Mostrar mensagens com a etiqueta revolução. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta revolução. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

# a nova escola: uma revolução



Alguém, um dia, em algum lugar, resolveu fixar um conteúdo programático para ser ensinado nos bancos das escolas do mundo, vasto mundo.

Assim, por toda Oropa, França & Bahia, foi estabelecida uma ordem pedagógico-educacional que, se tinha, hoje não tem qualquer fundamento – a não ser, claro, pelo lógica em si de todo o "sistema", coisa que o velho Marx, com a tese da alienação, já debulhou.

Nesta (des)ordem, cujo sistema de ensino é fruto da escola prussiana de treinar milicos para a guerra, lá do séx. XIX, o mal é manifesto: corrompe-se a energia, trava-se a criatividade e se fulmina a vitalidade de mentes jovens e abertas para o mundo. 


E neste caminho de idiotização robótica do ser humano infanto-juvenil, as ricas contracorrentes são marcadas como símbolos de mera rebeldia, de franca alucinação ou de bruxaria.

São aquelas que encorpam a "educação proibida", a qual pretende desacentuar a escola como "agência seletiva" do mercado e fortalecer a educação como função democratizante da sociedade, não obstante a reprodução social que, fruto de capitais econômicos e culturais absolutamente díspares, sustenta uma cruel desigualdade.

Primeiro, o que se tem em grande parte dos nossos jardins de infância é uma "brincadeira".

São, em regra, galpões pintadinhos de galinhas azuis que num estilo pré-fordista tentam sossegar os nossos pequenos leões, funcionando com um circo baldio no qual palhaços, focas e motoqueiras do globo da morte formam uma massa absolutamente estéril para o que se dispõe.

É, pois, a fantástica loja de depositar crianças que, sob o fanático espírito mercantil da sua líder (a tal "tia-chefe"), promete aos respeitáveis pais um grande espetáculo – mas, sim senhor, ao final entrega apenas a marmelada.

Depois, nos colégios, o que se ensina é um escárnio.

Pior, o que não se ensina é de uma flagrante insensatez, pois tudo vem condensado em saberes enlatados, mímicas da moda e ventriloquismos deterministas que esvaziam o ser humano.

Nas grades curriculares, disparates: em Matemática, passa-se todo um Ensino Médio apresentando (e se estudando) números complexos, polinômios, matrizes, equações de enésimo grau, e por aí vai; em Biologia, é um tal de classes de protozoários pra cá, conteúdo de caules pra lá, mitocôndrias acolá; em Química e Física, se insiste no aprofundamento de cadeias orgânicas, cinética, termologia, fluidostática e de tantos cálculos e fórmulas claramente bizarros e desprezíveis...

E nada, nada disso se aprende, pois não tem aplicação alguma, não tem qualquer importância e não subsiste no universo dos objetivos e na realidade cotidiana dos jovens, futuros adultos e potenciais profissionais.

Pelo contrário, só aguça ainda mais a ojeriza à escola e ao estudo, torna tudo mecanizado e frio e só inibe ainda mais o desenvolvimento mental e humano dos jovens.

E ainda mais grave do que (tentar) ensinar isto tudo, é passar à margem de tantas outras matérias e de tantos outros temas de importância e significado ímpares.

O foco, pois, tinha que ser outro: Filosofia, Política e Teologia, sacrossantas áreas do pensamento.

Porém, essas são apresentadas com desdém, sem padrão e sem a relevância devida.

Esquece-se que são disciplinas cruciais para a compreensão da sociedade e para o (auto)conhecimento, absolutamente vitais para o estímulo à reflexão e para tornar os adolescentes pensadores do que se professa em sala e do que se faz pelo mundo.

Mas, como mal lecionadas, mal trabalhadas e mal conformadas no calendário pedagógico, estes cânones do ideário intelectual moderno são, se tanto, servidos como fast-food, para insossa ingestão (e digestão) dos jovens, então totalmente descomprometidos com as causas e os ingredientes das ciências em jogo.

Além disso, outros tantos esforços tinham que estar concentrados na Língua Portuguesa (a última flor do lácio), nas Línguas Espanhola (uma pátria grande) e Inglesa (o esperanto do mundo pós-moderno global), na Lógica e na Matemática, na História, na Geografia e nas Artes.

