sexta-feira, 15 de setembro de 2006

# na véspera...

It was a teenage wedding, and the old folks wished them well.
You could see that Pierre did truly love the mademoiselle.
And now the young monsieur and madame have rung the chapel bell - "C'est la vie", say the old folks, it goes to show you never can tell.
They furnished off an apartment with a two room Roebuck sale.
The coolerator was crammed with TV dinners and ginger ale.
But when Pierre found work, the little money comin' worked outwell - "C'est la vie", say the old folks, it goes to show you never can tell.
They had a hi-fi phono, boy, did they let it blast.
Seven hundred little records, all rock, rhythm and jazz.
But when the sun went down, the rapid tempo of the music fell - "C'est la vie", say the old folks, it goes to show you never can tell.
They bought a souped-up jitney, 'twas a cherry red '53.
They drove it down to Orleans to celebrate the anniversary.
It was there that Pierre was married to the lovely mademoiselle - "C'est la vie", say the old folks, it goes to show you never can tell.
It had a teenage wedding, and the old folks wished them well.
You could see that Pierre did truly love the mademoiselle.
And now the young monsieur and madame have rung the chapel bell - "C'est la vie", say the old folks, it goes to show you never can tell.
(Chuck Berry)

sexta-feira, 7 de julho de 2006

# nas entrelinhas de parreira e felipão, a república federativa do brasil

Façamos uma análise comparativa, entre Parreira (o Kiko carioca) e Felipão (o Scolari português) e, para então atingir um buraco mais embaixo.
Parreira, um burocrata, veio com meticulosas análises técnico-táticas, a valorizar esquemas, números, nomes, marketing e, principalmente, a adotar uma política inerte, a seguir tudo, por completo, à risca e com plena e irrestrita submissssão aos ditames da confederação, sem independência e sem nunca arrostar seus dirigentes e seus superiores, assim como tornar intocáveis tantos nomes ultrapassados e deslocados. Ademais, há décadas enxergamos no jogo dele um time chato, igual, sem mudança, sem motivação e à espera de um ou alguns seres supremos para salvar (romário, que fez, ou um quadrado, que nada fez). Assim, o seu comportamento traduz-se à imagem e à semelhança do comportamento da nossa cúpula governamental, ambos como serviçais do capital, com o treinador à mercê dos cartolas e patrocinadores e o presidente ainda subjugado à fisiologia dos congressistas e à estúpida burguesia dos 40 mil da daslu. Isso ocorreu em 94, isso ocorre agora.
Felipão, um líder, buscou na superação e na total entrega individual, no tête-à-tête, na base da força e da harmonia do conjunto, um novo jeito de jogar. Renegou carimbos, nomes e pedidos para abusar de uma sábia autoridade, de uma franca rigidez e de um cabresto inteligente, eficaz e funcional, responsáveis por ótimas conseqüências. Desdenhou fórmulas, revisou concepções impostas e fugiu do famigerado pensamento único, a ceder espaço para um novo caminho, uma nova via. Fez do apelo popular (aqui e em Portugal) o instrumento para conquistar a confiança e do total aproveitamento para alcançar o respeito e a admiração do povo e das nações. Colocou no devido e mal-cheiroso lugar a confederação, seus dirigentes, os caciques nacionais e uma estúpida cartilha de viciadas regras, de relativos bons-costumes e de expressa vassalagem. Buscou reviver e reciclar uma forma de conduzir a cabeça e o espírito dos atletas, em uma exata mistura de competência e profissionalismo com um romântico altruísmo. Isso ocorreu em 2002, isso ocorre agora.
Com nosso país, tal qual, acredito que as regras do jogo também precisam ser revistas, pois há a urgente necessidade por uma transformação do sistema político, econômico e, principalmente, social; devemos tirá-lo da vala comum e não podemos aguardar impassíveis a benção divina para sair do subdesenvolvimento e da corrupção.
Hoje, necessitamos, desejamos e clamamos por um Felipão, como um basta a tantos homens da estirpe de Parreira. Porém, isso nunca ocorreu, mas em outubro temos a chance de fazer isso ocorrer agora.

quarta-feira, 5 de julho de 2006

# razzies

 
Dentre tantas bobagens que os estadunidenses promovem, há o troféu "Razzies" - ou, na versão tupiniquim, "Framboesas de Ouro" -, que anualmente premia os piores no mundo do cinema.
 
E, assim, como essa Copa traz tantas más impressões e tantas más apresentações, nada tão justo como fazer, de um a onze, a lista dos que mais decepcionaram, prejudicaram ou não apareceram nos jogos de suas seleções. Ei-la:
 
Kahn (deu medo); Cafú (deu ódio), Pujol (deu amarelão), Gamarra (deu pena) e R. Carlos (deu nojo); Émerson (deu cãibra), Lampard (deu sono) e Ronaldinho (deus do marketing e da mídia); Pauleta (deu raiva), Rooney (só deu confusão) e Van Nistelrooy (não deu em nada).
 
Técnico? Parreira, claro.
 

domingo, 2 de julho de 2006

# as chuteiras apátridas


Formada por uma quase integridade de atletas que vivem já bastante distantes do mundo brasileiro, o escrete verde-e-amarelo já consolidava um significativo (mal) presságio, pois a essa distância da realidade nacional assomava-se o fato de sermos uma nação repleta de “homens cordiais”, em sua maioria pacatos, silenciosos e inertes, dentre os quais aqueles onze homens não poderiam esconder qualquer segredo diferente.

