quinta-feira, 21 de julho de 2016

# marcha avante, terra à vista



Há ainda quem pense – talvez por pouco pensar – que o capitalismo é apenas um sistema econômico.

Não, não... vai muito além, é claro.

O filósofo alemão Walter Benjamin dizia ser quase uma seita religiosa, com seus dogmas e seus mantras, a agir de modo onisciente e divinal. 

Já Max Weber dizia ser uma construção com base em tudo, tudo, inclusive uma "ética" própria.

Depois, e em suma, Das Kapital, em toda a sua profunda complexidade e amplitude, não surgiu por acaso, por rancor ou por mera estilística.

Mas a questão não está no reticente linchamento e na vazia crítica ao sistema vigente, com resultados estéreis, insolúveis, de pouca imaginação e nula concretude.

É preciso pensar, portanto, no pós-capitalismo como algo sério, absolutamente necessário na sua factibilidade e razoável na sua realidade. 

É preciso pensar em uma construção ainda indefinida, ainda sem nome, ainda carente de desenvolvimento, mas assente em novas instituições e estruturas organizacionais, razão pela qual não se pretende retroceder às ideias que efetivamente não deram certo, como, fundamentalmente, algumas das (poucas) implementadas pelo modelo soviético, in memoriam.

É preciso pensar para não se poder admitir esta miserabilização política, econômica e social, a restar o esvaziamento institucional à mercê do regime vigente – o capitalismo –, como se a sua dinâmica, o seu processo e as suas propostas fossem intocáveis, indiscutíveis e, como ousou escrever um certo autor, estivessem assentes no fato de que esta ordem representa "o fim da história".

Na borda que protege este perverso núcleo do espírito capitalista, o Direito, por exemplo, arromba a retina com tantos dos seus mecanismos a serviço desta ordem: pacta sunt servanda, propriedade privada, tributação regressiva, criminalização do inimigo, teoria da empresa, enfim, inúmeros ranços político-sociais que não devem mais servir como incondicionais institutos deste nosso necessário novo sistema.

Mas como se esperar a mobilização política diante do próprio cenário político hoje desenhado? Como se prospectar mudança na imaginação social com o poder midiático tão avesso aos interesses nacionais?

Se a culpa pelas más notícias não é apenas do carteiro e se a culpa dos eleitos ultrapassa o déficit cívico-cultural dos representados, como incentivar à revisão de conceitos e a reconstrução de estruturas e instituições?

A verdade, entretanto, nem sempre baliza-se na ideia de, simples e inocentemente, ser "contra-tudo-isso-que-está-aí" – ou sim, a depender da demanda e do ponto de vista, e da vontade e dos reais interesses.

Que nossos orgasmos intelectuais, portanto, possam ajudar a responder isso.

E contribuir para uma nova página e para uma melhor roupagem da nossa democracia, sem maquiaduras e sem máscaras.



quinta-feira, 14 de julho de 2016

# "meritocracia"



Em pauta, a ideia da "meritocracia".

Brevemente, ela nasce como fundamento legal-racional da autoridade com Max Weber, ao analisar a transição das organizações tradicionais, cuja autoridade era baseada na tradição ou no carisma, para as modernas organizações burocráticas.

Mas não é sobre este prisma que se avançará.

Por isso, preliminarmente, uma premissa maior, sabida pelo mundo mineral: somente se pode discutir meritocracia a sério quando houver oportunidades iguais para todos -- e com ressalvas.

Afinal, antes dos "méritos" de cada um há valores (e há políticas) a serem construídas pela sociedade.

Fora disso, a meritocracia é mera retórica, tão séria e honesta no que toca ao mérito quanto um regime monárquico ou a hereditariedade econômica ou política.

Depois, ceteris paribus, qualquer sistema puramente sustentado na meritocracia vai se retroalimentando para produzir a "desigualdade", para criar círculos viciosos de uma racionalidade  formal,  para deformar a sociedade e para arranhar o desenvolvimento humano, desprezando a justiça social.

Ora, é natural que a trajetória de cada um -- e as suas histórias pessoais de ascensão social fruto da superação incondicional -- faça parte da construção do seu sistema de crenças e valores.

Todavia, enxergar o seu "caso" particular como a regra para a sociedade sem se atentar para o "ponto de partida" -- o tal do berço material e imaterial -- de cada um, é, no mínimo, um reducionismo inconsequente.

