segunda-feira, 5 de setembro de 2022

# armação ilimitada

 

A armação que o bolsonarismo imporá quarta-feira, 7 de setembro, tem todo o roteiro delineado.

Respirando por aparelhos para as eleições de outubro, Jair e sua trupe não têm outra saída senão desesperadamente criar um fato novo.

Desta vez, a facada será outra. Isso soa como continuação de filme – e é.

O que acontecerá quarta-feira pelas orla de Copacabana será uma tentativa desesperada para, de novo, melar as eleições, vitaminar o gado, ludibriar incautos e, principalmente, iludir o povo indeciso sobre o sue voto.

Em Copacabana, será o prenúncio de um atentado carluxiano: o roubo do bicentenário da República como um desesperado ato para tentar salvar a sua derrotada reeleição. 

Haverá pirofagia com tiros de canhão, malabares com paraquedistas fajutos, jogral com  fragatas de araque, piruetas de teco-tecos, circo da banda militar, muita gente à toa na vida cantando coisas de ódio e um arsenal de mentiras e de falas sem qualquer noção cívica e republicana. 

E é preciso dizer e se precaver para o "fato"; é preciso toda a atenção e a prévia repercussão para mais este faz-de-conta que desestabiliza a pobre democracia brasileira e que culminará na grande mentira: o resultado eleitoral foi fraudado.

Não caberá surpresa, não caberá indignação, não caberá dar crédito para este novo Riocentro que visará, num revival cretino, culpar e criminalizar a "esquerda".

O mesmo terror, mas agora sob outra medida.

Um terror sem graça, sem medo, sem fio na espinha. Um terror à altura deste platelminto que finge governar o país e que, por um aborto da natureza, acabou sendo eleito em 2018  afinal, nunca na história do Brasil se poderia imaginar que um fascista suburbano se tornasse presidente da República.

Um terror tragicômico. Um terror B. Um terror que não assusta. Um terror no qual que se vê o catchup no canto do braço cortado. Um terror pornográfico, daqueles que não há história, só a serra elétrica desesperada correndo pela tela atrás de corpos fragilizados. Um terror fraquinho, sem luz, sem foco, sem graça. Um terror que merece a lata do lixo.

Aqueles mesmos personagens de sempre, com os mesmos cartazes, as mesmas frases-feitas e a mesma obtusidade, a mesma má-fé, a mesma perversidade, agora adornados com helicópteros, tanques, cavalos e canhões, colocados na orla carioca como se todos brincassem de forte-apache.

Quantos serão convencidos por esta armação? Quantos entrarão em modo desespero e com isso repugnarão o "ataque", mudando o voto? Como se comportará a grande mídia na sua eterna postura de dar equivalência a este grupelho de extrema-direita e todo o campo democrática de centro-esquerda? Para que lado a grana penderá diante desta arapuca?

O bolsonarismo, a curto prazo – uma vez que com a derrota presidencial a sua amplitude e força serão significativamente reduzidas –, será devolvido ao esgoto e aos porões da sociedade; porém, na quarta-feira, tentará demonstrar brio, conquistar piedade e simular seriedade como último blefe. 

Não conseguirão.

Como disse Marx, a história se repete, na primeira vez como tragédia e na segunda como farsa.

O caso, nesta quarta-feira, será mais do que farsesco – será patético.

E não irá parar por aí.

Dia 2 de outubro, após o resultado eleitoral com a provável vitória de Lula no primeiro turno, toda a claque bolsonarista – milicos aposentados, familícias e uma fauna que passou a ocupar as redes e as ruas a partir das passeatas de junho  já está devidamente guiada para causar o caos, com muita violência, armando o terror nos grandes centros urbanos sem quaisquer limites.

