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segunda-feira, 16 de março de 2015

# pede cachimbo



Sobre o que o se viu neste domingo, apenas mais do menos.

Mas não me refiro às pautas, à (o)posição ou aos seus interesses, pois isso é do jogo -- falo, pois, da parcela que legítima e democraticamente protesta contra o PT e o governo (ou, contra as "políticas" atuais, como aqui).

Ocorre que a outra parcela da população, aquela do "golpe" ou do "impítiman" -- nas ruas menos de 3% dos votos que a direita teve no 2º turno, ainda que se acredite nas mentiras quantitativas convenientemente infladas por uma mídia abjeta --, a cada ato que promove rebaixa-se aos mais sórdidos e inimagináveis níveis, o que a torna até caricatural.

Embora, confesso, vendo na manhã de ontem aquela marcha de zumbis em verde e amarelo, lobotomizados em suas falas e trejeitos sob uma onda paralela que surge das profundezas e desemboca noutra dimensão, tenha sentido um misto de pena e paúra da nossa espécie.

O alimento desta gente? Um coquetel em que se destaca o ódio homeopaticamente dosado pela grande mídia e engolido pelo umbigo.

Fico, assim com a ideia de Joseph Pulitzer, cujo nome dá título ao maior prêmio do jornalismo mundial e que muito bem ilustra quem publica e o seu público:

"Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma".




sexta-feira, 13 de março de 2015

# vermelho


 
Centrais sindicais, MST e boa parte da sociedade brasileira estarão nas ruas hoje, 13 de março, não para apoiar o Governo em suas tantas falhas.
 
Tão-pouco para se servir como piada (e golpismo) atrás de um esquizofrênico pedido de "impeachment".
 
Estaremos, sim, para uma defesa da democracia (e do resultado das eleições diretas), da soberania (e da petrobras e do pré-sal) e de políticas sociais (e de um progressista governo de esquerda).

Ou, em suma, para dizer algo bem simples, como sintetizou o presidente da CUT (v. aqui):

"Vamos às ruas no dia 13 para deixar claro que a pauta que venceu as eleições é a que tem de ser implementada. Quem quiser implementar uma pauta conservadora, que espere 2018 e tente vencer as eleições.”



 

quarta-feira, 11 de março de 2015

# mamon


O mal dos males da nossa política é o "financiamento privado" das campanhas eleitorais.

Isso precisa, urgentemente, acabar, ser enterrado, de modo que se possa realizar uma ideia mínima de democracia.

O Senador Roberto Requião apresentou um Projeto de Lei para pôr um fim nisso (v. aqui).

Não seria difícil imaginar que a ideia está trancada há muito tempo -- muito menos, porém, que o projeto de lei para colocar em prática o "imposto sobre grandes fortunas" já previsto constitucionalmente (v. aqui).

E eis, agora, que a vontade de enfim sepultar as doações de empresas -- que ao cabo exigem as clássicas "recompensas --, ganhou um grande aliado.

Ele, o Papa Francisco -- o papa mais politizado da história --, que acaba de enfatizar a gravidade deste história toda, que consolida a Política como um mero balcão de interesses privados, tornando as eleições mera fachadas de fins pré-negociados e historicamente sacramentados.

Abaixo, trecho da sua última entrevista (v. aqui, na íntegra):

 "¿Hay algo que quiera sugerirle a los gobernantes argentinos en un año de elecciones?
 Primero... (...) Segundo, (...) Y tercero es una de las cosas que tenemos que lograr, ojalá la podamos lograr – una campaña electoral de tipo gratuito, no financiada. Porque en las financiaciones de las campañas electorales entran muchos intereses que después te pasan factura. Entonces, hay que ser independientes de cualquiera que me pueda financiar una campaña electoral. Es un ideal, evidentemente, porque siempre hace falta dinero para los afiches, para la televisión. Pero en todo caso que la financiación sea pública. De este modo yo, ciudadano, sé que financio a este candidato con esta determinada cantidad de dinero. Que sea todo transparente y limpio".



terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

# aspas (xlvi)

 
 
Do maior jurista brasileiro vivo, Celso Antônio Bandeira de Mello, sobre a comumente péssima relação entre a esquerda e o Direito -- e, pois, entre a Política de um governo de esquerda e o conservadorismo do Judiciário -- e o papel da "grande mídia" (v. aqui, na íntegra):
 
  “Tanto a esquerda não dá muita importância ao Direito que o Supremo (de hoje) praticamente foi composto, em boa parte, por governos do PT. E, no entanto, como é que o Supremo se comportou no chamado mensalão? Condenou, não apenas o Genoino, mas o Dirceu de uma maneira absurda. (...) Acho que esse clima alucinado já passou [sobre o impeachment...]Eu tenho dito e repito: no Brasil não há liberdade de imprensa, há meia dúzia de famílias, se tanto, que controlam os meios de comunicação. As pessoas costumam ingenuamente imaginar que esses meios de comunicação têm por finalidade informar as pessoas. Não têm, são empresas, elas têm por finalidade ganhar dinheiro. Portanto, têm que agradar aqueles que os sustentam. E quem são? Os anunciantes. Nunca vão ter isenção. Pelo menos não num país como o nosso. Em países desenvolvidos têm muitas fontes de informação, o cidadão lê livros, vai ao teatro, ao cinema, ele se ilustra. Em país subdesenvolvido, não existe essa ilustração. Então, o que está escrito nesses meios de comunicação entra como faca na manteiga na cabeça da classe média alta, que é muito influente. O povão não liga, mas a classe média alta liga. E quando é muito insistente, vai se generalizando até para o povo. A eleição (de 2014) foi apertada, por isso estão usando esses expedientes. Se tivesse sido uma vitória esmagadora como a do Lula, não iam se atrever."
 
