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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

# faça-se o caos



Não é (ainda) para se sentir "traído" por este novo início de Governo.

Não há dúvidas de que ele afunda na melancolia, de que está muito mal e de que cedeu muito fácil às pressões da direita e da agenda neoliberal, na ilusão de se que conformaria um melhor "plano de governo" e uma "governabilidade", inevitavelmente aliada aos piores interesses. 

Entretanto, dúvida não há de que hoje (ainda) seja a única opção minimamente viável para se seguir na reconstrução do país.

E de que não somos uma única ilha rodeada de crise por todos os lados -- basta lembrar que a atividade industrial na China está no nível mais baixo em seis anos e que na Europa o negócio se arrasta há quase uma década.

Por isso a ideia é pensar nas bases e nas ações pós-ajuste (ou pós-arrocho).

Sendo assim, insistir na propagação do cenário de terror é contribuir no coro da massa que rumina pelas cercanias das metrópoles aburguesadas, não aceitando (ainda...) a quarta vitória de Lula e Dilma.

No palco de novela global, uma oposição político-partidária sem pé e muito menos cabeça, o óbvio trabalho sujo da grande mídia como alavanca e, claro, as manifestações fantasiosas orquestradas pela elite de plantão, à qual se alia uma classe média que esquece as suas origens e se agarra no sonho de uma vaga na garagem do country club alheio.

Mas, antes, uma pergunta: que "esquerda" é essa que o conservadorismo coxinha tanto quer combater?

Ora, nos últimos anos o Governo esteve, progressivamente, equidistante dos espectros políticos clássicos, não se podendo dizer que aqui se faz uma gestão progressista e políticas públicas de esquerda, basta ver os nomes e as estratégias postas no tabuleiro.

Vamos além: quão diferente (e pior) seria, já neste quarto mandado petista-pmdbista, um alternativo governo tucano-pmdbista?

Logo, em nosso caso não se trata de ideologia ou partidarismo.

É, sim, do lado de lá, preconceito, racismo e ódio: ódio de classe, de cor e de origem.

Ódio do lado que se escolheu e pelo qual se imagina lutar.

Ódio em ver que um partido popular, com bases populares e sob a liderança populista de Lula -- sim, o  "populismo" pode ser bom -- está há doze anos no poder, intransigente na ideia de pôr fim na miséria e de reduzir a redução da desigualdade social.

E, principalmente, ódio em saber que, sem golpe, as perspectivas são desalentadoras e a chance é zero de retomar o poder nas urnas.

Afinal, só há uma candidatura com chance de vitória em -- se houver eleições -- 2018: uma que se faça pelo lado esquerdo do peito, com Lula (PT), Ciro (PDT), Flávio Dino (PCdoB) ou Fernando Haddad (PT).

Depois, o problema está no que diferencia as forças reacionárias do Brasil -- a direita, a grande mídia e a alta burguesia -- e algumas políticas deste Governo.

Claro que tudo ainda é pouco, uma vez que a expectativa era radicalizar para transformar a vida brasileira, como aqui se demonstrou.

Contudo, ora, nunca antes se enfrentou tão a sério o nosso mais grave problema: a desigualdade social, o abismo que separa e segrega a nossas gente -- e nesta esteira vem dezenas de ações que buscam aplacar esta nossa chaga, como "Prouni", "Pronatec", "Pronaf", "Mais Médicos", "Minha Casa, Minha Vida", "Bolsa Família" etc.

E, depois, temos ainda a Petrobras -- como aqui já dissemos, desde Vargas um objeto de desejo nada obscuro das multinacionais e dos países ricos.

Enfim, lá e cá, embora na superfície e em alguns aspectos possam se parecer, o que está em jogo não são apenas os interesses de um Governo que fora eleito com a visão de centro-esquerda e de toda uma sociedade esperançosa em oposição às ideias da direita e dos seus donos de engenho.

O que está em jogo é a nossa construção democrática.

E contra ela se quer o caos.



quarta-feira, 9 de setembro de 2015

# pelas barbas do profeta



Eis, hoje, outro claro sinal de que estamos mesmo num fim de feira.

Não, não... Não sejamos cruéis com os feirantes.

E tampouco com os palhaços, os porcos e as putas  por isso, também não tratemos de circo, lama ou zonas.

