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quinta-feira, 28 de maio de 2015

# sobre vícios e descontinuação

Note-se bem: a alternância não é propriamente um princípio fundante da democracia, como resultado, inevitável ou não, do funcionamento pleno do sistema democrático. 
Ou seja, a alternância de poder não se reveste como um atributo ou fundamento da democracia, mas, sim, trata-se de consequência quase natural do debate e da participação políticas em uma sociedade aberta.

Portanto, no seu limite, consiste (apenas) em um elemento integrante da "oposição" -- e para ela vital.

Entretanto, pode muito haver oposição sem alternância -- e sem poder --, quando a oposição é fraca ou mesmo quando o povo está satisfeito com a situação, expondo nas urnas a sua vontade cívica.

Nestes termos, portanto, a sociedade pode muito bem desejar manter seus representantes, fazendo cumprir a estrutura edificante da democracia: governo do povo, para o povo e eleito pelo povo.
 
Claro que também pode haver, em tese, uma pseudodemocracia, caracterizada tanto pelas trocas sucessivas no poder como pela não-alternância; em tal contexto, a tendência seria a própria desnaturação progressiva dos seus princípios conformadores e da sua convolação de democracia real em meramente formal.
Mas a nossa gloriosa Câmara de Deputados, honra lhe seja, não se demente para novamente fazer bobagem, com a aprovação do projeto de emenda constitucional que, de novo, acaba com a reeleição para os cargos executivos (presidente, governador e prefeito) -- v. aqui.
É evidente que seria demais pedir coerência, sapiência e boa vontade ética da nossa, coitada, "Casa do Povo".
Mas, neste debate entre querer ou não a reeleição, o que o bando de engravatados, com suas falas vazias e os bolsos cheios, sequer discute é justamente o contrário.
Haja vista que executar requer equipe, liderança, planejamento, estratégia, gestão, coordenação, competências etc., é natural que um Presidente, um Governador e um Prefeito precise do longo prazo e, para isso -- se assim desejada pelo povo --, de continuidade para o exercício dos seus planos e políticas.
Ou melhor, se comparado ao que fazem e à a função constitucional que desempenham, é muito mais natural que,  Deputados, Vereadores e Senadores sejam proibidos de se reelegerem, e não aqueles que detêm cargos no Executivo.

Ou vá dizer que o poder econômico, a "máquina" e sabe-se lá mais quantos argumentos, mais ou menos comprovados, também não estão intimamente ligados às eleições parlamentares?
Depois, ora, qual o grande prejuízo para a construção nacional (e estadual, e municipal) em se trocar parlamentares a cada mandato?
Qual seria a grande perda em se vetar a reeleição para o nosso Poder Legislativo?
O que de nós seria subtraído se, por exemplo, a Constituição passasse a permitir a reeleição parlamentar somente depois de dois ou três mandatos?
Pouca coisa, confesse-se.
Portanto, diferente do que nossos Deputados querem, o que poderia provocar mudança  seria liberar o Executivo e limitar o Legislativo -- isso, ao menos, seria uma atitude sensata e adequada em termos de espírito público e administrativo.
E uma oxigenação sadia, ou no mínimo experimental.
Afinal, em sua grande maioria, estes senhores e estas senhoras que há tanto tempo reinam pelas Câmaras e Assembleias não costumam carregar qualquer pedra filosofal dos destinos e anseios do povo -- embora, na verdade, até disponham desta magia alquímica, na medida em que têm a mania de transformar mandatos em ouro.  

Ainda, o que tantos e tantos Deputados e Senadores fazem e trazem de tão significativo à sociedade que lhes asseguram ficar 15 ou 20 anos no poder?
Não... é mais, muito mais do que este tempo.
Pois, bem sabemos, trata-se de um poder que se frutifica em filhos, netos e tantos outras linhas sucessórias capazes de garantir feudos da República a certas famílias e grupos por décadas e décadas a fio.
E que a lógica do capital, nestas regras do jogo e neste tipo de política que se faz, mostra-se impossível de combater.
Assim, o que temos é um faz-de-conta, uma brincadeira de se fazer democracia.
E uma gigante plateia que ou dorme arrombada, ou dorme frustrada.



quarta-feira, 18 de março de 2015

# sangue nas veias


E como um dos itens presente em nove de dez listas que se faz apresenta como agenda para a “reforma política”, o financiamento público de campanhas destaca-se com importância ímpar (v. aqui).

Por quê? Porque é crucial para que se mitigue a elitização das campanhas, a nobiliarquia nos cargos eletivos (e comissionados) e, claro, o toma lá - dá cá de quem está no poder com quem quer se beneficiar do poder.

E exemplos não nos faltam.

Qualquer campanha para deputado nos maiores Estados brasileiros não sai por menos de R$ 2 milhões; nos grandes centros, qualquer campanha para prefeito ou governador atinge R$ 5 milhões; para a presidência da República, os números causam inveja aos tios patinhas de plantão. Pior. Os dados mostram que os gastos de candidatos e partidos políticos com campanhas eleitorais saltaram de quase R$ 800 milhões nas eleições presidenciais de 2002 para R$ 4,6 bilhões em 2012, as últimas eleições municipais – um crescimento de 471%, que causa rubor em qualquer chinês (v. aqui e aqui).

Ora, o nosso Parlamento, com seus vereadores, deputados e senadores, salvo uma ou outra exceção, recheia-se de condes, viscondes, barões e marqueses, sempre pomposos e babacas,  sempre vistos enfeirados em seus "bons" ternos, enfeitados com seus "bons" vinhos e enfeitiçados com seus "bons" modos.

São os nobres do séc. XXI, que trazem das urnas o respaldo para dissimular o que trazem nos bolsos e naquele sangue com traços de azul e fel.

Não há pluralismo político-partidário que dê jeito, não há democracia que avance e nem república que funcione neste cenário construído para não dar certo.