O problema é que grande parte da classe média brasileira tem neste fetiche da meritocracia -- novamente desmontado aqui -- a grande razão da sua característica conservadora ou reacionária.

Um grande exemplo disso é o comportamento classista dos médicos, em especial diante do ótimo programa "Mais Médicos", como aqui muito bem se analisou.

Longe de preocupações sanitárias e de pensar na saúde pública nos rincões do Brasil, o grande mote da investida atroz e felina dos médicos estava, simplesmente, na defesa da classe, na defesa do "mérito" de ser médico.

Afinal, pensam eles, passar no vestibular mais concorrido do Brasil, fazer o curso mais longo, um dos mais difíceis, mais exigentes e mais caros do país -- seja o ônus público ou privado --, é um feito cuja formação celebra o mérito; logo, não se poderia aceitar que qualquer um que não demonstre ter os mesmos "méritos" possa desfrutar das mesmas prerrogativas que os profissionais formados aqui, no caso, especialmente, os cubanos (em tempo: diante do desespero pela falta de médicos para tratar do vírus ebola na África, adivinhem qual o único país a colaborar efetivamente com a OMS e o "Médico Sem Fronteiras"? V. aqui).

Ora, eis o traço fenótipo que enigmatiza o reacionarismo da classe média nativa: a meritocracia está na base de sua ideologia conservadora.

Assim, também, grande parte da classe média é contra a política, pois em uma sociedade séria a racionalidade utilitária, a técnica cartesiana e a força motriz, e nunca a "política", são as únicas bases de todas as decisões públicas.


É contra um governante que não tenha saído de berço esplêndido e que não tenha tido a educação formal e tradicional, já que não há mérito em chegar no topo sem ter assim estudado.

É contra pagar tributos, uma vez que o dinheiro dela não pode ser apropriado por um Estado que o usa a serviço dele e dos outros.

É contra as bolsas-famílias, porque não há "mérito" (e nem estímulo) em ganhar dinheiro sem trabalhar, como aqui já descrevemos.

E é contra o sistema de cotas, na medida em que as condições étnica ou social não podem ser critérios de mérito.

Tudo, portanto, uma questão de "mérito", cujo ideia, geralmente, não subsiste e é absorvida na sua escassez ontológica quando nos referimos aos ricos -- nos quais há o "patrimonialismo hereditário" e, inclusive, a consecução de seus interesses por meio da latente captura do Estado, a quem finge contestar -- ou aos pobres -- nos quais qualquer potencial mérito individual, em máxima regra, sucumbe às suas secas condições de vida e ao vazio institucional, não lhe valendo a tese do mérito, sob pena de se enxergar, ainda mais, como um nada fracassado.

Todavia, condenar a classe média por pensar assim seria injusto, não obstante o justo seria eles compreenderam o "sentido da coisa".

Injusto porque a classe média brasileira motiva-se historicamente na sua percepção de que o Estado, senão um estorvo ou o bode na sala, nunca lhe foi "parceiro".


Ela, pois, se vê constituída exclusivamente sob os seus próprios méritos, e é na ideia de um ethos meritocrático que pensa deixar a herança aristocrática que nunca teve.

Mas, agora, é justo também cobrar-lhes o entendimento real disso tudo e a falácia do argumento, cristalizador do sujeito moral burguês tão bem descrito por Charles Taylor sob a ideia do "self pontual".

Ora, como o mérito sustenta-se em "valências" pessoais (dedicação, cultura, inteligência, habilidade...), ele serve apenas para apreciações meramente individuais, jamais para valorar a ordem social.

Assim, ele serve como princípio formativo individual, como juízo de conduta pessoal, jamais como diretriz ético-principiológica de uma sociedade, sob pena de enviesar-se pelas veredas do cruel e do intolerante.

E do reacionário.

Afinal, o vale-tudo da pérfida tese da meritocracia torna o ambiente social insustentável, pois permite atentar contra os valores sociais universais em proveito do acaso.

E o ocaso é da sociedade, ultradimensionando o êxito e estigmatizando o fracasso pessoais, como se tratasse de uma lógica do sistema a conjugação de ação e reação e como refazer o futuro dependesse da certeza de uma receita de bolo, atribuindo-se exclusivamente à pessoa e às suas valências as responsabilidades pelo seus destino.