 
 
 

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

# aspas (xlv)



No final de outubro, no Vaticano, ocorreu o "Encontro Mundial dos Movimentos Populares", presidido pelo Papa Francisco e com a presença dos representantes dos maiores movimentos sociais do planeta.


Do Sumo Sacerdote já falamos muito -- aqui, aqui, aqui e aqui, por exemplo --, mas nunca será demais.

A cada ato, a cada discurso, a cada gesto, a cada manifestação e a cada decisão como representante máximo da Igreja Católica ou como Chefe de Estado, Papa Francisco diviniza a nossa espécie, orgulhando-nos.

No seu discurso neste Encontro, centrou-se em três palavras: "terra, teto e trabalho".

E não titubeou em criticar o capitalismo, o neoliberalismo e a sociedade de consumo, bem como não se furtou a defender a economia solidária, as políticas públicas, populares e populistas e a reforma agrária (como inclusive aqui já o fizera, ano passado, novamente na presença do líder do MST).

Enfim, Papa Francisco não quer dourar a pílula, não quer manter aparências, não quer ser peça decorativa de uma civilização e não quer figurar como nota de rodapé da história -- afinal, quer seguir à risca o conselho que deixou aos jovens na última Jornada Mundial da Juventude: "Sejam revolucionários!".

Abaixo, trechos do que disse o magnífico Francisco.

Palavras, pois, a serem talhadas em muros mundo afora (aqui, na íntegra).


"(...) Eu estou contente por estar no meio de vocês.
Aliás, vou lhes fazer uma confidência: é a primeira vez que eu desço aqui [na Aula Velha do Sínodo], nunca tinha vindo. Como lhes dizia, tenho muita alegria e lhes dou calorosas boas-vindas.
Obrigado por terem aceitado este convite para debater tantos graves problemas sociais que afligem o mundo hoje, vocês, que sofrem em carne própria a desigualdade e a exclusão.
Este encontro de Movimentos Populares é um sinal, é um grande sinal: vocês vieram colocar na presença de Deus, da Igreja, dos povos, uma realidade muitas vezes silenciada.
Os pobres não só padecem a injustiça, mas também lutam contra ela!
Não se contentam com promessas ilusórias, desculpas ou pretextos.
Também não estão esperando de braços cruzados a ajuda de ONGs, planos assistenciais ou soluções que nunca chegam ou, se chegam, chegam de maneira que vão em uma direção ou de anestesiar ou de domesticar.
Isso é meio perigoso.
Vocês sentem que os pobres já não esperam e querem ser protagonistas, se organizam, estudam, trabalham, reivindicam e, sobretudo, praticam essa solidariedade tão especial que existe entre os que sofrem, entre os pobres, e que a nossa civilização parece ter esquecido ou, ao menos, tem muita vontade de esquecer. (...)
Este encontro nosso não responde a uma ideologia. Vocês não trabalham com ideias, trabalham com realidades como as que eu mencionei e muitas outras que me contaram... têm os pés no barro, e as mãos, na carne. Têm cheiro de bairro, de povo, de luta!
Queremos que se ouça a sua voz, que, em geral, se escuta pouco.
Talvez porque incomoda, talvez porque o seu grito incomoda, talvez porque se tem medo da mudança que vocês reivindicam, mas, sem a sua presença, sem ir realmente às periferias, as boas propostas e projetos que frequentemente ouvimos nas conferências internacionais ficam no reino da ideia, é meu projeto.
Não é possível abordar o escândalo da pobreza promovendo estratégias de contenção que unicamente tranquilizem e convertam os pobres em seres domesticados e inofensivos. (...)
Este encontro nosso responde a um anseio muito concreto, algo que qualquer pai, qualquer mãe quer para os seus filhos; um anseio que deveria estar ao alcance de todos, mas que hoje vemos com tristeza cada vez mais longe da maioria: terra, teto e trabalho.
É estranho, mas, se eu falo disso para alguns, significa que o papa é "comunista".
Não se entende que o amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, teto e trabalho – isso pelo qual vocês lutam – são direitos sagrados. Reivindicar isso não é nada raro, é a doutrina social da Igreja. (...)
Vou me deter um pouco sobre cada um deles, porque vocês os escolheram como tema para este encontro.
terra. (...) A apropriação de terras, o desmatamento, a apropriação da água, os agrotóxicos inadequados são alguns dos males que arrancam o homem da sua terra natal. (...)
Eu sei que alguns de vocês reivindicam uma reforma agrária para solucionar alguns desses problemas, e deixem-me dizer-lhes que, em certos países, e aqui cito o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, a reforma agrária é, além de uma necessidade política, uma obrigação moral (CDSI, 300). (...)
Por favor, continuem com a luta pela dignidade da família rural, pela água, pela vida e para que todos possam se beneficiar dos frutos da terra.