E foi isso mesmo que aconteceu.

Estrelas do show businnes global, astros do merchandising internacional e popstars do faz-de-conta mundial, a preocupação de cada um apenas com a vida própria e de seus familiares justifica-se plenamente, nos mesmos moldes em que é (pretensamente) justificado o individualismo egocêntrico do regime anti-social vigente em quase todo o resto da Terra.

Toda essa maldita realidade – a misturar a “cordialidade” do selecionador com os seus comandados, a “inércia” de quatro futebolistas em linha a olhar o gol adversário e, novamente, de um parvo gestor de talentos (sic) cagado e mumificado perante a realidade campal, o "egocentrismo" de um pseudocapitão na busca de recordes pessoais, e, finalmente, o “espírito do capitalismo” simbolizado em uma faixa na cabeça do mercadológico melhor do mundo (mas, na verdade, uma rara espécie de homem-foca do Cirque de Soleil) –, apenas fora ratificada, talvez em definitivo, naquele estádio alemão.

No estágio e, principalmente, no formato atual de globalização, talvez seja hora de rever a política de destacamento de atletas nacionais para a disputa de competições deste porte, afinal, os pensamentos, as motivações e as necessidades estampadas no cotidiano e nas atitudes de cada um daqueles homens em (quase) nada representava esta terra brasilis, pois a sua maioria era formada por cidadãos que não buscavam mais nada no futebol ou no reconhecimento pela terra-mãe.

Não há nenhum misticismo, nenhuma teoria conspiratória, nenhum pacto diabólico ou mesmo nenhuma enfermidade físico-psíquica coletiva que pretendam justificar o vexame deste final de semana, pois o que houve apenas está a representar o mero produto cartesiano do sistema que rege as relações humanas atuais.

Não se tenham devaneadoras dúvidas: o que está em jogo é muito mais que uma partida que pára o Brasil, e muito menos que uma vil partida que possa macular cabeça, tronco e membros destes atletas-propaganda.

Embora não assente na mente sapiente de poucos milhares de cidadãos instruídos – ainda que a emoção às vezes suplante a razão –, machuca saber que em milhões de pessoas a tristeza e o desespero de ver desonrada as cores da bandeira em um campo de futebol sobressaia à tristeza e ao desespero de ver diuturnamente maculada as cores nacionais no campo da política, com a falta de democracia econômica e a desigualdade humana; porém, tratar com descaso e desídia um jogo que para a maioria de nossa gente é o único momento de retificação social – em cujo quadriênio aponta para um carnaval de trinta dias e para uma temporária unificação nacional –, é o maior e mais epidêmico dos males.

Agora, resta acreditar que aos poucos a nossa civilização desprende-se deste fúteis laços e fita-se de modo mais realista e importante nas verdadeiras questões nacionais, bem diferente da não observada nesta Copa do Mundo.

Enfim, deve-se abrir e roçar os olhos para enxergar o que realmente apareceu neste último sábado, pois o que se viu não foi uma “pátria de chuteiras”.

Viu-se, simplesmente, um amontoado de chuteiras multinacionais, sem pátria, sem corpo e com a alma alugada.

 

terça-feira, 27 de junho de 2006

# brasil x gana

Ainda que vitoriosos, faltou técnica, tática, tezão, tranquilidade, talento e time; e, do outro lado, sobrou gana - e a viola poder-se-ia fazer em cacos.

domingo, 25 de junho de 2006

# tamancadas e bacalhoadas

POW! IÁÁÁÁ! SOC! BOOM! PÁ! CRASH! PAFT! TRRRRÁ! UUUUGH! @#&&#@! TUNC!
E entre mortos e feridos, sobrou o exército de Felipão, líder já merecidamente inserido na galeria dos heróis lusitanos.

segunda-feira, 19 de junho de 2006

terça-feira, 13 de junho de 2006

# brasil x croácia

Um jogo tão difícil, como reflexo da nossa pífia apresentação, quanto pronunciar o nome original de nosso adversário: Hrvatska.

sexta-feira, 12 de maio de 2006

# gabi, doze meses

Incrível esse tempo: há 12 meses, nascia a Gabriela, minha amada afilhada e sobrinha.
 
E lá atrás, ainda nos primeiros dias de vida – ela nasceu na prematuridade dos 6 meses (!) –, entre sustos, alegrias, dramas e orações, logo que a visitei na incubadora, eu recebi essa sua telepática carta, na forma de um debutante diário...
 
"Querido diário,
 
Queria eu saber como sair daqui.
 
Ou melhor, queria eu saber o que faço aqui.
 
Coisa mais estranha essa bagunça toda de fios, tubos, canos e agulhas aqui em cima de mim, ao meu redor.
 
E, pior, sem nada para fazer.... devo, quem sabe, pensar num pedido de resgate à minha mulher-maravilha.
 
É verdade que aqui está um pouco melhor do que antes, pois posso esticar as minhas canelas e os meus braços confortavelmente, além de não precisar ficar a engolir uma gororoba nada saudável que insistia em me entrar pelo umbigo.
 