Ora, infelizmente, a regra do destino numa sociedade tão desigual -- em termos de mobilidade social, inclusive -- e sob um Estado ainda tão ausente como o nosso está traçado nas estrelas.


E tal atroz perspectiva não pode ser miniaturizada pela seita cética da meritocracia, inclusive pelo fato de o nosso Estado ainda carecer de alternativas institucionais que modifiquem esta conjuntura social congênita.

Assim, nela institui-se a desigualdade com fundamento racional e legítimo, confirmando o arquétipo perverso que dá a ela uma falsa aparência de naturalidade.


Porém, pela sua lógica, a meritocracia calibra-se naquilo que tem "desempenho", independentemente de valores ou fins -- tem, pois, fim em si mesma.

Enfim, crer na meritocracia como "eureka social" esvazia o espaço público, murcha a arquitetura social das ordens coletivas e, principalmente, rejeita a atividade política e ignora a atuação do Estado, como aqui se professora.

Imaginar uma sociedade guiada tão-somente pela técnica, pelo desempenho e pela racionalidade do pretenso "merecimento", portanto, desmonta e frustra qualquer edificação de uma ordem democrática, plural e justa.

Uma pena é a classe média não querer atentar para isso.


  

quinta-feira, 30 de junho de 2016

# nascentes e poentes


A distância provoca-nos sempre a refletir.

E se é comum lamentarmos que não estamos vendo as nossas crianças crescerem, máximo lamento acomete também para quando não estamos vendo os nossos pais envelhecerem.

Pode ser profundo isso, pode ser uma filosofia de araque ou pode ser apenas reflexo da incompatibilidade da relação espaço-tempo a que me submeto.

Como a física proíbe a presença real de corpos materialmente distantes, não notamos que o tempo para as nossas crianças e para os nossos pais incumbe-se de transformá-los em novos corpos, crescidos e recolhidos, agigantados e enrugados, numa dinâmica natural que desobedece a ordem que tanto gostaríamos.

E por não querermos ver este tempo passar, inconscientemente nos escondemos dos seus marcadores, dos seus símbolos, dos seus sinais.

Porém, à surdina, eles fazem questão de chegar, como se quisessem nos fazer ouvir o uivo pungente dos seus incansáveis passos.

E, de repente, a vasculhar por um armário à procura de um livro esquecido, vejo-me na mão com uma ampulheta e brinco de ver o tempo.

Cuco, de pulso, de parede, da torre, da igreja, em todos esses você pode até conseguir despistar o avanço a galope dos segundos e esquecer.

Entretanto, do escorrimento arenal da ampulheta não se escapa, cuja marca da passagem do tempo é de clara e destemida tirania.

Ali, sem filtros, é a vida que corre, que escorre, implacável e intransigente como uma onda sísmica do mar.

Por isso, ao olhar para as fotos expostas sobre a bancada do escritório, hei de confessar: para não ver este tempo correr, recolheria toda a areia do mundo.

Com ela, montaria um nababesco e indefectível castelo onde viveríamos para sempre – e onde seríamos as múmias mais felizes da Terra.

Porém, se com as nossas crianças o curso é promitente, repleto de expectativas, com múltiplos sabores e num retilíneo movimento para o alto e para avante, com nossos pais é tudo mais cru e mais cruel, pois a progressão geométrica da velocidade da parábola em queda livre é cruciante.

Pois é, as nossas crianças vêm, os nossos pais vão... é o vir e o ir, desoladamente inconjugáveis, como aqui e aqui esboçamos.

E me pergunto: afinal, quantas vidas serão precisas para viver tudo o que necessitamos viver com algumas pessoas que tanto amamos, antes delas crescerem e antes delas se despedirem?

Não sei, mas posto que me fio na ideia de uma só, estilhaço-me na realidade.

E ela escancara o quão rápido tudo está a passar.



quarta-feira, 22 de junho de 2016

# toucinho



Cadê o lucro todo que estava ali? O gato comeu.

Cadê o gato? Foi pro mato das Bahamas.

Cadê o mato? Os advogados queimaram.

Cadê os advogados? No uísque on the rocks afundaram.

Cadê a uísque? Os laranjas beberam.