Afora a questão nobiliárquica, nos meandros do poder a verba privada que entra numa campanha sai pela descarga, na forma de contratos, de aditivos, de repasses, de oscips ou, indiretamente, com as indicações políticas que apadrinham fulanos e cicranos para, depois de inseridos na máquina, funcionarem de modo bastante peculiar, servindo interesses umbilicais e proxenetas. 

É claro que apenas o financiamento público não vai mudar tudo, tão-pouco vai conseguir destituir grande parte do que se apresenta na política brasileira.

Porém, não há dúvida de que, ao menos na formalidade da lei, uns não serão mais iguais que outros.

 

quarta-feira, 11 de março de 2015

# mamon


O mal dos males da nossa política é o "financiamento privado" das campanhas eleitorais.

Isso precisa, urgentemente, acabar, ser enterrado, de modo que se possa realizar uma ideia mínima de democracia.

O Senador Roberto Requião apresentou um Projeto de Lei para pôr um fim nisso (v. aqui).

Não seria difícil imaginar que a ideia está trancada há muito tempo -- muito menos, porém, que o projeto de lei para colocar em prática o "imposto sobre grandes fortunas" já previsto constitucionalmente (v. aqui).

E eis, agora, que a vontade de enfim sepultar as doações de empresas -- que ao cabo exigem as clássicas "recompensas --, ganhou um grande aliado.

Ele, o Papa Francisco -- o papa mais politizado da história --, que acaba de enfatizar a gravidade deste história toda, que consolida a Política como um mero balcão de interesses privados, tornando as eleições mera fachadas de fins pré-negociados e historicamente sacramentados.

Abaixo, trecho da sua última entrevista (v. aqui, na íntegra):

 "¿Hay algo que quiera sugerirle a los gobernantes argentinos en un año de elecciones?
 Primero... (...) Segundo, (...) Y tercero es una de las cosas que tenemos que lograr, ojalá la podamos lograr – una campaña electoral de tipo gratuito, no financiada. Porque en las financiaciones de las campañas electorales entran muchos intereses que después te pasan factura. Entonces, hay que ser independientes de cualquiera que me pueda financiar una campaña electoral. Es un ideal, evidentemente, porque siempre hace falta dinero para los afiches, para la televisión. Pero en todo caso que la financiación sea pública. De este modo yo, ciudadano, sé que financio a este candidato con esta determinada cantidad de dinero. Que sea todo transparente y limpio".



segunda-feira, 27 de outubro de 2014

# a vitória


O modelo de um Brasil para todos novamente venceu -- e não era pouco o que estava em jogo.

A vitória, não só da militância partidária e apartidária, foi principalmente do cidadão humilde e solitário que não se curvou diante de todo o mefítico arsenal midiático que, diuturnamente, acampava-se no lado oposicionista.

E a democracia exige isso: que o governo seja do povo, para o povo e eleito pelo povo.

E a república democrática permite isso: que o poder não seja definido pela cor do sangue ou pelas cifras no banco.

Assim, para muito além da "união", a única certeza que advém desta eleição é a necessidade urgente de se pisar fundo no acelerador da democracia e da república.

Doa a quem tiver que doer.

E com o resultado deste hoje, a dor do ódio de classes -- ou seria de castas? -- aflorou como nunca.

Talvez como quase todos que desafiaram a ordem lógica eleitoral dos centros encastelados do país, na minha terra, Curitiba, também tive o sentimento de viver como um guetizado, tamanha a mensagem de inveterada e absoluta aversão que olhos alheios direcionavam a mim e às minhas vestes enquanto passava pelas ruas do meu feudo.

Afinal, não são por outros olhos que se destila a peçonha do discurso rasteiro e subterrâneo da falsa dignidade olímpica, trazido de algum auto da compadecida pelos homens bons que não hesitam em flertar com o golpe.

Tal discurso, como se ouvido às margens plácidas de outro Ipiranga, pretende-se portador do puro e imaculado sentido do bem, protótipo da excelência, fonte de toda a sabedoria e senhor absoluto do destino -- sim, a luta é contra o "mal", representado por uma estrela vermelha pela qual uma ralé malcheirosa que não sabe votar guia-se.

Este, pois, é o infeliz pensamento de boa parte dos eleitores que, desonrando os tributos legítimos -- ainda que evaporáveis -- de uma agenda tucana, são contrários à reeleição.

Incautos (ou hipócritas), insistem em falar num Brasil dividido, segregado e semienlutado, esquecendo-se que por quinhentos anos o nosso país foi isso, pelo torto caminho da direita e pela via vazia de direitos liquefeitos, de direitos mendigados e de não-direitos aos quais a ampla maioria do povo enveredava-se.

Ainda incautos (ou hipócritas), agarram-se num Brasil do Norte e Brasil do Sul, como se não enxergassem  -- algo que só a cegueira branca propicia -- que o PT conseguiu quase 45% dos votos das regiões Sul e Sudeste  e que, finalmente, cuidou-se do lado de cima da nossa geografia, onde a fome acabou, a miséria mingua e a economia cresce, desde 2004, mais de 4% ao ano (v. aqui).

Ainda mais incautos  (ou hipócritas), socorrem-se numa pretensa divisão entre ricos e pobres, quando o que há é uma flagrante divisão entre interesses de ricos e de pobres -- que, em muitos casos, desobedecem a lei natural --, conflito que caracteriza todo e qualquer Estado tão desigual e com um ranço tão profundo de servilismo e dominação cordial e cultural.

Ora, a ciência da Política não pode ser confundida com uma metafísica do bem e do mal, do vermelho e do azul, como se tratasse de dogma religioso ou de paixão clubística.

Afinal, o que Brasil escolheu neste domingo foi um entre os dois projetos políticos propostos (v. aqui e aqui).