Porém, acho estranho terem me tirado daquela piscina quentinha e colocado-me aqui, já, fora da hora, sem eu querer – pelo que andei a estudar (e pelas minhas contas), eu somente sairia de lá em dois meses e, quando chegado este momento, iria direto para um quarto todo colorido, pintado, enfeitado e perfumado, e não ficaria neste aqui, quase sem-graça, tudo muito branco e muito sério.
 
Aqui, pouca coisa acontece, mas, de todo esse pouco, quase nada a turma da Casa ficará a saber (vocês sabem, memória de recém-nascida é muito fraca...).
 
Embora não pareça, as moças daqui me tratam bem, ainda que não realizem todos os meus pedidos – já tentei lhes demonstrar que começo a me sentir incomodada com os homens que me vêem sem as calças e com a choradeira da vizinhança que não me deixa dormir.
 
Queria que soubessem que o leite que tomo desce redondo e o soro, embora meio sonso, não é de todo ruim.
 
Das coisas do meu corpanzil, tudo vai as mil maravilhas, fora ele: o meu sistema cardio-respiratório.
 
Diariamente o xingo (e talvez isso tenha herdado da mamãe) pela falta de competência e de agilidade para se desenvolver – vejam só, coisas inúteis como as unhas dos meus pés e os meus pêlos cá estão, belos e formosos, mas, ele, logo ele, não teve a envergadura moral de bem crescer... mas, tudo certo, a gente vai levando e logo não mais precisarei destes arzinhos que me entopem e terei, finalmente, a minha lei áurea.
 
Acho que eles gostariam também de saber que considero a minha cama boa, um pouco durinha, mas que faz bem à minha coluna.
 
Ah, outra coisa: se continuar neste ritmo, sairei daqui morenaça, pois o sol daqui, ainda que talvez meio diferente e meio artificial, é bastante forte – as moças de branco até dizem que é para ajudar no meu crescimento, mas desconfio ser coisa da vovó para me deixar exibida como uma garota de Ipanema...).
 
Bem, sempre me falaram que depois daquela piscina quentinha e amniótica eu iria ficar ou em um berço ou nos braços da minha amada Casa – mas, não é o que acontece...
 
Se não fico 24 horas deitada neste mesmo lugar, eu estou nos braços desta galera de branco que, tenho quase a certeza, não têm traços sanguíneos similares ao meu e a mim não pertencem.
 
Mas, de verdade, o que mais me instiga é tentar e não conseguir traduzir o que pensa essa gente toda da família que fica a me olhar.
 
E me olham, e me olha, e me olham... É engraçado ver a minha vovó (linda!) a acariciar essa bolha que me cerca, com medo de me tocar (será que não entendem que não sou tão intocável assim?).
 
É estranho ver as minhas tias por detrás do vidro sem poder nelas tocar ou morder (por falar nisso, me encasqueta não entender por qual razão nenhuma das duas não chega muito perto de mim – será que é pelo fato de uma ser meio atrapalhada, e perigar cair em cima de mim, e a outra ter um pescoço tão grande, e conseguir ver-me de bastante longe?). Como também o é aquele meu padrinho, sempre descabelado e com os olhos franzidos, parecendo pensar que sou algo meio alienígena (ah como dou risada...).
 
Da mesma forma, me angustio por ver meu vovô e não poder agarrar aquele esquisito monte de pêlo que tem embaixo do nariz.
 
Mais do que isso, me angustio por querer tanto lhe dar mil beijos de agradecimento, por cada dia, por tudo que sei que está fazendo por mim e não poder...
 
Porém, destas estranhezas todas, nada, nada supera a imensa vontade de sair daqui e ir para o colo amado da minha mãe.
 
As pessoas grandes podem não saber, mas daqui eu consigo captar tudo o que acontece ali fora, inclusive o choro dela, diário, sempre depois que vem me ver...
 
E isso me aflige, motivo que me faz ter todas as forças para sair deste meu quartinho e chegar lá fora, nos braços dela.
 
Ah, como eu queria que ela soubesse que está tudo muito bem e que não precisa chorar ou, menos ainda, ficar triste...
 
Por isso que a pena maior é o fato de, ainda, eu não saber escrever ou falar na língua das pessoas grandes, pois o que mais queria era lhe contar isso tudo, e muitas outras coisas.
 
Porém, suspeito que entre uma abertura dos olhos e um aperto de mão eu consiga, no fundo, lhe dizer...
 
Mamãe, amo você”.
 
 
 
 

quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

# êta!

... e eu, eleito expontaneamente eremita e em efúgio, estou enlouquecendo e emarelecendo, em explícito e encarnado exemplo extremo-europeu, entusiasta e espantado em enxergar esse estado enredado em escuridão. enfim, esta estada embebe-me em exclusivos escritos, em entranhos e escusados estudos... exorando, ébrio em emoção, este expectável epílogo; e, enquanto essa efemeridade empenha-se em se espaçar, espero, esperançosamente, esta eterna época extra-terra encerrar-se, estando, então, entusiasmado, eufórico e em explêndido êxtase....

sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

# cartas aos amigos bem depois de 74



Daqui, longe da terra, a lembrança dos amigos faz sair daquela bela carta do Vinícius ao Tom algo mais ou menos assim...

Coimbra, 19 de dezembro de 2005.

Amigos Queridos,

Estou aqui, num quarto de pensão, que dá para um mosteiro, que dá para toda a solidão do mundo.