Cadê os laranjas? Foram pra cadeia.

Cadê a cadeia? Tá cheia de preto e pobre.

Cadê os pretos e pobres? Os ricos vêm chupando.

Cadê o ricos? Foram à busca de outro trambique.

Por onde é o caminho do trambique?

É por aqui... por aqui... por aqui...

[cócegas]

É, pois, a velha e velhaca lógica deste sistema: privatiza-se o lucro nas franjas do Estado,
socializa-se a quebra nas barbas da sociedade.

Neoliberalismo na veia, à moda da casa.

E o pulso, ainda pulsa.



sexta-feira, 17 de junho de 2016

# ítalo e o jacaré



Ítalo decide morrer.

Mas Ítalo não era a adulta Veronika cheia de inquietações filosóficas do livro de Paulo Coelho que virou filme.

Era, sim, um piá de dez anos, que jamais lera um livro, que teve uma vida igual ao filme de terror de milhões de crianças negras e pobres de um Brasil real cujo trágico desfecho é quase sempre óbvio e infeliz (v. aqui e aqui).

Sim, porque tem crianças que nascem num outro Brasil, num Brasil de faz-de-conta, num Brasil-arco-íris, num Brasil-castelo, num Brasil-resort, num Brasil como a redoma exclusiva que de colosso e gigante só tem a cegueira de seus internos, tão branca como aquela da extraordinária fábula de Saramago.

Vocês já pararam para imaginar o que é uma criança de dez anos sentada no banco de motorista, ao volante de um carro cujos pedais mal são alcançados pelos seus pés?

E agora conseguem imaginar a mesma cena, mas com o detalhe de que ela estava a fugir da polícia, roubando um carro após invadir um condomínio no bairro do Morumbi (SP) ao lado de um colega da mesma idade?

Como desfecho, a polícia atira-lhe na cabeça: Ítalo era um cabrito marcado para morrer.

Em paralelo, numa realidade particular, Benjamin e Santiago tiveram o destino divino de nascer naquele tal castelo, de ter pais que não dependem do crime – crime de preto ou de branco – para viver, de ter roupas novas no armário e iogurte de morango na geladeira, de ter cama e banho diários, de ter gibis e desenhos animados educativos e, em especial, de ter tempo e amor dedicados às suas criações.

Portanto, lá e cá, são como duas linhas de vida que nem no infinito se cruzarão.

Ora, nascer no Brasil e em qualquer rincão do planeta em que a desigualdade é avassaladoramente mortal – ponha-se os EUA nessa conta – ainda é um manifesto “destino”, roleta que aos montes fabrica produtos e mais produtos de gerações eternamente alijadas de oportunidades e de futuro.

E quem desamarrará isso, dando liberdade para que os Ítalos soltem-se das cordas malditas que os asfixiam eternamente na miséria, flertando com o nada bandido e viajando no pêndulo que vai do vazio da fome ao cheiro da cola?

E quem transplantará esta vida seca de sempre, soterrada nos escombros de um não-lar, amálgama do amargo de um pais em ruínas?

A sociedade, minha gente.

Eu, você, ele, todos nós que ativamente compomos este amontoado de indivíduos e que formamos o Estado, mas que dele não queremos participar, e nem para ele votamos com a consciência desligada do umbigo, e nem sobre ele (e sobre o nosso papel) refletimos e pensamos – pelo contrário, continuamos a propagar pelos cantos das ruas e da internet frase-feitas de uma ideia reacionária, higienista, fascista e tão excludente de mundo.

E, vamos lá, por que em regra isso não acontece na Escandinávia, no Canadá, em Cuba, em lugares onde a desigualdade é muito menor e o Estado maximamente presente e atuante nas questões sociais?

Elementar, meus caros.

Neste ambiente de tudo ou nada tropical, de uma gente que só tem o sol que a todos cobre (v. aqui), um único projeto na nossa história imaginou transformar a realidade institucional: os CIEPs, as escolas em tempo integral dos gênios Leonel Brizola e Darcy Ribeiro, diuturnamente boicotadas pelas elites brasileiras, dotadas de um narcisismo primitivo que sempre enxergou o problema no outro.

Não era, e nunca teremos, a solução mágica para tornar isso aqui outra terra.

