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terça-feira, 20 de março de 2018

# vitrines e espelhos: a vertigem hipersocial



A cada dia se nota a constrangedora evolução dos hábitos e do comportamento humano, demasiadamente humano, no universo das relações sociais da internet.

Em cada detalhe, em cada gesto, em cada canto, em cada esquina virtual, mais e mais pessoas parecem insistir em não entender o espírito da coisa – como aqui destacamos sobre uma das ágoras pós-modernas, o twitter, o qual é por muitos usado, infelizmente, ou como palanque de tipos celenterados que antes rastejavam pelos porões urbanos e que agora buscam ali seus 140 caracteres de fama, ou como um divã onde ácaros e anêmonas despejam seus recalques e frustrações.

Ou então, e muito mais perigoso, o tal do facebook, uma máquina de destruição social em massa e o maior big brother orwelliano jamais imaginado do planeta Terra. 

O que leva a massa a desabrochar seus sentimentos, vidas e vontades, tudo e a todo instante, em rede mundial, na busca de ver e ser visto – eis, então, a princípio, a cultura do grande irmão, trazendo seres que rompem continuamente a sua privacidade, os seus dados, a sua alma.

Só porque você encontrou aquele sujeito que nem se lembrava, lá da quarta série, acha bacana? Ou somente porque você é fã daquele seu amigo superbacana acha interessante derramar algumas palavras ali, na tela, bacana? Ou será que toda essa gente se engana ou então finge que não vê?

Ora, para que me interessa saber o que fulanos, beltranos e cicranos fazem das suas vidas? 

E o que dizer do “perfil” que cada um oferece: gosto de ler nietzsche, sou parda e simpática, tenho aracnofobia e uso pasta dental crest menthol extra-light, como produtos etiquetados postos em vitrine para consumo ou deleite?

As pessoas têm amigos e relacionamentos que permitem e velam por tal abertura, por tais (re)conhecimentos, por tais intimidades recíprocas... agora, fazer desse clubinho uma vitrine humana, que nos fazem reféns diários de novos contatos, de um encarniçado networking e de mais números entre parêntesis é certamente execrável. 

E, então, eis que surge o maior caos, o caos social, que vai sim, rechear-se de demagogia, de hipocrisia, de superficialidade, de mecanização das relações. 

E como piora, se degrada e não tem fim o poço da falta de razão com que se apresentam, à toa, atochadas numa casca de noz que representa um universo da falta de noção.

Ou, pior ainda, da sobra de vaidade, de auto-estima, de "autoemesia".

Neste terremoto civilizacional das tais redes sociais, como, pior ainda, o instagram, um contingente incrível que se tatua online para tentar tatear a própria realidade – e até estes dias, acreditem, a onda era o selfie after sex.

E assim avoluma, avulta, vaza e entope cada carótida das teias nervosas da rede uma imensa gente com os seus auto-retratos, seus pós-retratos ou os retratos autônomos das suas vidas que vivem de descartes, do que se tem que fazer ou ter e do que está out ou in, conforme as bancas de revista e as coca-colas da vida anunciam e dita a "modernidade líquida" de Bauman.

O "nada" adquire poderes sobrenaturais: o ar respirado, a comida engolida, o visto dos olhos, tudo se motiva para entrar na esfera do público, para o público, pelo público – e até os pêlos tornam-se públicos.

A exposição é gratuita, é ordinária, é vazia e é cheia de uma futilidade que assombra, em versões digitais e sociais da mais rasteira lenda narcisista. 

Ora, intriga-me saber o quê e como se enxergam estas pessoas, que no mais simples, cotidiano e mesmo íntimo ato da vida fazem máxima questão de, num quase ato de extrema-unção, colocarem-se à mostra para o fim abençoado da plateia.

Uma "vitrine humana", desnecessária e sem sentido, como aqui já falamos, numa época em que a moda era outra passarela.

Vê-se espelhos pra cá, poses pra cá, pratos acolá, abraços com micos, emas e estátuas vivas, tudo é visto, selado, registrado, carimbado e explicitamente disposto se quiser voar para a boca e olhos de todos, para consumo mundial, vinte e quatro horas no ar.

