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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

# a nova escola: uma revolução



Alguém, um dia, em algum lugar, resolveu fixar um conteúdo programático para ser ensinado nos bancos das escolas do mundo, vasto mundo.

Assim, por toda Oropa, França & Bahia, foi estabelecida uma ordem pedagógico-educacional que, se tinha, hoje não tem qualquer fundamento – a não ser, claro, pelo lógica em si de todo o "sistema", coisa que o velho Marx, com a tese da alienação, já debulhou.

Nesta (des)ordem, cujo sistema de ensino é fruto da escola prussiana de treinar milicos para a guerra, lá do séx. XIX, o mal é manifesto: corrompe-se a energia, trava-se a criatividade e se fulmina a vitalidade de mentes jovens e abertas para o mundo. 


E neste caminho de idiotização robótica do ser humano infanto-juvenil, as ricas contracorrentes são marcadas como símbolos de mera rebeldia, de franca alucinação ou de bruxaria.

São aquelas que encorpam a "educação proibida", a qual pretende desacentuar a escola como "agência seletiva" do mercado e fortalecer a educação como função democratizante da sociedade, não obstante a reprodução social que, fruto de capitais econômicos e culturais absolutamente díspares, sustenta uma cruel desigualdade.

Primeiro, o que se tem em grande parte dos nossos jardins de infância é uma "brincadeira".

São, em regra, galpões pintadinhos de galinhas azuis que num estilo pré-fordista tentam sossegar os nossos pequenos leões, funcionando com um circo baldio no qual palhaços, focas e motoqueiras do globo da morte formam uma massa absolutamente estéril para o que se dispõe.

É, pois, a fantástica loja de depositar crianças que, sob o fanático espírito mercantil da sua líder (a tal "tia-chefe"), promete aos respeitáveis pais um grande espetáculo – mas, sim senhor, ao final entrega apenas a marmelada.

Depois, nos colégios, o que se ensina é um escárnio.

Pior, o que não se ensina é de uma flagrante insensatez, pois tudo vem condensado em saberes enlatados, mímicas da moda e ventriloquismos deterministas que esvaziam o ser humano.

Nas grades curriculares, disparates: em Matemática, passa-se todo um Ensino Médio apresentando (e se estudando) números complexos, polinômios, matrizes, equações de enésimo grau, e por aí vai; em Biologia, é um tal de classes de protozoários pra cá, conteúdo de caules pra lá, mitocôndrias acolá; em Química e Física, se insiste no aprofundamento de cadeias orgânicas, cinética, termologia, fluidostática e de tantos cálculos e fórmulas claramente bizarros e desprezíveis...

E nada, nada disso se aprende, pois não tem aplicação alguma, não tem qualquer importância e não subsiste no universo dos objetivos e na realidade cotidiana dos jovens, futuros adultos e potenciais profissionais.

Pelo contrário, só aguça ainda mais a ojeriza à escola e ao estudo, torna tudo mecanizado e frio e só inibe ainda mais o desenvolvimento mental e humano dos jovens.

E ainda mais grave do que (tentar) ensinar isto tudo, é passar à margem de tantas outras matérias e de tantos outros temas de importância e significado ímpares.

O foco, pois, tinha que ser outro: Filosofia, Política e Teologia, sacrossantas áreas do pensamento.

Porém, essas são apresentadas com desdém, sem padrão e sem a relevância devida.

Esquece-se que são disciplinas cruciais para a compreensão da sociedade e para o (auto)conhecimento, absolutamente vitais para o estímulo à reflexão e para tornar os adolescentes pensadores do que se professa em sala e do que se faz pelo mundo.

Mas, como mal lecionadas, mal trabalhadas e mal conformadas no calendário pedagógico, estes cânones do ideário intelectual moderno são, se tanto, servidos como fast-food, para insossa ingestão (e digestão) dos jovens, então totalmente descomprometidos com as causas e os ingredientes das ciências em jogo.

Além disso, outros tantos esforços tinham que estar concentrados na Língua Portuguesa (a última flor do lácio), nas Línguas Espanhola (uma pátria grande) e Inglesa (o esperanto do mundo pós-moderno global), na Lógica e na Matemática, na História, na Geografia e nas Artes.

Ainda, duas matérias criadas pelo regime militar deviam ser reincorporadas à grade juvenil, evidentemente pelo avesso daquele imposto ditatorialmente: "Educação, Moral e Cívica" e "Organização Social e Política Brasileira", as quais muito contribuiriam para a reformação e reconstrução cidadã de nossos jovens, hoje distantes do mínimo ideal cívico, ético e republicano e da mínima compreensão social e política do Brasil.

Também, uma estrutura de ensino com foco na vocacionalização e a redução do total de disciplinas  fragmentadas, com uma grade que ofereça o mínimo de disciplinas obrigatórias e autonomia para o aluno (e a família) preencherem sozinhos o restante do tempo – já alargado, como no Atlântico Norte – com cursos e matérias optativos em áreas diversas do conhecimento e da cultura.

E, com isso, auxiliar no desabrochamento das "virtudes" de cada um, identificando os talentos vivos e alimentando os sonhos reais de cada jovem.

Mais, a inclusão no conteúdo programático de todo o Ensino Médio de estudos e práticas que apresentem as principais atividades, ofícios e profissões e com elas se relacionem.