E tratemos de dar o certo nome aos bois: que diabo é isso de, depois de tudo, ainda se dar o mínimo crédito aos tais "operadores do mercado", comumente exemplares no papel de Caronte, e às tais "agências de risco", típicas sucursais do inferno?

Ora, esta malta toda, por trás das suas "agências", a toda hora vem ao mercado (?) para dizer que está tudo ruim, que o cenário é péssimo, que o futuro é de trevas e que irá reduzir a qualificação técnica (o chamado "grau de investimento") do nosso país, afinal, "há piora sistemática dos indicadores de política fiscal", professam.

Sim, são falsos portadores que, de vozes celestiais e ao som de harpas (mas, verdadeiramente, das profundezas do Malebolge,  sob o toque do tridente ao chão), sentenciam: "abaixamos o grau de investimento deste país".

Este bando discursa com seus ares sérios, doutorais e proféticos, como se o oráculo do terceiro milênio – e, por óbvias razões político-eleitorais e recônditos desejos financeiros, se dá valor a isso, a esse engodo. 

Nesta roda-viva perversa, o vadio capital financeiro divulga as suas teses como verdade, as suas práticas como boas e as suas vontades como técnicas – veja aqui, a propósito, no que se transforma todo este tecnicismo.


Ao cabo, a grande mídia propaga estes ensinamentos com sinal divino e a caravana passa.

tchurma, claro, prostra-se diante das sábias ideias noticiadas, ouvidas como um mantra e provocadoras dos mais plurais orgasmos.

Senhores, meus caros senhores, estas agências e estes bancos, com seus técnicos de araque (e de mercado), não têm nenhuma credibilidade, não têm qualquer reputação e nem qualquer esteio e envergadura morais para nada, em especial depois da crise de 2008.

Entes privados que, só servindo a interesses privados, falando e fazendo apenas o que convém a si e aos seus privados clientes, foram co-responsáveis pelo colapso econômico global que quebrou pessoas e países "Inside Job", documentário premiadíssimo, revela e explica tudo (v. aqui).

Ora, são elas – e as suas cabeças – que deveriam ser cortadas e fulminadas.

São elas que deveriam ser extintas, condenadas à injeção letal pelas tantas mortes causadas mundo afora – ou, como as bruxas de outrora, queimadas em praça pública.

Como é que se pode acreditar e se dar o mínimo valor a este pessoal que, anos e anos a fio, bancou com notas máximas (e fantasiosas) tantas entidades públicas e privadas que construíram pacotes de vento (créditos subprime) para vender no mercado na forma de "derivativos", um dos mais obscuros objetos do mundo, provocando o (desejado) caos?

Lembremos: em agosto de 2008, pouco antes do caos, estas mesmas agências e bancos de agora – a Standart & Poors (S&P), a Moddy´s e o Goldman Sachs – atribuíram ao Banco Lehman Brothers  sim, ele mesmo, que seis meses depois celebrou a maior falência da história dos bancos, levando meio mundo consigo, como um tsunami  um "triplo A" (AAA), a nota máxima de credibilidade.

E, agora (e sempre), elas ressurgem para sorrateiramente especular e dizer – com qual credibilidade? – que aumentou o endividamento da economia, que alteraram os paradigmas contábil-financeiros brasileiros, que mudou o nosso status de player internacional e que pioraram os tais "indicadores"... e, mais, ousam propor para o comando da Petrobras um dos seus pares e um virtual rebaixamento da economia brasileira.

Ora, em que diferem os canalhas que ocupavam as diretorias da maior empresa brasileira dos lobos bandidos que regem a roleta do mercado financeiro e participam de megaestelionatos coletivos (v. aqui)?

Nada, meus amigos, nada.

Afinal, acreditem: esta gente, que arrebenta o mundo por meio de uma arquitetura financeira diabólica, exala enxofre.


 Sexo, mentiras e videotape



(publicado originalmente em maio de 2014)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

# deus ou mamon?



Na seara pública, trabalhar para instituições e órgãos estatais nos quais haja crimes não te faz, necessariamente, alguém conivente com tais atos.