Em segundo lugar, teto. (...) Vivemos em cidades que constroem torres, centros comerciais, fazem negócios imobiliários... mas abandonam uma parte de si nas margens, nas periferias. Como dói escutar que os assentamentos pobres são marginalizados ou, pior, quer-se erradicá-los! (...).
Vocês sabem que, nos bairros populares, onde muitos de vocês vivem, subsistem valores já esquecidos nos centros enriquecidos. Os assentamentos estão abençoados com uma rica cultura popular: ali, o espaço público não é um mero lugar de trânsito, mas uma extensão do próprio lar, um lugar para gerar vínculos com os vizinhos.
Por isso, nem erradicação, nem marginalização: é preciso seguir na linha da integração urbana.
Terceiro, trabalho. Não existe pior pobreza material – urge-me enfatizar isto –, não existe pior pobreza material do que a que não permite ganhar o pão e priva da dignidade do trabalho. O desemprego juvenil, a informalidade e a falta de direitos trabalhistas não são inevitáveis, são o resultado de uma prévia opção social, de um sistema econômico que coloca os lucros acima do homem, se o lucro é econômico, sobre a humanidade ou sobre o homem, são efeitos de uma cultura do descarte que considera o ser humano em si mesmo como um bem de consumo, que pode ser usado e depois jogado fora.
Hoje, ao fenômeno da exploração e da opressão, soma-se uma nova dimensão, um matiz gráfico e duro da injustiça social; os que não podem ser integrados, os excluídos são resíduos, "sobrantes".
Essa é a cultura do descarte, e sobre isso gostaria de ampliar algo que não tenho por escrito, mas que lembrei agora. Isso acontece quando, no centro de um sistema econômico, está o deus dinheiro e não o homem, a pessoa humana. Sim, no centro de todo sistema social ou econômico, tem que estar a pessoa, imagem de Deus, criada para que fosse o denominador do universo. Quando a pessoa é deslocada e vem o deus dinheiro, acontecesse essa inversão de valores.
Há pouco tempo, eu disse, e repito, que estamos vivendo a terceira guerra mundial, mas em cotas.
Há sistemas econômicos que, para sobreviver, devem fazer a guerra. Então, fabricam e vendem armas e, com isso, os balanços das economia que sacrificam o homem aos pés do ídolo do dinheiro, obviamente, ficam saneados. (...)
Alguns de vocês expressaram: esse sistema não se aguenta mais.
Temos que mudá-lo, temos que voltar a levar a dignidade humana para o centro, e que, sobre esse pilar, se construam as estruturas sociais alternativas de que precisamos.
É preciso fazer isso com coragem, mas também com inteligência. Com tenacidade, mas sem fanatismo. Com paixão, mas sem violência. E entre todos, enfrentando os conflitos sem ficar presos neles, buscando sempre resolver as tensões para alcançar um plano superior de unidade, de paz e de justiça.
Os cristãos têm algo muito lindo, um guia de ação, um programa, poderíamos dizer, revolucionário. Recomendo-lhes vivamente que o leiam, que leiam as Bem-aventuranças que estão no capítulo 5 de São Mateus e 6 de São Lucas (cfr. Mt 5, 3; e Lc 6, 20) e que leiam a passagem de Mateus 25. Eu disse isso aos jovens no Rio de Janeiro. Com essas duas coisas, vocês têm o programa de ação.
Assim, parece-me importante essa proposta que alguns me compartilharam de que esses movimentos, essas experiências de solidariedade que crescem a partir de baixo, a partir do subsolo do planeta, confluam, estejam mais coordenadas, vão se encontrando, como vocês fizeram nestes dias. (...)
Estamos neste salão, que é o salão do Sínodo velho. Agora há um novo. E sínodo significa precisamente "caminhar juntos": que esse seja um símbolo do processo que vocês começaram e estão levando adiante.
Os movimentos populares expressam a necessidade urgente de revitalizar as nossas democracias, tantas vezes sequestradas por inúmeros fatores. É impossível imaginar um futuro para a sociedade sem a participação protagônica das grandes maiorias, e esse protagonismo excede os procedimentos lógicos da democracia formal.
A perspectiva de um mundo da paz e da justiça duradouras nos exige superar o assistencialismo paternalista, nos exige criar novas formas de participação que inclua os movimentos populares e anime as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com essa torrente de energia moral que surge da incorporação dos excluídos na construção do destino comum. E isso com ânimo construtivo, sem ressentimento, com amor.
Eu os acompanho de coração nesse caminho.
Digamos juntos com o coração: nenhuma família sem moradia, nenhum agricultor sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá.
Queridos irmãos e irmãs: sigam com a sua luta, fazem bem a todos nós.
É como uma bênção de humanidade."