E o programa vencedor deixa muito claro: quer mais soberania nacional, e não menos; quer mais Estado, e não menos; quer mais energia na política e na democracia, e não menos; quer mais igualdade, e não menos; quer ricos pagando mais tributos, e não menos; quer mais poder de compra, e não menos; quer mais redes de segurança social, e não menos; quer mais periferia e interior, e não menos; quer mais Norte e Nordeste, e não menos; quer mais economia solidária e oportunidades profissionais, e não menos.

Quer, assim, mais (e mais) mudanças, e não o (máximo) retrocesso a um plano estatal cruel que, em nome da ortodoxia neoliberal, quebrou a Europa, trincou os EUA e sempre colocou de joelhos os países em desenvolvimento.

Mas o Brasil também quer "diálogo", o que não significa concessões cegas ou o silêncio trêmulo, ambos dissonantes do espírito do povo que reelegeu o PT.

Pois quer radicais reformas federativa, política, fiscal e no sistema econômico.

Quer mais reformas agrária, na saúde e na educação.

Quer novas políticas de segurança, de mobilidade urbana, de esportes, de gestão pública e industrial.

Quer aperfeiçoar as políticas de proteção, inclusão e ascensão sociais, de habitação, de energia e de combate à pobreza e à corrupção.

E, para isso, precisa também "dar nome aos bois" -- e por isso a imperiosa necessidade de se criar um grande plano de comunicação institucional (v. aqui) --, deixando claro à população de quem e quais são as responsabilidades e as atribuições constitucionais de cada ente e como funciona um Estado e os seus três poderes -- sim, o Chefe do Executivo e a sua Administração não podem continuar reféns e culpados únicos das chantagens pernósticas do Congresso Nacional e tampouco do tecnicismo promíscuo do Judiciário.

Enfim, Dilma e o PT têm mais uma oportunidade -- como teve aqui... -- de reposicionar o país nos trilhos da democracia social, de continuar a construção de um país rico e sem miséria e de, finalmente, poder transformar a nossa terra e a nossa gente.

O Brasil, neste domingo, agradece ter ganho nas urnas outra chance para isso.


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

# arranjo final

 
A velha mídia, claro, não dá ponto sem nó.
 
E bem articulada com a oposição traz consequências explosivas.
 
Por isso, soa por demais estranho, a esta hora e neste dia, o resultado destas pesquisas -- até dessa aqui, cujo dono faz campanha tucana... --, estampado em letras garrafais nas capas e manchetes da tv, das rádios e dos jornalões.
 
Não acredito no tal descolamento, embora o processo de desconstrução da candidatura tucana seja algo muito fácil de se levar adiante.
 
Afinal, não foi por outro motivo que o PT preferiu, primeiro, "revelar" ao mundo o que era, o que defendia e o que (não) pensava a Sra. Marina Silva (v. aqui), pois já sabia que desbancar o PSDB seria algo menos complexo.
 
Ora, lembrando Marx, se "tudo que é sólido desmancha no ar", os tucanos se desmancham em pleno solo, em pleno confronto no rés-do-chão da política, tamanha a pobreza e a obsolescência das suas teses, teorias, planos, programas e ações mundo afora.
 
Portanto, não precisa ser nenhum gênio da propaganda, e nenhum Cícero da oratória, para mostrar na campanha e nos discursos a absoluta distância que separa, sob qualquer viés comparativo, o Brasil do PT e o Brasil do PSDB (v. aqui e aqui).
 
Mas, até agora, apesar disso tudo, grande parte da população ainda se ilude com o fetiche das passeatas de junho, compra a versão midiática que colou na testa do PT o selo exclusivo da corrupção (v. aqui e aqui) e quer... "mudança", ainda que o PSDB esteja a léguas de qualquer projeto real e verdadeiro de mudança, uma vez que representa o retrocesso para algo que já se conhece e já se sabe ser ruim -- se mudar é mesmo o verbo, então seria mudar para pior (v. aqui).
 
Logo, por todas estas circunstâncias, a disputa será voto a voto, urna a urna, bairro a bairro.
 
Nada disso de "deslocamento".
 
Por isso creio na absoluta mentira -- muito além de mero erro -- dos institutos de pesquisa, arranjada pela mídia e pela oposição para vencer, tudo bem orquestrado, pari passu, com a torpe repercussão da capa do panfleto da Abril.
 
A tese?
 
Criar um clima de "já ganhou" e motivar marineiros, marinheiros e indecisos a pensarem assim: "Ah.... a Dilma já ganhou mesmo... vou votar no Aécio...".
 
Com isso, ficariam com a consciência "limpa" e ainda obedeceriam ao "clamor-das-ruas" que pediram "mudança".

A ver.


 

terça-feira, 21 de outubro de 2014

# sem estereótipos

 
Ele é um playboy preguiçoso e bronzeado; ela, guerrilheira e grosseira.

Ele cheira e sua muito; ela não usa perfume e sua muito.

Ele bebe e usa celular ao volante; ela não sabe dirigir e não sabe conversar.

Ele não fez bafômetro; ela tem bafo.

Ele é machista e mulherengo; ela é feminista demais.

Ele é demagogo; ela, mal-humorada.

Ele se preocupa demais com o espelho; ela não usa espelho.

Ele com 25 anos pega um avião e vira diretor da Caixa no governo Sarney; ela com 23 anos pega em armas e coordena grupos rebeldes contra a ditadura.

Ele é um instrumento a serviço dos interesses privados; ela, um poste que interessa ao Lula.

Ele não gosta de grande parte do Brasil; ela gosta de muitos aliados que não gostam do Brasil.

Ele é seguido por Bolsonaro, Feliciano, Beto Richa, múmias paralíticas e celebridades de quinta; ela não vai à missa, não sabe falar e não segue ninguém nas redes sociais.