Porém, toda a restruturação do processo pedagógico-educacional e a progressiva redistribuição da renda nacional – e a "política", no final das contas – são as chaves para que um dia possamos responder: o que motivaria Ítalo a não fazer o que fez?

Enfim, o episódio deste menino é mais um nítido retrato desta "banalidade do mal" na veia, ao vivo, a cores (v. aqui), e que revela a pequenez da nossa gente.

Sim, dá-me profundo lamento saber que uma criança morta por uma bala na testa não tem o mesmo pesar social daquela que foi arrastada, dias atrás, por um jacaré num lago da Disneilândia.

Convenientemente, talvez.

Afinal, neste Brasil, o jacaré somos nós.



quarta-feira, 15 de junho de 2016

# licor de jenipapo



Sucupira é aqui, meus senhores.

Sucupira é hoje o Brasil, e que me desculpe o novelista Dias Gomes com seu "plágio" mal acabado.

Afinal, dia após dia o nosso país produz um universo dramatúrgico sem igual, com pessoas cujas atitudes são absolutamente surreais, a fazer valer a eterna frase de que a realidade é mesmo insuperável  como, talvez de modo inigualável na nossa História, naquele funesto domingo de abril, que há de ser sempre lembrado (v. aqui).

Bem, deixemos de lado os "entretantos" para partir aos "finalmentes".

Vejam este vídeo, aqui, sobre a Câmara Municipal de Campinas  atenção, não se está a falar de alguma ilhota de algum afluente da margem direita do Rio Amazonas, mas da segunda maior cidade de São Paulo  e notem a suprema semelhança dos ínclitos vereadores com o folclórico Odorico Paraguaçu.

Vejam isso aqui, sobre o direito de ser idiota em público, a rechear uma manifestação equina e bovina de um bando (ou cavalaria, ou manada, ou cáfila, ou qualquer outra coletividade irracional), e percebam a íntima identidade das suas ações com o jeitão das Irmãs Cajazeiras, dentre outras figuras de Sucupira. 

Vejam, aqui, mais um dos tantos episódios de doidice, de alienação e de estupidez avistados pelas arborizadas ruas brasileiras, os quais revelam uma gente cujo nível faria engasgar o esquisito Dirceu Borboleta, o sóbrio Nezinho do Jegue e o alucinado Zelão das Asas.

Leiam isso aqui, sobre as fofocas não fofocadas por pseudo-ouvintes que não ouviram uma inventada conversa e, a partir dela, todo o novelo interpretativo (e lunático) que metafisicamente se constrói.

Leiam aqui, sobre um jeito pouco (demasiadamente pouco) humano  eu diria, no mínimo, abominável -- de contestar e reprovar um homem público, mas que não foi levado em consideração no momento do seu próprio velório.

Leiam aqui, sobre como um picareta, perante o complacente Poder Judiciário, desdiz uma delação para de novo delatar, criando a jabuticabal "delação da desdelação", cujo modus operandi insiste em merecer o apoio do magistrado de plantão.

E mais, e mais, e mais... pois sobre toda a epopeia golpista de dinossauros, mercenários e amarelinhos,  avolumam-se notícias num ritmo delirante e que escancaram o mofo que insistem em borrifar sobre o estado brasileiro e o escracho geral de um rocambolesco enredo.

Afinal, o poço não tem fundo para serem vistos "tipos" e promovidos "atos" sempre tão surpreendentes, como se produzidos às custas inversas daquele bem-amado licor de jenipapo, agora desencadeador dos espíritos mais moralizantes (e reacionários) da sociedade.

Mas, antes de se chegar até lá, faz-se a hora de se construir não um cemitério para o afundamento dantesco  como assim queria o velho Odorico , mas um "hospício" no qual se consiga embutir toda esta gente que se cancera pelas orlas brasileiras.

Serão essas pessoas, pois, as nossas salsichas.



segunda-feira, 13 de junho de 2016

# hecatombe



A necropsia do futebol brasileiro, depois da reveladora noite de hoje – um outro sete a um –, é absolutamente urgente e imprescindível.

E nem entrarei no mérito do jogo que nos eliminou na primeira fase da Copa América: um primeiro tempo muito bom da seleção brasileira, um ilegal gol peruano etc.

