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quinta-feira, 30 de junho de 2016

# nascentes e poentes


A distância provoca-nos sempre a refletir.

E se é comum lamentarmos que não estamos vendo as nossas crianças crescerem, máximo lamento acomete também para quando não estamos vendo os nossos pais envelhecerem.

Pode ser profundo isso, pode ser uma filosofia de araque ou pode ser apenas reflexo da incompatibilidade da relação espaço-tempo a que me submeto.

Como a física proíbe a presença real de corpos materialmente distantes, não notamos que o tempo para as nossas crianças e para os nossos pais incumbe-se de transformá-los em novos corpos, crescidos e recolhidos, agigantados e enrugados, numa dinâmica natural que desobedece a ordem que tanto gostaríamos.

E por não querermos ver este tempo passar, inconscientemente nos escondemos dos seus marcadores, dos seus símbolos, dos seus sinais.

Porém, à surdina, eles fazem questão de chegar, como se quisessem nos fazer ouvir o uivo pungente dos seus incansáveis passos.

E, de repente, a vasculhar por um armário à procura de um livro esquecido, vejo-me na mão com uma ampulheta e brinco de ver o tempo.

Cuco, de pulso, de parede, da torre, da igreja, em todos esses você pode até conseguir despistar o avanço a galope dos segundos e esquecer.

Entretanto, do escorrimento arenal da ampulheta não se escapa, cuja marca da passagem do tempo é de clara e destemida tirania.

Ali, sem filtros, é a vida que corre, que escorre, implacável e intransigente como uma onda sísmica do mar.

Por isso, ao olhar para as fotos expostas sobre a bancada do escritório, hei de confessar: para não ver este tempo correr, recolheria toda a areia do mundo.

Com ela, montaria um nababesco e indefectível castelo onde viveríamos para sempre – e onde seríamos as múmias mais felizes da Terra.

Porém, se com as nossas crianças o curso é promitente, repleto de expectativas, com múltiplos sabores e num retilíneo movimento para o alto e para avante, com nossos pais é tudo mais cru e mais cruel, pois a progressão geométrica da velocidade da parábola em queda livre é cruciante.

Pois é, as nossas crianças vêm, os nossos pais vão... é o vir e o ir, desoladamente inconjugáveis, como aqui e aqui esboçamos.

E me pergunto: afinal, quantas vidas serão precisas para viver tudo o que necessitamos viver com algumas pessoas que tanto amamos, antes delas crescerem e antes delas se despedirem?

Não sei, mas posto que me fio na ideia de uma só, estilhaço-me na realidade.

E ela escancara o quão rápido tudo está a passar.



quinta-feira, 9 de junho de 2016

# anos incríveis



Reconheço que desconheço todo o repertório de Joe Cocker, britânico do blues e do rock´n roll que há pouco tempo morreu.

Mas uma música eu bem conheço -- e ela me é suficiente para dizer que conhecia Joe Cocker.

"With a Little Help from Friends", a canção que explodiu o domingo mais hippie da história, para mim -- que lá esteve apenas em sonhos e viagens surreais -- sempre foi mais do que a grande canção daquele terceiro dia em Woodstock.

Afinal, ela é a eterna música que abre o segundo maior seriado de todos os tempos (depois, claro, deste aqui...).

Falo de "Anos Incríveis", que chegou nas telas da TV brasileira logo no início dos anos 90.

Ele tratava das angústias, das dores, das dúvidas, das desilusões, das conquistas, das paixões, das alegrias e, principalmente, da família e dos amigos de um guri de quase 13 anos -- idade essa que, com o andar das temporadas, ia aumentando, assim como ia envelhecendo quem assistia.

Kevin -- o guri -- e a sua trupe viviam no agitado EUA do final dos anos 60, época em que o mundo entrava numa roda lisérgica de cultura e contracultura, liberdade e repressão, sexo e canhões, drogas, paz, torturas e amor.

Eu -- um guri -- vivia com minha trupe numa outra realidade de tempo e espaço, mas num mesmo momento em que tudo começava a acontecer, a ter forma, a ter cheiro, a ter gostos e desgostos.

A vida, pois, já começava a não ser tão doce.

Kevin e eu, tolos como sói acontecer para mancebos naquela fase, víamos tudo com os olhos de pirraça -- em matéria de olhar as coisas éramos, pois, quase como Capitus e os seus "olhos de ressaca".