São 10 horas da noite e não se vê viv’alma. 

Meu avião só sai em março e é impossível alguém estar mais triste do que eu. E como diferente de sempre, nesta hora, escrevo para vocês uma carta que, finalmente, irei mandar-lhes.

Deixei Londres para trás com pouca saudade de algumas semanas de pesquisas, estudos e festas e pela frente tem o Brasil, que é uma paixão permanente em minha vida de ora exilado.

A coisa ruim é que hoje é quase Natal, a data maior, e sei que em algum lugar de nossa cidade haverá uma festa que me cairia muito bem, com todos vocês mandando brasa nos comes-e-bebes, nas conversas e nas musiquinhas. Pois é, com certeza queimaríamos um óleo firme...

Vocês já passaram um 24 de dezembro, amigos, sozinho num país estrangeiro, numa noite sem qualquer perspectiva? É fogo maestros...

Estou doido para ver vocês e recomeçar a trabalhar. Imaginem que este ano foi praticamente dedicado à tese, pois Coimbra não é brincadeira.

Mas agora o tremendão aconteceu mesmo: esta histórica cidade teve que se curvar. Estou a fazer uma obra interessante – modéstia à parte, naturalmente – e vocês vão ver, deu um trabalhão.

Parece até que quando você apresenta trabalhos longe de sua terra algum sentimento patriótico está em jogo, não é engraçado... Mas, como diria o Sérgio Buarque, são as raízes...

Vou agora escrever para casa e pedir dois menus diferentes para a minha chegada. 

Para o almoço, uma feijoadinha com farofa de bacon, bistequinhas de porco (bem tostadinhas), uma couvinha mineira, e doce de coco. 

Para o jantar, um grande churrasco com direito a aperitivos, uma farofa bem soltinha, e papos de anjo... mas daqueles que só a mãe da gente sabe fazer. Daqueles que se a pessoa fosse honrada mesmo, só devia comer metida num banho morno e em trevas totais, pensando, no máximo, na mulher amada. Por aí vocês vêem como estou me sentindo... nem cá, nem lá...

Fiquei muito contente com o sucesso das tarefas, dos trabalhos e das traquinagens de vocês por aí. E a vindoura filha do Jeco hein... que negócio tão direito! Vamos ver se desta vez o rapaz toma jeito...

Fiquei muito contente também com a notícia do insucesso do Coritiba aí no Brasil. Dizem que estão achincalhando o timinho pra valer! Isso me alegra muito pelo Baiano, pelo Neto e pelo Black... e pra que mentir, por mim também! É bom saber que aos poucos este time vai sendo esquecido, que o povo passa a ficar cantando outras coisas... pois, no fundo mesmo, é para o bem deles que aquele time se decompõe.

Ainda, por ser quase época de Copa do Mundo, lembro-me tão bem quando fizemos um samba, uma madrugada, na praia, há uns seis anos atrás, por aí... Eu disse a Chico, a Zappa e a Gerson: “Isso tem pinta de sucesso!”.

E ficamos dançando e cantando samba, até o sol raiar...



terça-feira, 6 de dezembro de 2005

# gralhas e coxos (ou "à la recherche du temps perdu")

Vila Capanema, 4 de dezembro de 2005.
Tenho sempre sido encarado como um patinho feio, horroroso. Uma desgarrada ovelha negra, obscena. O burro primo pobre. A zebra indecorosa e estúpida. Ou mesmo o cão pulguento, sem dono, sem lar.
Hoje, alegre, e com um sorriso malandro e de viés, posso assegurar que sou apenas uma gralha rubro-celeste que sobrevoa todo este acontecimento à distância e, quase de camarote, enxerga tudo por cima, a rir. Vaticino que a vingança, à galope, veio e ficará.
Por anos e anos estive embaixo, desprezado e mal-amado por tudo e por todos, pelos media e pelo povo; na verdade, por poucas vezes - e vezes tão somente regionais - estive a vê-los por um ângulo diferente deste.Eis que, deste domingo e pelos certos próximos trezentos-e-sessenta-e-tal dias, o verde-e-branco curitibano afunda no lado b, na paisagem obscura, na vida baldia do rude esporte bretão nacional, lá mesmo onde as luzes são poucas, não há graça, ninguém é feliz.
Zoam e caçoam da nossa vida em kombis, da nossa relva de várzea, das nossas equipas de aluguel e da nossa curta história; humilde e quase-réu confesso, sempre segui em frente, à espera de um grande dia, deste grande final de tarde.
Não sei do meu futuro, disse ter um muito breve passado, mas meu presente é, agora, em outra dimensão, pois posso afirmar, categoricamente, que, nesta seara, pelo menos em todo dois-mil-e-seis, não estarei a conviver com a turma de baixo.
E pior - para eles - foi querer o destino que o momento para a queda fosse este, que significará longos anos de espera para voltar a ver a luz. Pode escrever: tal qual no mundo, em pindorama o futebol está completamente nivelado, são ossos duros e equilíbrio intenso.
Resultado: os coxas penarão e clamarão pelas almas-penadas de outrora, amargarão no futuro esta decepção do presente e contemplar-se-ão com os versos de vida, minha vida, olha o que é que eu fiz...
Temo pelo que resta dos seus torcedores com menos de trinta-e-dois dentes, que pouco viram do sol mas que sofrerão com a constante presença sombria de um longo inverno, um inferno.
Trata-se, talvez, do mais certo reflexo do mundo, que gira, que dá voltas. Dos anos sessenta até oitenta-e-cinco, toda a minha árvore genealógica, ainda que sob outras insígnias, padeceu o infortúnio das glórias do ex-glorioso. Finalmente acabou.
De agora em diante, sine die, os seus adeptos necessitarão viver as agruras de uma divisão de segunda e de jogos na terça com (e contra) times de quinta, excitar-se-ão apenas com os desprezados títulos domésticos e vibrarão com o consolo de torcer pelos infortúnios de nossa gente humilde e de nossas cores que figuram na primeira-classe.
Ass.: João da Silva, um paranista.