Ainda, duas matérias criadas pelo regime militar deviam ser reincorporadas à grade juvenil, evidentemente pelo avesso daquele imposto ditatorialmente: "Educação, Moral e Cívica" e "Organização Social e Política Brasileira", as quais muito contribuiriam para a reformação e reconstrução cidadã de nossos jovens, hoje distantes do mínimo ideal cívico, ético e republicano e da mínima compreensão social e política do Brasil.

Também, uma estrutura de ensino com foco na vocacionalização e a redução do total de disciplinas  fragmentadas, com uma grade que ofereça o mínimo de disciplinas obrigatórias e autonomia para o aluno (e a família) preencherem sozinhos o restante do tempo – já alargado, como no Atlântico Norte – com cursos e matérias optativos em áreas diversas do conhecimento e da cultura.

E, com isso, auxiliar no desabrochamento das "virtudes" de cada um, identificando os talentos vivos e alimentando os sonhos reais de cada jovem.

Mais, a inclusão no conteúdo programático de todo o Ensino Médio de estudos e práticas que apresentem as principais atividades, ofícios e profissões e com elas se relacionem.

Afinal, é aqui, e com o curso de matérias que provoquem a reflexão e o raciocínio dos jovens sobre a vida profissional, que se melhor preparará o caminho e o terreno para as escolhas futuras 
– não será, pois, com este ensino de hoje e as suas toscas aulas de decoração, repetição e ruminação que um adolescente melhor será encaminhado à Medicina, à Música, à Engenharia ou às Ciências Humanas.

Ou há alguma dúvida de que tudo isso é muito melhor, mais importante e mais útil que anos e anos numa carteira ouvindo sobre sistema respiratório de crustáceos, sobre tabela de Linus Pauling, sobre circuitos elétricos e sobre logaritmos?

Mas, é claro, para isso a premissa é mudar o conteúdo das provas de ingresso à universidade e, claro, o próprio fim do fim do ensino colegial: o  "vestibular".

Ora, se mantivermos este sistema em que apenas se ensina 
– ou se dá máxima importância à – tabela periódica, estrutura do caule e equações de terceiro grau, o aluno certamente entrará num faculdade, mas não vai ter parado um momento sequer para refletir e pensar sobre as questões fundamentais da vida.

Por fim, talvez o essencial: a escola em tempo integral, como na maior parte do mundo civilizado ocorre. A transformação do "tempo" para os nossos jovens será o caminho para uma nova vida.

Aqui, portanto, a grande importância e o preponderante papel do Estado, particularmente no plano federal, como principal e renovado meio para se apresentar e cobrar real conhecimento 
– cultural, crítico, valorativo, reflexivo e imaginativo , num terreno que prepare a maior mudança de sempre,  um novo paradigma de educação e de escola: a "Pátria Educadora", como uma dia pretendeu o governo brasileiro (v. aqui).

Portanto, afora base e princípio familiares, será apenas por meio de um Ensino Médio inovador, criativo, alternativo, analítico, participativo e ecoante que conseguiremos ver a mínima transformação na cabeça dos nossos jovens 
– ter-se-ia, pois, uma educação que liberte, a "pedagogia da libertação" que pregava o gigante Paulo Freire.

E essa, pois, seria a nossa pequena revolução.

Caso contrário, abdicando-se de uma real e verdadeira educação, teremos nossa juventude continuamente refém do enciclopedismo vazio de uma escola mercantil e das teses e verdades propagadas pela tv e pelas redes sociais e sob o cabresto do sistema vigente.

Afinal, o que se quer é uma educação que nos ajude a pensar, e
 não uma que nos adestre para obedecer.


You say you want a revolution...


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

# de jó


Para nadar contra a maré é preciso mais do que conhecimento, coragem e honradez.

É preciso paciência.

Paciência e estratégia para suportar a hipocrisia, a canalhice, a desfaçatez e a estupidez do bando de amarelinhos que agora, golpe praticamente consumado, se não de modo enrustido comemoram, fingem se esconder sobre o muro da isenção anojosa que acalenta a gang de Cunha e Temer.