Movíamos sob a contestação intransigente da vida em casa e a discussão absoluta com pais e irmãos.

O pai deixava de ser o máximo herói para se ter os superamigos do colégio; a mãe, tinha seu amor roubado pela certeza absoluta da eterna paixão pela menina da sala do lado ou da cantina do recreio; e as irmãs, figuras marginalizadas de uma intratabilidade que se pensava obviamente obrigatória.

Eram assim as certezas de quem saía para o mundo e que tinha no lar uma montanha-russa de amor e ódio, de respeito e revolta, de ninho e túmulo.

E na série da TV quem estava ali era eu, e não Kevin, na ilusão de que a semelhança dos casos e dos diálogos com a própria realidade era exclusividade minha, algo bem típico de quem nesta idade crê que o mundo gira em torno de si, como aqui já lembramos.

Neste fim de noite revendo alguns dos episódios, miro-me na nostalgia exemplar daquele meu tempo.

E para tantas coisas -- inclusive aquelas da montanha-russa do convívio caseiro --, as lembranças são espetaculares, de momentos incríveis de uma época que se poderiam bem repetir por sei lá quantas vezes.

Agora, se por nada trocaria todo aquele tempo em que sempre tive o pai herói, a mãe guardiã e as minhas irmãs como as eternas parceiras desta vida.

Também por nada trocaria esta realidade ao lado da mulher amada e dos meus filhos.

Lá e cá, todos anos incríveis.






quarta-feira, 10 de junho de 2015

# playmobil



E ontem tivemos a notícia da morte do pai dos playmobils (v. aqui).

Lendo-a lembro do menino que em mim se foi, trazendo agora da memória os tantos anos em que meu universo misturava-se naqueles míticos bonequinhos de plástico.

Eu era índio, médico, pirata, pedreiro, xerife, bombeiro, mágico.

Eu era todos, e por tantas longas tardes neles eu materializa as amizades invisíveis que sempre criei.

Enfrentei tropas montadas, prendi bandidos, salvei vidas, descobri tesouros e da cartola tirava todos os meus sonhos que diziam ser impossíveis.

Era a época de tudo simples: ali, bastava trocar o figurino ou a personagem do enredo para então mudar toda a realidade, e ali viajava por velhos oestes, mares, circos e hospitais.

Não via o tempo passar, e numa grande e vazia sala daquela casa passava horas construindo meus mundos, peça a peça, sob a lógica arquitetada por um piá de 6 anos e os olhos de um bigode adulto.

Mas o tempo passa.

E a cada dia mais rápido, vai levando as nossas vidas.

Como levou a do pai dos playmobils, cujo momento merece-me um certo luto.

Afinal, a perda do pai de grandes amigos é sempre muito triste.

Por isso, na próxima viagem à Curitiba levarei meus pequenos filhos a tiracolo na visita que farei às caixas onde todos repousam, num dos armários dos quartos da casa onde cresci – e levarei meu pai junto, é claro.

Como talvez poucos deles ainda me reconheçam  ah, a minha voz e os meus cabelos... –, é pelo fiel grito do meu pai – que desde então nada mudou– que um a um será chamado para então podermos apertar àquelas plastificadas mãozinhas em gancho como nosso sinal de pesar e de acolhida.

Bem, sinceramente já não sei quantos deles lá restarão.

Mas sei que muito do que mim resta ainda está guardado entre eles, na forma de saudade dos longos anos da minha querida infância.



Alguns dos meus visíveis amigos de infância



domingo, 8 de março de 2015

# retratos molhados


Acostumado ao turbilhão de lá, não desabito do meu calmo e bom retiro.

Quando venho, já esmaga a dor da saudade do rio.

Quando vou, jazo como um velho pinheiro dolorido.

Ah, me dera cá e lá viver duplicado, e não numa presença dividida.

Sob um novo atributo da física, estar nos dois lugares ao mesmo tempo.

Ou fundi-los numa mais-que-perfeita ordem espacial.

Queria trazer o sol de julho pra cá, e levar pra lá as noites mais suaves de janeiro.

Trazer a brasilidade e levar a pontualidade, trazer o histórico e levar o bucólico, trazer um centro do mundo e levar o meu centro para o mundo.

O chopp ao mar e a onça do bar.

Mas o que mesmo queria era de novo ter junto toda a minha gente.