domingo, 30 de outubro de 2005

# uma vitrine humana


Finalmente fizeram-me conhecer o tal orkut.

Há tempos, neste horizonte da internet, não constatava tamanha aberração, pluri-sensorial: mental, cultural, social, físiológico etc. Enfim, algo bizarro.

Antes, de início, soube que os brasileiros somos os maiores utentes deste troço.

Péssimo sinal: em linguagem nada criptografada, significa sermos, talvez, o povo mais desocupado do planeta.

Há quem diga que este clube não passa de mais uma conseqüência inútil da vida online. 

Há quem o considere uma vil panelinha virtual. 

Se entendi um pouco da sua idiota mecânica, afora àquela ladainha de que entra quem quer, trata-se da quase-perfeita união entre estas duas teses e outras tantas bestialidades, nas quais não consigo encontrar um pouco justificado motivo para o ingresso.

No clubinho há espaço para tudo -- um breve conhecido, a concunhada gente fina, a nora da irmã da calista da secretária, o moço que traz o gás, adolescentes, vigários-gerais, cães...

Ora, o que leva a massa a desabrochar seus sentimentos em busca de relações minguadas em um fel contagioso onde qualquer um entra e pode ver - eis, então, a princípio, a cultura do grande irmão, trazendo seres que rompem continuamente a sua privacidade, os seus dados, a sua alma; e, a posteriori, o universo das sacanagens atômicas, ou melhor, à bits, indecifráveis, indestinadas e imbecis.

Na esteira, vêm as anomalias cultural, mental e física havidas neste tal clubinho. 

O que interessa-me pensar é: por quê? O que são aqueles porta-retratos virtuais que os selecionáveis dispõem no ecrãn? Vêem-se poses mil, com roupas e nus estrategicamente expostos, com pinturas na cara e muques constrangedores que fazem a autofagia de cada clubenauta. 

E as “citações testemunhais”? Percebo que o brilhante clube tem um espaço para recados do coração, no qual todos os clubenautas sabem, com nome, cara e quase cpf, de quem e para quem vão as declarações. 

Assim, com tudo isso visceralmente exposto, acabam-se as cartas intimamente dirigidas, acabam-se as descobertas à dois, olho no olho, instigantes, particulares, românticas -- tudo em prol de uma rede de centenas de "friends" que surgem após meu nome, entre meus parênteses, restando em números frios, vazios e que, no máximo, nos remetem à uma época rançosa, traduzidas em uma operação de soma zero.

E os "fãs"? Como grande consolo para os não-artistas ou não-boleiros, eis que surgem, de um nada (absoluto ou relativo), seres que te assumem como tal e, mesmo com tamanha puxada-de-saco, permanecerão olvidados em algum canto baldio da tua vida. E as risonhas carinhas amarelinhas ao lado de pulsantes coraçãozinhos vermelhinhos que ilustram o perfil do infeliz?

E, então, eis que surge o maior caos, o caos social, que vai sim, rechear-se de demagogia, de hipocrisia, de superficialidade, de mecanização das relações. 

Só porque você encontrou aquele estúpido que nem se lembrava, lá da quarta série, acha bacana? Ou somente porque você é fã daquele seu amigo superbacana acha interessante estrumar algumas palavras ali, na tela, bacana? Ou será que toda essa gente se engana ou então finge que não vê?

E o que dizer do “perfil” que cada um oferece: gosto de ler nietzsche, sou parda e simpática, i don't need labels, tenho aracnofobia e uso pasta dental crest menthol extra-light.

Ora, para que me interessa saber o que fulanos, beltranos e cicranos fazem das suas vidas? 

As pessoas têm amigos e relacionamentos que permitem e velam por tal abertura, por tais (re)conhecimentos, por tais intimidades recíprocas... agora, fazer desse clubinho uma vitrine humana, que nos fazem reféns diários de novos contatos, de um encarniçado networking e de mais números entre parêntesis é certamente execrável. 

E lastimável, pois, da mesma forma que não podemos perder ou mascarar nossa indentidade, não permitamos escancará-la -- e ninguém me convencerá deste contrário.

Em breve, a realidade dirá quanto desta árvore virtual restará inútil (ou criminosa) para estes prosélitos e, comme il faut, se verá que esta rede não passou de outro funesto modismo acolhido por um infausto contingente humano e que não deixou restos, úteis ou recompensadores.

Porém, são modas, que vem e que vão, assim como a moda de não-ser-do-orkut...


quarta-feira, 26 de outubro de 2005

# cai, cai balão?

Não sonhei. Peguei a tabela e apenas calculei. E ficou fácil de prever.