Bando que é  ou, manipulado, representa  aquilo que atrasa e amarra o Brasil no subdesenvolvimento e na vergonha de ostentar a maior desigualdade social do planeta.

E sob este roteiro tétrico, neste terror tipo B protagonizado por vampiros e múmias e coadjuvado por milhares de zumbis que "protestam" pelas orlas e redes sociais contra a "korrupissão", o Brasil afundará num buraco sem fim, numa quase eternidade em direção ao abismo, como se num desgraçado mergulho para o inferno, e por muitos anos, até que um dia, sabe-se lá quando, volte a ter um presidente.

Sim, tenho uma profunda convicção: se o golpe vingar, não haverá eleições em 2018!

Afinal, com ou sem as botas e quepes dos milicos, mas sempre com a toga de um Judiciário conivente e a caneta de um congresso safado, o Golpe continuará -- por meio de emenda constitucional que prorrogue mandatos ou que altere o sistema de governo ("com o Supremo, com tudo..."), ou como conveniente efeito do grande "caos" que se tornará o Brasil --, pois é única forma de se manter o desmonte do Estado brasileiro, haja vista os interesses econômicos e geopolíticos por trás dele e que não suportam o escrutínio popular.

Para este jogo macabro intitulado "impeachment", caberiam vários adjetivos, mas talvez nenhum soe melhor do que esse: safado.

Como safados são todos aqueles que não querem entender o que se passa no Brasil.

Como safados são todos aqueles que, mais ou menos em silêncio, aceitaram que se atropelasse e se arrancasse a cabeça do estado democrático de direito.

Como ainda mais safados são estes que, levados nos ombros da classe média reacionária e pelos esgotos de Brasília, usurpam do poder não lhes constituído e engolem a vontade popular maiormente resolvida, nas urnas, em outubro de 2014.

Não bastasse o óbvio ululante disso tudo -- esculhambação desenhada há anos, desde que advieram os episódios de junho de 2013 (v. aqui) --, o tanto de sol que a grande mídia não consegue tapar é mais do que suficiente para que todos, querendo, enxerguem os porquês disso tudo (v. aqui, aqui e aqui).

E enxerguem as suas consequências, que será o desmonte de um estado minimamente social construído principalmente nos últimos 13 anos e o vezo entreguista e colonial tanto combatido.

Com esta preliminar votação do "impeachment" no Senado, na madrugada desta terça-feira  lembrem-se, sempre, que Dilma é julgada por uma quadrilha de ladrões (v. aqui, o sentimento, meus caros, é o de quem é assaltado, de quem é estuprado, de quem perde no grito, de quem é derrotado por um arranjo fraudulento de picaretas-mor ao arrepio de tudo que é minimante justo.

E, mais, de quem passa a ter dúvidas se vale a pena continuar lutando e insistindo para que esse país aqui seja outro, seja realmente "de todos".

Ou se, ao contrário, neste nosso dia a dia somos simplesmente dom quixotes desta ópera bufa entocada na terra brasilis.

Bem, não sei.

Na verdade, porém, já se sabia que não seria fácil.

Afinal, iniciar um processo de transformação de toda uma sociedade (e de uma civilização, como recentemente disse Pepe Mujica, certamente avalizado pelo Papa Francisco) por meio de ideias e políticas  maiormente quando bastante tímidas, como as que por aqui se vislumbravam , é daquelas revoluções complexas, lentas, feitas tijolo a tijolo para uma construção sólida, lógica, mágica.

E isso, de novo, nos exige muita paciência.

Paciência e estratégia.

E que não pode admitir resignação, pacatez ou inação; ao contrário, depende de lutar pela soberania popular, depende da obediência aos direitos e garantias fundamentais e depende da ira santa que reage com intensidade contra uma situação de grave injustiça e arbitrariedade.

E talvez essa seja a essência da grande dose de estratégica paciência que daqui em diante devemos ter: disciplina, firmeza e perseverança para suportar nosso trabalho de reerguimento de um admirável Brasil novo, com democracia, liberdade e igualdade.

Mais até do que para suportar estes malditos golpistas e seus filhotes amestrados.

Até quando?

Impossível saber, pois a soberania popular está surrupiada e não tem prazo para ser retomada.