Salvo se você esteja convenientemente ali, convidado para ocupar cargos num "governo" (e não no "Estado") e contribuindo voluntariamente para aquele estado de coisas, em regra o fim da sua atuação como servidor público é o interesse público, você trabalha e dedica-se para realizar e alcançar o bem coletivo, restando o comportamento criminoso de beltranos e sicranos como falha (condição?) do sistema, à margem do grande objetivo.

Ao cabo, e na medida do possível, você inclusive contribui (e denuncia, e reza) para que os filhos da puta de plantão – que malversam, tergiversam e se locupletam – sejam expurgados, presos e mandados ao inferno.

Agora, na iniciativa privada, a situação adquire outras formas.

O trabalho em uma empresa picareta, bandida e corrupta, ainda que não te faça um sujeito com tais adjetivos ou conivente, acaba, ao cabo, sem sentido.

Ora, se o fim daquela meia-dúzia que comanda a entidade empresarial é o "lucro", a qualquer custo, doa a quem doer, que depende de maracutaias para maximizar a "mais-valia" e que por isso passa por cima de qualquer código normativo ou ético, qual o sentido de se continuar a produzir para ela?

Sim, porque neste caso o fim não é o interesse público e o objetivo não é se dedicar e se empenhar para que a coletividade – apesar dos pesares  seja melhor atendida: o fim, pois, é apenas enriquecer donos e acionistas do negócio.

Feita esta divagação, o que justifica alguém empreender a sua mão-de-obra, por exemplo, num banco como este tal de HSBC?

Uma farta documentação, condenações judiciais, confissões silenciosas e inúmeras denúncias referentes às mais torpes e vis condutas, caracterizaram esta "instituição financeira" – e aqui, aqui, aqui, aquiaqui e aqui você pode entender um pouco tudo isso.

Hoje, brota nos noticiários e nos órgãos judiciais, policiais, fiscais e de controle de várias partes do mundo as contas secretas de milhares de bont vivants que tinham os seus crimes e pecados acobertados pelo tal banco inglês.

Mas isso vem de longa data -- e já me recordo da discussão que há poucos anos tive com um executivo do banco, em Curitiba (sede do HSBC no Brasil), o qual achou que a minha fala de então era de alguém "comunista", era uma "lenda" e que tudo estava "esclarecido".

Pois é...

Ora, no decurso da última década, o HSBC colaborou com os cartéis da droga do México e da Colômbia – responsáveis por (dezenas de) milhares de assassinatos com armas de fogo –, com as máfias da Rússia – responsáveis por fraudes e piratarias nas privatizações pós-URSS – e com as ditaduras do Oriente Médio, em operações de lavagem de dinheiro cujo montante alcança "trilhões" de dólares, um valor que enrubesceria o somítico Tio Patinhas.

As relações comerciais do banco britânico com os cartéis da droga perduraram, apesar das dezenas de notificações e avisos de diversas agências governamentais dos EUA (entre as quais o OCC - "Office of the Comptroller of the Currency").

Os lucros obtidos não só levaram o HSBC a ignorar os avisos, mas, pior ainda, a abrir balcões especiais no México, na Rússia, na Líbia, na Nigéria e onde mais se podia lucrar com os depósitos em caixas cheias de dinheiro líquido.

Apesar da atitude abertamente provocatória do HSBC contra a lei, as consequências legais da sua colaboração direta com as organizações criminais foram praticamente nulas. Em dezembro de 2012, o HSBC teve de pagar uma multa de quase 2 bilhões de dólares – o que equivale a uma semana de receitas do banco – para encerrar o processo de lavagem.

Nem um só dirigente ou empregado foi sujeito a procedimento criminal, embora a colaboração com organizações terroristas ou a participação em atividades ligadas ao narcotráfico sejam passíveis de cinco anos de prisão.

O HSBC parece caminhar sobre a mesma sórdida trilha que anuncia o lema neoliberal, ostentado na crise de 2008 em prol dos grandes bancos: "são grandes demais para quebrar" (v. aqui e aqui).