É a vida à la carte, a vida em pedaços, a vida fatiada e servida nas suas melhores partes, num banquete enfetichezado.

Eis a máxima: “o que não está postado no mundo da redes sociais não está no mundo”, prega esta gente com os seus luxuriantes frames, quadros e quadrantes, na profunda patologia do barulho e da irrelevância do tudo.

Ou, como diria o filósofo Guy Debord e a sua "sociedade do espetáculo", o hiperreal é onde está a verdade.

E isso tudo aliena, enfastia, engana e finge-se natural, fruto de uma geração que se empanturra com uma curtição alheia, acrítica, aviltada, atabalhoada, sofrida, sôfrega, quase sonâmbula, típica de quem anda está perdido na caverna platônica.

Não sei, talvez essa gente toda esteja afundada após mergulhar na entorpecida imagem refletida na lagoa.


Ou, então, no vácuo da psyché pobre e vazia que faz cada um "ser" somente naquele ato ou naquele objeto fotografado e espalhado para o mundo.


Para assim seguirem, etiquetados e diariamente presos num estranho processo que faz corar qualquer iluminista do séc. XVIII.

Até que, um dia, enfim uma maioria perceba do que é feita esta árvore da vida – e mais, de que os seus envenenados frutos nunca recompensaram.

E aí voltaremos a sentir, a pensar, a dialogar.

Voltaremos a ser.



sábado, 11 de junho de 2016

# romantismo de calendário



Das tantas esquisitices sedimentados pelo mundo, vasto mundo, este negócio de "dia dos namorados" – como, na mesma onda, "dia" das mães, dos pais, da vó, do irmão etc. – é um dos mais estapafúrdios.

Não fosse o contagioso apelo mercantil – que insiste em se espraiar por tudo que é canto e circunstância da vida –, qual seria a razão de se fixar um "dia" para isso?

Depois dos anos dourados da nossa adolescência, os sujeitos precisam se esforçar muito, inclusive entre si, para entender e extrair algum valor disso.

E, atenção, não se está a falar de valorizar mais ou menos o negócio (!), mas, simplesmente, de desconhecê-lo, desconjurá-lo, excomungá-lo – caso fosse abusar do vernáculo diria que a coisa não se discute no "plano da validade", mas no da "existência".

Trata-se, pois, de um engodo, sem noção e reflexão, e de uma ciranda, nauseante e impúbere, sob a qual milhares de casais medusicamente rodam e se fartam, hoje ainda no alucinógeno ritmo das redes sociais.

Ou algum sentido há em mover mundos e atravessar fundos para lotar lugares ao lado de outros tantos mil pombinhos erguendo desumanos (ou demasiadamente humanos) brindes?

Ora, o amor, a paixão, a alegria, o carinho, a devoção, o tesão, a comunhão e a entrega total à vida amada festejam-se diuturnamente, no dia a dia, numa segunda-feira, num dezembro, num castelo, num sofá, num samba, num circo, no seco, no frio, na chuva, nos porres, na gripe, na cama, na praia, na varanda, na gangorra, na fila do cinema, num banquete na cozinha, num pico da neblina, num lavar-de-louças, no caminho da areia de uma praia deserta, em qualquer canto de qualquer momento, ao natural, simples, espontaneamente, comme il faut.

Tudo, pois, longe, muito longe, da regra de hábitos tabelados para uma data criada do nada e para o nada – ou para o tudo fetichizado da moda comercial e vulgar.

O que, portanto, faz o gesto plastificado, pasteurizado, pleonástico. 

E torna o momento vazio e como água em estado gasoso: incolor, inodoro e insípido. 

E soa, enfim, como um mugido de testemunha de presépio, na busca frenética de se cumprir à risca a agenda e os ritos contados pela narrativa das vitrines e dos vizinhos. 

Tudo bem cronometrado, datado, selado, registrado e carimbado – se quiser voar por entre as curtições mais ou menos virtuais.

Como bem-me-quer o costume, é claro.



quarta-feira, 1 de junho de 2016

# uga-uga



Não entendo de muitas coisas, muitas.

Uma delas, e a qual tem me causado uma certa angústia, é o jeito e a dinâmica desse negócio  de redes sociais, uma doente vitrine humana (v. aqui).