Não, ao menos, em 2018.

O golpe, minha gente, não ousará flertar com o tal sufrágio universal  ele virá para ficar.

Resta-nos saber como faremos a resistência democrática.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

# ecos do fim do mundo


Papa Francisco está prestes a morrer, e de morte matada.
 
Sinceramente, não acredito que a política vaticanista, os donos do poder e a comunidade burguesa internacional admitirão a sobrevida deste grande homem, que vem para chacoalhar as ideias da Igreja, dos católicos e de nós, humanos, demasiadamente humanos.

A cada dia, a cada mensagem, a cada visita, o Sr. Bergoglio – o Papa! – aprofunda o dedo nas feridas e nas veias abertas do nosso mundo.
 
Se na primeira “encíclica” de Sua Santidade – Lumen Fidei, em junho (v. aqui) – a mexida foi suave e pontual, agora, na primeira “exortação apostólica”, Evangelii Gaudium (v. aqui), o balanço foi geral, agudo e intenso.
 
Na contramão do que os seus antecessores mais recentes fizeram – João Paulo II, o tucano polaco, e Bento XVI, o teórico ratzinger –, o argentino Francisco veio lá do fim do mundo para dar as cartas e abertamente contestar todo este sistema.

Com veementes críticas ao processo capitalista (“uma nova tirania”), ao livre-mercado (“esta opinião, que nunca foi confirmada pelos fatos, exprime uma confiança vaga e ingênua na bondade daqueles que detêm o poder econômico e nos mecanismos sacralizados do sistema econômico reinante, entretanto, os excluídos continuam a esperar”), à péssima distribuição de renda, à acumulação materialista (“a economia de exclusão e desigualdade mata pessoas por todo o mundo”) e à miserabilização das relações humanas (“sistema sem ética, no centro, há um ídolo, e o mundo tornou-se idólatra do dinheiro”), Sua Santidade não perdoa.
 
Nas entrelinhas, ratifica-se o que a “teologia da libertação” propõe desde o final dos anos 60.
 
Indagado pelos meios de comunicação sobre ser marxista, responde: “não sou” mas “não me sinto ofendido com essa acusação” (v. aqui).
 
Enfim, um papa que não se omite de falar e fazer política, como todo homem público deve fazer.

E, diferente daquele pop João Paulo II, este nosso popular Papa Francisco fala e faz a política del otro lado del rio.

Com poucas (e poucos) papas na língua.

 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

# madiba



Como sempre fiel cumpridora do seu papel, eis que a grande mídia global resolve descolorir Nelson Mandela, um dos últimos dos moicanos. 
 
(E, a propósito... daqui há 40 ou 50 anos, para quem derrubaremos lágrimas e faremos funerais grandiosamente merecedores? Há alguém neste caminho? Ou esta minha solúvel instantânea geração não se mostrará digna e capaz de lamentar a morte de pessoas que significativamente mudaram o mundo?) 
 
Bem, o que as donas da informação insistem em esconder é que o grande Mandela não foi este vovozinho de túnica branca e gestos papais que cavalgou África afora montado num pequeno pônei portando uma mensagem apolítica de axé. 
 
Não! 
 
Nelson Mandela só era Nelson Mandela porque foi um revolucionário, porque foi político, porque fez política. 

E porque a sua vida pautava-se rotundamente pelo lado esquerdo do peito.
 
Mandela enfrentou os poderosos e racistas nativos e confrontou os ricos donos do poder. 
 
Mandela foi para a linha de frente contra os interesses das grandes potências brancas (e negras) que faziam vistas grossas ao apartheid sul-africano. 
 
Mandela não admitia uma África pobre, desigual, separatista, antidemocrática, controlada por poucas famílias e sob o jugo europeu. 
 
Mandela combateu o podre poder local, combateu os EUA e a intervenção cotidiana da CIA e foi preso, assim ficando durante 27 anos. 
 
E foi por estas e outras que, durante décadas, o seu nome foi proibido nos jornalões do mundo e que a sua figura era non grata nas grandes sociedades. Margaret Thatcher, por exemplo, considerava-o terrorista, comunista e comedor de criancinhas. 
 