Cruzeiro - amanhã - no Couto Pereira
É O JOGO DECISIVO. NÃO SERVE PRA NADA AO CRUZEIRO. TEM OBRIGAÇÃO DE VENCER. (3)

Mas daí...

Internacional - 28/10 - no Beira-Rio
INTER, LIBERTADORES, FORA DE CASA. ESQUEÇAM. (0)
Flamengo - 31/10 - na Arena Petrobrás
FLA, DESESPERO, MAIOR TIME DO BRASIL, A PROBA JUIZADA E A SÉRIA CBF NAO VÃO DEIXÁ-LO NA MÃO. E O DELEGADOZINHO CAI. (0)
Figueirense - 3/11 - no Couto PereiraRETRANCA BRABA DOS CATARINAS PRA NAO CAIR. DEZ NA DEFESA. EDMUNDO NA BANHEIRA FAZ O GOL UNICO DO JOGO. (0)

Brasiliense - 5/11 - em Taguatinga
NA BOCA DO JACARÉ, O LUIS ESTEVÃO JÁ ACERTOU COM OS DOIS BANDEIRAS. OZÉAS FAZDOIS GOLS IMPEDIDOS. LORI SANDRI CAI. (0)
Corinthians - 13/11 - no Couto Pereira
JOGO DO TITULO PARA OS PAULISTAS. GOLEADA. GALVÃO GRITA: É TETRA, É TETRA. (0)
Ponte Preta - 17/11 - no Couto Pereira
A MACACA QUER ENTRAR FINALMENTE EM UMA SUL-AMERICANA, ALGO QUE NÃO FAZ DESDE A SUA FUNDAÇÃO (SÉC. XIX). JOGO HORROSOSO. ZERO A ZERO. ALADIM LARGA A CÂMARA, PEGA A LÂMPADA, SE AGARRA NO EX-GOLEIRO JAIRO, E ASSUMEM O TIME. FAZEM TRÊS PEDIDOS. ESTE PRIMEIRO JÁ NÃO É OUVIDO PELOS PANGARÉS. (1)
Atlético-MG - 20/11 - no Mineirão
IMPOSSIVEL. 120 MIL TORCEDORES A EMPURRAR O GALO PRA LONGE DA SEGUNDONA. (0)
São Caetano - 27/11 - no Anacleto Campanella
A MALA PRETA APARECE EM SÃO CAETANO. EDILSON, MIXIRICA E DIMBA FAZEM UM GOL CADA. DESESPERO. JOEL SANTANA DIZ QUE AINDA DÁ TEMPO. (0)
Internacional - 4/12 - no Couto Pereira
O INTER JOGA O RETORNO A LIBERTADORES DA AMERICA. OS COXAS JOGAM A QUEDA PARA A SEGUNDA DIVISÃO.NERVOS À FLOR DA PELE. 50 MIL EM CAMPO. FOGOS, FAIXAS E FETICHES. FRUSTRAÇÃO. FERNANDÃO FAZ UM A ZERO. RENALDO EMPATA. O BANDEIRA ANULA. SEGUNDO TEMPO. FERNANDÃO FAZ DOIS A ZERO. TORCEDOR-VOVÔ INVADE O CAMPO. DÁ UMA BENGALADA NA CABEÇA DO CAPIXABA. A TORCIDA GRITA: "VERGONHA,VERGONHA!". RENALDO DESCONTA, NOS DESCONTOS. A TORCIDA CHORA: "COXA EU TE AMO".(0)

Com 42 pontos, os coxas estão rebaixados. Corro até Lisboa para o balcão da TAP. Não consigo vôo. Perco o glorioso dia depois do amanhã. Já reservo o pagar-pra-ver da net. O Atlético fica um pouco de lado. E, no primeiro sábado de abril, sento-me confortável, abro uma lata de cerveja e assisto CRB x Coritiba, direto de Maceió. Sim, não era um primeiro de abril.

Quo vadis, coxas?

segunda-feira, 18 de julho de 2005

# bem-me-quer, malmequer

Todo garoto, se não desvirtuado ou idiota, tem em sua passagem terrena gosto pela pluralidade clubística e pelos casos múltiplos de amor, ocultos e não correspondidos pela mulher dita amada.

Nesta fase, gosta-se de várias, de diferentes, uma a cada semana, dependendo apenas dos bilhetes mal respondidos, dos olhares levemente trocados ou dos lanches de recreio à distância divididos.

Ademais, como esquecer das reuniões vespertinas para estudos escolares, nas quais se angustiava pela presença ou ausência da menina-dos-olhos no grupo? Ou, então, como não lembrar dos incautos e inconfessáveis escritos feitos em cadernos chamados de confidência, nos quais se lia e relia as opiniões dolosamente não reveladas por aquela alma gêmea momentânea?

Todas as vezes, quando perguntado, dizia-se que se namorava luízas, que se dava beijos em ritas, que se deitou com lígias ou que orgulhosamente se refutou as doçuras de cecílias.

Eram, em todos estes casos, assunções feitas nas tentativas de elevar ou manter a própria auto-estima grupal, solidificar a fortaleza digna de um cabra-da-peste ou, no mais das vezes, apenas tentar demonstrar ou imaginar o eco de algo platônico.
 