Talvez por não ser muito ligado à elas – tenho apenas um tímido perfil no twitter, nunca estive no ~face~ ou no ~insta~ e não uso whatsapp –, acho bem estranho, por exemplo, os desenhinhos que pululam por todos os cantos, colorindo as conversas on-line constrangedoramente e que mais parece um processo de reinfantilização ou um retrocesso às cavernas.

Saramago, pouco antes de morrer, já disse isso, ao se deparar com o hábito pós-moderno da comunicação (v. aqui), e realmente parece que regredimos a ponto de, daqui a pouco, voltar a nos comunicar por “grunhidos”.

O gosto, ora, é imenso por essa nova modalidade de arte rupestre: são “carinhas com sorriso” para dizer, por exemplo, obrigado, são “palmas estaladas” para falar, simplesmente, parabéns, são “polegares para baixo” para falar não gostei... parece-me, pois, a bancarrota da comunicação escrita.

Por quê?

Dia desses dois bons amigos comentavam a loucura do “twitter” e seus pistoleiros mastodontes à caça de homo sapiens (v. aqui).

A mim, meio curumim nisso, me parece que boa parte desta mais nova ágora pós-moderna funciona mezzo como um palanque para tipos celenterados que buscam ali seus 140 caracteres de fama, mezzo como um divã para verdadeiras anêmonas despejarem seus recalques e frustrações, tudo sempre sob uma lógica funcional ausente de racionalidade e de crítica, sem corpo e sem eco, finada em si, numa tola ilusão de que podem alcançar os seus destinatários.

Em ambos os casos, mero reflexo disentérico de uma gente capenga, de quengas incapazes de construir ideias e, principalmente, de aceitar a conversa, a dialética, de querer ouvir, de saber falar e de ousar pensar, unidimensionalmente movida pelo instinto narciso de posar ou covarde de ofender.

Portanto, se não está a gritar debilmente, esta massa está despejando palavras sem pés, sem mãos, sem cabeça, sem tronco, sem nada, simplesmente pelo "prazer" de comentar, retrucar, dar pitacos sobre o que não parou segundos para refletir, num arraial de frases feitas e burras que apenas revelam para o mundo quem são (seus valores) e o que representam (seus fetiches).

Claro que não pretendo qualquer ruptura no avanço tecnológico que tão bem faz na dose certa das nossas necessidades – inclusive para aquelas que ainda nem criamos... –, como também não imagino que todo bate-papo informal deva exigir teses, ritos e uma pomposidade medieval.

Contudo, o abuso no uso dos meios virtuais e o repúdio à falta de inteligência e de decência no trato com tantos involuntários interlocutores devem merecer máxima atenção.

E, por vezes, o recuo neste campo de jogo e o pujante silêncio diante dos indesejados ataques de ratos e rampeiras que se escondem no anonimato formal ou material da internet sejam as melhores soluções.

Afinal, estricnina e antirrábica só funcionam, por ora, no mundo real.



sexta-feira, 10 de abril de 2015

# coisas di vomitar


Eis que se nota a chegada deste negócio horrendo chamado "Comida di Buteco" (v. aqui, nos mínimos detalhes).

No império do consumo, é angustiante ver o quanto o sistema se reinventa para criar o "nada", a provocar um consumo vazio em que muito se vende e muito se lucra à custa da idiotização de tudo e de todos, descaracterizando-se lugares e tradições e travestindo tudo no tom pastel da pasteurização geral.
E nela, uma arrogância que por tantos cantos do cotidiano provoca-nos as mais coceguentas urticárias.
E, atenção, não me refiro a um ou outro caso em que seria até natural encontrar vestígios e raspas de soberba comportamental, como na Academia e nas Artes, onde, afinal, erudição e eructação costumam não se confundir.

Falemos, pois, do ambiente, do dia a dia, do jeito da massa bem-cheirosa -- cujos atributos em regra encolhem-se no menor bolso graxo da roupa de grife -- se comportar.

Daquelas situações em que o arrogante é um alienado, um débil social, um daqueles que acha feio o que não é espelho ou que acha insustentável a presença do ser que não seja um ser dos seus.

Outrora já lembramos do que acontece na relação dessas pessoas com vinhos e cervejas (v. aqui), com seus hálitos e hábitos (v. aqui) e com os tratamentos que se dão (v. aqui).