O fim? Salvaguardar a todo custo a pele do seu mito de pés de bosta no qual se espelham.



quarta-feira, 13 de abril de 2022

# jair, um anticristo


A projeção do mal sobre um deus, um ser vivo ou um objeto é fenômeno recorrente na história da humanidade e ainda nos acompanha ao longo da existência, desde a bruxa malvada dos contos de fadas até as interpretações cinematográficas de personagens demoníacos.

Por isso, na semana mais importante e crucial do ano cristão, carregada de fascinantes simbolismos, é oportuno dizer: Jair dá forma humana ao mal, é um anticristo.

E, atenção, não digo isso como mera retórica, nem figura de linguagem, tão pouco, como precavia Hegel, um exagero no argumento que prejudica a causa. 

Logo, no seu mais relevante perfil escatológico, repito que Jair é um anticristo, talvez a forma da fôrma que, por certas horas, Deus considerou ter dado errado, como se diz no Gênesis ("e o Senhor arrepende-se de ter feito o homem na terra").

Não se trata, adiante-se, de se reconhecer as mais ou menos complexas circunstâncias sociais, políticas e morais responsáveis pela sua chegada ao poder, até porque há na história diversos animálculos cujas ideias, discursos e ações dignificam minimamente o ser humano; aqui, pois, diríamos que o minúsculo ser aparece com outra essência, como se adotasse a fantasia vermiforme para ocultar aquela imagem tão decantada pelo cristianismo: a besta chifrada.

Como se sabe, a figura do anticristo não é singular. 

Ela está em uma categoria de pessoas que se extasiam ao provocar a desgraça, o medo, a iniquidade, a coisificação e a desolação. 

O anticristo nega o Pai, o Filho e o espírito que era o Verbo e a Verdade, que sempre divinizou a vida, que ressignificou a paz, que enalteceu a partilha e o perdão, que pontificou a fraternidade e a igualdade, que engrandeceu a Terra e que priorizou pobres e marginalizados.

Cá entre nós, lutas contra anticristos fictícios, metafísicos ou de carne e osso são frequentes na história, desde priscas eras, opondo ao mal valores fundamentais como a paz e o amor. 

E hoje a figura do anticristo é a concretização da anticivilização. 

Como tal, é um contraponto a elementos – ideias, indivíduos, projetos – considerados absolutamente perversos, nocivos e disruptivos à sociedade, esteja ela em níveis maiores ou menores de ordem e de progresso.

Não por outra razão, o enquadramento moral e (sobre)natural de Jair como um anticristo poderia ser provado por inúmeros gestos e palavras, atos e omissões, no passado e no presente, de maior ou menor gravidade, de ampla ou restrita repercussão, nos mais diversos aspectos da nossa existência.

Jair é um anticristo porque despreza a vida. Ora, que outro sujeito estimula o contágio por um vírus pandêmico em tamanho grau? Quem caçoa o pesar e a tristeza pela perda de mais seiscentas mil pessoas, achando tudo irrelevante? Quem mais acredita no extermínio de diferentes como saída política e de paz social? Quem sacraliza a tortura, faz das prisões um altar e da violência miliciano-policial motivo de devoção? Quem faz com tanta graça e júbilo a apologia da barbárie e do horror cotidianos, como se numa roleta de bem-me-quer e malmequer?

Jair é um anticristo porque despreza a paz. Ora, quem usa armas como símbolo cotidiano, a todo instante trazendo falas e movimentos bélicos de ódio e guerra? Qual sujeito estimula a prática constante da violência, o uso amplo e irrestrito de armamentos e de todo um arsenal como sinal de vitória? Quem rotineiramente ousaria pegar na mão de crianças para fazer sinal de armas e tiros? Qual o indivíduo que gargalha o riso diabólico ao publicar suas taras com rifles, pistolas e quejandos? Quem fala em metralhar e fuzilar como se fossem verbos de uma gramática natural?