Ele desviou dinheiro da Saúde e considerou vacina para cavalo como gasto em saúde pública, quando Governador; ela aceitou privatizar portos e aeroportos e permitiu empréstimos a grandes oligopólios privados, quando Presidenta.

Ele empregou nove parentes no seu governo em Minas; ela ajudou a dar emprego para o irmão na Prefeitura de Belo Horizonte.

Ele promoveu a construção de dois aeroportos em áreas da família com dinheiro público; ela autorizou cargos em comissão para um bando de pulhas.

Bem, pouca coisa acima importa para escolher quem comandará o Brasil nos próximos quatro anos.

Afinal, não se pode falar de pessoas -- como se fosse a escolha de um amigo ou uma companheira -- e pouco se deve falar do comportamento delas, pois atire a primeira pedra quem nunca errou.

Na verdade, a questão está em outro nível de reflexão, muitíssimo maior e mais sério.

De um lado, o embolorado PSDB e o seu xoque de jestão, com a sacralização do "laissez-faire, laissez-passer", o desprezo às políticas sociais e a impávida rendição ao interesses privados em detrimento do interesse público, o que, dentre outras coisas, criou as agências reguladoras, causou o apagão elétrico no Brasil, causa o apagão de água na maior cidade da América Latina e autorizava o funcionamento de um país com os maiores juros do planeta.

E, do outro, o PT e a sua "opção preferencial pelos pobres", as políticas de inclusão social e a reconstrução moral de um país com a maior desigualdade do planeta, equilibrando capital e trabalho, estimulando as causas privadas e assegurando o interesse público e promovendo o desenvolvimento e a soberania nacionais.

Enfim, em jogo estão planos, programas e projetos de país absolutamente díspares e com setas opostas que apontam para o retrocesso e para o progresso do Brasil.

E é sobre isso, exclusivamente, que deve pesar a nossa escolha.

Mesmo sabendo que somos humanos, demasiadamente humanos.

 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

# a retórica e os mitos


Números e mais números bem podem resumir os governos do PT e do PSDB, como aqui e aqui se mostra e cujos estudos abaixo reproduzimos.

Números, entretanto, que não podem falar por si, pois a ciência em jogo não é uma ciência “positiva”, não é uma ciência “neutra” em relação aos fins, não é uma ciência "apolítica”. Afinal, esta ciência, muitas vezes adornada com elegantes e sedutoras construções matemáticas -- para dar um ar de ciência “séria” e “infalível”, ignorando ou não querendo assumir que a matemática não é uma ciência, mas uma lógica --, mostra-se muitas vezes um “deserto de pedras”, onde não há lugar para os homens de carne e osso, como ensinou o Prof. Avelãs Nunes no prefácio desta obra aqui.

Por isso, para muito além dos números, é todo o manancial da economia politica que melhor diferencia a gestão e as políticas do PT e do PSDB.

Mesmo assim, entretanto -- e já pela enésima vez --, dando ouvidos aos pragmáticos, vamos aos números, os quais desmentem toda a desfaçatez que rodeia o discurso tucano, criando lendas que, pelas vozes midiáticas, transformam-se em verdades.

Entre 1995 e 2002 -- com FHC (PSDB) no governo --, a "renda domiciliar" per capita caiu, segundo  dados do IBGE (Pnad), fulminando a tese tucana de que, por meio da privatização de estatais, da desregulamentação do mercado de trabalho e da liberalização comercial e financeira se ampliaria o papel do mercado e da competição para então selecionar os melhores e punir preguiçosos, prometendo crescimento.

Pelo contrário, a partir de 2003 -- com os governos de Lula e Dilma (PT) --, a "renda domiciliar"  aumentou mais de 50%, com a recuperação do papel do Estado, conforme o próprio IGBE aponta.

Depois, a "desigualdade", com base no Coeficiente de Gini, enquanto se manteve inalterada com o FHC, caiu 10% com Lula e Dilma diante da valorização do salário mínimo, da defesa e formalização do emprego e ampliação do gasto social

Na "educação", o PSDB vetou o 1º Plano Nacional de Educação (PNE), que determinava investimentos de 7% do PIB até 2010, deixou o País sem meta de financiamento e concluiu mandato com 3,5% do PIB; em 2014, Dilma aplica 6,4% do PIB em educação e sanciona o 2º PNE com destino de 10% do PIB até 2024. Ainda neste tema, Lula e Dilma promoveram a significativa ampliação das transferências de renda condicionadas à matrícula escolar, além de bolsas e crédito subsidiado para ensino técnico e universitário e a criação de 18 novas universidades federais -- contra zero com FHC -- e 178 novos centros universitários. Com isso, as matrículas no ensino superior elevaram-se de 2 milhões (2002) para 7,5 milhões (2014), complementados por 8 milhões de alunos no Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec).

A respeito da "dívida pública", essa explodiu no governo FHC -- e não pela assunção de dívidas passadas não contabilizadas, mas, sim, pelos juros mais altos do planeta e títulos indexados em dólar para evitar a crise da âncora cambial, naquela conhecida artimanha antes da reeleição tucana, em 1998. Assim, entre 1995 e 2002, a correção cambial e os juros altos contribuem com mais do que cinco vezes o valor da dívida... e que só não aumentou mais por causa das privatizações e do superávit primário, pedras angulares da gestão do PSDB.

Sobre "inflação", o PSDB conseguiu reduzir a inflação a menos de 2%  a.m. em 1998, às custas de juros bizarros e muito arrocho para o trabalhador; mesmo assim não conseguiu mantê-la nesse nível e, no fim do governo inflação chegou aos 12%, quase o dobro dos 6,5% que temos hoje com Dilma, que a manteve sempre dentro das metas, mesmo aumentando os salários e garantindo mais direitos aos trabalhadores.
 
