu, em Estocolmo, capital da Suécia, no mês de junho de 1958, para acompanhar, na íntegra, a semifinal (com locução inglesa e imagem explêndida) e a final (num mudo e desgastado filme) da VI Copa do Mundo de Futebol.
fds Pela primeira vez em minha vida -- e garanto que tal privilégio seja de poucas pessoas --, ali, por mais de 180 minutos, os dois maiores gênios do futebol brasileiro estão na minha frente, sem dublês, sem montagens, sem clips e sem melhores momentos: Pelé e Garrincha, belos, fortes, impávidos, colossais e idolatrados. Salve, salve!
fds Foi surreal vê-los em ação, vê-los marcar, vê-los chutar e vê-los trocar passes.
fds Sim, porque neste caso uma singela troca de passes tem dimensões inimagináveis, pois é assim, num jogo inteiro e sem compactação que se consegue vê-los mais humanos (demasiadamente humanos) e atletas e menos super-heróis e popstars.
fds Ambos, mais ou menos juntos em três Copas do Mundo, jamais perderam um partida, jamais se estranharam, jamais brigaram, jamais se endeusaram e, embora artistas, jamais encenaram.
fds Mas os jogos não eram só eles.
fds Considerado por muitos como o melhor time de futebol de todos tempos -- discussão milenar que nunca findará e que põe lado a lado essa seleção brasileira, de 1958, e aquela de 1970 --, a faraônica dupla fazia-se acompanhada de tantos outros jogadores geniais.
fds Nas duas partidas, às claras, nota-se o esplendor do goleiro Gilmar, o nosso intocável número 1; vê-se o poder de marcação e a liderança de Zito, um volante à época já moderno; deslumbra a classe, a técnica e o poder de armação de Didi, o melhor camisa 8 que já tivemos; contagia a força, a potência e o oportunismo de Vavá, um dos grandes centroavantes da nossa história; e confirma-se que Nilton Santos e Djalma Santos -- ainda que esse só tenha sido titular no jogo final -- foram certamente os maiores laterais de todos os tempos.
fds Com dois idênticos placares (5 a 2), o Brasil derrota França e Suécia e consagra-se, pela primeira vez, campeão mundial, a minimizar o "complexo de vira-lata" que nos perseguia.
fds Deste junho de 1958, com Pelé e Garrincha juntos, aliados a tantos outros monstros, o Brasil mostrou ao mundo como, enfim, se faz o maior espetáculo da terra.
fds E hoje, enfim, senti-me "testemunha ocular" dessa nossa história.


sexta-feira, 24 de julho de 2009

# baú mágico


fdsfds Confesso-me isolado por um gap tecnológico que não me permite conhecer de tantas coisas que a cada dia invadem o cotidiano pós-moderno. Desconheço, e, logo, não necessito. Nem quero.

fdsfds Entretanto, há alguns meses apresentado a estes sites onde se baixa de tudo, descobri um verdadeiro baú virtual, repleto de tesouros valiosíssimo que possibilita-me o contato com os grandes momentos da história mundial do basquete e do futebol e que talvez nem a memória de outras vidas permitir-me-iam ter.

fdsfds Dentre outras paradas, essa fantástica viagem pelo túnel do tempo passa pelas Copas do Mundo de 58 em diante e pelos jogos dos anos de ouro da NBA. Tudo na íntegra, em alto e bom som. E, para quem começou a acompanhar isso tudo lá pelos anos de 85/86, com nove anos, é como se fosse Marty McFLy, de volta para o passado.
 
fdsfds Das Copas, tenho ao meu alcance, sem cortes, todos os jogos dos grandes times formados pelo Brasil nas Copas de 58 (como Brasil e Suécia), 62 (como o Brasil e os tchecos), 70 (contra Uruguai, Inglaterra etc.), 82 (como Brasil e Argentina) e 86 (como contra os franceses), dentre tantos outros jogos fabulosos, como Alemanha e Inglaterra de 66, Alemanha e Itália de 70, os jogos da Holanda de 74 e 78, a final de 86, bem como os filmes oficiais das últimas 12 copas, com imagens e textos singulares...
 