Agora tratemos deste mesmo público, que roda pelas mais infaustas rodas, e a sua relação com a comida.

Sim, se não bastasse a pantafaçuda sopa de espumas, torres, gotas, granulados, desenhos e combinações minúsculas de troços mais ou menos óbvios que ostentam em pratos fotogênicos para a compartilhada fotogenia da rede...

E se não bastasse o inclassificável tripúdio sobre a gourmetização e a glamourização do mundo animal, vegetal, líquido, gasoso e mineral, a etiquetar tudo que se ingere com purpurinas e lantejoulas que muito bem euforizavam os índios nos escambos com os nossos descobridores...

E, ainda, se não bastasse as fortunas depositadas nos caixas de refeitórios doze estrelas, a fim de justificar a gulosa luxúria como uma legítima ação da ordem agostiniana do livre arbítrio...

Eis que os últimos arrotos, imberbes num misto de petulância com sabujice de dar dó, estão no sopro de "reinventar" os tira-gostos de bar, na forma deste concurso encampado pela vênus platinada, e, também, a velha comida de rua, que doravante chamam -- percebam o ar descolado -- "food truck".

Impávidos e colossos, empinam os narizes imperiais para comentar, pelas colunas de jornais ou por seus espaços nas redes sociais, que a onda agora é valorizar esta tal "gastronomia".

Modernos, chiques e na última moda, socorrem-se à avalanche de falsas autoridades que surgem para firmar e ratificar a boa-venturança desta cozinha e desta atitude, só digna dos bons trópicos.

Arrogam-se, agora, como bandeirantes dos bares e das ruas.

Melhor que ficassem em seus clubes privés ou com seus restaurantes estrelados.

Afinal, eles se merecem.



quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

# eu não sou charlie



Vários dos sujeitos que produziam o panfleto intitulado "Charlie Hebdo" foram vítimas de brutal morticínio na manhã de hoje -- v. aqui, aqui e aqui.

Obviamente, rechaça-se com veemência a violência, o modo máximo de censura e, pois, a atitude extrema dos muçulmanos acusados da autoria dos crimes -- ainda que paire dúvidas nisso (Al Qaeda?!), tamanho o avanço da ultradireita xenófoba e racista europeia que, disposta a tudo, muito colherá do episódio.

Absolutamente execrável, afinal, nada justifica desconsiderar o supremo direito à vida em nome seja lá de quem (e do que) for.

Nenhum dos artistas mereceu levar tiros. Ninguém, ninguém merece morrer. 

Entretanto, o que significa e quais os limites da tal "liberdade de expressão" (e "de imprensa")? 

Claro que isso conduz ao dilema sobre se há e quais seriam os limites da arte: a tipologia penal? A arquitetura social? As circunstâncias ideológicas? 

Não se irá muito à frente, contudo.

O limite aqui é o fato em si.

A que ponto os tais cartunistas satíricos, os desenhistas cômicos e os desbocados e destemidos jornalistas podem ir para alcançar a sua fama, a sua grana e a sua "liberdade"?

A que ponto qualquer um de nós pode chegar na sociedade propagando mensagens no mais baixo nível da chacota, do abjeto e, sim, do ódio, do "ódio a quem tem uma religião"?

A que ponto a religião, assente em dogmas e paixões divinais dos seres humanos, pode ser objeto do mais flagrante desrespeito e da mais profunda humilhação alheia?

Não sei se respondem a alguma ou a muitas ações judiciais, mas, quem se importa, se tais "artistas", mesmo usando palavras e desenhos que ofendiam meio mundo -- tudo em prol de uma onisciência ocidental e dos seus superiores valores --, continuavam dispondo de muita mídia e de muitos anunciantes? Sabe-se bem, esta é uma tática velha e conhecida, inclusive por aqui muito abusada.

É claro que pagar com a própria vida não tem cabimento, mas a turma do "Charlie Hebdo" -- e qualquer um -- não tem o direito de expor ao planeta afora mensagens expressas, diretas e exclamativas que soam como um "fascismo às avessas", desgraçando a fé de bilhões em prol de um fanatismo ateu.