Em julho de 2013, numa das reuniões da comissão senatorial que investigou o caso HSBC, Elizabeth Warren, senadora democrata do Estado de Massachusetts, apontou o dedo a David Cohen, representante do Ministério das Finanças e subsecretário responsável pela luta contra o terrorismo e a espionagem financeira. A senadora disse, grosso modo, que governo dos EUA leva muito pouco a sério a lavagem de dinheiro, que é possível encerrar um banco que se dedica ao lavagem de dinheiro, que em dezembro de 2012 o HSBC lavou 881 milhões de dólares dos cartéis mexicanos e colombianos da droga, que o banco admitiu igualmente ter violado as sanções, que o HSBC não o fez apenas uma vez e que é um procedimento recorrente. Ao cabo desta (só desta) investigação, o HSBC pagou uma multa mas nenhuma pessoa foi banida do comércio bancário e não se ouviu falar de um possível encerramento das atividades do HSBC nos EUA (v. aqui).

Em suma, põe-se a seguinte questão: quantos bilhões de dólares um banco (ou uma empresa bandida qualquer) tem de lavar (e sujar), antes de se considerar a possibilidade de encerrar a prática?

Ora, afora tudo, o mastodonte HSBC deveria ser fechado, os controladores responsabilizados e os diretores presos; em seguida, ele (e qualquer empresa bandida) deveria ser retalhado, sob controlo cidadão, em uma série de bancos públicos de pequena e média dimensão, cujas missões seriam estritamente definidas e exercidas no quadro de um estatuto de "serviço de interesse público", de modo a fomentar a economia produtiva e o trabalho.

Afinal, é para isso que serve a lógica deste capitalismo, já urgindo tempo de reverter a perversa dinâmica do jogo.

Caso contrário, "empresas" desta estirpe – gigantes ou não, do ramo financeiro ou não –, na onividência da impunidade, na onisciência do negócio e na onipresença em todos os rincões do planeta, continuarão pensando serem Deus.

Bem, podem não chegar a tanto.

Mas não duvidemos de que sejam mesmo diletos filhotes de Mamon.




terça-feira, 2 de março de 2010

# status ante


"Estatização" era coisa de quem comia criancinha.

Agora, é a saída para a salvação da saúde dos estadunidenses, para a recuperação dos bancos europeus e japoneses, para a sobrevivência das indústrias extrativas latinas e asiáticas, para a eficácia dos serviços de banda larga no Brasil...


 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

# aspas (iv)



No excelente seminário internacional "Crise - Rumos & Verdades" promovido pelo Governo do Estado do Paraná, o economista Carlos Lessa assim concluiu o seu discurso no encerramento do encontro, a centrar no povo brasileiro as justificativas pelo seu otimismo a respeito dos rumos futuros do nosso país:
 "[O] povo, o povão brasileiro, é absolutamente admirável, por uma única e definitiva razão: consegue sobreviver à elite brasileira, a qual nunca tomou conhecimento de suas necessidades".   


quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

# o futuro do presente da crise (ou, "rumos e verdades - II")



Questiona-me um grande amigo quais seriam os rumos e as verdades dessa grande crise provocada pelo malfadado projeto neoliberal de (?) "Estado". Sobre as "verdades", já dissemos -- aqui e alhures, tantas vezes e das formas mais variadas; e, sobre os "rumos" -- e já após 3 dias de profícuos e profundos debates, com as mais diversas exposições de cientistas e políticos dos mais diversos cantos do mundo --, algumas conclusivas certezas já se mostram óbvias e imprescindíveis para orientar o Brasil:
  • a total dependência e subordinação do Banco Central ao Estado, com políticas que busquem a regulamentação dos fluxos financeiros e a centralização no controle de câmbio;
  • a estatização, ao menos temporária, de parte do sistema financeiro nacional, e a diminuição da taxa básica de juros, a fim de diminuir o déficit público;
  • a efetivação de novos marcos jurídicos e econômicos para as agências regulatórias, mais condizentes à nova realidade nacional e mundial, que passa a exigir um Estado interventor (keynesiano), e não mais um Estado mínimo, assente em políticas neoliberais que conveniente e fantasiosamente organizaram o funcionamento de tais agências;
  • a manutenção da carga tributária, mas com a modificação na sua metodologia contributiva, de modo a cobrar e recolher mais dos ricos e acabar com o nefasto modelo atual, que mostra uma total desproporção e um malogrado desequilíbrio de contribuição entre as classses pobres e ricas -- como, por sinal, já faz o Estado do Paraná (entre outros exemplos, v. aqui) --, da seguinte forma: (i) ampliando o número de faixas de tributação do imposto de renda -- pondo fim a grotesca forma de 2 faixas de tributação --; (ii) tributando progressiva e regressivamente o patrimônio, de acordo com o seu porte e a capacidade contributiva do agente, em especial no tocante ao IPVA, ao IPTU e ao ITCM; e, finalmente, (iii) criando o já constitucionalmente previsto "imposto sobre grandes fortunas".
  • o acelarado e crescente investimento em programas sociais e de garantia de renda mínima;
  • a diminuição do superavit primário e a transferência de seus recursos para projetos de infra-estrutura, capitaneados por um PAC cada vez maior; e,
  • a transferência de recursos não para salvar os ditos "setores produtivos" -- os quais, na verdade, apenas representam os dominantes interesses das elites burguesa e política, como a construção civil e a agroindústria exportadora --, mas para projetos e programas que visem a diminuir o déficit habitacional (casas e condomínios populares, urbanização de favelas etc.) e assegurar e expandir a agricultura doméstica e familiar.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