Em relação ao "desemprego", Dilma, em 4 anos, criou mais postos de trabalho do que FHC em 8: uma média de 1,8 milhões ao ano, contra 620 mil na era tucana. O Brasil de Dilma tem as menores taxas de desemprego da sua história: 5,4% em 2013, contra 12,2% no fim do governo do PSDB. E isso enfurece os donos do capital, pois desemprego baixo aumenta o poder de barganha do trabalhador, que não se sujeita a qualquer trabalho e por qualquer valor.
 
Quanto ao "salário mínimo", as diferenças são vexatórias: no fim do governo do PSDB (2002), o mínimo era de R$ 200, o equivalente a 1,4 cesta básica; hoje, é de R$724, o que permite comprar 2,2 cestas básicas. Ou seja, 65% a mais do poder de compra do trabalhador. Em dólar, o contraste é constrangedor: com os tucanos, em 2002, o salário mínimo valia 86 dólares, com Dilma, em 2014, vale 305 dólares.
 
No tocante aos "juros", cuja política tanto impacta o bem-estar financeiro do trabalhador e tanto contribui para os negócios, vê-se claramente o que move cada uma das gestões. No tempo do PSDB, a política de juros exorbitantes -- os maiores do planeta -- era o paraíso para o grande capital vadio e baldio: a taxa foi de 45% ao mês no fim do governo. E quem era o Chefe das Finanças na época? Armínio Fraga, o responsável pela elaboração do programa econômico de Aécio e candidato oficial a futuro Ministro da Fazenda. Já nos governos do PT a ciranda foi outra. E  Dilma mudou as regras da poupança e usou os bancos públicos para baixar muito os juros e pressionar os privados a seguirem, chegando em 2% ao mês e, hoje, em 11% ao ano, o que ainda é ruim.
 
E agora mais uma sopa de números, cujas fontes estão aqui e aqui:
 
- Produto Interno Bruto => R$ 1,48 trilhões (2002) e R$ 4,84 trilhões (2013)
- PIB per capita => R$ 7,6 mil (2002) e R$ 24,1 mil (2013)
- Investimento Estrangeiro Direto (em dólares) => 16,6 bilhões (2002) e 64 bilhões (2013)
- Reservas Internacionais (em dólares) => 37 bilhões (2002) e 375 bilhões (2014)
- Gastos Públicos em Saúde => R$ 28 bilhões (2002) e R$ 106 bilhões (2013)
- Valor de Mercado da Petrobras => R$ 15,5 bilhões (2002) e R$ 104,9 bilhões (2014)
- Lucro médio da Petrobras => R$ 4,2 bilhões/ano (PSDB) e R$ 25,6 bilhões/ano (PT)
- Capacidade Energética => 74.800 MW (2001) e 122.900 MW (2013)
- Falências Requeridas (em média/ano) => 25.587 (PSDB) e 5.795 (PT)

São, pois, números...

Que não podem -- e nem devem -- dizer tudo, mas algo dizem.

# grã-fino das narinas de cadáver


 
Às duras penas, Dilma continua participando dos debates.
 
O dom da oratória, ou a mínima aptidão para ser bem treinada no enfrentamento do público e das câmeras, fica sempre claro que a Presidenta da República não tem.
 
Mas isso até se aceita, pois a embalagem não pode ser maior e melhor que o conteúdo -- embora, gize-se, o discurso sempre ajude a vender melhor as ideias, como já fez aqui.
 
Entretanto, o que causa real repulsa é a postura demagógica, desfaçada, dissimulada, histriônica e vazia do candidato Aécio Neves, bem típica daquelas da grã-fina das narinas de cadáver (v. aqui).
 
Aécio, com toda a sua verve purpurinada, desenvolve uma apresentação perversa, rasteira, traiçoeira e reticente, que se funda na aparência para esconder as vontades mais genuínas em jogo.
 
A cada fala, a cada intervenção, a cada olhar, o sujeito abre os braços, simula a revolta, abusa das frases feitas e insiste com um festival de mesmices sem qualquer conteúdo -- tal qual aqui.

Ora, como disse Dilma no debate, Aécio "viu o galo cantar mas não sabe onde...", o que deve justificar o fato de o PT ter vencido, em Minas Gerais, para Presidente e para Governador.
 
Afinal, retire-se o falacioso e gasoso mote da "corrupção" -- e do xoque de jestão, e da "meritocracia" etc. --  e se estanque o bilionário gasto em propaganda estatal, e notem, caros leitores, se subsistirá algo na plataforma política do PSDB.
 
Ou, melhor, se subsistirá algo do Estado brasileiro, pois o fim é sobrar pouca coisa, como já advertiu o candidato a futuro Ministro da Fazenda de Aécio (v. aqui).
 
Enfim, ao olhar o jeito tucano, e do seu representante, em se apresentar, nele enxergo toda a massa bem-cheirosa que abusa da hipocrisia, da maquiagem, da pomposidade, da demagogia, dos gestos teatrais e da para defender os seus interesses.
 
É do jogo, diz-se -- e concordo.
 
Mas enoja, pois nele vejo o que vi na Av. Atlântica neste domingo de manhã: um bando de brancos coxinhas com grifes, blushes, flashs, cruzes e lapelas das forças armadas exaltando palavras de ordem em prol do candidato udenista, digo, tucano.
 
Tal qual veria nos bairros bem-cheirosos de Curitiba, de São Paulo, de Salvador...



 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

# no bico do corvo


Falar em medo é estranho.

Pode-se ter medo de bicho, de bicho-gente, de lugar, de não-lugar ou de qualquer coisa que existe, que se conhece ou ainda que só se ouviu falar, ainda que nesse caso se torne um medo prévio -- eu, por exemplo, tenho medo de tamanduá, depois dos relatos experimentais de uma amiga bióloga, e de ir passar um verão na Faixa de Gaza, pois dela há notícias pouco alvissareiras.