Será que é aceitável desenhar judeus esquálidos em fila indiana a caminho de um forno de pizza?

Será que é aceitável desenhar Deus levando uma cenoura no traseiro, em tom de galhofa e com uma mensagem engraçadinha ao lado? Ou Jesus Cristo, ou Nossa Senhora, sob as mais baixas cenas e os mais vis diálogos? (v. aqui ou aqui)

Será que é aceitável desenhar Alá sendo estuprado por um camelo, com uma legenda estúpida embaixo? Ou Maomé pelado, de quatro e sob as mais torpes piadas? (v. aqui)

Será que tudo isso é aceitável sem se atropelar os direitos humanos, o direito humano à fé? 

Será que um cristão fanático ou um judeu ortodoxo também aceita isso tudo que o bando do jornal francês babaca vem criando? Finge aceitar? A que preço?

Enfim, o contexto todo torna muito complexa a reflexão e a análise, muito longe de simplismos, reducionismos e rasas conclusões.
 
Afinal, jamais se tolera ou admite uma chacina como a de hoje.

Entretanto, também já está na hora desta turma toda que não vê limites pela audiência (e expressão) repensar os seus conceitos, os seus modos e as suas ações.

Ofender quem quer que seja não pode ser tolerável -- é a ética do respeito e a consciência fundamental da responsabilidade que exigem serem lembradas.

Muito pior, ofender o que há de mais sagrado e intangível para bilhões de cristãos, muçulmanos ou judeus é inadmissível.

E também não tem graça alguma.




quarta-feira, 28 de maio de 2014

# carne e osso


Ainda sou da época em que as famílias se reuniam em torno da mesa para comer e conversar. 

Pequenas, grandes, ainda que apenas aos fins de semana, enfim, havia o hábito desta reunião, da conversa de balanço do dia ou da semana, da divagação de expectativas e frustrações, tudo desmascaradamente pulsante.

Mudaram os tempos, mudaram as famílias e (não só) este costume tem perdido espaço.

A nova dinâmica da relação espaço-tempo – fruto das globalizações – e a reconformação do papel da família – em termos de importância, de nucleação e de eticidade – transformaram aquele e outros tantos hábitos.  

Veio o fenômeno da desfamiliarização.

Sim, novos centros do cotidiano, novas perspectivas relacionais, novas ideias, novas vontades e novas necessidades que foram sendo construídas pela inaptidão do berço familiar em formá-las, supri-las e compreendê-las.

Sair da família, em tese, era sair do reacionário, da vigília, do medo, da punição.

Criar agrupamentos fora do sangue nosso de cada dia seria quase como uma condição de sobrevivência – ou mesmo de existência.

Tem-se outras famílias, outros núcleos, e de modo algum ruim, pois insistente na condição do intercâmbio físico, plural e ressonante do ser humano.

Ademais, fez-se romper a ideia da interação física.

E até se compreende, haja vista a velocidade do cotidiano, a profusão de simultâneos eventos e, mais ainda, o fim das cercas culturais que nos prendiam à mesma terra por toda a vida.

Porém, agora, o que acontece é a "individuação" e a sua metalinguagem do mundo virtual, sob o falso conforto das redes sociais, como neste negócio assustador chamado "facebook".

Hoje, cada qual pega a sua comida, senta-se na frente da sua preferida tela e come.

E não mais dialoga, apenas vendo passivamente todo o mundo passar à sua frente, sem se complicar, sem se afetar, sem pertencer a nada.

Ou dialoga com si, por meio dos seus vários “eus” e para um mundo virtual de outros tantos personagens pasteurizados, líquidos, liquidificados.

E se a interação na rede não interessa, aperta um botão e dá adeus.

Mas dar adeus ao cotidiano real e se desconectar das relações humanas, e das relações tão intimamente humanas, não é tão (ou nada) fácil.

Não é como um álbum de figurinhas para se colecionar, preencher e largar, tão-pouco produtos de gôndolas que se retiram, se usam, se curtem e se descartam.

O mundo real, vivo, a cores, com pele, tato, osso e sujeira, é um pouco diferente.

E como tudo hoje quer se mostrar mais simples, descartável e descomprometido, aos poucos cada um vai perdendo a capacidade de “ter-e-querer-se-envolver“ nos relacionamentos, de se dedicar e de se apresentar.