Os papas e um grande Fiel

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

# aspas (xliv)


Sobre o que o panfleto Veja diz ou deixa de dizer, como na capa antecipada de hoje, já não importa a quase ninguém, há pelo menos 15 anos.

Não me refiro às pautas, à (o)posição ou aos seus interesses -- v. aqui --, pois isso é do jogo.

Ocorre que ela, reiteradamente, se rebaixa aos mais sórdidos e inimagináveis níveis, o que a torna até caricatural.

Fico, assim, com a célebre sentença do Senador Roberto Requião (v. aqui):

"Veja... não compre. Se comprar, não leia. Se ler, não acredite. E se acreditar, relinche".

E, depois, com a de Joseph Pulitzer, cujo nome dá título ao maior prêmio do jornalismo mundial e que muito bem ilustra quem publica e o seu público:
 
"Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma".


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

# aspas (xliii)


Boaventura de Souza Santos -- cientista social de escol, professor catedrático da Universidade de Coimbra e coordenador do "Projeto Alice" (v. aqui) --, a respeito da candidatura da Gandhi de saias, a nossa Madre Marina da Amazônia (v. aqui):


Marina Silva é um 'instrumento' da direita brasileira, que entendeu ser muito difícil voltar ao poder diretamente por meio de uma disputa ideológica entre Dilma Rousseff e Aécio Neves.
A direita descobriu, muito rapidamente, que Aécio Neves não é de forma nenhuma uma alternativa, porque faria uma disputa ideológica entre esquerda e direita.
As forças que sempre governaram o Brasil viram que era mais fácil chegar ao poder sem fazer essa disputa ideológica, utilizando uma terceira pessoa, que combina em sua ambiguidade alguns elementos de esquerda, não pelo que diz hoje, mas pelo que foi.
Tem que usar um desvio e o desvio necessário é buscar alguém que tem um perfil de esquerda para depois instrumentalizá-la. Marina Silva é, neste momento, esse instrumento. É, portanto, um desvio a que a direita é forçada para conquistar o poder.
Para nós, que viemos da Europa, basta quando vem aquela frase mágica da independência do Banco Central... É a grande marca do modelo neoliberal.
Tive o cuidado de ver o programa da Marina Silva e, obviamente, uma das coisas que diz o programa de política externa é, no fundo, voltar ao tradicional alinhamento do Brasil com os Estados Unidos.  
É só saber ler seu programa. As perspectivas são as políticas neoliberais.
Penso que essa fulguração de Marina atingiu seu máximo. As pessoas começam a ver os riscos por trás de uma política nova que, afinal, é bastante velha; a ver a fragilidade da Marina com as oscilações perante aqueles que controlam sua campanha e que lhe dão apoio.
Continua a haver uma esperança de que, no segundo mandato, a presidente Dilma vá fazer o que se espera de um governo do PT.
Ao passo que da Marina Silva, francamente, não há nada a esperar. 


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

# aspas (xlii)


A fascinante crônica do Velho Cronista sobre a grande noite que se reinaugura logo mais.

E nada mais precisa ser dito (v. aqui).

Olhe lá, a Baixada quieta, calada feito criança culpada, não dispara um único som. Dorme um sono pesado, de concreto e ferro fundido.
Descansa, calma feito noite fria.
Tudo está quieto demais no front.
As trincheiras estão vazias, os bunkers estão desabitados, as casamatas estão desguarnecidas.
E todos nós já vimos filmes de guerra o bastante para saber que esse silêncio verborrágico, essa calada perniciosa, prenuncia um estrondo fatal e desvairado.
Na calada da noite, enquanto os santos dormem, uma multidão inteira, com pensamentos peçonhentos, ocupa as trilhas que levam ao Estádio Joaquim Américo.
E quando nos dermos conta, aquele estádio estará integralmente tomado por um povo ensandecido, com pavilhões e fardas a chacoalhar nas mãos, ecoando cânticos elevados e promissores.
Quando rebentar o primeiro disparo será como o estouro de mil manadas a correr, cascos febris castigando o concreto em galopes ligeiros.
Hoje, a imensa torcida do Clube Atlético Paranaense vai matar, com ferroadas lancinantes de fascínio, toda a saudade da sua casa.
E a massa vermelha nem vai ter tempo de chorar a emoção da volta. Mal vai pisar no concreto imaculado da Baixada e já vai ter de entoar gritos de escora e auxílio, empurrando o escrete para cima do adversário, posto que o encargo do Atlético-PR é mastodôntico: precisa impor terríveis três gols no tinhoso time do América-RN.
Quarenta mil almas serão forjadas no desespero e na aflição, curvando a cada giro do relógio. Os céticos – se é que ainda existem depois daquele embate contra o Sporting Cristal, comprado no calor das penalidades – que não apareçam por lá.
Este estádio, meus caros, não foi erguido para incrédulos. Ele foi feito para quem, à imagem dele, foi criado a ferro e fogo, a quem tem vigas no lugar de veias, a quem traz na espinha dorsal a firme convicção da virada.
Os ateus, portanto, que deixem espaço para quem segue esse time por toda parte.
Hoje, Curitiba sairá toda em romaria, gente de fé, multidão inteira, órfã de casa há mais de mil dias, que vem de pegar emprestados campos e arquibancadas Brasil afora, e que anseia em lançar mão de uma só vez sobre aquele campo que é só seu.
O Atlético-PR está voltando, enfim, para casa. E ele chega, pontual, no momento mais perfeito para o regresso: quando os estádios todos da Copa do Mundo já estão usados, frequentados, consumidos. O Joaquim Américo estreia hoje intacto. É como a joia guardada para o final, o presente que chega por último.
Obrigado aos Castelões, às Arena Manaus, às Fontes Novas, que abriram o espetáculo, mas é hora do recital principal.
Agora, todas as luzes desses holofotes curiosos estão mirando exatamente ela, a Baixada, que debuta hoje.
Morteiros vermelhos cruzarão os céus, canhões serão apontados para o centro da grama, lanças e setas viajarão pelo terreno. E o povão ensandecido encherá de cor aquele cinza e o Brasil inteiro verá que a palidez do cimento deste estádio é proposital – a matiz deste campo pertence ao povaréu nas arquibancadas, às camisas e flâmulas que tremulam incansáveis.
A Arena da Baixada hibernou por duas eternidades e agora se levanta.
E o país inteiro vai estremecer ao som dos seus rugidos.



quinta-feira, 20 de março de 2014

# aspas (xli)

 
João Pedro Stédile, um dos maiores nomes mundiais na questão da terra e da reforma agrária e um dos coordenadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da Via Campesina – v. aqui –, afirma não ser a Copa do Mundo no Brasil o momento para mobilizações, por mais razão que tenham os protestos contra os gastos para a organização do torneio e pela presença da FIFA.
 