fdsfds Da NBA, os mais antigos que me perdoem -- pois talvez considerem os anos 60 como os melhores, numa época de Chamberlain, West e Russel --, mas consegui ter os melhores e decidivos jogos das temporadas de todos os tempos, aquelas do final dos anos 80 e início dos 90, com duelos sensacionais a envolver os grandes times do Boston, Lakers, Chicago e Detroit.
 
fdsfds No decorrer dos próximos dias, exporei aqui algumas breves e singelas idéias do que tenho vistoa, para uma geração que, no futebol, falava de ouvir dizer, de ler e de ver videoclipes.
 
fdsfds Mais do que isso, consegui ainda conceder um histórico perdão familiar: recuperei os seis jogos do "Dream Team", o time norte-americano de basquete das Olímpiadas de Barcelona (1992) -- o melhor time em esporte coletivo de todos os tempos --, cujas partidas, em velhas fitas VHS, foram sucumbidas por sobrepostas gravações caseiras desautorizadas.
 
fdsfds Foi como ter o mapa da mina, numa ilha do tesouro.


fdsfds

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

# humor líquido


O ato de chorar pode ter variegadas raízes e múltiplas consequências.
Há o choro pela perda da mulher amada. Esse é o choro melancólico, o choro por não ter feito o que deveria fazer, por não ter sido o que deveria ser, por não ter dito o que deveria dizer, por não ter compreendido e por não ter correspondido -- ou, simplesmente, por ter sido trocado por outro, como se fôssemos uma blusa.
Há o choro sulfuroso, de ódio, que sai quente, amargo e rasgado, como co-expressão corporal da ira, e o choro falso, que tem na lágrima crocodiliana o fruto nauseabundo de alguma particular conveniência.
Tem o choro emotivo, singelo, quieto, que nasce de uma cena de filme ou da vida e que costuma passar num piscar de olhos, e o choro triste, mais forte, pesado e complexo, que só costuma cicatrizar com os muitos anos da vida, se não somente no nosso definitivo fechar de olhos.
Há o choro de dor, seja de dor doída ou de dor almada, sendo que este se mostra como quase uma sopa de todos os outros, podendo, inclusive, ser simplesmente uma fase anterior do angustiante desespero esgoelante. Dizem, até, que há o choro fisiológico, aquele que vem da cebola, da fumaça ou da pressão atmosférica e que a ciência médica consegue explicar.
E tem o choro de Pedro Oldoni ao final do jogo desta noite, contra o Vasco, que não se sabe até onde traduzia uma real frustração ou se revestia de conveniente dissimulação pelos dois gols estupidamente perdidos, que nos tiraram a vitória e que só Freud explica.


 

sábado, 13 de setembro de 2008

# a lânguida decadência do feijão-preto

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Há tempos tinha este sentimento, e hoje, atônito, percebo que realmente boiamos em uma temerária maré preconceituosa e movediça, ainda que jamais tenhamos nela mergulhado ou dela saído.
Talvez pior, não me refiro aos freqüentes casos de abjeta selvageria recíproca entre negros e brancos planeta adentro; na verdade, entretenho-me a uma questão, ainda que de somenos importância, de grande utilidade sentimental, à medida que, lastimoso, observo que um grande ícone nacional está a sumir das nossas panelas cotidianas: o feijão-preto.
Já poderia admitir a globalização ou mesmo a irretroativa busca por uma elitização na sociedade em múltiplas e infinitas áreas; porém, hoje, ao abrir a geladeira para pegar a marmita amanhecida e verificar que ele não lá estava, foi muito, foi demais.
“Todos cederam!”, cá pensei, num grito triste. Indaguei-me acerca do que mais (e melhor) poderia acompanhar tomates, arroz, bife e batatas. Na real, quase lacrimosos, os meus olhos doíam ao enxergar no fundo do marmitex aquelas sementes marrons (ou brancas, como insistem em chamar a gastronomia) a substituir as boas e velhas pretinhas.
Com pesar, tenho ouvido amiúde idéias orientadas à fidelização do feijão-preto, de modo único e exclusivo, à feijoada; afora ela, em nada mais ele será permitido. Desconfio, já cabisbaixo, que essa verdade agasalha-se de uma realidade fática, pois noto que a massa não percebe essa alteração. Logo, dentre tantos outros episódios, irrefreáveis, que nos assolam e nos maculam, salta aos olhos o descaso com o nosso escurinho.
A mundialização da vida e da economia abriu espaço para tudo e para todos, permite o consumo das mais exóticas e inúteis coisas, colabora com a progressiva pesquisa cientifica na descoberta dos mais variados cruzamentos genéticos, mas, jamais, poderia permitir ou impassibilizar-se diante do triunfar de carioquinhas, fradinhos, rosinhas, manteigas, jalos, rajadinhos e roxinhos em detrimento do nosso feijão-preto. Ainda mais quando trocado por um branco! E mais: nem mesmo o indeciso feijão-mulatinho pode invocar, ainda que via o malfadado sistema de quotas, seu ingresso, seja alternativo ou substitutivo!
Por um lado, é passivo de entendimento que a comodista e egoísta elite -- que pensa ser aristocrática -- pretenda trocar estas e outras coisas quilombeiras, que nos remetem às raízes, por algo mais europeu, mais branco, mais azul; mas, esquecemo-la: o burguês de feijão-preto é algo tão incompatível como a madame de samba.
Assim, resignado, acredito numa épica busca pelo regresso do pretinho à classe média. E mais, em defesa da não-desfiguração do prato nacional, proclamo, urgente: "proletários de todo o Brasil, uni-vos!".