E de se fazer presente, vivamente presente.

Ora, buscar viver uma vida sem transformar os conflitos que valem a pena resulta numa vida que não vale a pena – e a vida, além de chata, seria vazia.

Como sem sentido e anoréxica é esta vida oniricamente enraizada num monitor, fantasiosamente criada sob esta retumbante pseudorrealidade social.

E plugada no nada.


sexta-feira, 12 de março de 2010

# meu querido diário: piu-piu...



Parece que, nestes tempos de 140 caracteres, qualquer texto que passe de dois parágrafos passa a ser considerado prolixo, difuso, longo, verboso ou fastidioso.

Porém, isso não me espanta.

Afinal, a imediatização da vida, a publicização da vida privada e a inconscientização pela brevidade com que se reflete os fatos e as fotos desta vida parecem exigir dos interlocutores uma comunicação não menos virtual, instantânea, superficial e explícita que o espaço de poucas e curtas sinapses.

Não, não trabalharei as minhas ideias, as minhas reflexões, os meus pontos-de-vista e o meu cotidiano por meio desta ferramenta que tudo arreganha, que tudo abrevia, que tudo (menos) diz e que tudo (mais) sintetiza, como se num jogral monossilabicamente robótico.

Naturalmente, não serei... "sintético".

E, muito menos, farei da minha vida um colegial diário pessoal.

Mas não apenas por não querer, e sim, especialmente, por não ser capaz de fazê-lo.


 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

# aspas (xxxiii)

f
    José Saramago, sobre o twitter -- e que cabe também, e principalmente, para as conversas virtuais (v. aqui):

     "Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."





 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

# as vitrines pós-modernas


E para aqueles que ainda confiam e ainda acham o máximo essas mais bizarras formas de comunicação e de relacionamento pós-moderna -- v. aqui o que já publicamos, p. ex., sobre a "vitrine humana" do tal orkut --, cuja (mórbida) formosura creem não dever ser excluída do universo de nossas crianças e adolescentes, eis o relato, enviado por um grande amigo, que mostra a estupidez desta vida explícita e do espetáculo do ser fluorescente, que quer aparecer e ser visto:
 