Para ele, é importante as manifestações o quanto antes, e o pior momento seria justamente durante a competição – afinal, o inimigo é outro:
 
   "As mobilizações, mais do que bem-vindas, são necessárias, para seguirmos mudando o país, para termos mais o Estado a serviço do povo. Mais recursos para a educação, saúde.
   Nenhuma mudança social ocorreu, na história da humanidade, sem que tenha havido mobilização popular. 
   Em relação ao calendário, torço para que as mobilizações de rua comecem logo, pois no período da realização da Copa vai confundir a cabeça do povo, que quer ver a Copa e pode reduzir as mobilizações como se fossem apenas protesto pelo dinheiro gasto nas obras.  
   (...) Acho que Copa é que nem carnaval. Alguém vai marcar mobilização durante o carnaval?
   É besteira politizar certos períodos (...) O dinheiro que foi gasto nos estádios, em torno de 8 bilhões, claro que poderiam ser melhor aplicados, porém, eles representam apenas duas semanas do volume de recursos que o governo passa para os bancos. Então, a cada duas semanas temos uma Copa do tesouro nacional para os bancos.
   E esses são os nossos inimigos principais, que precisamos denunciá-los e derrotá-los, dentro e fora do governo" (v. aqui e aqui).


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

# aspas (xl)


Férias, até 13 de janeiro.

E à sombra da nossa imortal mangueira, desejo aos poucos, mas fiéis leitores, os melhores votos de um 2014 espetacular, com muita saúde e alegrias isso tudo, claro, para quem aprecia e, logo, entende este negócio todo de anos novos e da paralisação geral para se festejar calendários, coisas que para mim já são de relativamente difícil compreensão...
fds
Por fim, aproveitando o ensejo da chegada de mais um Santo Natal e eis aqui um grande e atemporal momento , as máximas e poéticas palavras do maior escritor evangelista, João (1, 1-18): 

1. No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus.
2. Ele estava no princípio junto de Deus.
3. Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito.
4. Nele havia a vida, e a vida era a luz dos homens.
5. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.
6. Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João.
7. Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele.
8. Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz.
9. [O Verbo] era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem.
10. Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o reconheceu.
11. Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam.
12. Mas a todos aqueles que o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus,
13. os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus.
14. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade.
15. João dá testemunho dele, e exclama: Eis aquele de quem eu disse: O que vem depois de mim é maior do que eu, porque existia antes de mim.
16. Todos nós recebemos da sua plenitude graça sobre graça.
17. Pois a lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo.
18. Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou.


sábado, 6 de julho de 2013

# aspas (xxxix)

 

A reportagem da revista "Isto É" desta semana, fundamental e esclarecedora para que todos entendam do problema e das razões que levaram o Governo Federal a tomar as recentes medidas, em parte absolutamente certas e pontuais – e méritos totais ao muito bom Min. Alexandre Padilha –, para enfrentar a questão da saúde pública Brasil afora, nomeadamente a falta de médicos e de cuidados à saúde básica da população, e que tanto desgostou a corporação nativa.
 
Nesta didática matéria está o verdadeiro jornalismo: noticiar o fato, colocar os problemas existentes e as soluções apresentadas e ouvir as partes envolvidas, sem fazer juízo de valor. E assim passamos a ter esperança que de que nem tudo no jornalismo advindo da grande mídia está perdido, e a certeza de que o corporativismo – seja de que classe for, no caso a médica – é mesmo uma praga.

Abaixo, a manchete da boa reportagem, que pode ser lida aqui:

   "O Brasil tem metade dos médicos que precisa.
   Conheça o retrato dramático da saúde pública no Brasil e saiba por que o programa do governo de importação de médicos pode ajudar a resolver esse flagelo".



 

sábado, 22 de junho de 2013

# aspas (xxxvii)



A Constituição da nossa República prevê, desde a sua promulgação (1988), a criação de um "Imposto sobre Grandes Fortunas", conforme expressa disposição do art. 153, VII.

Todavia, não é mera coincidência que o tributo ainda não tenha sido regulamentado pelo Congresso Nacional ou seja, a grande ideia escancarada no nosso texto máximo ainda não foi levada adiante pelo Parlamento, e por isso ainda não pode ser exigida, a restar estéril para delírio dos tantos Tios Patinhas nativos.

Bem, nesta toada, o estadunidense Warren Buffett, há muitos anos sempre entre os cinco homens mais ricos do mundo, sugere que os países parem de mimar os seus tantos bilionários e passem a cobrar mais tributos das classes do topo da pirâmide (v. aqui):

  "Nossos líderes pediram 'sacrifício compartilhado'. Mas quando fizeram a pergunta, eles me pouparam. Eu chequei com meus amigos mega-ricos para saber que sofrimentos eles estavam esperando. Eles, também, foram deixados intocados.
   Enquanto pobres e a classe média combatem por nós no Afeganistão, e enquanto a maioria dos americanos luta para sobreviver, nós, mega-ricos, continuamos a receber os nossos extraordinários incentivos fiscais. 
   Alguns de nós são gestores de investimentos e ganhamos bilhões com nosso trabalho diário, mas podemos classificar a nossa renda como “participação nos resultados”, pagando uma taxa de imposto de 15% , uma pechincha. Outros aplicam no mercado de futuros sobre os índices das próprias ações, por 10 minutos, e têm dois terços do seu lucro tributado a 15%, tal como se tivessem sido investidores de longo prazo.
   Estas e outras bênçãos são derramadas sobre nós por legisladores em Washington, que se sentem compelidos a nos proteger tanto, como se fôssemos corujas-pintadas ou alguma outra espécie ameaçada de extinção."
   No ano passado a minha conta de impostos federais – o imposto de renda que eu pago, bem como impostos sobre os salários pagos por mim e em meu nome – foi 6.938.744 dólares. Isso parece um monte de dinheiro. Mas o que eu paguei foi apenas 17,4 % dos meus rendimentos tributáveis . Isso, na verdade é um percentual menor do que foi pago por qualquer uma das outras 20 pessoas em nosso escritório. Seus impostos variaram de 33 a 41% – média de 36 % – sobre seus rendimentos. (...)
   Eu e meus amigos fomos mimados por muito tempo por um Congresso amigo dos bilionários. 
   É hora de nosso governo levar a sério o sacrifício compartilhado."