Afinal, é aqui, e com o curso de matérias que provoquem a reflexão e o raciocínio dos jovens sobre a vida profissional, que se melhor preparará o caminho e o terreno para as escolhas futuras 
– não será, pois, com este ensino de hoje e as suas toscas aulas de decoração, repetição e ruminação que um adolescente melhor será encaminhado à Medicina, à Música, à Engenharia ou às Ciências Humanas.

Ou há alguma dúvida de que tudo isso é muito melhor, mais importante e mais útil que anos e anos numa carteira ouvindo sobre sistema respiratório de crustáceos, sobre tabela de Linus Pauling, sobre circuitos elétricos e sobre logaritmos?

Mas, é claro, para isso a premissa é mudar o conteúdo das provas de ingresso à universidade e, claro, o próprio fim do fim do ensino colegial: o  "vestibular".

Ora, se mantivermos este sistema em que apenas se ensina 
– ou se dá máxima importância à – tabela periódica, estrutura do caule e equações de terceiro grau, o aluno certamente entrará num faculdade, mas não vai ter parado um momento sequer para refletir e pensar sobre as questões fundamentais da vida.

Por fim, talvez o essencial: a escola em tempo integral, como na maior parte do mundo civilizado ocorre. A transformação do "tempo" para os nossos jovens será o caminho para uma nova vida.

Aqui, portanto, a grande importância e o preponderante papel do Estado, particularmente no plano federal, como principal e renovado meio para se apresentar e cobrar real conhecimento 
– cultural, crítico, valorativo, reflexivo e imaginativo , num terreno que prepare a maior mudança de sempre,  um novo paradigma de educação e de escola: a "Pátria Educadora", como uma dia pretendeu o governo brasileiro (v. aqui).

Portanto, afora base e princípio familiares, será apenas por meio de um Ensino Médio inovador, criativo, alternativo, analítico, participativo e ecoante que conseguiremos ver a mínima transformação na cabeça dos nossos jovens 
– ter-se-ia, pois, uma educação que liberte, a "pedagogia da libertação" que pregava o gigante Paulo Freire.

E essa, pois, seria a nossa pequena revolução.

Caso contrário, abdicando-se de uma real e verdadeira educação, teremos nossa juventude continuamente refém do enciclopedismo vazio de uma escola mercantil e das teses e verdades propagadas pela tv e pelas redes sociais e sob o cabresto do sistema vigente.

Afinal, o que se quer é uma educação que nos ajude a pensar, e
 não uma que nos adestre para obedecer.


You say you want a revolution...


quinta-feira, 21 de abril de 2016

# mea culpa (e a máxima lupa)



O PT, ao menos nos últimos quatro anos, tem errado muito.

Erra e errou tanto que, não fosse este sopro de vida dado pela oposição – tiro pela culatra de um esquema oposicionista montado por bancadas conservadoras, grande mídia e Lava-Jato que a todo custo e aos atropelos ético-jurídicos obstinou-se pela “destruição vermelha” –, provavelmente estaria sem perspectivas para um hipotético 2018.

E só não estará por que Luiz Inácio sairá candidato – desibernando de uma aposentadoria tranquila e pesqueira, viajando o mundo sob o registro histórico de ter deixado a presidência com um índice de aprovação (ótimo/bom) de quase 85% – e com ele a devoção quase messiânica que arrasta uma multidão eterna e justificadamente grata.

Afinal, nunca antes nesse país os pobres fizeram tão parte do orçamento público, nunca antes alguém resolveu encarar tão a sério a miséria, a fome e a seca que marcavam a ferro a “vida” de milhões de brasileiros.

Entretanto, não deveria precisar do socorro dele.

Bastaria, naquele auge, ter começado a pavimentar outro caminho, radical na democracia e na busca por uma sociedade mais igualitária.

Embora tenha sido essencial para, lá atrás, ter ganho a eleição e a governabilidade, já era tempo do PT ter repensado a estratégia e, aos poucos, ir desprezando o tradicional jogo político de coligações inchadas e coalizões vazias, de barganhas pantanosas e conchavos chatos
jogo por todos jogado mundo afora, numa comodidade diabólica que afoga fingindo afagar.

E assim se (re)aproximar, como tatuagem, das suas bases sociais, populares e ideológicas, única solução sadia e robusta para se governar com autonomia, altivez e segurança.

Tratou-se, portanto, de uma questão de escolha.

E pelas veredas escolhidas, ainda que em parte resultado da traição e da perversão de muitos e não obstante os tantos programas que assistem a tanta gente, os frutos que antes eram colhidos em abundância agora parecem se liquidificar, evaporar, findar.

Uma liquidificação consequência da miopia político-institucional inapta para entender as reformas necessárias para a transformação nacional.

E não me refiro às "reformas" boicotadas por um Congresso Nacional desqualificado, mas àquelas que o Governo jamais apresentou e que obviamente se justificam pela comunhão de interesses a que se subjugava – e que, mesmo depois de 2006, jamais se preocupou em descontruir.

Uma evaporação motivada pela acomodação de ideias e de pessoas, imaginando que as políticas públicas e os programas de governo implementados com o grande êxito da primeira década bastariam por si, infinitamente, estagnando o progresso de pautas tão caras à esquerda.

E não me refiro às "pautas-bomba" promovidas por este Congresso Nacional descompromissado com o país, mas àquelas fundamentais para desacorrentar a massa pobre, precarizada e periférica do círculo vicioso que bens materiais e diplomas sem lastro são incapazes de suplantar.

