quarta-feira, 25 de março de 2015

# praxes e trouxas



Surge à tona a questão dos "trotes", quando a mídia vem mostrar as festas & festividades nas quais os calouros universitários são castigados, humilhados e coisificados, como aqui.

Coitados?

Lembro-me bem do meu tempo universitário, e acho meio óbvia a questão: tanto quanto os "veteranos", os grandes idiotas dos casos são também os próprios calouros.

Afinal, por que ir aos tais eventos de boas-vindas promovidos privativamente pelos veteranos?

E, ainda que de modo masoquista queiram lá ir, por que aceitar, serenos e cordiais, a submissão animal a eles imposta?
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Trata-se de óbvio ululante que, nos primeiros meses de vida universitária, toda reunião extramuros tem por alvo esculhambar com os calouros.

Cocô, lixo, blush, tinta, mijo, raspagens, agressões, lesões, roubos e extorsões, tudo conspira para que os calouros sejam humilhados.

Repergunto: por que ir nestes negócios?

À minha época, quando calouro na UFPR, lembro-me de alguns colega, todos esfuziantes, que tinham a plena (in)consciência do que aconteceria nas tais "recepções" e, mesmo assim, iam para depois curtirem a experiência do que sofreram -- e, às vezes, lamentarem, como se não fossem responsáveis pelo que haviam cativado, quase Pequenos Príncipes às avessas... -- e se creditarem, orgulhosos, para fazer nos calouros do ano seguinte tudo aquilo a que se submeteram.

Dizem que isso tudo faz parte da jovem idade; encaro, porém, como parte da imbecilidade.

Afinal, só otários vão para "eventos" desta natureza, ou enxergam algo de sublime em dar ou receber "trotes" desta natureza diante de uma massa de desconhecidos.

E, se antes das redes sociais essa coisa toda já era ultrabadalado, imaginem agora, tendo à mão um facebook que instantaneamente mostra ao mundo a sua "nova fase", a tua badalada testa pichada de bosta e o teu corpo banhado de ovo bento... não é o máximo isso?

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E não tão estúpido quanto ir é aceitar aquilo tudo, submisso.

Será que o calouro rebelde seria submetido a tratamento tão degradante quanto aquele oferecido à coletividade (ou à manada) de calouros?

Certamente não, afinal, poucos crimes restariam para além daqueles normalmente praticados pelos veteranos nesses tipos de "eventos".

Repergunto: por que não se rebelar?

No meu início de carreira desportiva, eram frequentes as viagens com atletas mais velhos -- à época, eu com 13 e a grande maioria com 16 anos, significava a mesma coisa que a distância entre as eras cenozoica e paleozoica -- e, não raras as vezes, havia o conflito entre "veteranos" e "calouros".

Numa delas, para alguma cidade do interior do Paraná, na noite em que toda a chefia da delegação havia saído para jantar, já sabia que coisa boa não viria.

Dito e feito.

Atenienses de um lado -- uns doze --, e nós três calouros do outro.

Os veteranos querem impor um jogo: "cubol", que pelo nome já dá para se ter uma mínima imaginação -- mas, acreditem, é muito pior.

Ainda mais novo que os outros dois colegas calouros, fui o primeiro a ser apontado como um dos "jogadores".

Insurgi-me: "Não!... E podem me matar!", complementei.

Desaforos, ameaças, ofensas, pequenos tapas e empurrões... nada me desabalava e nada me faria ir para aquele "jogo".

Era, ali, um digno espartano.

E não fui -- e, acho, não me mataram.

Hoje, duas décadas depois, ainda me vem à memória a imagem dos outros dois colegas, felizes e saltitantes pelo descontraído (?) momento, correndo pelados, de cócoras, de um lado para outro daquela imensa sala, com uma bolinha de ping-pong (ou um sabonete ou uma tampa de shampoo, já não lembro) enfiada por entre as nádegas e com o pouco sublime objetivo de empurrar para o "gol" armado por tênis...

Não acho, pois, que "trotes" deste tipo façam parte da "formação" de ninguém.