 

terça-feira, 9 de novembro de 2010

# aspas (xxxvi)


fdsDo "Conversa Afiada", do sempre ácido Paulo Henrique Amorim, sobre o imbróglio a envolver a realização das provas do ENEM (v. aqui).
fdsComo diz o sábio, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa...
fds
fdsUma desmoralização arrasadora.
fdsÉ porque 0,04% dos alunos inscritos na prova talvez venham a refazê-la, por causa de uma troca do cabeçalho de alguns cartões de resposta.
fds0,04%! Que horror! Foram 4,6 milhões estudantes inscritos e talvez 2 mil tenham a possibilidade de refazer a prova.
fdsOntem, o UOL e a Folhaonline bradaram o dia inteiro contra a “inépcia” do ENEM. A Folha, se entende. Ano passado, as provas vazaram da gráfica da Folha [vencedora da licitação], que foi devidamente afastada da concorrência deste ano.
fdsO Estadão se acha na obrigação, todo ano, de desmoralizar o ENEM. Como fez no ano passado, com a divulgação do vazamento.
fdsPor que o Estadão, a Folha e o Serra são contra o ENEM? Ano passado, com o vazamento na gráfica da Folha, o Serra, célere, tirou as universidades de São Paulo do ENEM – para acentuar o “fracasso” do Governo Lula.
fdsQual é o problema deles com o ENEM ? O Governo Fernando Henrique instituiu o ENEM para copiar o SAT americano: o vestibular único em todo o país, para facilitar o acesso às universidades federais e o deslocamento de estudantes pelo país afora.
fdsO que tem a vantagem de baratear dramaticamente o sistema.
fdsAntes – como em São Paulo, hoje – cada “coronel” faz o seu vestibular e estimula a iniciativa privada – com os serviços do vestibular e os cursinhos do Di Gênio.
fdsDe Fernando Henrique para cá, o ENEM cresceu 30 vezes! 30 vezes, amigo navegante. Saiu de 157 mil inscritos em 98 para 4,6 milhões de hoje. É sempre assim.
fdsO Bolsa Família da D. Ruth atendia quatro famílias. O do Lula, que virou “Bolsa Esmola”, segundo Mônica Serra, a grande estadista chileno-paulista, atende 40 milhões.
fdsO que é o ENEM? É o passaporte do pobre à universidade pública. É por isso que a Folha, o Estado e o Serra odeiam o ENEM.
fdsPorque esse negócio de pobre estudar é um problema. Fica com mania de grandeza, de autonomia. Pensa que pode mandar no seu destino. E não acredita mais na fita adesiva do “perito” Molina.
fdsIsso é um perigo. Pobre é para ficar na senzala.
fds50 universidades públicas federais aderiram ao ENEM. Isso significa que 47 mil vagas em universidades federais dependem do resultado do ENEM.
fdsEm 2004, um milhão de estudantes se inscreveu no ENEM.
fdsAí, o Lula e o Ministro Haddad resolveram estabelecer o ENEM como critério para entrar no ProUni (para a elite branca – e separatista, no caso de São Paulo – não dizer que o ProUni é a “faculdade de pobre burro”).
fdsSabe o que aconteceu, amigo navegante? O ENEM passou de um ano para o outro de um milhão para 2,9 milhões de inscritos. Quanto pobre!
fdsPara o ano que vem, o ministro Haddad estabeleceu que o ENEM também será critério para receber financiamento do FIES. Vai ser outro horror!
fdsMais pobre inscrito no ENEM para pagar a faculdade com financiamento público. Um horror! Tudo público. ENEM, faculdade, financiamento... “Público” quer dizer “de todos”.
fdsAmigo navegante, sabe qual foi o contingente nacional que mais cresceu entre os inscritos no ENEM? Agora é que a elite branca – e separatista, no caso de São Paulo – vai se estrebuchar.
fdsFoi o Nordeste! Que horror! Já imaginou, amigo navegante?
fdsNordestino pobre com diploma de engenheiro? Nordestina pobre com diploma de médica?
fdsVai faltar pedreiro. Empregada doméstica.
fdsAí é que a elite branca – e separatista, no caso de São Paulo – vai se estrebuchar mesmo.

fds


 

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

# aspas (xxxv)



A presidente eleita do Brasil, Dilma Rousseff, cumpre, ao menos retoricamente, as já preliminares expectativas para o seu governo, e encara de frente, e sem tergiversar, a questão do campo, da terra, dos sem-terra e da reforma agrária (v. aqui):

   "Temos de fazer uma revolução no campo, no sentido de transformar os agricultores em proprietários. Resolver o problema dos sem-terra é criar milhões de pequenos proprietários que farão com que o tecido social no setor rural brasileiro seja mais democrático." 



 

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

# aspas (xxxiv)


fds Leonardo Boff é magnífico em seus textos e conversas.
fds E a "Teologia da Libertação", que ajudou a construir com diversos outros católicos e teólogos latino-americanos, é ainda mais magnífica, pois é a que (talvez) melhor materialize o ideário cristão e uma daquelas que (talvez) melhor interprete a nossa Bíblia Sagrada.
fds Isso, pois, são fatos que a história posta insiste em negar, tergiversar e omitir. Tal como é posta a histórica relação dos donos do poder com a grande mídia nativa.
fds Assim, este texto do filósofo vem de novo (tentar) abrir os olhos dos ainda brancamente cegos. E sobre o assunto nada mais precisa ser dito (v. aqui).