Um fim do modelo de desenvolvimento e de Estado crente em tortas avaliações de interesses: os pequenos e médio negócios reféns dos desejos do grande capital e do rentismo, a produção do campo de cócoras diante da superprodução do agronegócio, a indústria nacional à mercê do fetiche das commodities e da globalização e a realidade dos fatos e do interesse públicos escondida numa mídia privada e pirata.

E não me refiro, assim, a um modelo de paz-e-amor, necessariamente republicano e democrático, até meio frouxo perante alguns interesses e meio vacilante em firmar certas posições, mas às ideias centrais de uma esquerda cujo vermelho tanto tem desbotado e se apequenado que aquela onda popular responsável pela vitória nas eleições já nem mais consegue enxergá-lo.

Ora, arrocho não é política de ajuste econômico; descuidar da indústria nacional, das relações de trabalho e da gestão das empresas públicas não são políticas de desenvolvimento; não tributar e não controlar o grande capital não é política fiscal; não promover reforma agrária, reforma urbana, reforma habitacional e reforma tributária não são políticas sociais; manter-se refém de grupos midiáticos e cristalizar os latifúndios da comunicação não são políticas que fomentam a democracia e a liberdade de expressão. 

Não se enfrenta o capital vadio – bancos, especuladores e monopólios – sem ações e políticas construtivistas que desafiem destinos e libertem os brasileiros do jugo conservador arquitetado pelo pensamento refratário às mudanças estruturais.

Não se enfrenta a sanha mercantil dos cartéis e dos grandes grupos econômicos sem um Estado forte e com serviços públicos de qualidade, que sirvam de real alternativa (ou solução) aos caros e péssimos serviços privados e privatizados – bem distantes, pois, desta pútrida lógica de "agências reguladoras" em um pseudo-Estado que nada regula – e como chave para reorganizar um novo ciclo de desenvolvimento.

Não se enfrenta um ranço feudal, patriarcal e conservador sem alternativas, sem experimentalismo, sem imaginação e sem transformação institucional, capazes de empoderar técnica e politicamente a massa e de redesenhar as relações público-privadas.

Não se enfrentam quinhentos anos de periferia, de plutocracia e de preconceitos sem um firme projeto nacional que abrace o passado, dê asas para o presente e concretize um novo futuro para a nossa gente.

Portanto, esse elenco de graves falhas e omissões do PT durante os últimos anos não pode mais ser tolerado.

O que não significa, contudo, o seu réquiem.

Afinal, esse projeto e essas ideias para o país jamais caberão no ideário da direita, dos conservadores e da turma que, por exemplo, hoje faz a "revolução moral" no Brasil.

Eles pulsam, sim, nas veias de partidos e programas progressistas, de uma esquerda comprometida, desacomodada e não festiva.

E é aí que o PT – e toda a linha de centro-esquerda brasileira – precisa voltar a se encaixar.

Por isso, o que acabou é este "modelo" – outrora exitoso , com base em commodities e consumo, em planos sôfregos para o chão e cômodos para o teto.

O que acabou é o tempo de se cozinhar em banho-maria toda a vitalidade brasileira que agora exige chama e pressa.

O erro, contudo, foi não querer enxergar esse escorrer da ampulheta.

Inclusive porque, se mudanças estruturais e conceituais dependem de crises para serem implementadas, a "crise" estava aí, dentro, pulsante.

E restava-lhe trabalhar no caos, diante do qual pouco poderia ser feito.

Porém, caberia ao Governo fazer deste pouco, muito.

Tratava-se, portanto, de dimensão e perspectiva.

E de uma corajosa vontade.



quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

# petróleo, patrimônio nacional



A Petrobras é a maior produtora de petróleo do mundo entre as empresas de capital aberto e a espinha dorsal do desenvolvimento brasileiro.

Foi com tal desiderato, inclusive, que Getúlio Vargas não arrendou o pé enquanto não pudesse oficializar que "o petróleo é nosso".

Logo, desde sempre o ouro negro foi objeto de desejo dos abutres internacionais.

E, claro, dos conservadores nacionais, que sempre preferiram arrendar as nossas riquezas ao invés de nelas trabalhar.

Este, a propósito, é outro drama do nosso capitalismo de araque, pois, não apenas arredio à competição -- a tendência do capital é o "monopólio", bem disse Marx --, no nosso caso ainda não se quer trabalhar por ele, preferindo-se o cômodo e nefasto "rentismo".

Ora, ainda ter a Petrobras como coisa nossa, como propriedade da sociedade brasileira -- apesar de todos os pesares que advieram com a grande abertura do seu capital -- provoca as mais coceguentas urticárias nas multinacionais e na direita de plantão, a reboque de estratégicos interesses de países como EUA e Inglaterra.

E é por isso que tanto se detona a nossa empresa e que tanto se quer enfraquecê-la, a ponto de torna-la tão frágil que caia sozinha (ou que a venda se torne a única opção...).

Afinal, não restam dúvidas de que os canalhas que roubaram -- e que sempre roubaram, nos mesmo cargos e com outros nomes -- lá de dentro merecem a mais exemplar e severa punição, made in China, diria.

Mas, bem ao contrário do disseminado pela grande mídia nativa, não se deve promover a xepa do petróleo brasileiro.

Há muita coisa de crucial interesse político nacional, que diz respeito à nossa soberania e às nossas riquezas históricas, e que jamais poderíamos flertar em perdê-las.