# o futuro do presente da crise (ou, "rumos e verdades")



Com a participação de intelectuais, em sua maior parte pertencente às ciências econômicas, das mais diversas partes do mundo -- Brasil, China, Rússia, Argentina, Venezuela, Equador, México, EUA, Inglaterra, Itália e Alemanha --, o Governo do Estado do Paraná está a promover, desde ontem, o excelente seminário internacional "Crise - Rumos & Verdades" -- o qual, certamente, não merecerá a melhor (ou, talvez, a menor) cobertura da podre mídia golpista nacional --, com o fim de debater, elucidar e abrir os olhos para os verdadeiros rumos e causas da presente crise, a maior crise da história do capitalismo e que definitivamente afunda o neoliberalismo (v. aqui a programação completa do Seminário).


 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

# o presente do indicativo da crise (ou, "aspirinas e urubus")


Do espaço virtual, o excelente "Carta Maior" traz outro pontual artigo, agora do Prof. Emir Sader (UERJ), e que bem mostra a presente realidade da "crise" (crise?! que crise? qualquer crise! -- como brada Paulo Henrique Amorim) na América Latina (v. aqui):

"No momento da posse de Fernando Lugo, como primeiro presidente democrático do Paraguai, terminando com a ditadura de 60 anos do Partido Colorado, a revista "The Economist" dizia que aquele seria o último presidente de esquerda a ser eleito na América Latina. E, como urubus, afirmavam que a nova agenda trazida pela recessão – duras políticas de ajuste – e a violência dominariam a pauta política do continente e como a exploração desses temas são essencialmente de direita, voltariam governos conservadores na América Latina.
Se esqueceram que, aqui onde estou, em El Salvador, pela primeira vez a "Frente Farabundo Marti" é claramente favorita para eleger o jornalista Maurício Funes, presidente da República, no dia 15 de março. Erro de avaliação ou desconhecimento da revista inglesa ou tentativa de fazer dos seus desejos, realidade.
A mesma coisa acontece com os urubus da imprensa em geral. Em toda a primeira metade do ano acenaram com o risco de descontrole inflacionário, sem se dar conta da recessão, já instaurada naquele momento, na economia dos EUA, com possibilidades reais de propagação para outros países, que gera riscos de deflação, exatamente ao contrário do que diziam os urubus. Erro de avaliação ou desconhecimento ou tentativa de fazer passar seus desejos mórbidos pela realidade.Instaurada a crise, os radicais de direita se apressam a explorar uma situação provocada pelas suas políticas, para tentarem tirar partido e enfraquecer os governos progressistas. Tentam, a cada dia, gerar um clima de pânico, dizendo que as conseqüências para nós serão terríveis, que o governo não leva em consideração seus efeitos etc., buscando gerar o caldo de cultivo para medidas conservadoras, que são tanto do seu agrado.
Obsesionados pelos clichês que formam sua visão de mundo, não conseguem perceber o que há de novo. Pela primeira vez há uma profunda crise na economia dos EUA e da Europa, mas a economia brasileira não quebra. Os efeitos da crise se revelam muito mais fortes nos países que a geraram, do que aqui.
Os governos progressistas buscam minimizar as conseqüências da crise, tratando de evitar que se propague a recessão, porque sabem que ela afeta sua necessidade de suas economias de seguir crescendo e expandindo suas políticas sociais. A diversificação do comércio internacional, o aumento do comércio interegional e com o sul do mundo, a grande expansão do mercado interno, assim como a significativa diminuição do comercio com os EUA – são os elementos que possibilitam mecanismos de defesa dos países da região que privilegiam os processos de integração regional.
Os urubus continuam com sede de carniça. Querem que a crise – gerada pelo modelo que eles pregaram como o ideal e aplicaram durante duas décadas e agora se revela a fonte essencial da crise – leve à derrota dos governos atuais na América do Sul, que volte a direita, que os representa politicamente. Que as economias da região entrem em recessão, que as políticas sociais não possam ser levadas adiante, que os governos percam apoio, que volte a direita.
Enquanto isso, tem que tomar muita aspirina, para agüentar o sucesso de Evo Morales, de Rafael Correa, de Lula, de Hugo Chávez, que abatem os urubus no vôo."