fds Sou profundamente pela liberdade de expressão em nome da qual fui punido com o “silêncio obsequioso” pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o “Brasil Nunca Mais”, onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.
fds Esta história de vida me avalisa fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a midia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de ideias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.
fds Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando veem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública. São os donos de O Estado de São Paulo, de A Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja, na qual se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e chulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um Presidente que vem desse povo. Mais que informar e fornecer material para a discussão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição.
fds Na sua fúria, quais desesperados e inapelavelmente derrotados, seus donos, editorialistas e analistas não têm o mínimo respeito devido a mais alta autoridade do país, ao Presidente Lula. Nele veem apenas um peão a ser tratado com o chicote da palavra que humilha.
fds Mas há um fato que eles não conseguem digerir em seu estômago elitista. Custa-lhes aceitar que um operário, nordestino, sobrevivente da grande tribulação dos filhos da pobreza, chegasse a ser Presidente. Este lugar, a Presidência, assim pensam, cabe a eles, os ilustrados, os articulados com o mundo, embora não consigam se livrar do complexo de vira-latas, pois se sentem meramente menores e associados ao grande jogo mundial. Para eles, o lugar do peão é na fábrica produzindo.
fds Como o mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma),
“a maioria dominante, conservadora ou liberal, foi sempre alienada, antiprogresssita, antinacional e não contemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes, nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de tudo - Jeca Tatu; negou seus direitos; arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação; conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que contiua achando que lhe pertence (p.16)”
.
fds Pois esse é o sentido da guerra que movem contra Lula. É uma guerra contra os pobres que estão se libertando. Eles não temem o pobre submisso. Eles têm pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascedente como Lula. Trata-se, como se depreende, de uma questão de classe. Os de baixo devem ficar em baixo. Ocorre que alguém de baixo chegou lá em cima. Tornou-se o Presidente de todos os brasileiros. Isso para eles é simplesmente intolerável.
fds Os donos e seus aliados ideológicos perderam o pulso da história. Não se deram conta de que o Brasil mudou. Surgiram redes de movimentos sociais organizados, de onde vem Lula, e tantas outras lideranças. Não há mais lugar para coronéis e para
“fazedores de cabeça” do povo. Quando Lula afirmou que “a opinião pública somos nós”
, frase tão distorcida por essa mídia raivosa, quis enfatizar que o povo organizado e consciente arrebatou a pretensão da midia comercial de ser a formadora e a porta-voz exclusiva da opinião pública. Ela tem que renunciar à ditadura da palabra escrita, falada e televisionada e disputar com outras fontes de informação e de opinião.
fds O povo cansado de ser governado pelas classes dominantes resolveu votar em si mesmo. Votou em Lula como o seu representante. Uma vez no Governo, operou uma revolução conceptual, inaceitável para elas. O Estado não se fez inimigo do povo, mas o indutor de mudanças profundas que beneficiaram mais de 30 milhões de brasileiros. De miseráveis se fizeram pobres laboriosos, de pobres laboriosos se fizeram classe média baixa e de classe média baixa se fizeram classe média. Começaram a comer, a ter luz em casa, a poder mandar seus filhos para a escola, a ganhar mais salário, em fim, a melhorar de vida.
fds Outro conceito inovador foi o desenvolvimento com inclusão social e distribuição de renda. Antes havia apenas desenvolvimento/crescimento que beneficiava aos já beneficiados à custa das massas destituídas e com salários de fome. Agora ocorreu visível mobilização de classes, gerando satisfação das grandes maiorias e a esperança que tudo ainda pode ficar melhor. Concedemos que no Governo atual há um déficit de consciência e de práticas ecológicas. Mas, importa reconhecer que Lula foi fiel à sua promessa de fazer amplas políticas públicas na direção dos mais marginalizados.
fds O que a grande maioria almeja é manter a continuidade deste processo de melhora e de mudança. Ora, esta continuidade é perigosa para a mídia comercial que assiste, assustada, ao fortalecimento da soberania popular que se torna crítica, não mais manipulável e com vontade de ser ator dessa nova história democrática do Brasil. Vai ser uma democracia cada vez mais participativa e não apenas delegatícia. Esta abria amplo espaço à corrupção das elites e dava preponderância aos interesses das classes opulentas e ao seu braço ideológico que é a mídia comercial. A democracia participativa escuta os movimentos sociais, faz do Movimento dos Sem Terra (MST), odiado especialmente pela VEJA, que faz questão de não ver; protagonista de mudanças sociais não somente com referência à terra, mas também ao modelo econômico e às formas cooperativas de produção.
fds O que está em jogo neste enfrentamento entre a midia comercial e Lula/Dilma é a questão: que Brasil queremos? Aquele injusto, neocolonial, neoglobalizado e, no fundo, retrógrado e velhista; ou o Brasil novo com sujeitos históricos novos, antes sempre mantidos à margem e agora despontando com energias novas para construir um Brasil que ainda nunca tínhamos visto antes?
fds Esse Brasil é combatido na pessoa do Presidente Lula e da candidata Dilma. Mas estes representam o que deve ser. E o que deve ser tem força. Irão triunfar a despeito das más vontades deste setor endurecido da midia comercial e empresarial. A vitória de Dilma dará solidez a este caminho novo ansiado e construido com suor e sangue por tantas gerações de brasileiros.


 
fds

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

# aspas (xxxiii)

f
    José Saramago, sobre o twitter -- e que cabe também, e principalmente, para as conversas virtuais (v. aqui):

     "Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."