Como aqui já dissemos – e aqui sucumbimos, num périplo pelas cinzas de Copacabana –, o velho e rude esporte bretão por nós praticado tem se mostrado, há tempos, inválido, esquálido, pálido, pouco promissor e nada alvissareiro.

A cantilena do futebol-mágico de outrora, sedimentado no inconsciente do imaginário coletivo produziu um sentimento que, de novo exemplarmente, tem nos impedido de reconhecer a necessidade de viver a pragmática realidade e de sobreviver ao nosso ego, cujo impulso parece incapaz de admitir a nossa inferioridade e, assim, inverter a nova ordem do futebol.

E por isso, e do modo ainda mais sinistro, outra humilhação histórica da seleção canarinho agora exige reflexão, mudança e avanço – e tudo imediatamente.

Se aquele julho de 2014 não bastou, e era isso que agora precisávamos para enxergar que no espelho o reflexo já não é belo, está aí, tudo feito e escancarado, sem a ilusão de vitórias circunstanciais e das conquistas de conveniência.

Hoje, falta-nos quase tudo, e vê-se claros problemas em tudo.

É emocional, é tático, é técnico, é estratégico, é organizacional, é de jeito. 

O jeitinho dos nossos treinadores é obsoleto, caricato e facilmente se desmancha no ar quando se requer a mínima rearrumação e a mais urgente reforma em campo.

A organização estratégica da nossa seleção é imoral e ordinária, típica de uma administração fechada e de fachada, mafiosa e mafiona.

A técnica e a tática do nosso futebol são reiteradamente desprezadas – tudo fica iludidamente resumido à viuvez da arte e do espírito brasileiro de se jogar futebol, na esperança eterna de que nossos poucos gênios possam salvar a pátria e que tudo o mais é coisa das ciências e de chatos tabuleiros.

E, por fim, o aspecto psicológico de nossos jogadores é alçado à quintessência, como causa e solução de todos os males, à espera da sacrossanta auto-ajuda de decoradores da alma, como se o futebol fosse o resultado aleatório de eventos comandados pelo destino e pelo coração.

Para bem além, a grande crise é estrutural, de base, de planejamento.

A decisão inicial é fácil, simples e inodora: exploda-se esta CBF – bandida e maligna – e se enterre, como lixo atômico, os seus restos.

E que só nos sobrem os restos mortais do nosso futebol.

Restos que, após os sucessivos vexames, sejam o humo da nossa potencial transformação.

Fora e dentro do campo.

Para que, assim, até 2018 salvemos não só a seleção.

Mas o futebol brasileiro, hoje de saudosa memória.



sábado, 11 de junho de 2016

# atleticanas (II)



Acostumado ao clima da sua terra, o Atlético alcançou neste noite uma das mais improváveis vitórias da temporada.

E, atenção, não bastasse o que se via naquele primeiro tempo tétrico contra o São Paulo – no qual perder por um gol foi lucro –, tinha no lombo um amargo tabu: há 33 anos não vencia naquela casa adversária.

A última vez?

No histórico Brasileirão de 83, vitória simples, gol de Assis – ele, ao lado do seu inseparável Washington, os meus primeiros ídolos rubro-negros (v. aqui).

Mas a neblina que baixava, o minuano que soprava e as estalactites que brotavam naquele pálido gramado do Morumbi pareciam anunciar o fim da longeva sina.

Inspirado nos cantos embotados de cimento e lágrima que recheia a selva de pedra são-paulina, a baliza atleticana era um concreto armado intransponível, parecia um corpo fechado como se preparado não no cruzamento da Ipiranga com a Av. São João, mas numa encruzilhada remota do bairro do Umbará.

Faltava, apenas, cutucar a onça tricolor, indo para o jogo, aceitando a bola e desrespeitando a lógica futebolística que ali insistia ser posta em cheque.

E aí veio a intervenção de vestiário de Paulo Autuori, que corrigiu os (seus) erros e trocou os zeros escalados de início – rodízio sem elenco é certeza de vexame, ora pois – por algo que pareceu duas dúzias: Walter e Nikão, titulares poupados que mudaram o jogo.

Com eles, e mais o fôlego etíope de Deivid e o pulmão biônico de Otávio, o Atlético passou a ser frio e calculista, virando o placar.

Uma vitória inesperada, de um time que ainda espera se encontrar.