Sim, não restam dúvidas de que a empresa precisa criar e consolidar ferramentas e mecanismos de controle, não apenas nas áreas de licitações e contratos, mas em várias outras, algumas absolutamente estratégicas e mais importantes -- como aquelas ligadas à tecnologia do pré-sal e aos assuntos geoeconômicos; contudo, daí a misturar alhos com bugalhos corre uma distância abissal.

Ora, confundir a atitude destes calhordas ladrões com um sangramento que fulmine toda uma empresa é estratégia ideal da turma que sempre quis uma "Petrobrax" -- como nos anos de FHC, e sua ode às privatizações -- e que ainda não engoliu a decisão de Lula com o modelo de partilha da produção, que coloca a nossa empresa como operadora única do pré-sal.

A Petrobras é muito, muito maior que estes bandidos presos e acusados dos mais diversos crimes.

E não se trata apenas das bilionárias receitas que se seguirão com as descobertas do pré-sal -- em cujo domínio a expertise brasileira é a maior do planeta -- e cuja aplicação será exclusivamente na educação e na saúde públicas.

A Petrobras é uma criadora e difusora de alta tecnologia, de investimentos e de produtividade que beneficiam toda a economia brasileira -- a cadeia produtiva e comercial do petróleo e do setor naval, por ela liderada, representa mais de 10% do nosso PIB, é a nossa principal âncora da indústria de bens de capital, em especial porque dá ênfase às políticas de conteúdo local, ou seja, de contratar e transferir conhecimento internamente.

Enfim, a Petrobras é vital e um dos segredos para o desenvolvimento nacional, razão pela qual não aceita corrupção e nem entreguismo.

E fortalecê-la com mãos de ferro é a nossa única opção.



 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

# a retórica e os mitos


Números e mais números bem podem resumir os governos do PT e do PSDB, como aqui e aqui se mostra e cujos estudos abaixo reproduzimos.

Números, entretanto, que não podem falar por si, pois a ciência em jogo não é uma ciência “positiva”, não é uma ciência “neutra” em relação aos fins, não é uma ciência "apolítica”. Afinal, esta ciência, muitas vezes adornada com elegantes e sedutoras construções matemáticas -- para dar um ar de ciência “séria” e “infalível”, ignorando ou não querendo assumir que a matemática não é uma ciência, mas uma lógica --, mostra-se muitas vezes um “deserto de pedras”, onde não há lugar para os homens de carne e osso, como ensinou o Prof. Avelãs Nunes no prefácio desta obra aqui.

Por isso, para muito além dos números, é todo o manancial da economia politica que melhor diferencia a gestão e as políticas do PT e do PSDB.

Mesmo assim, entretanto -- e já pela enésima vez --, dando ouvidos aos pragmáticos, vamos aos números, os quais desmentem toda a desfaçatez que rodeia o discurso tucano, criando lendas que, pelas vozes midiáticas, transformam-se em verdades.

Entre 1995 e 2002 -- com FHC (PSDB) no governo --, a "renda domiciliar" per capita caiu, segundo  dados do IBGE (Pnad), fulminando a tese tucana de que, por meio da privatização de estatais, da desregulamentação do mercado de trabalho e da liberalização comercial e financeira se ampliaria o papel do mercado e da competição para então selecionar os melhores e punir preguiçosos, prometendo crescimento.

Pelo contrário, a partir de 2003 -- com os governos de Lula e Dilma (PT) --, a "renda domiciliar"  aumentou mais de 50%, com a recuperação do papel do Estado, conforme o próprio IGBE aponta.

Depois, a "desigualdade", com base no Coeficiente de Gini, enquanto se manteve inalterada com o FHC, caiu 10% com Lula e Dilma diante da valorização do salário mínimo, da defesa e formalização do emprego e ampliação do gasto social

Na "educação", o PSDB vetou o 1º Plano Nacional de Educação (PNE), que determinava investimentos de 7% do PIB até 2010, deixou o País sem meta de financiamento e concluiu mandato com 3,5% do PIB; em 2014, Dilma aplica 6,4% do PIB em educação e sanciona o 2º PNE com destino de 10% do PIB até 2024. Ainda neste tema, Lula e Dilma promoveram a significativa ampliação das transferências de renda condicionadas à matrícula escolar, além de bolsas e crédito subsidiado para ensino técnico e universitário e a criação de 18 novas universidades federais -- contra zero com FHC -- e 178 novos centros universitários. Com isso, as matrículas no ensino superior elevaram-se de 2 milhões (2002) para 7,5 milhões (2014), complementados por 8 milhões de alunos no Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec).

A respeito da "dívida pública", essa explodiu no governo FHC -- e não pela assunção de dívidas passadas não contabilizadas, mas, sim, pelos juros mais altos do planeta e títulos indexados em dólar para evitar a crise da âncora cambial, naquela conhecida artimanha antes da reeleição tucana, em 1998. Assim, entre 1995 e 2002, a correção cambial e os juros altos contribuem com mais do que cinco vezes o valor da dívida... e que só não aumentou mais por causa das privatizações e do superávit primário, pedras angulares da gestão do PSDB.