 

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

# salvem os mercados emergentes


Muito pertinente o último artigo de Dani Rodrik, responsável pela cadeira de Economia Política da Universidade de Harvard, e que ora reproduzimos:

Se o mundo fosse justo, a maioria dos mercados emergentes estaria assistindo a crise financeira que engolfa as economias mais avançadas do mundo à distância - se não completamente sem serem afetados, tampouco demasiadamente preocupados. Para variar, o que incendiou os mercados financeiros não foram os excessos dos mercados financeiros, mas os de Wall Street.
As posições fiscais e externas dos mercados emergentes têm se mostrado mais fortes do que nunca, graças às duras lições aprendidas com suas próprias histórias propensas a crises. Poderíamos até ter permitido a esses países uma certa dose de prazer malicioso pelas dificuldades dos Estados Unidos e demais países ricos, exatamente como teríamos esperado que garotos sentissem um prazer perverso por seus pais se meterem nos mesmos tipos de encrenca contra as quais os pais advertem os seus filhos tão obstinadamente.
Em vez disso, os mercados emergentes estão sofrendo convulsões financeiras de proporções possivelmente históricas. Já não se teme que eles sejam incapazes de se isolar. Teme-se que suas economias possam ser tragadas para dentro e crises muito mais profundas do que as que serão experimentadas no epicentro da derrocada do “sub-prime”.
Alguns destes países deveriam ter se precavido e deveriam ter se protegido antes. Há poucas desculpas para a Islândia, que basicamente se transformou num fundo de hedge altamente alavancado. Vários outros países na Europa Central e Oriental, como Hungria, Ucrânia e os Estados bálticos, também estavam vivendo perigosamente, com vastos déficits em conta corrente e com empresas e famílias acumulando enormes dívidas em moeda estrangeira. Sempre poderemos contar com a Argentina, o menino travesso do sistema financeiro internacional, para que produza um truque para apavorar os investidores - nesse caso, uma nacionalização dos seus próprios fundos de pensão.
Os mercados financeiros, porém, fizeram pouca distinção entre esses países e outros como México, Brasil, Coréia do Sul ou Indonésia, que até há poucas semanas pareciam ser modelos de vigor financeiro.
Vejamos o que aconteceu com a Coréia do Sul e o Brasil. Os dois países experimentaram crises cambiais no passado recente - a Coréia do Sul em 1997-1998 e o Brasil em 1999 - e ambos subseqüentemente adotaram medidas para elevar a sua resistência financeira. Eles reduziram a inflação, deixaram suas moedas flutuar, acumularam superávits externos ou pequenos déficits e, o que é mais importante, acumularam montanhas de reservas cambiais (que agora excedem tranqüilamente as suas dívidas externas de curto prazo). O bom comportamento financeiro do Brasil foi recomendado já em abril deste ano, quando o Standard & Poor´s elevou a sua nota de crédito para nível de investimento (a Coréia do Sul já obteve nível de investimento há anos).