 

domingo, 29 de maio de 2005

# os deuses não estão loucos (ou sobre a derrota de portugal para a grécia na final da eurocopa)


Aos arredores, já alertava para a principal arma grega: a filosofia de seu jogo.

Nada mais poderia surpreender a equipa lusíada senão a inteligência mitológica dos atletas rivais.

Não, mas isso não fora demonstrado.

Por outro lado, lá do banco exalava uma sapiência quase invulgar, não assente na criatividade, mas na racionalidade do selecionador inimigo, formado sob os princípios da escola futebolista mais pragmática do mundo, que é vencedora sem jamais encantar, que é perdedora sem jamais decepcionar, que é chata de se ver, de se enfrentar e, possivelmente, de se jogar.

Em suma, é sem sal, sem açúcar, sem amargura, sem azedume: sem sabor.

Por maior que seja a incredulidade, o onze alvi-celeste não se revestia de armaduras celestiais, asinhas nos pés e não dispunha nas costas nomes como Apolo, Poseidon, Baco ou Dionísio; muito menos, não demonstrava na relva raciocínios dignos de Sócrates, Platão, Tales ou Heródoto.
 
Na verdade, em campo, representavam apenas peças (im)pensantes de um bom estratagema orwelliano montado pelo pouco discreto selecionador, o qual dispunha, além dos seus ensinamentos, pensamentos, teorias e táticas aristotélicas, um outro referencial: a sua personalidade que, até então permanecia oculta, hoje já se conseguiu identificar, à medida que leu-se, por debaixo do seu agasalho, nas costas da sua camiseta, a inscrição: "Zeus".

Afinal, vamos, venhamos e convenhamos, se o Sr. Scolari é rei, o Sr. Otto é, agora, o deus – ou, por mais que o futebol não seja mais uma caixinha de surpresas, face ao intenso nivelamento (por baixo??) de equipes, como explicar a vitória grega face à tamanha disparidade técnica-individual havida em campo?

Porém, é pouco provável que esta hipótese sustente-se.

Assim, se tal justificativa não progredir, proponho e despejo a explicação nas inscrições estelares.
Sim, os astros a prever uma tragédia grega, em plena luz de um próprio estádio chamado “da Luz”, como resposta ao atrevido rompante de júbilo que mudara o comportamento do povo lusíada nas últimas semanas, como uma lição à petulância do povo d’além mar em querer viver com felicidade.

Que audácia!

Onde já se viu, assim, de repente, quererem ser felizes? Talvez até seja isso... porém, já se sabe que, para a vida grega, nada muda o clima eufórico já embalado pela revisão local dos seus jogos olímpicos e, para a vida lusitana, nada muda o clima eufórico já embalado pela alegria contagiante do fado e do seu povo.

Hoje, Portugal está triste como costuma estar – e a vitória do futebol chuchu não teve nenhuma culpa.
(publicado no jornal "A Bola" em agosto/2004)