Antes da prisão, na clandestinidade, foi o grande líder e mentor do Congresso Nacional Africano (CNA), partido que reunia um grupo cada vez maior e mais competente de militantes com vistas a acabar com o racismo, a segregação sócio-racial e as injustiças de um país negro sob as rédeas de suseranos brancos. 
 
E neste período todo de lutas e com Mandela já encarcerado, foi Cuba um dos poucos países do mundo que sempre esteve ao seu lado e ao lado do seu povo – lembre-se, pois, que Fidel conseguiu em Cuba o que Mandela queria conseguir na África; não apenas na retórica, por inúmeras vezes a Ilha caribenha prontificou-se a ir se juntar aos revolucionários sul-africanos na guerra contra a opressão e o apartheid, tal qual fez, com sucesso, na batalha pela independência da vizinha Angola (v. aqui). 
 
Mandela, assim, sempre teve Fidel e Cuba como seus parceiros (e espelhos, e horizontes) históricos, deles recebendo total e incondicional apoio, com altruísmo e solidarismo ímpares – e todo essa amizade internacional mereceu, mais uma vez, a eterna gratidão do povo sul-africano. 
 
Hoje, neste capítulo final da vida de Mandela, não por acaso o presidente cubano Raul Castro foi convidado a ser um dos cinco oradores no funeral do líder máximo do continente negro, ao lado de Dilma (o Brasil é o maior parceiro da África do Sul e o maior país negro não-africano), de Obama (por razões de simbolismo racial) e dos chefes de Estado da Índia e da China. 
 
E a mídia, claro, continua louvando-o pelo fato dele não ter conseguido fazer tudo o que queria ter feito (v. aqui), a insistir com borboletas e baobás, com crisântemos e croissants, com adornos de carneirinhos em nuvens brancas e com a imagem de um Mandela alvejado, doce e fofo. 
 
Ora, embora sin perder la ternura jamás, o herói universal Nelson Mandela nunca quis ser Madre Tereza de Calcutá. 
 
E nem poderia. 
 
Ave, Madiba!  Nkosi sikelel' iAfrika!

 

 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

# história em movimento


Posso estar enganado, mas é sempre emocionante ver a história sendo escrita assim, sob os nossos olhos.

Afinal, se é possível ter expectativa em progresso e remoralização da Igreja Católica, este parece ser um momento, uma vez que desde João XXIII (1959-1963) não havia alguém com um discurso tão sincero, tão direto e tão corajoso quanto este de Bergoglio, o Papa Francisco.
 
Mais ainda, desde aquele final dos anos 50 que a Igreja Católica não se deparava com um pastor, um homem que deixa a teologia dogmática para os momentos apropriados – muito diferente do ultrateórico e ultraconservador Ratzinger (o Bento XVI) – e que vem ao povo sem amarras e submissões políticas – muito diferente do marqueteiro reacionário Wojtyla (o João Paulo II).
 
E mais, insiste com um discurso que não se esconde atrás de uma intangibilidade monárquica da Cúria e que não rejeita a maiores vocações cristãs, ou seja, servir e professar a fé, em especial aos pobres e marginalizados.
 
E foi além, não tendo receio em apontar o dedo para um dos grandes equívocos da Igreja, ou seja, a barreira que se impôs diante da sua gente, apontamento este que foi direto, olhos-nos-olhos dos bispos e cardeais da Conferência Episcopal Latino-Americana (CELAM), em reunião que ocorrera horas antes dele partir e que fora transmitida ao vivo pela televisão.
 
E as posições a serem adotadas foram claras, e as declarações foram fortes.
 
Aqui, em rápidas palavras, se pode perceber que há uma aproximação e um aproveitamento do que a Teologia da Libertação trouxe, construiu e prega (v. aqui, aqui, aqui e aqui), sem precisar renunciar à Igreja e sem ainda causar muita urticária na maioria que ainda crê numa igreja social e libertária incoerente com a doutrina católica e apostólica.
 
(Lembro que a Teologia da Libertação nasce na América Latina dos anos 60, seio da vivência sacerdotal do atual Papa, o qual não fora nada simpático às teses daquela revolucionária escola católica).
 