Uma vitória, enfim, de quem conhece como ninguém o futebol on the rocks.



# romantismo de calendário



Das tantas esquisitices sedimentados pelo mundo, vasto mundo, este negócio de "dia dos namorados" – como, na mesma onda, "dia" das mães, dos pais, da vó, do irmão etc. – é um dos mais estapafúrdios.

Não fosse o contagioso apelo mercantil – que insiste em se espraiar por tudo que é canto e circunstância da vida –, qual seria a razão de se fixar um "dia" para isso?

Depois dos anos dourados da nossa adolescência, os sujeitos precisam se esforçar muito, inclusive entre si, para entender e extrair algum valor disso.

E, atenção, não se está a falar de valorizar mais ou menos o negócio (!), mas, simplesmente, de desconhecê-lo, desconjurá-lo, excomungá-lo – caso fosse abusar do vernáculo diria que a coisa não se discute no "plano da validade", mas no da "existência".

Trata-se, pois, de um engodo, sem noção e reflexão, e de uma ciranda, nauseante e impúbere, sob a qual milhares de casais medusicamente rodam e se fartam, hoje ainda no alucinógeno ritmo das redes sociais.

Ou algum sentido há em mover mundos e atravessar fundos para lotar lugares ao lado de outros tantos mil pombinhos erguendo desumanos (ou demasiadamente humanos) brindes?

Ora, o amor, a paixão, a alegria, o carinho, a devoção, o tesão, a comunhão e a entrega total à vida amada festejam-se diuturnamente, no dia a dia, numa segunda-feira, num dezembro, num castelo, num sofá, num samba, num circo, no seco, no frio, na chuva, nos porres, na gripe, na cama, na praia, na varanda, na gangorra, na fila do cinema, num banquete na cozinha, num pico da neblina, num lavar-de-louças, no caminho da areia de uma praia deserta, em qualquer canto de qualquer momento, ao natural, simples, espontaneamente, comme il faut.

Tudo, pois, longe, muito longe, da regra de hábitos tabelados para uma data criada do nada e para o nada – ou para o tudo fetichizado da moda comercial e vulgar.

O que, portanto, faz o gesto plastificado, pasteurizado, pleonástico. 

E torna o momento vazio e como água em estado gasoso: incolor, inodoro e insípido

E soa, enfim, como um mugido de testemunha de presépio, na busca frenética de se cumprir à risca a agenda e os ritos contados pela narrativa das vitrines e dos vizinhos. 

Tudo bem cronometrado, datado, selado, registrado e carimbado – se quiser voar por entre as curtições mais ou menos virtuais.

Como bem-me-quer o costume, é claro.



sexta-feira, 10 de junho de 2016

# a boca no trombone



Abelardo Barbosa cunhou a célebre frase: "quem não se comunica, se trumbica".

E o Governo Federal – tal qual todo governo, de qualquer instância, que insiste em enfrentar os alemães e seus canhões e as grandes questões nacionais – parece que só agora quis enxergar o tamanho deste problema e como isso funciona.

Nesta noite, a ótima entrevista do jornalista Luis Nassif, na TV Brasil, foi apenas outra amostra disso (v. aqui).

É verdade que neste nosso sideral espaço virtual já se falou aos montes sobre isso (v. aqui, aqui, aqui...); entretanto, nunca é demais voltar ao tema. 

Bem, andiamo.

Ainda pior do que não (saber) se comunicar, é insistir com o autoflagelo e a falta de esforço – aquela não proposital, é claro – que murcha as ideias e frustra as intenções.

Não voltemos, porém, ao lamento cândido e inocente que anseia por "justiça" nos meios de comunicação, por uma grande mídia "imparcial e independente", por informações "isentas de interesses privados" e por uma imprensa cujas notícias são os fatos e não as opiniões.

Certos de que isso, como diria o alegórico Pe. Quevedo, "no ecziste" – afinal, meus caros, é um negócio indevidamente regido pelo "mercado" , coloquemos a mão na massa para implementar formas de mitigar os efeitos daninhos desta erva que corrompe a mente e o ideário da população e que mina o bom governo.

Não se fala aqui de se fazer propaganda ou promover hagiolatria, fala-se simplesmente em "informação".

Ora, encaremos a realidade: nada, nada ou quase nada do que o Governo fazia chegava aos olhos e ouvidos da massa.