E é esta imperfeita ou vazia ligação amorosa que também nos cerca quando, em fases de outrora, adotávamos dois, três, quatro – ou quantos nossa imaginação pudesse eleger – times de futebol.

Fui corintiano (com direito até a apelido de bairro) e depois são-paulino; fui gremista, de uniforme, hino e faixa; fui cruzeirense, com camisa feita sob encomenda e fui fluminense, com cartas descritivas endereçadas ao bigode; diz a lembrança, até, que pelo vitória da bahia e pelo santa cruz eu também torci, mas daí já não acredito.
 
Porém, de todos estes amores passageiros, reais ou não, o que mais marcou certamente foi o botafoguense, que surgiu do nada, de uma negra luz de décadas sem coisa alguma ganhar para ocupar-me com vibrações e comemorações emocionadas e históricas.

Claro que de todo este elenco, nenhum restou, nem mesmo gostos esparsos ou alegrias de glórias repentinas. Nada era perfeitamente simbiótico e em nenhum sentia uma reciprocidade próxima, uma presença de corpo e alma. Hoje, e também talvez por isso, como desd’antes os primeiros passos de vida, eu sou Clube Atlético Paranense. Única e exclusivamente. Um casamento à moda antiga. Uma relação monogâmica e, posto que não é chama, eterna e imortal.
 
Entretanto, neste último domingo, digo com bastante sinceridade que as cores alvi-negras da estrela solitária voltaram a me contagiar e a me adular. Este assédio fez reacender uma paixão esquecida, reencontrou um amor perdido, tem de novo aquela amante imemorável para os momentos fugazes, mas que talvez venha para ficar.

Percebi que ontem, com os resultados dos jogos em curitiba (três a zero) e em belo horizonte (três a dois), consegui satisfazer-me em dosa dupla, sentir uma alegria conjugada que há tempos não vivia neste mundo da bola.
 
Afinal, devo confessar, não é todo dia que dois amores são tão bem correspondidos...

 

sexta-feira, 15 de julho de 2005

# cacos


A leitura feita pela cigana não poderia mostrar um destino diferente, pois, sabiamente, nas linhas tortas da vida tem-se os certos escritos divinos.
 
Por alguns momentos, o mais racional dos seres esquece esta virtude, deixa de tê-la e age, apenas, pela irracional emoção.

Não seria possível, jamais, se permitir a crença gratuita e cega em resultados tão incertos.
 
Ficou inteligível a deficiência técnica do todo, assim como ficou clara a incompetência de alguns, mas nada ficou tão transparente como a certeza da mediocridade estúpida de outros, nomeadamente aquele que não tinha mérito, capacidade ou muito menos moral para cumprir uma missão tão sublime e decisiva, um pênalti que tomou proporções similares àquele cobrado (e errado) pelo galinho de quintino na copa de 86.
 
A noite de quinta-fera trouxe à tona a relativa falácia daquele ditado que diz ser o futebol uma caixinha de surpresas.

Não foi.

Individualmente, com alguma parcialidade, indicar-se-ia um empate técnico entre os goleiros; no mais, uma superioridade adversária vista a olhos nus, que inclusive fez-me indicar este algoz, já há algumas semanas, como o maior candidato ao título nacional deste ano.

Mas, por favor, nada que justificasse, sem qualquer clemência – e o próprio embate foi um exemplo – a queda-livre de quatro, ao vivo, em rede mundial.

Como a vida, o mundo da bola também é impiedoso, cruel e injusto.
 
Hoje, a ressaca mostra o que é perder uma final de copa do mundo particular, quase solitária.

Você não vê o galvão esgoelar-se em choros, você não nota os nordestinos a compor chatos repentes trágicos e você não sente um luto não-oficial de sete dias pela derrota canarinho.
 
Diferente, isolo-me em um desconforto pessoal, individualizado e privado, que contrasta com o sentimento de indiferença de dezenas de milhões de pessoas, ou, pior, com a (recôndita) alegria da outra metade desta cidade e o (tresloucado) êxtase de uma inumerável nação tricolor-paulista.

Não há purgatório, o céu e o inferno estão aqui, lado a lado, em formas unívocas de convivência.
 
Definitiva e sinceramente, é claro que o vice-campeonato é uma bosta.


 

domingo, 10 de julho de 2005

# gênese moderna em dia de clássico

Dizem alhures que estamos diante do apocalipse, ou, talvez de modo conjugado, que finalmente descobre-se a nascente de todos os males imediatamente responsável pelo dia do juízo final. Não acredito, puro engodo.
Trata-se, na verdade, de mais uma falácia propalada pelo baixo clero, reflexo da sua lânguida decadência no novo mundo do futebol nacional.
O futebol não dá mais espaço para amadorismos, de dirigentes, de atletas ou, principalmente, de torcedores, que ululam por bobagens como novas cantinas, novas salas, novo campo ou uma nova vitória contra times de belém do pará.
Chega a ser cômico ver o que aconteceu neste domingo. Não queríamos, não fazíamos questão e não nos importava o resultado do jogo; e, para isso, dispusemos de um time ‘B’ (e olha que nem no ‘A’ temos muita coisa para oferecer) para se entreter e treinar. Em suma, jogamos com um time reserva, para um público mandante despretensioso e com jogadores abaixo do medíocre. Mesmo assim, o outro lado não conseguiu sequer um empate.
Definitivamente, não penso estar diante do fim do mundo; penso, apenas e indubitavelmente, estar diante de um mundo novo, que deixa para trás o paleozóico tempo do futebol - aquele dantes jogado e motivado por velhos, assistido por polaquinhas de bochechas rosadas e enfeitado por araucárias - e que acaba com quaisquer esperanças de um retrocesso, a deixar apenas a nostalgia da memória e as edições setentistas da revista placar para deleite das gerações vindouras.
Hoje, sabe-se que o novo mundo do futebol, já na era pós-moderna, exige dos clubes a velocidade e o comportamento revolucionário de um furacão. E isso apenas um clube do sul apresenta-se e consolida-se internacionalmente como tal, com atitude, estrutura e resultados.