"Após deixar seus livros no sofá ela decidiu comer um lanche e entrar online. Conectou-se com o seu nome na tela: "Docinho".
Revisou sua lista de amigos e viu que '"Meteoro" estava conectado.
Ela enviou uma mensagem instantânea:
fds> Docinho: Oi. Que sorte que vc está aí! Pensei que alguém me seguia na rua hoje. Foi esquisito mesmo!
fds> Meteoro: Vc assiste muita TV. Por que alguém te seguiria?
fds> Docinho: Pois é. Acho que imaginei isso porque não vi ninguém quando virei.
fds> Meteoro: A menos que vc tenha dado seu nome online. Vc não fez isso, né?
fds> Docinho: Claro que não. Não sou idiota, vc já sabe.
fds> Meteoro: Você jogou vôlei depois do colégio hoje?
fds> Docinho: Sim e ganhamos!
fds> Meteoro: Ótimo! Contra quem? fds
fds> Docinho: Contra as Vespas do Colégio Sagrada Família. Seus uniformes são um nojo! Pareciam abelhas..
fds> Meteoro: Como se chama seu time?
fds> Docinho: Somos os Gatos de Botas. Temos garras de tigre nos uniformes.. São muito legais. Mas tenho que sair. Tenho que fazer minha tarefa antes que cheguem meus pais. Não quero que fiquem bravos. Tchau!
fds> Meteoro: Falamos mais tarde. Tchau.
Entretanto, Meteoro foi ao menu de membros e começou a buscar sobre o perfil dela. Quando apareceu, copiou e imprimiu. Pegou uma caneta e anotou o que sabia de Docinho até agora: Seu nome: Tatiane. Aniversário: Janeiro 3, 1993. Idade: 13. Cidade onde vive: Santo Antônio da Platina, Paraná. Passatempos: vôlei, inglês, natação e passear nas lojas.
Além desta informação sabia que vivia em Santo Antônio da Platina porque ela lhe tinha contado recentemente. Sabia que estava sozinha até as 6.30 todas as tardes até que os pais voltavam do trabalho. Sabia que jogava vôlei nas quintas-feiras de tarde com o time do colégio, os Gatos de Botas. Seu numero favorito, o 4, estava na sua jaqueta. Sabia que estava na 8a. série no colégio Sebastião. Ela tinha contado tudo em conversas online.
Agora tinha suficiente informação para como encontrá-la. Tatiane não contou a seus pais sobre o incidente ao voltar do parque. Não queria que brigassem com ela e que lhe impedissem de voltar caminhando dos jogos de vôlei. Os pais sempre exageram e os seus eram os piores. Ela teria gostado não ser filha única. Talvez se tivesse irmãos seus pais não tivessem sido tão superprotetores.
Na quinta-feira, Tatiane já tinha esquecido que alguém a seguia. Seu jogo estava em plena ação quando de repente sentiu que alguém a observava. Então lembrou. Olhou desde sua posição para ver um homem observando-a de perto. Estava inclinado contra a cerca na arquibancada e sorriu quando a viu. Não parecia alguém de quem temer e rapidamente fugiu o medo que sentiu. Depois do jogo, ele sentou-se num dos bancos enquanto ela falava com o treinador. Ela percebeu seu sorriso mais uma vez quando passou do lado. Ele acenou com a cabeça e ela devolveu o sorriso. Ele percebeu seu nome nas costas da camiseta. Sabia que a tinha achado.Silenciosamente caminhou numa distância certa atrás dela. Eram só umas quadras até a casa de Tatiane. Quando viu onde morava voltou logo ao parque para procurar seu carro. Agora tinha que esperar.Decidiu comer algo até que chegou a hora de ir à casa de Tatiane. Foi a uma lanchonete e sentou até a hora de começar seu objetivo. Tatiane estava no seu quarto, mais tarde essa noite, quando ouviu vozes na sala. 'Tati, vem!', chamou seu pai. Parecia perturbado e ela não imaginava o porquê.Entrou na sala e viu o homem do parque no sofá. 'Senta aí', começou seu pai, 'este senhor nos acaba de contar uma história muito interessante sobre você'.
Tatiane sentou-se. Como poderia ele contar-lhes qualquer coisa? Nunca o tinha visto antes de hoje! 'Você sabe quem sou eu?' perguntou o homem. 'Não', respondeu Tatiane. 'Sou policial e seu amigo do chat, Meteoro'. Tatiane ficou pasmada. 'É impossível! Meteoro é um menino de minha idade! Tem 14, e mora em Minas Gerais !'
O homem sorriu. 'Sei que eu disse tudo isso, mas não era verdade. Veja, Tatiane, tem gente na internet que se faz passar por garotos; eu era um deles. Mas enquanto alguns o fazem para machucar crianças e jovens e fazer dano, eu sou de um grupo de pais que o faz para proteger as crianças dos malfeitores. Vim encontrá-la para lhe ensinar que é muito perigoso falar online.Você me contou o suficiente sobre você para eu achá-la facilmente. Você me deu o nome da sua escola, do seu time e em que posição você joga. O numero e o seu nome na jaqueta fizeram que eu a encontrasse rapidinho. Tatiane gelou. 'Você quer dizer que não mora em Minas Gerais ?'
Ele riu. 'Não, moro em Santo Antonio da Platina. Você se sentiu segura achando que morava longe, né?' Eu tinha um amigo cuja filha era como você. Só que ela não teve tanta sorte. O cara a encontrou e a assassinou enquanto estava sozinha em sua casa.Ensina-se as crianças e jovens a não dizer pra ninguém quando que eles estão sozinhos, porém contam isso o tempo todo pela internet. As pessoas maldosas a enganam para tirar informação de aqui e de lá online. Antes de que você saiba você já lhes contou o suficiente para ele achá-la sem você perceber. Espero que você tenha aprendido uma lição disto e que não o faça de novo. Conte a outros sobre isto para que também estejam seguros".

 

domingo, 30 de outubro de 2005

# uma vitrine humana


Finalmente fizeram-me conhecer o tal orkut.

Há tempos, neste horizonte da internet, não constatava tamanha aberração, pluri-sensorial: mental, cultural, social, físiológico etc. Enfim, algo bizarro.