Tudo, tudo ou quase tudo que se faz em termos de políticas públicas, de ações governamentais e de avanços, de alcances e de alvissareiro não chegava massificado em nossas casas.

Pelo contrário, a alvorada que diariamente surgia era vestida de sordidez, era maquiada de um turvo preto e se fixava como sinistro espantalho, sempre a anunciar o caos e a massacrar fatos, dados, nomes e notícias.

E o Governo, de verdade e concreto, se calava e se afastava cada vez mais da nossa gente. 

E, enfim, não se adonava da própria voz.

É claro que muita – muita! – gente vê e sente na pele o braço estatal de apoio, de amparo, de ajuda e de fomento.

E para estes milhões a farsa midiática é desnuda e os surtos da imprensa são em vão.

Mas para toda uma outra multidão, o silêncio e a ineficácia comunicativa do Estado sempre foram constrangedores e nefastos.

E suicidas.

E homicidas.

O Governo do PT, pródigo em cometer erros inconcebíveis em diversos planos, também insistia em conformar um Ministério das Comunicações doce e manso, cordial como o homem brasileiro descrito nas "Raízes do Brasil"; a SECOM, por sua vez, esvaziava-se no seu fim e se anulava nos seus meios; e a EBC trabalhava mal, muito mal, com uma NBR e uma TV Brasil fracas, chatas e brochantes  salvo raras aparições em idéias excepcionais que confirmam a regra – que faziam por merecer a microscópica audiência que sempre tiveram.

Em suma, meus raros leitores, isto que temos na estrutura de comunicações nunca bastou para levar o balanço, as obras e as políticas de Governo aos brasileiros, e para libertar ambos das amarras canalhas dos donos da informação.

No plano interno já se sabe que isso só tem conserto com o fechamento das torneiras que sustentam e fomentam os grandes grupos do país – lembre-se que são torradas fortunas em publicidade masoquista que, ao cabo, só engordam o bando – e, elementar meus caros, uma Ley de Medios, ampla, intensa e irrestrita (v. aqui).

E não se venha com a ladainha de "censura" ou coisas do gênero;trata-se, sim, de medida que radicaliza a democracia e a república, nos estritos termos do Capítulo V, Título VIII, da nossa Constituição.

E fora, como fazer para levar esse nosso mundo ao resto do globo, opondo-se à avalanche reacionária e colonialista dos gigantes conglomerados de mídia que insistem nas deslavadas mentiras de um pensamento único e unilateral?

No âmbito dos BRICS, China e Rússia montaram poderosos meios de difusão de informações: a agência de notícias Xinhua é um grande exemplo de competência e efetividade (v. aqui), a televisão estatal chinesa (CCTV) exibe programas em diversas línguas com material de notória qualidade – e até em espanhol (v. aqui) – e a Rússia já tem uma TV em língua inglesa que, vejam só, contrata ilustres âncoras e jornalistas mundo afora (v. aqui).

Pois bem, e o Brasil?

Continua trancafiado na Globo, nos jornalões, nos grupos regionais (e internacionais) de mídia e na cabeça conservadora da elite "formadora" de opinião.

Em suma, Dilma, Lula e todo governo popular e de centro-esquerda tinha que ir à TV -- como aqui se ensina.

Toda semana, em horário nobre, 10 ou 15 minutos dizendo o quê e como faz.

Tintim por tintim, nos mínimos detalhes, de modo claro, corajoso e contagiante.

E explicando, deixando claro as responsabilidades e atribuições de um Congresso que insistia em boicotar e chantagear a todo instante.

Metia o Poder Legislativo na vitrine, para que toda a população veja e saiba o que faz.

E acabava com a falsidade dos discursos e a dissimulada ação de parlamentares que sempre chegavam maquiadas aos holofotes da grande mídia.

E por que não expor o Judiciário, o nosso irresponsável (a quem responde?) e irreparável (por que nunca erra?) poder? Diz, fala das grandes ações que o Estado perdeu e das grandes decisões que os tribunais superiores tomaram.

Isso tudo é pressionar ou mitigar a independência destes dois poderes?

Não, isso é transparência, na TV, na veia, de verdade, para todos verem, ouvirem e refletirem.

E também a sobrevivência prática e moral da nossa democracia.