Sobre "inflação", o PSDB conseguiu reduzir a inflação a menos de 2%  a.m. em 1998, às custas de juros bizarros e muito arrocho para o trabalhador; mesmo assim não conseguiu mantê-la nesse nível e, no fim do governo inflação chegou aos 12%, quase o dobro dos 6,5% que temos hoje com Dilma, que a manteve sempre dentro das metas, mesmo aumentando os salários e garantindo mais direitos aos trabalhadores.
 
Em relação ao "desemprego", Dilma, em 4 anos, criou mais postos de trabalho do que FHC em 8: uma média de 1,8 milhões ao ano, contra 620 mil na era tucana. O Brasil de Dilma tem as menores taxas de desemprego da sua história: 5,4% em 2013, contra 12,2% no fim do governo do PSDB. E isso enfurece os donos do capital, pois desemprego baixo aumenta o poder de barganha do trabalhador, que não se sujeita a qualquer trabalho e por qualquer valor.
 
Quanto ao "salário mínimo", as diferenças são vexatórias: no fim do governo do PSDB (2002), o mínimo era de R$ 200, o equivalente a 1,4 cesta básica; hoje, é de R$724, o que permite comprar 2,2 cestas básicas. Ou seja, 65% a mais do poder de compra do trabalhador. Em dólar, o contraste é constrangedor: com os tucanos, em 2002, o salário mínimo valia 86 dólares, com Dilma, em 2014, vale 305 dólares.
 
No tocante aos "juros", cuja política tanto impacta o bem-estar financeiro do trabalhador e tanto contribui para os negócios, vê-se claramente o que move cada uma das gestões. No tempo do PSDB, a política de juros exorbitantes -- os maiores do planeta -- era o paraíso para o grande capital vadio e baldio: a taxa foi de 45% ao mês no fim do governo. E quem era o Chefe das Finanças na época? Armínio Fraga, o responsável pela elaboração do programa econômico de Aécio e candidato oficial a futuro Ministro da Fazenda. Já nos governos do PT a ciranda foi outra. E  Dilma mudou as regras da poupança e usou os bancos públicos para baixar muito os juros e pressionar os privados a seguirem, chegando em 2% ao mês e, hoje, em 11% ao ano, o que ainda é ruim.
 
E agora mais uma sopa de números, cujas fontes estão aqui e aqui:
 
- Produto Interno Bruto => R$ 1,48 trilhões (2002) e R$ 4,84 trilhões (2013)
- PIB per capita => R$ 7,6 mil (2002) e R$ 24,1 mil (2013)
- Investimento Estrangeiro Direto (em dólares) => 16,6 bilhões (2002) e 64 bilhões (2013)
- Reservas Internacionais (em dólares) => 37 bilhões (2002) e 375 bilhões (2014)
- Gastos Públicos em Saúde => R$ 28 bilhões (2002) e R$ 106 bilhões (2013)
- Valor de Mercado da Petrobras => R$ 15,5 bilhões (2002) e R$ 104,9 bilhões (2014)
- Lucro médio da Petrobras => R$ 4,2 bilhões/ano (PSDB) e R$ 25,6 bilhões/ano (PT)
- Capacidade Energética => 74.800 MW (2001) e 122.900 MW (2013)
- Falências Requeridas (em média/ano) => 25.587 (PSDB) e 5.795 (PT)

São, pois, números...

Que não podem -- e nem devem -- dizer tudo, mas algo dizem.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

# reino da república


Assim que conheci a Escandinávia particularmente os reinos da Dinamarca, Suécia e Noruega , disse ter encontrado o maior e melhor Estado de Bem-Estar Social do planeta.

E mais: disse que, se é possível existir a Utopia, essa terra seria aquele conjunto ali, com mais uma ou outra praça mundo afora.

E não falo à toa, pela imaginação fértil da viagem, pelo deslumbramento do que se vê nas ruas, parques, praças, casas e pessoas escandinavas ou, ainda, pelas explicações e revelações da gente nativa.

Falo também por isso tudo, é claro, mas é possível falar principalmente pelos números, pelas pesquisas e pelos estudos que desnudam a vida, a sociedade e o Estado nas terras vikings.

"Índice de Desenvolvimento Humano", "Taxa de Sonegação Fiscal", "Número de Homicídios", "Dados de Saúde Pública", "Pesquisas de Satisfação de Vida", "Estatística de Crimes contra a  Ordem Financeira", "Índice de Felicidade", "Estudos de Eficiência e Eficácia Educacional", "Ecologia e Sustentabilidade", "Modo de Relacionar Capital e Trabalho", "Coeficiente de Gini" e "Mulheres Lindas e Simpáticas".

Em tudo e em todos os levantamentos, a Escandinávia é praticamente imbatível.

E por aqui alguém fala nela? A grande mídia se debruça sobre isso? E a nossa política? E os donos do poder? E a turma da grana? E a classe média?

Não. Para quase toda esta gente, o modelo, o paradigma e o fim é os Estados Unidos da América. Por quê?  

Ora, porque lá como aqui, o vale-tudo é permitido, a falácia da "meritocracia" hipnotiza todos e o ter supera tudo, diz tudo e vale por tudo. 

Porque lá como aqui a desigualdade é aceita como lógica do sistema, o Estado é proibido como um mal patológico e o mercado é louvado como um ser mitológico; o consumo é supra-humano, políticas sociais são desumanas e o umbigo é o ser humano.

Porque lá como aqui, educação, saúde, segurança, transporte, energia, a água... a vida deve ser privatizada, vendida, comprada, mercantilizada, se quiser alçar voo. 