Depois, pode-se ter medo do que não existe, do que não se conhece ou do que só se ouve falar no mundo da ficção ou da religião -- é o medo da morte, de fantasma ou da Cuca.

Na política, até 2002 tinha-se medo do PT.

Era puro preconceito, sacanagem bruta, pois ninguém podia dizer o que viria a ser um governo do Partido dos Trabalhadores.

Afinal, nunca antes neste país um partido de centro-esquerda assumira as rédeas da nação. E, ainda, tinha Lula lá, a insistir em debutar na chefia de um Executivo.

À época, uma atriz aparecia na tv e no rádio para dizer: "tenho medo".

Em vão, indo fundo na tese, a direita provocava um dos mais primitivos instintos humanos para tentar, sob um preconceito atroz, não perder as eleições.

Ora, com ter medo de algo que nunca houve, que nunca se viu e que nunca se ouviu falar? E como ter medo de algo não-metafísico, ou seja, de algo que pode ser objeto de prova -- no caso uma "não-prova"?

O funesto episódio passou. E Lula venceu.

Com ele, o fim do modelo neoliberal, do Estado mínimo e do Brasil sem políticas sociais, sem desenvolvimento e sem soberania. E o início de um Brasil para todos.

Hoje, doze anos depois, a tese do medo volta, conforme aqui predizemos.

Mas é outro medo.

Repagina-se no medo do bicho tucano.

Sabe-se quem é, sabe-se o que fez, sabe-se o que fará e sabe-se quem e o quê defende, pois faz questão -- honra lhe seja -- de não esconder o bico (v. aquiaqui, aqui, aqui, aqui e aqui).

Não por acaso, nunca os candidatos tucanos, pós-Lula, quiseram debater para comparar as gestões do PT e do PSDB.

Eles fogem dessa discussão, simplesmente, com o argumento infantil de não querer olhar o passado, como se pudessem desprezar aquela tese quase bíblica: "diga-me o que tu fizeste que te direi quem és".

Logo, neste momento o "medo" é real, lógico e imediato.

Afinal, já bem conhecemos o que estamos a ver, a ouvir e a sentir.

E num agouro que antes só os corvos apresentavam.


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

# primeiro ou segundo turno


E a nossa Gandhi de saia já era.
 
Sim, passou a onda e o blá-blá-blá dos últimos trinta dias -- sem sentido, turvo e desconexo da realidade -- promovido pela "Madre Teresa da Amazônia" virou um nada, recolhendo-se ao imenso oceano da medíocre insignificância política.
 
Hoje, Marina tem tantas chances de ir ao 2º turno quanto o energúmeno Levy Fidelix -- até nome de personagem de gibi o sujeito tem... --, ou seja, nenhuma.
 
E, surpreendentemente, quem ressuscita dos mortos é a candidatura tucana e a sua plataforma de xoque de jestão para "arrendar o Brasil", algo que se imaginava engavetado e trancado para sempre no passado triste da nossa história, o que mostra a aptidão de parte da população ao sadomasoquismo.
 
Porém, ainda que o zumbi Aécio e o projeto neoliberal flertem com o renascimento, o fim de Marina torna muito grande a chance de uma vitória de Dilma no 1º turno.
 
E isso é ótimo para o Estado brasileiro, pois já a partir de segunda-feira se poderia reiniciar um renovado governo com o novo mandato.
 
Novos ministros, novas equipes política e técnica, novas pautas, novas ações e o mesmo norte: "País rico é país sem miséria".

Mas, ainda que não seja no 1º turno, a eleição certamente se dará no 2º, haja vista a absoluta distância, em todos os sentidos, para as demais candidaturas. 

E aí a reempossada Presidenta precisará arregalar os olhos e fazer um tête-à-tête com o espelho, narcisisticamente às avessas.
 
Já se disse aqui (e aqui, e aqui, e aqui) sobre a necessidade premente de que, agora ou nunca, Dilma Rousseff precisa reforçar o seu nome na História, já não apenas como a brava militante que nos anos 60 enfrentou heroicamente os milicos e os seus canhões, mas como uma grande Chefe da nossa República.

Dilma precisa, a exemplo do que faz Fernando Haddad na prefeitura de São Paulo,  promover um governo cuja gestão não tenha outros fins senão a transformação do país, ainda que para isso o custo político, e de enfrentar os donos do poder, seja bastante elevado, quase num limite do temerário.

Precisa compreender todos os recados das ruas e dos votos protestantes para energizar e intensificar a democracia, trazer a população para o centro das decisões, abusando da participação direta com referendos, plebiscitos e audiências públicas concretas, de modo a vitalizar o povo brasileiro, como tão bem ensinam Boaventura Santos e Mangabeira Unger.

Precisa recompor o velejar e recriar instituições, comprometendo-se em aprofundar questões chaves do nosso Estado: revoluções agrária, na mobilidade e moradia urbanas, na regulação da mídia, nas agências reguladoras, nas políticas fiscal e industrial, nas políticas de acesso à renda e às oportunidades, na segurança pública, na saúde e, claro, na educação média e fundamental.

Precisa, definitivamente, parar de dançar com o diabo, em alianças cuja inevitabilidade já tem um preço com custos perigosamente irrecuperáveis.

Precisa fazer do PT, e das políticas e lutas históricas do partido, o núcleo capital da navegação, convocando os quadros técnica e politicamente comprometidos com o projeto do Governo e, pois, mitigando ao máximo a influência nefasta daquela gente fruto de coligações e apoios sem pé e muito menos cabeça.

Precisa dizer que a garantia é ela, que a vitória é deles e, ainda que muito doa, que a banda passará a tocar de outro jeito, demonstrando à população, claramente, de que lado o Congresso Nacional passará a estar -- e, para isso, a urgente necessidade de se adonar da própria voz (v. aqui).