Ainda que criticando a teologia socializante e do deus ex-machina – tanto quanto criticando a teologia liberal do capitalismo e do deus-dinheiro –, não se pode negar que Papa Francisco quer avançar neste tema e inserir temas sociais na vida e na visão da Cúria e da sociedade católica.
 
Sim, a Igreja não pode ficar longe da Política, não pode se esconder da realidade econômica-social que nos angustia e nos revolta, o que não pode ser confundido com fazer política e partidarismo.
 
Fieis e Igreja não podem fechar os olhos para o mar de injustiças sociais que a toda hora é mostrado, em um selvagem desequilíbrio social que joga na miséria um número cada vez mais de seres humanos, como se meros tijolos fossem.
 
E é deste “humanismo desumano” que o Papa pede atenção.
 
E é contra esta forma de vida, contra a “cultura do provisório” e do curtir o momento que ele pede aos jovens: “Sejam revolucionários!”.
 
E esta frase nunca esteve tão perto daquilo que uma Igreja social e uma teologia da libertação desejam. Nunca este tão próxima de retomar, com afinco e seriedade, o trabalho nas pastorais e nas CEBs, e a atuação no seio das necessidades espirituais e materiais das nossas comunidades.
 
Ora, ficou claro que em um mundo just in time e plugado de novos desafios, paradigmas e aspirações, Francisco é um papa que entendeu o recado que muitos quiseram ignorar ou reinterpretar de acordo com as próprias posições, ou de acordo com as posições que politicamente fossem mais convenientes.
 
Vida longa ao Papa! embora o próprio Francisco não pareça acreditar nisso, haja vista os tantos e seguidos pedidos de oração que faz por si.


terça-feira, 1 de dezembro de 2009

# aspas (xxvii)



Nesta oportunidade em que (i) se discute a urgência de se refundar as comunicações e a mídia no país e (ii) se acredita que a queda do Muro é a queda fatal das utopias, um pensamento intransitivo de Érico Veríssimo -- publicado na primeira parte da sua autobiografia “Solo de Clarineta: Memórias” --, cujo texto, inclusive, consta na epígrafe do recente livro escrito pelo editor deste blog (v. aqui e aqui):

fds"Tem-me animado até hoje a idéia de que o menos que o escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror.
fds
Mas, se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos o nosso posto".


 

terça-feira, 6 de outubro de 2009

segunda-feira, 23 de março de 2009

# pravda


fDezembro de 1901.

fLênin, em artigo para o jornal do "Partido Social Democrata Russo", já não tinha dúvidas quando afirmava que o primeiro passo a ser dado para construir a revolução, era a “criação de um jornal para toda a Rússia”.

fEra a afirmação central acerca da necessidade da eficiente comunicação para se fazer a revolução. Ou seja, para conquistar sua hegemonia, o partido da classe trabalhadora deveria começar por criar um jornal que unificasse e organizasse a luta, sob o perigo da revolução não chegar, afinal, como os milhões de operários, soldados e camponeses seriam convencidos da sua necessidade? Como teriam informação e formação suficiente para abraçar a ação revolucionária, sem um jornal?

fÉ claro que os donos do poder também sempre souberam disso; e foi por isso que em toda a nossa história a grande mídia confundiu-se com o poder politico-econômico vigente, ou, ao menos, sempre esteve liga às elites política e burguesa.
 
fLogo, consequência ululante, gerações e gerações de brasileiros foram domesticadas e adestradas única e exclusivamente consoante os ideais, as vontades e os pensamentos conservadores -- e, por vezes, reacionários --, que somente interessavam à nossa malfadada elite nativa, a quem sempre rogaram continência e a quem este país dedica hoje o posto de metrópole mais desigual do mundo.

 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

# aspas (vi)



Raúl Castro, Presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros da República de Cuba, em discurso no ato pelo aniversario de 50 anos da Revolución, em Santiago de Cuba, no dia primeiro de janeiro de 2009:
 
- "¡Nunca más volverán la miseria, la ignominia, el abuso y la injusticia a nuestra tierra! ¡Jamás regresará el dolor al corazón de las madres ni la vergüenza al alma de cada cubano honesto! Es la firme decisión de una nación en pie de lucha, consciente de su deber y orgullosa de su historia."