Porque lá como aqui, impera a sociedade de vencedores e vencidos, de bem-nascidos e mal-nascidos, de encastelados e periféricos, e cada qual deve se suportar e se convencer desta efeméride. 

Ora, não agrada aos nossos "donos do poder" que um Estado seja a cabeça pensante e organizadora da realidade nacional, que uma sociedade se reveja, se refaça e se reconstrua para socializar o bem-estar.

E como na Escandinávia a educação é exclusivamente pública, a saúde é eminentemente pública, o mercado participa no que deve participar, a desigualdade alcança níveis monásticos, todos pagam tributos e os ricos pagam mais tributos que todos e todos vêm (quase) tudo funcionar, todos defendem e compartilham da res publica e, fundamentalmente, todos se veem como cidadãos.

E já aqui este grande segredo: mesmo sob monarquias, estes países conseguem estabelecer que a virtù está também nos seus cidadãos, e assim adorar um dos máximos princípios – ou "molas", como ilustra Bobbio – que movem as repúblicas.

Por fim, e por tudo, todos acreditam no Estado.

Estado que aqui é motivo de chacota, asco e ódio – e por culpa dele próprio, mas que infelizmente apenas reflete o jeito da maioria da nossa gente.



quarta-feira, 31 de julho de 2013

# ver e reparar


Na epígrafe de "Ensaio sobre a cegueira", José Saramago traz: "Se podes olhar, vê; se podes ver, repara".
 
Bem, como já dissemos aqui, o Brasil progride e se constrói no caminho do desenvolvimento.

E a divulgação dos dados sociais e econômicos mais recentes – o famoso Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos Municípios – mostra que em vinte anos isto se deu de forma notável (v. aqui).

De Itamar/FHC a Lula, o país mudou e melhorou como nunca.

E por isso que aquelas malfadadas e genéricas manifestações, apartidárias e acéfalas, contra tudo e contra todos, mostram-se cada vez mais nonsense e perigosas – como alertou o Papa Francisco, ao lembrar que a juventude não pode ser “manipulada” (v. aqui) –, num processo contrário e confuso cuja origem e consistência aguardam explicações, mas que já consegue apontar razoáveis vestígios de segundas intenções.

Se descuidados ou alienados, a análise do que se via nas ruas era de um país apocalíptico
como se fôssemos uma Islândia tropical ou uma Grécia quinhentistacuja monstrenga mobilização era apenas um claro movimento contra um lugar aos frangalhos, em atraso insuportável, num momento histórico de tragédia e a sucumbir no leito de morte. Amém.

E eis que os dados – os números! – sociais e econômicos mais recentes mostram que nestes vinte anos o Brasil avançou de modo notável.

O primeiro fato: o IDH avançou quase 50% e saiu do patamar “muito baixo” para um nível “alto”.

Outros fatos: a desigualdade caiu e a expectativa de vida aumentou.

E o maior fato: a qualidade de vida tinha nível “muito baixo” em 85% das cidades e hoje essa classificação envolve apenas 0,6% dos nossos municípios.

Sim, é um negócio muito sério. Hoje, de cada 200 municípios brasileiros, apenas 1 (um) tem um nível de desenvolvimento muito baixo.

Infelizmente, ainda temos grandes distorções geográficas de (i)mobilização social, pois se percebe a discrepância entre Norte e Sul, mas não se pode querer admitir que não houve progresso e que a coisa não se ajeita.

E aqui não partidarizamos a discussão e não fatiamos os dados, afinal, um fato justificante é de clareza solar: o progresso ocorreu na esteira de 25 anos de regime democrático, o maior da nossa história.

Outra razão: a Constituição de 1988, que trouxe inúmeros direitos sociais e que consagrou como objetivos fundamentais da República a construção de uma sociedade justa e solidária, a garantia do desenvolvimento nacional, a erradicação da pobreza e da marginalização, a redução das desigualdades sociais e regionais e a promoção do bem de todos (art. 3o).


E,  piano, piano, tais fins o nosso Estado vai buscando e tirando-os do papel.

Porém, isso não se constrói com o Estado mínimo e terceirizado, com o mercado onisciente, com as sete maravilhas da iniciativa privada, com métodos empresariais de gerir a coisa pública, com a turma do impostômetro e do establishment, com ortodoxia econômica e com a maximização do “laissez faire”.

E, obviamente, também não se forma um grande Estado com oligarquias políticas coronelescas, com instituições frágeis e agrupelhadas, com servidores públicos incompetentes e velhacos, com alianças espúrias e políticas públicas conservadoras, com crimes contra a Administração Pública e com a desídia confortável do “laissez passer”.

E é aí que está o problema.


Afinal, nas ruas e na grande mídia o que se vê é toda uma gente querendo abrir bem os olhos para estas últimas, e apenas as pernas para aquelas primeiras.