A mesma que nas antigas fotos agora revistas sempre parecia nunca se desgrudar.

Ora, nestas fotografias, como disse Tom, estamos sempre tão felizes...

Tira-se, daqueles momentos, tudo o que se vivia e todas as expectativas do que se tinha pra viver.

Dentre elas, a mais inocente era tentar prever o futuro e garantir a alegoria do poeta máximo curitibano: "pinheiro não se transplanta".

E por isso os frutos seriam sincronicamente colhidos e os galhos seriam diariamente podados.

Apertados no cotidiano, sem as interrupções de espaço e tempo, os laços das nossas relações jamais flertariam com o frouxo desenlace.

Entretanto, diante das pororocas da vida, hoje ainda estamos felizes, mas infelizmente longe.

E os amigos que se perdem pelas estradas, os familiares que se vão pelo destino e a parte da Casa que se copacabaniza ou que vira noiva do cowboy pra falar inglês não desmitificam -- e só qualificam -- o poder da saudade.

Por isso, neste ponto, lá e cá parecem estar em eras distintas.

E a cada avião que pego parece uma volta num tempo que jamais recuperarei.


terça-feira, 13 de janeiro de 2015

# uma vontade de chorar

 
 
As lágrimas são muito mais que fluidos que brotam de glândulas por meio de canais e canalículos como resposta do sistema límbico.
 
Chorar é o transpirar da alma, é enxaguar o rosto de sentimentos que nos inundam de amor (ou das tristezas do amor).
 
Hoje chorei a "despedida", aquele facão que de tempos em tempos decepa as nossas raízes para nos mandar para longe, como se capturados pelas mãos cruéis do destino (v. aqui).
 
Porém, mais do que o meu pé calejado de espinhos frente às mudanças, chorei o choro dos meus dois pequenos filhos, deixando a casa dos meus pais e o convívio com toda a família por mais de dois meses.
 
Chorei o choro que eles não choram porque ainda desconhecem a saudade.
 
Não conseguem medir a pausa daquele dia a dia com o avô, as avós, as tias e as primas.
 
E como desconhecem o tempo, parecem não sentir a falta do amanhã.
 
Vivem o hoje, e apenas embaixo do consciente é que devem guardar o cotidiano mágico de todas estas semanas -- e, lá na frente, um dia quem sabe, resgatam-no de uma memória bisbilhotada, numa roda de um churrasco de domingo já sem graça.
 
Agora, portanto, certamente estão longe de entenderem o que significa uma casa de vó, a farra do furdunço em família e a fortuna da farta felicidade com todos na velha casa, como aqui lembramos.
 
Contudo, diante destes meses todos uma coisa não tenho dúvida: do jeitinho mais ou menos silencioso deles bem compreenderam o sentido do "amor total".
 
E por isso as minhas lágrimas, que tanto demoraram pra secar.
 
Afinal, sei bem a falta que aquela casa fará na vida deles.

E a falta que eles farão a ela.



sábado, 3 de janeiro de 2015

# mas não diga nada que me viu chorando

 
 
Partir é arrancar um naco da gente.
 
E não há chegadas que preencham os buracos cavados na alma, afinal, elas vêm, cobrem com a sua viva presença, para em cada partida tudo desviver.
 
Cruel, indigna, ingrata, a partida é merecedora de todos os vitupérios em todas as línguas -- inclusive as mortas.
 
Pois ela maltrata, arde, machuca, sangra, mutila.
 
O que faz da despedida da partida parecer um mergulho numa tina efervescente de cicuta.
 
Contudo, ora, o que seriam das partidas se tratadas fossem com a boçal frieza da normalidade?
 
Ter-se-iam chegadas frias, frígidas, frívolas, trivializadas de modo a serem encaradas com o ar blasé dos hábitos conventuais.
 
E não se teria a falta de ar, a arritmia, a adrenalina e a hemorragia de tanto amor antes represado nas veias que nos fazem chorar lágrimas de felicidade a cada momento de se ver chegar.
 
Mas partir é também levar aquele naco arrancado da gente.
 
E não há melhor antídoto para aquela maldita saudade que juntar e tratar dos nossos pedaços.
 
Pedaços em forma de memórias, melodias, mimos, manuscritos e marmitas.
 
Saudades arrefecidas por aquelas pequenas coisinhas que as chegadas reabastecem cada partida.
 