sexta-feira, 8 de julho de 2005

# caminhando nas nuvens, com os pés na estrada

Seria sonho, se não fosse real. Seria mágico, se não fosse crível.
Seria mentira, se não fosse verdade. Seria um futuro, se não fosse o presente.
A nos separar, 720 quilômetros completados; a me acompanhar, 3 amigos e mais de 15.000 missionários para assistir, torcer, xingar e aplaudir os primeiros 95 minutos da vida de um clube de 1.924, ora reservados nos pés (e mãos) de 11, 12 ou 13 pessoas.
Seriam apenas números, se não representassem a maior emoção de todo e qualquer grande adepto do futebol em um momento qualquer parecido.
No período de voluntário exílio na Europa, acompanhei, in loco e solitariamente, o êxtase do povo local ao seguir a trajetória (de sucesso final) do Futebol Clube do Porto ao título europeu; hoje, acompanho, in loco e bem acompanhado, o êxtase do meu povo ao seguir a trajetória do Clube Atlético Paranaense à última etapa do título americano. Inigualáveis situações, incomparáveis momentos.
O que presenciei naquelas cinco horas dentro e aos arredores do Gigante da Beira-Rio seria inimaginável, se não milimetricamente descritível na minha mente, ainda que certamente difícil de externar. É raro o coração e a alma falarem com tanta precisão.
O resultado final ainda deixa tudo em aberto para a seqüência final, embora, certamente, feche definitivamente as feridas daqueles nossos tempos de ostracismo, de descaso e de invisibilidade no cenário mundanal do futebol.
Pena, apenas, fechar a viagem com um sentimento triste de que muitas coisas não são compreendidas, a detonar feridas que ficam indeterminadamente abertas e sem respostas.

sexta-feira, 1 de julho de 2005

# a saga de ouragan II - a fuga

Ouragan não mais conseguia estabelecer o mais remoto convívio com os seres da tribo Kutoperêra, os quais insistiam em querer co-habitar o feudo ouragane.
De tudo fora feito, seja para impedir a entrada de seus representantes (via barreiras migratórias, rigidez nos tipos de vacina, muros etc.), seja para isolá-los economicamente (mediante embargos comerciais, controle da mídia, racionamento alimentar e de energia etc.). Porém, nada disso surtiu os desejados efeitos e, diante da progressiva gravidade que a situação apresentava, era iminente a eclosão de uma guerra, cujo desenrolar final era nebuloso mas que, provavelmente, resultaria na extinção do feudo ou da tribo, ainda que esta levasse sérias desvantagens em razão de Ouragan apresentar uma população muito maior.
Assim, tudo caminhava... até que onze valentes guerreiros, sob a orientação do marechal Antoine, resolveram mudar. Mesmo a arriscar as suas vidas e com a possibilidade de envergonharem todo um feudo no caso de um imenso fracasso, cujos reflexos seriam de proporções mundiais, mas com o intuito de amenizar a angústia do povo face ao perigo da guerra, decidiram ir aos jogos do fantástico campeonato continental de gamão. Viram. E venceram.
Em toda a região, nunca se teve notícia de coisa igual. O reino Brasilis, assim como todo o vasto continente vespusiano, acompanhava a consolidação da mais nova força do mundo do gamão, advindo de uma terra e de uma região que até então nada tinha, a não ser o bravo povo de Ouragan e outras coisas alhures, como araucárias, moças de bochechas rosadas e velhos.
Contudo, diante de toda a mobilização e do reconhecimento em torno da competência do feudo ouragane, nada fora mais espetacular para o seu povo que o incrível sumiço, o repentino desaparecimento e a insistente escondedura da tribo Kutoperêra, a qual há mais de quarenta dias não mais perturba a paz e o sossego em Ouragan.
Antoine, que além de comandante de guerra é o chefe espiritual de Ouragan, admite não ter usado quaisquer artifícios mágicos ou sobrenaturais para provocar a fuga inimiga; mas sim, confia que tal atitude é resultado da assunção rival às amplas e variadas diferenças que os separa, e os minimiza, do feudo ouragane.
Agora, Ouragan acredita que, destes tempos em diante, nada mais lhe perturbará a ordem social, pois, definitivamente, a tribo rival já encontrou seu espaço, no esquecimento da memória de séculos atrás, cuja distância para o consistente e sustentável presente impossibilita-os de tentarem conviver, ou competir, com o moderno e desenvolvido feudo.
Definitivamente, constataram que o passado foi enterrado.