Precisa perceber o fim de um ciclo e que a hora é de avançar para "mudar mais".

Precisa, enfim, reguiar o leme à esquerda.

Avante, Dilma!


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

# aspas (xliii)


Boaventura de Souza Santos -- cientista social de escol, professor catedrático da Universidade de Coimbra e coordenador do "Projeto Alice" (v. aqui) --, a respeito da candidatura da Gandhi de saias, a nossa Madre Marina da Amazônia (v. aqui):


Marina Silva é um 'instrumento' da direita brasileira, que entendeu ser muito difícil voltar ao poder diretamente por meio de uma disputa ideológica entre Dilma Rousseff e Aécio Neves.
A direita descobriu, muito rapidamente, que Aécio Neves não é de forma nenhuma uma alternativa, porque faria uma disputa ideológica entre esquerda e direita.
As forças que sempre governaram o Brasil viram que era mais fácil chegar ao poder sem fazer essa disputa ideológica, utilizando uma terceira pessoa, que combina em sua ambiguidade alguns elementos de esquerda, não pelo que diz hoje, mas pelo que foi.
Tem que usar um desvio e o desvio necessário é buscar alguém que tem um perfil de esquerda para depois instrumentalizá-la. Marina Silva é, neste momento, esse instrumento. É, portanto, um desvio a que a direita é forçada para conquistar o poder.
Para nós, que viemos da Europa, basta quando vem aquela frase mágica da independência do Banco Central... É a grande marca do modelo neoliberal.
Tive o cuidado de ver o programa da Marina Silva e, obviamente, uma das coisas que diz o programa de política externa é, no fundo, voltar ao tradicional alinhamento do Brasil com os Estados Unidos.  
É só saber ler seu programa. As perspectivas são as políticas neoliberais.
Penso que essa fulguração de Marina atingiu seu máximo. As pessoas começam a ver os riscos por trás de uma política nova que, afinal, é bastante velha; a ver a fragilidade da Marina com as oscilações perante aqueles que controlam sua campanha e que lhe dão apoio.
Continua a haver uma esperança de que, no segundo mandato, a presidente Dilma vá fazer o que se espera de um governo do PT.
Ao passo que da Marina Silva, francamente, não há nada a esperar. 


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

# alegorias e sátiras


Pela sopa de coligações, regimentos, alianças e conchavos que conformam a política de hoje, nunca mais o Brasil verá grandes debates, opondo ideias e propostas individualmente claras com dezenas de grandes partidos e as suas máximas e sérias lideranças.
 
Por isso, doravante os debates sempre serão o que se viu ontem: voláteis, vulgares e vazios.
 
Mas, mesmo assim, alguma análise se pode fazer  e v. aqui um bom resumo.
 
A primeira, é da absoluta necessidade de volte-e-meia se ver esta gente que radicaliza. Mas não radicais preconceituosos, reacionários e bandidos, que usam da posição parlamentar ou cívica para blasfemar contra pobres, negros, homossexuais etc., e nem os "radicais de conveniência", que falam apenas para tentar soarem bem, ficando claro que não acreditam numa só gota do que dizem. 

Falo, pois, dos radicais utópicos, heréticos e malditos que gritam contra o pensamento único político, econômico, cultural e moral, como ontem figuraram Luciana Genro (PSOL) e, ainda que de forma meio histriônica, Eduardo Jorge (PV). Eles, se não servem para nada sob o ponto de vista da praxis política, servem ao menos para lembrar que nestes delírios e nessas mais descabeladas fantasias é que reside o "ser" humano.
 
Depois, mais uma confirmação de que o PSDB acabou (v. aqui). 

É claro que o cansado candidato até tentou – e se esforçou, com uma clara evolução pessoal na arte de (tentar) se comunicar –, o problema é que o discurso e a prática da banda demo-tucana realmente faliu, silenciada e soterrada pela história que a revelou como a última grande vendilhona do templo. 

Agora, portanto, só resta saber se o tal Pastor Everaldo ultrapassará Aécio Neves no dia 5 de outubro.
 
Por fim, sobre as duas candidatas que lideram as intenções de voto, duas conclusões.
 
A primeira é a de que a presidenta Dilma realmente não consegue dizer o que pensa, o que faz e o que fará. É, claro, quase um defeito congênito; logo, não tem como se transformar numa brilhante oradora ou transmutar-se para adquirir a verve dos grandes políticos de palanque. 

Corrigiu muita coisa e evoluiu bem, mas Dilma seria imbatível se conseguisse falar, com clareza e fluidez, tudo o que sabe, tudo o que tem feito e tudo o que continuará a fazer no comando e na gestão pública do Brasil. Uma pena, pois, para a pauta progressista em jogo – e para a campanha, que ainda tenta absorver parte dos brancos e indecisos.
 
A segunda, é de que a candidata Marina é mesmo um anjo que caiu dos céus nos braços da direita (v. aqui). 
 
E um anjo inclusive no sentido espiritual, afinal, tem o dom da ubiquidade, de reunir em cada gesto e em cada fala a virtude da comunhão plena, de congraçar tudo e todos num mesmo pote sagrado para alçar-se como a divina providência que salvará o povo brasileiro. 
 
Sim, meus caros, Marina, a nossa Ghandi amazônica, é o protótipo da imaculada política, uma espécie de anti-Maquiavel.

Marina é a "princesa" que toda a massa apolítica tanto e sempre ansiava. 

E que os conservadores, ilustrados pela grande e velha mídia, como nunca esperavam.

 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

# a aranha e a tábua de salvação


Dantes uma mera eco-fundamentalista neandertal, eis que a grande mídia (e a classe média) redescobre Marina Silva e faz dela a evolução da espécie política para recarimbá-la como a “queridinha do Brasil”.