Então longe, tranca-se num jardim de uma nuvem qualquer para antes lamber e depois plantar, arar e regar aquilo tudo que se carregou.
 
E sem jamais podar, espera-se que do gesto faça crescer, ao infinito do destino, pés de cada um e de cada uma que se deixa nas partidas.
 
Nas despedidas, vê-se, reenchem-se as malas de renovadas mudas de gente.
 
Pois partir parece, mas não é um adeus.
 
É apenas cultivar o amor à distância.



sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

# sabiá e o meu ser de então (fragmentos)

 
 
Não há, oh gente, nem luar e nem nada como na minha Pasárgada.
 
Lá, onde tenho a mulher que eu quero com os filhos que acolherei.
 
É que em Maracangalha, onde de chapéu de palha estou, ainda me sinto um forasteiro, um cowboy fora da minha lei, aquela em que a gente era obrigado a ser feliz.
 
Afinal, disse o conterrâneo poeta, pinheiro não se transplanta, embora o quintal em mar desta Copacabana diariamente se esmere em docemente regar as mudas que dele ali crescem.
 
E agora, neste avião que com razão corro para pegar, vejo chegar de saudade, numa realidade em que sem ela e sem eles já não mais pode ser.
 
E muito em breve como um dia vejo um berço e eu a me debruçar sobre o novo filho que virá, com o pranto a me correr num sonho lindo de morrer -- é querido, não só parece que te direi te amo, pois ainda que afobado não lembre você haverá de saber que eu sempre vou te amar, e chorar a cada ausência e presença suas.
 
E neste moinho da vida hoje triturarei toda a mesquinhez desta distância que me cobre tudo, em chumbo, e que só o coração pode entender, e derreter.
 
Vou voltar, e a solidão vai se acabar.
 
Num acalanto longe do adeus.
 
 
 
 

domingo, 24 de agosto de 2014

# rebenquear

 
 
Dizem que se morre de saudades.
 
No meu caso, acho que prefiro morrer a sentir saudade.
 
Provavelmente alguém já disse isso, se não disse, é porque nunca a sentiu.
 
Sentir a saudade dói porque não cura nem com a sua ausência: não existe "não-saudade" como medida terapêutica.
 
Isso porque nunca não se tem saudade, não importa o tempo em que se fique junto.
 
E não se enganem: a convivência é cruel porque ilude, porque fantasia uma eternidade que não dura senão aqueles momentos, sempre breves, sempre intensos.
 
E quando menos se espera, há a separação, há a distância, e tudo volta à normalidade de alguém sempre rebenqueado das saudades.
 
Saudades, pois, que não podem ser medidas, nem repostas.
 
Para o que só há respostas na arte dos finitos reencontros – e, por isso, a saudade pode sim ser tocada, afinal, a cada momento antes das partidas pegamos, abraçamos, beijamos e tateamos quem vai nos deixar.
 
Até que para ela voltamos, e dela somos inescapáveis.
 
É esta a dimensão absurda da saudade.
 
Que açoita, açoita, açoita, açoita.
 
E nunca para.
 
 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

# um vizinho


Hoje fará 6 pm e não verei o meu novo amigo Francisco.

A soar como surreal, este diário encontro me deixou ter com a figura papal uma intimidade ímpar, quase pecadora.

Afinal, desde quinta-feira, dentre outras rotinas passei a ter uma curiosa: antes do pôr-do-sol, vestia-me – sim, o Rio não está só para bermudas –, calçava uns pisantes e atravessava a minha rua para, a poucos metros, chegar à Av. Atlântica e aguardar a visita do Papa.

Voilà, pontualmente às 5:30 da tarde lá estava ele, passando a um braço na minha frente, esguio, em pé e eufórico, com toda aquela simpatia de vovô contador de causos, sábio e sem pressa no mundo, contente por estar ali com a sua gente e com a saúde renovada de um jovem de setenta e seis anos.

Nuns dias mais rápido, noutros bem devagar, noutros com paradas que meu pareceram eternas, em seu papamóvel o meu platônico amigo trazia nos gestos e no olhar um sentimento indescritível de paz, de otimismo e de alegria.

Era como se ele conseguisse olhar profundamente para cada uma da centenas de milhares de pessoas que formavam todo aquele corredor entre o Forte de Copacabana e o Leme e dissesse: "Que bom te ver!".