Pois ficamos com Goethe, ao gritar no seu leito de morte: "Licht, licht, mehr licht!".



terça-feira, 5 de outubro de 2010

# navegar é preciso



fds As medidas anunciadas recentemente em Cuba não significarão o fim do socialismo, e não se tratam, em absoluto, de mera conveniência midiático-política.

fds Muito mais que uma forma ou um sistema sócio-político-econômico – e muito menos que uma mera utopia mecanicista –, o socialismo é um valor. E, por isso, já enraizada numa sociedade que há 50 anos vê-se construída sobre pilares éticos e principiológicos, públicos e privados, comunitários e particulares, bastante diferentes daqueles sob os quais as sociedades capitalistas – auto-afirmadas evoluídas – firmam-se.

fds Tratá-lo um ser humano como um ser político e coletivo por natureza, reafirmá-lo como livre e igual e fazê-lo fraterno e solidário, foi, senão os maiores, os grandes méritos da revolução e da reconstrução do Estado e da sociedade cubanos.

fds Tanto para aqueles que pensam Cuba como uma falida e falsa ilusão, como para aqueles que zombam por pretenderem-na o protótipo imaculado do paraíso, neste nosso sideral espaço virtual já nos debruçamos e pusemos a nu os gravíssimos erros de tais concepções (v. aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).
 
fds Ora, acreditar numa ou noutra definição, absoluta, é, antes de tudo, ser uma besta quadrada, pois, como tudo que transcende o dogmático, Cuba tem erros e acertos, é exemplo e mau-exemplo, é êxito e fracasso.

fds As propostas e as medidas de despedir meio milhão de trabalhadores estatais, de incentivar as pequenas iniciativas privadas, as cooperativas e os trabalhos autônomos, de absorver as evoluções tecnológicas, de reduzir ou eliminar gratuidades e subsídios indiscriminados, de ampliar o mercado interno, de promover o arrendamento de terras e de pequenos estabelecimentos a seus trabalhadores, de potencializar os seus recursos humanos altamente qualificados, de coprotagonizar as técnicas tributárias e monetárias, e de flexibilizar o trânsito de cidadãos. A grande meta – tardia, sublinhe-se – de tais políticas é recuperar a sustentabilidade e a eficiência da economia cubana, que vem se deteriorando aceleradamente desde a franca recuperação pós-Período Especial – como se denomina a época que se seguiu à queda da União Soviética – e, em especial, normalizar os efeitos causados pela hipertrofia do sistema comunista como projeto socialista.

fds Tais idéias – idéias postas em prática –, em nada, porém, se confundem com a perda do poder estatal, com a perda da propriedade pública sobre os meios de produção fundamentais e, principalmente, com a perda dos valores socialistas, tão impregnados na sociedade e tão cruciais para as políticas públicas do país.

fds E, por isso, tais transformações têm no protagonismo popular pluripartite (forças populares, sociais, sindicais, estatais etc.) o seu foco e a sua força causal, e não no tecnocracismo que despreza o consenso real e os interesses legítimos dos diversos atores sociais – bem distante, portanto, do que se costuma observar nas ditas "democracias ocidentais".

fds Nunca a definitiva solução ou a cega negação, o socialismo assente no comunismo cubano é um caminho, um caminho de todos e um camiño muito mais justo, sempre sob a inolvidável máxima que exige “de cada um segundo as suas capacidades e a cada um segundo as suas necessidades”...



 

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

# aspas (xxxiv)


fds Leonardo Boff é magnífico em seus textos e conversas.
fds E a "Teologia da Libertação", que ajudou a construir com diversos outros católicos e teólogos latino-americanos, é ainda mais magnífica, pois é a que (talvez) melhor materialize o ideário cristão e uma daquelas que (talvez) melhor interprete a nossa Bíblia Sagrada.
fds Isso, pois, são fatos que a história posta insiste em negar, tergiversar e omitir. Tal como é posta a histórica relação dos donos do poder com a grande mídia nativa.
fds Assim, este texto do filósofo vem de novo (tentar) abrir os olhos dos ainda brancamente cegos. E sobre o assunto nada mais precisa ser dito (v. aqui).