Antes, de início, soube que os brasileiros somos os maiores utentes deste troço.

Péssimo sinal: em linguagem nada criptografada, significa sermos, talvez, o povo mais desocupado do planeta.

Há quem diga que este clube não passa de mais uma conseqüência inútil da vida online. 

Há quem o considere uma vil panelinha virtual. 

Se entendi um pouco da sua idiota mecânica, afora àquela ladainha de que entra quem quer, trata-se da quase-perfeita união entre estas duas teses e outras tantas bestialidades, nas quais não consigo encontrar um pouco justificado motivo para o ingresso.

No clubinho há espaço para tudo -- um breve conhecido, a concunhada gente fina, a nora da irmã da calista da secretária, o moço que traz o gás, adolescentes, vigários-gerais, cães...

Ora, o que leva a massa a desabrochar seus sentimentos em busca de relações minguadas em um fel contagioso onde qualquer um entra e pode ver - eis, então, a princípio, a cultura do grande irmão, trazendo seres que rompem continuamente a sua privacidade, os seus dados, a sua alma; e, a posteriori, o universo das sacanagens atômicas, ou melhor, à bits, indecifráveis, indestinadas e imbecis.

Na esteira, vêm as anomalias cultural, mental e física havidas neste tal clubinho. 

O que interessa-me pensar é: por quê? O que são aqueles porta-retratos virtuais que os selecionáveis dispõem no ecrãn? Vêem-se poses mil, com roupas e nus estrategicamente expostos, com pinturas na cara e muques constrangedores que fazem a autofagia de cada clubenauta. 

E as “citações testemunhais”? Percebo que o brilhante clube tem um espaço para recados do coração, no qual todos os clubenautas sabem, com nome, cara e quase cpf, de quem e para quem vão as declarações. 

Assim, com tudo isso visceralmente exposto, acabam-se as cartas intimamente dirigidas, acabam-se as descobertas à dois, olho no olho, instigantes, particulares, românticas -- tudo em prol de uma rede de centenas de "friends" que surgem após meu nome, entre meus parênteses, restando em números frios, vazios e que, no máximo, nos remetem à uma época rançosa, traduzidas em uma operação de soma zero.

E os "fãs"? Como grande consolo para os não-artistas ou não-boleiros, eis que surgem, de um nada (absoluto ou relativo), seres que te assumem como tal e, mesmo com tamanha puxada-de-saco, permanecerão olvidados em algum canto baldio da tua vida. E as risonhas carinhas amarelinhas ao lado de pulsantes coraçãozinhos vermelhinhos que ilustram o perfil do infeliz?

E, então, eis que surge o maior caos, o caos social, que vai sim, rechear-se de demagogia, de hipocrisia, de superficialidade, de mecanização das relações. 

Só porque você encontrou aquele estúpido que nem se lembrava, lá da quarta série, acha bacana? Ou somente porque você é fã daquele seu amigo superbacana acha interessante estrumar algumas palavras ali, na tela, bacana? Ou será que toda essa gente se engana ou então finge que não vê?

E o que dizer do “perfil” que cada um oferece: gosto de ler nietzsche, sou parda e simpática, i don't need labels, tenho aracnofobia e uso pasta dental crest menthol extra-light.

Ora, para que me interessa saber o que fulanos, beltranos e cicranos fazem das suas vidas? 

As pessoas têm amigos e relacionamentos que permitem e velam por tal abertura, por tais (re)conhecimentos, por tais intimidades recíprocas... agora, fazer desse clubinho uma vitrine humana, que nos fazem reféns diários de novos contatos, de um encarniçado networking e de mais números entre parêntesis é certamente execrável. 

E lastimável, pois, da mesma forma que não podemos perder ou mascarar nossa indentidade, não permitamos escancará-la -- e ninguém me convencerá deste contrário.

Em breve, a realidade dirá quanto desta árvore virtual restará inútil (ou criminosa) para estes prosélitos e, comme il faut, se verá que esta rede não passou de outro funesto modismo acolhido por um infausto contingente humano e que não deixou restos, úteis ou recompensadores.

Porém, são modas, que vem e que vão, assim como a moda de não-ser-do-orkut...