Mas, convenhamos, não há nenhuma surpresa nesse fato: há quatro anos a estratégia foi a mesma e, há oito, até em Heloísa Helena a onda midiática depositou certas esperanças de conter Dilma e Lula.

O que não se esperava, porém, é a mesma tática com a mesma pessoa (v. aqui).

Hoje, com a morte da plataforma Eduardo Campos e seus pífios 8%, a coisa transmuda e novamente vem esverdeada, com um sorriso franciscano e com ares de mico-leão-dourado.

Se antes Marina saiu do PT (e do Governo) para não entrar na história, agora os ventos parecem soprar com mais força e carregá-la junto sabe-se bem para onde.

Ainda raivosa pelo fato de Lula ter preterido-a em relação à Dilma como candidata presidencial de 2010, Marina entregou-se ao ardiloso e insistente assédio do afoito Campos, pois nele enxergou a oportunidade de ressurgir do nada, ressair do ostracismo e resplandecer para os holofotes platinados e midiáticos globais. 

Sabe-se, claro, que no Brasil os verdes nunca federam e nem cheiraram o orgânico sabor de um partido ideológico e independente. 

Aproveitando-se disso, Marina debandou para tentar ficar mais moderninha e livre para criar um novo partido, uma tal de REDE que até hoje não saiu do papel e não enredou ninguém.

Logo, o real foco, agora, é outro, e nada sócio-filosófico-ideológico-antropológico-ecológico... 

E ela passou a ser bastante (e convenientemente) pragmática, com a sua filiação à uma ensopada legenda (PSB) e com um discurso ubíquo e umbilicalmente ligado a tudo e a todos. 

Em suma, se na lente da Globo a candidata Marina condena o pragmatismo do PT, fora dela faz o mesmo, travestido de "alternativa".

Ora, nestes nossos tempos, os ex-verdes olorizam-se pelo aroma prosecco das cheias taças que desfilam sobre as mesas enfeitadas da malta pequeno-burguesa, sob o arrepio de se fazer um "nova política"  é, segundo eles, a lógica da darwinização.

E desta cepa, como indefectível fruto, brota Marina Silva.

Marina, a reboque da grande mídia, que por sua vez é porta-voz dos grandes interesses econômico-financeiros e da ignorância da classe média, tem uma meta: matar a gestão Lula e Dilma, usando como arma a comoção geral em face do episódio trágico, a atmosfera de pena e de velas transmitida a toda hora sob um ar de "recado divino". 

Marina, coitada, antes defensora de índios, boitatá e pirarucus e da política evangelista – e não da evangelização na política –, torna-se agora a última esperança de um 2º turno e a última bala de prata da oposição retrógrada. E, assim, torna-se a heroína defensora das políticas mais atrasadas e mais reacionárias do mundo político.

Marina, com o mote de sair-se bem aos olhos do povo, nega o desenvolvimento e nega a política, pretendendo que se despolitize a Política (v. aqui). E, assim, cai no gosto populesco com as teses do mundo privado, privatista e não-governamental.

Marina não tem senso administrativo, não tem noção de gestão pública e não tem governança alguma, e por isso - sim, por isso! - foi catapultada como a grande herdeira de um espólio ainda bastante raso. E, assim, acalanta os interesses de quem quer ver uma marionete no comando do Estado.

Marina, ainda, com esta cantilena da "terceira via", veste um capuz mágico para iludir que há outro caminho além da direita ou da esquerda

Ora, ora... se não vou para lá e nem para cá – ainda que mais ou menos próximo das extremas e do centro –, fico no meio e, então, passo a ser um conservador. E é desse jogo que as famiglias nacionais gostam, e dos seus resultados são dependentes. E é este clima que os revoltosos nacionais curtem, e do seu chorume é que se fartam (v. aqui).

Marina, meus caros, embora com um passado que não o faça ser de direita e com algumas convicções do presente que não a façam estar à direita, é apenas mais uma destas figuras que se tornaram da direita (v. aqui).

Diante da atual conjuntura nacional que não engole mais o papo da turma demo-tucana e que já prepara o seu funeral – salvo, ainda, no Estado de São Paulo –, Marina traveste-se como a exótica musa capaz de convencer alienados e descolados de que o projeto petista não pode mais seguir em frente.

E, assim, nela se vê a única (e última) esperança de derrotar Dilma que, de chapeuzinho do MST e vestida de vermelho, finalmente dançará a sua dança para, neste seu próximo mandato, propor um governo sem o diabo (v. aqui).

Sim, apenas a ex-chapeuzinho verde será agora capaz de levar os interesses conservadores para um 2º turno, momento em que se tentará, a todo custo, promover a reviravolta eleitoral e insistir com a "ordem" em um país que precisa retomar o progresso (v. aqui).

E, por isso, desconfia-se até que a tosca candidatura de Aécio Neves seja abandonada e que a banda tucana e todo o turbilhão da grande mídia pule de cabeça na débil teia da "Viúva Branca", uma espécie rara, inapta para atacar e incapaz de armar e sustentar a sua própria estrutura, agindo apenas por meio de um blá-blá-blá turvo, volúvel e vazio, bem a gosto das co-espécies verdadeiramente venenosas

O jogo, assim, está com essa gente toda que, não tendo a mínima coragem de votar no ideal retrógrado e vendilhão do PSDB – e de admitir, pelas vias diretas, a volta do mercado na condução do Estado – e tendo máximo hor-ror aos acertos e erros do PT – e de reconhecer, nas urnas, os progressistas governos que Lula e Dilma fizeram –, preferirá sair do “nulo”, do “branco” ou da “abstenção” para cair no conto da vigária.

Enfim, nesta fúnebre alquimia que está a criar uma candidata sobre-humana, finalmente há um certo risco de Dilma não ser eleita, para júbilo da oposição.

E para agonia do Brasil.