fds Sou profundamente pela liberdade de expressão em nome da qual fui punido com o “silêncio obsequioso” pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o “Brasil Nunca Mais”, onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.
fds Esta história de vida me avalisa fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a midia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de ideias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.
fds Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando veem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública. São os donos de O Estado de São Paulo, de A Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja, na qual se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e chulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um Presidente que vem desse povo. Mais que informar e fornecer material para a discussão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição.
fds Na sua fúria, quais desesperados e inapelavelmente derrotados, seus donos, editorialistas e analistas não têm o mínimo respeito devido a mais alta autoridade do país, ao Presidente Lula. Nele veem apenas um peão a ser tratado com o chicote da palavra que humilha.
fds Mas há um fato que eles não conseguem digerir em seu estômago elitista. Custa-lhes aceitar que um operário, nordestino, sobrevivente da grande tribulação dos filhos da pobreza, chegasse a ser Presidente. Este lugar, a Presidência, assim pensam, cabe a eles, os ilustrados, os articulados com o mundo, embora não consigam se livrar do complexo de vira-latas, pois se sentem meramente menores e associados ao grande jogo mundial. Para eles, o lugar do peão é na fábrica produzindo.
fds Como o mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma),
“a maioria dominante, conservadora ou liberal, foi sempre alienada, antiprogresssita, antinacional e não contemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes, nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de tudo - Jeca Tatu; negou seus direitos; arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação; conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que contiua achando que lhe pertence (p.16)”
.
fds Pois esse é o sentido da guerra que movem contra Lula. É uma guerra contra os pobres que estão se libertando. Eles não temem o pobre submisso. Eles têm pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascedente como Lula. Trata-se, como se depreende, de uma questão de classe. Os de baixo devem ficar em baixo. Ocorre que alguém de baixo chegou lá em cima. Tornou-se o Presidente de todos os brasileiros. Isso para eles é simplesmente intolerável.
fds Os donos e seus aliados ideológicos perderam o pulso da história. Não se deram conta de que o Brasil mudou. Surgiram redes de movimentos sociais organizados, de onde vem Lula, e tantas outras lideranças. Não há mais lugar para coronéis e para
“fazedores de cabeça” do povo. Quando Lula afirmou que “a opinião pública somos nós”
, frase tão distorcida por essa mídia raivosa, quis enfatizar que o povo organizado e consciente arrebatou a pretensão da midia comercial de ser a formadora e a porta-voz exclusiva da opinião pública. Ela tem que renunciar à ditadura da palabra escrita, falada e televisionada e disputar com outras fontes de informação e de opinião.
fds O povo cansado de ser governado pelas classes dominantes resolveu votar em si mesmo. Votou em Lula como o seu representante. Uma vez no Governo, operou uma revolução conceptual, inaceitável para elas. O Estado não se fez inimigo do povo, mas o indutor de mudanças profundas que beneficiaram mais de 30 milhões de brasileiros. De miseráveis se fizeram pobres laboriosos, de pobres laboriosos se fizeram classe média baixa e de classe média baixa se fizeram classe média. Começaram a comer, a ter luz em casa, a poder mandar seus filhos para a escola, a ganhar mais salário, em fim, a melhorar de vida.
fds Outro conceito inovador foi o desenvolvimento com inclusão social e distribuição de renda. Antes havia apenas desenvolvimento/crescimento que beneficiava aos já beneficiados à custa das massas destituídas e com salários de fome. Agora ocorreu visível mobilização de classes, gerando satisfação das grandes maiorias e a esperança que tudo ainda pode ficar melhor. Concedemos que no Governo atual há um déficit de consciência e de práticas ecológicas. Mas, importa reconhecer que Lula foi fiel à sua promessa de fazer amplas políticas públicas na direção dos mais marginalizados.
fds O que a grande maioria almeja é manter a continuidade deste processo de melhora e de mudança. Ora, esta continuidade é perigosa para a mídia comercial que assiste, assustada, ao fortalecimento da soberania popular que se torna crítica, não mais manipulável e com vontade de ser ator dessa nova história democrática do Brasil. Vai ser uma democracia cada vez mais participativa e não apenas delegatícia. Esta abria amplo espaço à corrupção das elites e dava preponderância aos interesses das classes opulentas e ao seu braço ideológico que é a mídia comercial. A democracia participativa escuta os movimentos sociais, faz do Movimento dos Sem Terra (MST), odiado especialmente pela VEJA, que faz questão de não ver; protagonista de mudanças sociais não somente com referência à terra, mas também ao modelo econômico e às formas cooperativas de produção.
fds O que está em jogo neste enfrentamento entre a midia comercial e Lula/Dilma é a questão: que Brasil queremos? Aquele injusto, neocolonial, neoglobalizado e, no fundo, retrógrado e velhista; ou o Brasil novo com sujeitos históricos novos, antes sempre mantidos à margem e agora despontando com energias novas para construir um Brasil que ainda nunca tínhamos visto antes?
fds Esse Brasil é combatido na pessoa do Presidente Lula e da candidata Dilma. Mas estes representam o que deve ser. E o que deve ser tem força. Irão triunfar a despeito das más vontades deste setor endurecido da midia comercial e empresarial. A vitória de Dilma dará solidez a este caminho novo ansiado e construido com suor e sangue por tantas gerações de brasileiros.


 
fds

sábado, 21 de novembro de 2009

# hybris & sophrosyne


Na reportagem da penúltima edição da maior revista de economia e finanças do mundo, a inglesa "The Economist" (v. aqui), diz-se que o maior perigo do Brasil é a "húbris" (ou hybris).

Este é um conceito grego que alude a uma confiança excessiva, à presunção e à insolência, que com frequência termina sendo punida.

Em oposição a isso está a "sofrósina" (ou sophrosyne), a virtude da prudência, do bom senso e do comedimento, que significa o autocontrole e a moderação guiados pelo verdadeiro autoconhecimento.

Ora, nem lá nem muito cá, o Brasil precisa, na verdade, continuar nesta marcha de reexame, de "conhecer-se a si mesmo", mas com a ousadia e a autoconfiança necessárias para sair da armadilha ideológico-conceitual que enxerga o binômio “capitalismo-democracia” nos moldes que a elite política e intelectual dos países ricos pseudocultiva.

Em suma, o Brasil deve evitar os excessos das ideologias ocidentais.

Na crise neocapitalista mundial, que ainda não chegou ao fim, faz-se a hora de levantarmos a cabeça e colaborar na construção de outro modelo de economia e filosofia política que não se deixe prender nos limites da cobiça sem limites, do consumismo sem limites e do também ilimitado laissez-faire.

O Brasil, com todas as nações em desenvolvimento e que refutam o pensée unique global, deve fixar como objetivo o adequado equilíbrio entre mercado e Estado, entre necessidades individuais e coletivo-estatais, entre igualdade e eficiência, entre crescimento material disforme e crescimento humano solidário, e entre alimentar os negócios inovadores e seus empresários, ao mesmo tempo que se alimenta toda a população com os direitos humanos fundamentais.

Aqui, portanto, não se deve temer a hybris, mas sim acomodá-la com a sophrosyne.

Eis então o caminho para o justo desenvolvimento de um país verdadeiramente soberano.