E ali, naqueles instantes, era como se estivéssemos sendo olhado por ele, numa injeção de sortidos sentimentos do bem que reanima, rejuvenesce e nos enche de vida. Não eram, enfim, apenas acenos e sorrisos.

Eu acredito que Francisco seja um simples homem, humano e especial como cada um de nós.

Mas é um dos homens mais especiais que já vi – e que por alguns dias morou no meu bairro, quase na minha rua, e que vai deixar saudades...


domingo, 30 de junho de 2013

# um gigante

 
A minha primeira imagem de futebol também foi com a seleção brasileira, em 1982.
 
Lembro-me que, indignado, não entendia a derrota para aquele time azul e o fim da Copa para nós.
 
Arranquei-me da camisa amarelinha, flertei em desbordar o número 8 às costas e disse que nunca mais iria torcer.
 
Até que bem me recordo do meu velho Bigode, vindo até mim na garagem de nossa antiga casa em Curitiba, puxando-me pelo braço e, já comigo no colo, explicando para alguém de 6 anos o que foi aquilo tudo.
 
Dentre outras coisas, confessou-me que Sócrates não iria gostar de me ver ali, triste e sem a camisa – já largada no chão e misturada ao caldo da sujeira de uma festa que não houve.
 
E a notícia dada rapidamente me recompôs da raiva e das lágrimas.
 
Tive, ali, como parte integrante da frustração coletiva nacional, a minha primeira lição da derrota e do que para nós representa o belo e rude esporte bretão.
 
Mas não foi apenas este o retrato que guardo do meu primeiro jogo da nossa seleção.
 
Viva na memória está toda a preparação decorativa, todos os rituais, todos os quitutes, todas as garrafas de cerveja e de gasosa e toda aquela gente que sem parar chegava para o grande evento.
 
Era a Casa cheia, prenúncio e desculpa para uma grande festa, como de praxe toda família de oriundi gosta de fazer.
 
O agito, o barulho, os suspiros, os gritos, as fantasias, os risos, os comentários de toda sorte e de todo azar.
 
E eu, um minúsculo torcedor, a zanzar em frente à tv num ritmo enebriante, achava tudo aquilo o máximo.
 
E passava a achar o futebol o máximo.
 
E passava a achar o máximo ver toda aquela gente amiga e querida junto, aos berros e aos nervos.
 
Éramos uma multidão, que fazia daquela nossa sala o maior estádio do mundo.
 
E foi neste domingo, numa apoteótica amostra de um possível resgate do futebol brasileiro, que toda esta história me veio à mente.
 
Não era a Copa, mas tinha ares de um jogo que parecia querer buscar a nossa redenção como donos da bola.
 
Mas aqui, longe neste Rio de Janeiro, a casa agora era menos cheia.
 
Distante daquela minha gente, a sala já não espumava agitação, barulho, suspiros, gritos, risos e comentários.
 
Neste domingo, para ver o massacre do Brasil contra a melhor seleção do mundo, tive a companhia solitária de um minúsculo cara.
 
Um cara ainda mais minúsculo do que aquele que, em junho de 82, saracoteava do colo ao congote do meu pai.
 
E agora o colo era o meu, e ele não era simplesmente alguém que ainda não vestia uma camisa 8, que ainda não sabia o nome do nosso camisa dez, que ainda não sabia falar “Brasil”, que ainda não sabia o que é um juizfilhodaputa ou uma kaiserbock ou um grito "vâmoquevaidá" e que ainda não sabia sequer zanzar aqui, zanzar acolá...
 
Mais ainda, era alguém que, na viveza dos seus oito meses, nunca se lembrará daquele dia e do que ali se passou, tão-pouco que ali seria a sua primeira ideia visual de futebol.
 
Mas, na verdade, nada disso importou.
 
Porque este alguém, no jeito dele, conseguiu me fazer a amada companhia que precisava.
 
Neste domingo, o Benjamin foi o meu Maracanã.
 
 
 

domingo, 16 de junho de 2013

# desiberna (ou, "o meu portão")


Eis-me aqui, de novo, enfim.

E confesso: pelo andar da minha carruagem, 
esperava não mais voltar.