Apesar disso, ambos estão sendo duramente castigados nos mercados financeiros. Nos dois meses passados, suas moedas perderam cerca de 25% do seu valor ante o dólar dos EUA. Seus mercados de ações declinaram bem mais (40% no Brasil e 33% na Coréia do Sul). Nada disso pode ser explicado pelos fundamentos econômicos. Os dois países experimentaram um período de crescimento robusto recentemente. O Brasil é um exportador de commodities, ao passo que a Coréia do Sul não é. A Coréia do Sul depende enormemente de exportações a países ricos, e o Brasil, bem menos.
Estes e demais países emergentes são vítimas de uma corrida racional rumo à segurança, exacerbada por um pânico irracional. As garantias públicas que os países ricos estenderam aos seus setores financeiros expuseram de forma mais clara a linha crítica demarcatória existente entre ativos “seguros” e “arriscados”, sendo que os mercados emergentes estão claramente nesta última categoria. Os fundamentos econômicos ficaram pelo caminho.
Para piorar as coisas, os mercados emergentes são privados da única ferramenta que os países adiantados empregaram para estancar os seus próprios pânicos econômicos: recursos fiscais internos ou liquidez interna. Os mercados emergentes necessitam de moeda estrangeira e, portanto, de apoio externo.
O que precisa ser feito está claro. O Fundo Monetário Internacional (FMI) e os bancos centrais do G-7 precisam atuar como emprestadores globais de última instância e fornecer liquidez ampla - rapidamente e com poucas restrições - para apoiar as moedas dos mercados emergentes. A dimensão da provisão de recursos necessária provavelmente chegará a centenas de bilhões de dólares dos EUA, e superará tudo o que o FMI já tenha feito até agora. Mas não há nenhuma escassez de recursos. Se for preciso, o FMI poderá emitir direitos especiais de saques (SDRs) para gerar a liquidez global necessária.
Além disso, a China, que detém quase US$ 2 trilhões em reservas cambiais, deve ser parte desta missão de resgate. O dinamismo da economia chinesa é extremamente dependente das exportações, que poderão sofrer muito com um colapso dos países emergentes. Na verdade, a China, com sua necessidade de crescimento elevado para pagar pela paz social, pode ser o país que mais corre risco com uma grave queda na atividade econômica global.
O interesse próprio indisfarçado também deve convencer os países avançados. O colapso continuado das moedas dos mercados emergentes e suas conseqüentes pressões comerciais lhes dificultarão ainda mais a tentativa de impedir um aumento substancial nos níveis da taxa de desemprego. Na ausência de um escudo para as finanças dos países emergentes, o cenário apocalíptico de um ciclo vicioso protecionista que relembra a década de 1930 já não pode ser descartado.
O Federal Reserve (Banco Central americano) e o Fundo Monetário Internacional já tomaram algumas medidas positivas. O Fed criou uma linha de swap para quatro países (Coréia do Sul, Brasil, México e Cingapura), de US$ 30 bilhões cada. O FMI anunciou uma nova linha de curto prazo para um número limitado de países com boas políticas. A dúvida é se essas iniciativas serão suficientes e o que acontece com os países que não poderão se beneficiar destes programas.
Haverá muito tempo para debater um novo Bretton Woods e a construção de um aparato regulador global.
A prioridade por enquanto é salvar os mercados emergentes das conseqüências da insensatez financeira de Wall Street.