 

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

# aspas (xxxii)

f
dsNa linha do que à profusão escrevemos neste nosso sideral espaço virtual, o sociólogo gaúcho Cristóvão Feil (v. aqui) brinda-nos com o texto abaixo:
 
fds"Há um visível recrudescimento na idiotização das pessoas.fdsA mídia é a principal usina de produção em série de idiotas e tolos de todos os calibres. O nivelamento por baixo e o achatamento geral do imaginário médio é a principal contribuição dos modernos meios de comunicação de massas. Hoje, é muito fácil encontrar o que eu chamo de idiota triunfante, aqueles sujeitos que se orgulham da própria ignorância e pobreza de espírito. O tolinho jactancioso tira prazer onanista da sua condição, e se basta.
fdsO espírito de nossa época --o Zeitgeist, como diz apropriadamente o alemão -- flutua numa emulsão formada por dois elementos: a ciência (as tecnologias) e a idiotice. Os idiotas de nosso tempo se projetam nos gadgets que encontram pelo caminho.fdsObservem: todo o tolo que se preza porta pelo menos um artefato mecânico ou eletrônico. Não vive sem essas muletas. É a sua forma de se referenciar com o mundo, de comunicar a sua estupidez relativa ('afinal, estou conectado ao futuro!').fdsMas o fenômeno não é original. Gustave Flaubert, o corrosivo crítico da burguesia, ainda no século 19 já havia detectado o fenômeno da tolice social. Para tanto, começou a colecionar os ditos correntes do senso comum e reuniu-os no famoso 'Dictionnaire des idées reçues'. O escritor francês comentou -- e publicou nesta pequena obra de pouco mais de cem páginas -- todas as bobagens ditas pelas pessoas que queriam parecer inteligentes e atualizadas. Aliás, Flaubert seria o descobridor da tolice.fdsQuem garante é Milan Kundera, para quem a tolice é a maior descoberta de um século - o 19 - tão orgulhoso de sua razão científica. Antes de Flaubert não se duvidava da existência da tolice, embora esta fosse compreendida de um modo diferente. A tolice era considerada como uma simples falha do conhecimento, um vazio provisório, passível de ser preenchido pela instrução.fdsMas Flaubert insiste, e praticamente sustenta a sua obra baseada no tema da tolice e da idiotia. Ema Bovary é uma tola que aspirava ser amada por todos os homens. Bouvard e Pécuchet são dois pequenos idiotas que aspiram conhecimentos enciclopédicos acerca de tudo. Leio agora na Wikipédia que Barthes considerou 'Bouvard e Pécuchet' como 'uma obra de vanguarda'. A considerar a idiotia galopante de nossos dias, pode ser.fdsKundera brinca afirmando que 'a descoberta flaubertiana é mais importante para o futuro da humanidade que as ideias mais perturbadoras de Marx ou de Freud'. Pois podemos imaginar o futuro do mundo -- prossegue Kundera -- sem a luta de classes ou sem a psicanálise, mas não a invasão irresistível das ideias feitas, estandardizadas, pasteurizadas, que, 'inscritas nos computadores, propagadas pela mídia, ameaçam tornar-se em breve uma força que esmagará todo o pensamento original e individual e sufocará assim a própria essência da cultura européia dos Tempos Modernos'.
fdsO mais chocante -- constatado pelos geniais romances de Flaubert -- é que a tolice não se apaga diante da ciência, das altas tecnologias, da pósmodernidade (seja lá o que isso signifique). Milan Kundera ousa afirmar que 'ao contrário, com o progresso, ela também progride!'.
fdsArrisco a dizer que os bobalhões e as baratas sobreviverão ao próprio planeta. 'Coisas da vida' - como diria Kurt Vonnegut, outro escritor especialista em tolos e idiotas."
fds


 

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

# aspas (xxxi)



Joaquim Nabuco -- um dos grandes brasileiros da nossa história, motivo de tantas homenagens e comemorações neste ano do centenário da sua morte --, em 5 de novembro de 1884, em Recife, num discurso da sua campanha para deputado, já falava uma das grande verdades e necessidades do Brasil, ainda hoje insistentemente ignorada ou vilipendida pelo DEM/PFL/ARENA/UDN, pela OAB, pela CNA, pelos pré-modernos senhores feudais e pela grande mídia corporativa: a ampla e estruturada consecução da reforma agrária.

O nosso Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim -- o "maior chanceler do mundo", segundo matérias de alguns especialistas internacionais --, em recente conferência na Academia Brasileira de Letras, reproduziu trecho daquele histórico discurso de Joaquim Nabuco (v. aqui):

fdsfd“Não há outra solução possível para o mal crônico e profundo do povo senão uma lei agrária que estabeleça a pequena propriedade, e que vos abra um futuro, a vós e vossos filhos, pela posse e cultivo da terra. É preciso que os brasileiros possam ser proprietários de terra, e que o Estado os ajude a sê-lo.
fdsfdA propriedade não tem somente direitos, tem também deveres, e o estado de pobreza entre nós, a indiferença com que todos olham para a condição do povo, não faz honra ao Estado.

fdsfdEu, pois, se for eleito, não separarei mais as duas questões: a da emancipação dos escravos e a da democratização do solo. Uma é o complemento da outra. Acabar com a escravidão não nos basta; é preciso destruir a obra da escravidão.



 

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

# aspas (xxx)


fds
O escritor Eduardo Galeano lembra-nos as origens (mais remotas) do caos chamado Haiti, o país mais pobre da América Latina e que hoje também padece do fenômeno da "ongzação" (v. aqui):

fds "A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca ideia de querer um país menos injusto...
fds Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objectivos: cobrar as dívidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que proibia vender plantações aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis da invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".
fds O Haiti fora a pérola da coroa, a colônia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".
fds Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".
fds Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.
fds A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.
fds Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pénis.
fds Por essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indenização gigantesca, a modo de perdão por haver cometido o delito da dignidade.
fds
A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.
fds