Mas eis que retorno, com uma motivação que poderia ter surgido de tantas e tantas coisas.
O crescimento do benjamin, o gigante ser que a cada dia toma mais conta de mim. O amor maior do mundo pela mulher amada. As saudades angustiantes do cotidiano com minha família ao sul, mas sempre no centro do meu universo. A falta de minha gabriela. A distância mexicana de uma irmã. A paixão pulsante pelo atlético. Os encontros com tanta gente querida nesta minha nova cidade. Os desencontros com tanta gente querida da minha velha urbe. As regatas com meus chapas, as doses com atroveran e os trucos com gavas e luízes. A minha praia, a minha rua, o meu bar, o meu lar. A minha religião, a minha teologia e a minha libertação. As reflexões, os temores, as idéias, a cólera por tudo o que vem e passa no teatro da minha vida. Os tantos e diplomáticos pedidos, de leste a oeste. O vazio e os fins existenciais. A alta do dólar, o alto da compadecida. A baixa do sapateiro e o baixio das bestas. A crise pela minha abstinência de orelha de elefante com chimichurri. O último bolinho de camarão, de siri, de feijão, de chuva. A próxima roda de choro, viva, gigante. As penúltimas lágrimas. O preço do tomate, dos tremoços, do chicabon, das brahmas extras e das caixas de lenço de papel para onde assoo a minha melancólica alma. A massa ruminante e a baba bovina. A classe média ao molho pardo. O branqueamento de capitais e do futebol. A imprensa marrom e golpista. Os smurfs, os backyardigans, as peppas e os tucanos. As febres, as ânsias, os asnos e as antas. Os meus ídolos, as minhas overdoses. O quase 2014, talvez o último ano do resto de nossas vidas...
Enfim, justificativas não faltam.
Nem tempo, pois vinte e quatro horas são suficientes para tudo.
Inclusive para não fazer nada.
E é este nada que voltaremos a materializar aqui, no coletivo divã deste meu sideral espaço virtual.

En garde!


Eu voltei... para este meu portão, por trás do qual estão algumas das minhas histórias, memórias e segredos




sexta-feira, 10 de outubro de 2008

# e a mana voou

 
E a nossa Gio voou, para a América.
 
Muito mais que as suas roupas de lã, leva o nosso carinho – sempre de prontidão –, as nossas saudades – que, sabemos, é produto tipicamente nacional –, as nossas comidinhas – inovadoras, diferentes, esmeradas –, as nossas arrumações (e desarrumações) da casa, e, particularmente, leva as minhas conversas de cinema e de família, de vinícius e de tom, de história e de química...
 
Enfim, "leva-se", como uma amiga que jamais terei igual.
 
Por isso tudo, talvez, eu até fique um certo tempo mudo, ou, então, chame um mímico para dialogar (e me consolar, com uma caneca de chá...).
 
Mas, acho que não adianta, pois parecerão noites que não terão mais fim...
 
Lépida, sabemos que continuará a andar e a agradar a todos – e isso também nos fará muita falta, diariamente. Daqui, de longe, imagino você, saindo ao luar, com um cowboy, seu novo herói, que só fala inglês e que ambiciona te levar, para o altar, longe de nós seis.
 
Isso aqui, que hoje acontece maninha, me faz lembrar do passado (e da lojinha do "Seu Car"), em que combinávamos um futuro diferente do que aconteceu.
 
Agora, só espero que quando tudo isso acabar, você não pense em nunca mais voltar e que este (nem tão) faz-de-conta não termine assim, com você a sumir no mundo sem pelo menos nos avisar.
 
E, atente, um aviso sério, com certidão passada em cartório do Céu e assinado embaixo '”Deus” (e com firma reconhecida!). Porém, a despeito disso tudo – e da tristeza que não tem mais fim –, não se esqueça de que, pela nossa lei, a gente é obrigado a ser feliz.
 
Seja alhures, ali ou aqui, como hoje uma engenheira de petróleo, como ontem uma professorinha ou sempre como a maior tia de todos os netos que a nossa Casa venha a ter, seja feliz – e todas as noites rezaremos por isso.
 
Eu já fui: uma, duas vezes.
 
E peguei aqueles aviões.
 
E você tinha as suas razões.
 
Agora, é contigo.
 
Mas pode ir tranqüila, pois não direi nada, muito menos que te vi chorando.
 
Apenas te direi para ir com alegria, força e fé, e, para os da pesada, direi que você vai levando...
 
Assim, embora na verdade saibamos que, se puder, você vai ficando por lá, esperamos que, uns dias, mesmo não estando afoita, não esqueça de nos ligar, ainda que seja a cobrar:
 
- "É a Gio, da América..."