 

terça-feira, 28 de outubro de 2008

# o futuro da crise (ou, "não podemos ser cúmplices")


Há uns dias atrás, várias pessoas de diversos países e de diferentes posições políticas, subscreveram o texto abaixo reproduzido.
É uma chamada de atenção, um protesto, a expressão do alarme que se sente diante da crise, do seu andamento, das suas perspectivas e das mirabolantes saídas que se afiguram: "Não podemos ser cúmplices" -- disse José Saramago, um dos seus subscritores (v. aqui).

"A crise financeira aí está de novo destroçando as nossas economias, desferindo duros golpes nas nossas vidas.
Na última década, os seus abanões têm sido cada vez mais frequente e dramáticos. Ásia Oriental, Argentina, Turquia, Brasil, Rússia, a hecatombe da Nova Economia, provam que não se trata de acidentes conjunturais fortuitos que acontecem na superfície da vida económica mas que estão inscritos no próprio coração do sistema.
Essas rupturas, que acabaram produzindo uma contracção funesta da vida económica actual, com o argumento do desemprego e da generalização da desigualdade, assinalam a quebra do capitalismo financeiro e significam o definitivo ancilosamento da ordem económica mundial em que vivemos. Há, pois, que transformá-lo radicalmente.
Na entrevista com o presidente Bush, Durão Barroso, Presidente da Comissão Europeia, declarou que a presente crise deve conduzir a uma “nova ordem económica mundial”, o que é aceitável, se esta nova ordem se orientar pelos princípios democráticos – que nunca deveriam ter sido abandonados – da justiça, liberdade, igualdade e solidariedade.
As “leis do mercado” conduziram a uma situação caótica que levou a um “resgate” de milhares de milhões de dólares, de tal modo que “se privatizaram os ganhos e se nacionalizaram as perdas”. Encontraram ajuda para os culpados e não para as vítimas. Esta é uma ocasião única para redefinir o sistema económico mundial a favor da justiça social.
Não havia dinheiro para os fundos de combate à SIDA
[AIDS]
, nem de apoio para a alimentação no mundo… e, num autêntico turbilhão financeiro, acontece que havia fundos para que não se arruinassem aqueles mesmos que, favorecendo excessivamente as bolhas informáticas e imobiliárias, arruinaram o edifício económico mundial da “globalização”.
Por isto é totalmente errado que o Presidente Sarkozy tenha falado sobre a realização de todos estes esforços a cargo dos contribuintes “para um novo capitalismo”!… e que o Presidente Bush, como dele seria de esperar, tenha concordado que deve salvaguardar-se “a liberdade de mercado” (sem que desapareçam os subsídios agrícolas!)…
Não: agora devemos ser resgatados, os cidadãos, favorecendo com rapidez e valentia a transição de uma economia de guerra para uma economia de desenvolvimento global, em que essa vergonha colectiva do investimento de três mil milhões de dólares por dia em armas, ao mesmo tempo que morrem de fome mais de 60 mil pessoas, seja superada. Uma economia de desenvolvimento que elimine a abusiva exploração dos recursos naturais que tem lugar na actualidade (petróleo, gás, minerais, carvão) e que faça com que se apliquem normas vigiadas por uma Nações Unidas refundadas – que envolvam o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial “para a reconstrução e desenvolvimento” e a Organização Mundial de Comércio, que não seja um clube privado de nações, mas sim uma instituição da ONU – que disponham dos meios pessoais, humanos e técnicos necessários para exercer a sua autoridade jurídica e ética de forma eficaz.
Investimento nas energias renováveis, na produção de alimentos (agricultura e aquicultura), na obtenção e condução de água, na saúde, educação, habitação… para que a “nova ordem económica” seja, por fim, democrática e beneficie as pessoas. O engano da globalização e da economia de mercado deve terminar! A sociedade civil já não será um espectador resignado e, se necessário for, utilizará todo o poder de cidadania que hoje, com as modernas tecnologias de comunicação, possui.
Novo capitalismo? Não! Chegou o momento da mudança à escala pública e individual.
Chegou o momento da justiça."


 

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

# o futuro (do presente) da crise em cadeia


Antes que nos últimos dias os governos dos Estados Unidos e da Europa se pusessem a liberar dinheiro para salvar bancos e grandes empresas, em julho, Ignácio Ramonet, diretor do jornal "Le Monde Diplomatique", havia escrito o artigo "Las Tres Crisis", no qual asseverava que, "por vez primera en la historia económica moderna, tres crisis de gran amplitud -- financiera, energética, alimentaria -- están coincidiendo, confluyendo y combinándose. Cada una de ellas interactúa sobre las demás. Agravando así, de modo exponencial, el deterioro de la economía real".

Para Ramonet, um dos fundadores do Fórum Social Mundial, por mais que as autoridades atuem, o mundo está frente a um verdadeiro terremoto econômico de magnitude inédita, cujos efeitos sociais apenas começam a ser sentidos, podendo ser detonados com toda violência nos próximos meses -- "[l]o peor nunca es seguro y la numerología no es una ciencia exacta, pero el año 2009 bien podría parecerse a aquel nefasto 1929...”.

Ainda, lembra que no mundo de hoje até a agricultura se transformou em algo extremamente financeiro, sendo um momento definitivo para os Estados e os cidadãos del otro lado del río -- como já o começa a fazer a América Latina e o G-20 -- dizerem “¡Basta!” para este saldo deplorável "que deja un cuarto de siglo de neoliberalismo: tres venenosas crisis entrelazadas" (v. aqui).