Jair é um anticristo porque despreza a compaixão. Afinal, quem mais encarna a crueldade no ato de, ao contrário, desdenhar do outro? Jair é incapaz de sofrer o sofrimento do outro, de se colocar na vida e realidade sofredora do outro, por qualquer que seja essa dor: a morte, a doença, a fome, o desabrigo, o desemprego... Assim, Jair não nutre qualquer "paixão com" o outro; ao contrário, goza da malignidade e da perversão em um dia a dia de todos contra todos, sob o imperativo moral de cada um por si (e o mal por todos), abdicando do aspecto essencial da natureza humana, ou seja, a necessidade de um relacionamento amoroso com os outros. 

Jair é um anticristo porque despreza a verdade. Mentiroso contumaz, faz da patranha um modo de vida. Engana e ludibria sobre tudo e todos, sobretudo os mais carentes de tempo e cognição. Estelionatário da fé pública, decreta sigilo de cem anos em assuntos de interesse público para ocultar a realidade. Mente por todos os lados, como se uma ilha da falsidade onde a verdade não entra para não poder ser conhecida, acorrentando na inverdade seu séquito mais fiel e ignorante.

Jair é um anticristo porque despreza a igualdade, a solidariedade e a comunhão. Dia e noite ele preconiza o anti-igualitarismo, fazendo do país uma sopa de merda, pus e fel. Se não ele, que outro indivíduo seria capaz de, em décadas de atividade política, jamais ter sequer mencionado o mais grave problema social, a concentração de riqueza? Qual sujeito seria tão capaz de agir em prol do racismo, da fome, da seca, do trabalho infantil e da deseducação pública, causas profundas da desigualdade social? Que outro indivíduo revelaria tanta falta de empatia, de sensibilidade e de compreensão dos problemas sociais, senão pode deliberada opção e vontade? Quem mais glorifica o egoísmo do "cada um por si" travestido de liberdade e celebra o individualismo amoral segregante e socialmente desarmônico, frutos da visão narcísica do sujeito "em-si-mesmo-sem-o-outro"?

Jair é um anticristo porque despreza o meio-ambiente, o lugar onde vivemos. A Terra é a nossa casa, e a nossa terra é a nossa sala, um lugar avassaladoramente devastado para uma boiada poder passar e pastar. Quem mais desregulamenta, flexibiliza, despenaliza, liberaliza e privatiza toda uma agenda ambiental, sob a sanha de fazer da ecologia um tema ideológico e da natureza um espaço propício à destruição, ao desmatamento, ao garimpo, à monocultura, ao latifúndio... como se numa medieval cruzada antiambiental?  

Jair é um anticristo porque despreza os fracos, as minorias e os oprimidos. Como um "homem da inequidade", lambuza-se ao ver o desemprego e o desespero de sem-teto e sem-terra, ofendendo a doutrina social do Papa Francisco presente em sua encíclica Fratelli tutti“terra, teto e trabalho”. Não exalta os humilhados, mas humilha as pessoas fora das normas binárias de gênero e sexo e as comunidades indígenas e quilombolas. Faz da mulher um objeto adâmico, compreende a luta do povo negro como choro de perdedor e entusiasma-se com suas próprias palavras: as minorias devem se enquadrar à sua visão de mundo – ou então desaparecer.

Jair é um anticristo porque despreza a família. Ora, quem mais desconhece o espírito familiar senão um sujeito que propaga a idealização de uma família erguida sobre um moralismo de quinta-categoria que não se sustenta à brisa da manhã porque repleto de múltiplas transgressões? Quem é o sujeito que faz dos filhos projetos vis de homem e cidadão, construídos à sua imagem e semelhança? Quem mais faz das ex-mulheres um harém de negociatas e túmulos vivos de histórias que vão de aborto a traições? Qual sujeito cerca a sua gente de tanta gente sem virtudes e integridade, sempre sob o culto da "tradição"? 

Jair é um anticristo porque despreza as relações humanas e políticas. Quem reiteradamente exalta uma antipolítica que ignora o debate de ideias, a oitiva de opiniões e o respeito às ciências como se fosse onisciente e onipotente? Qual o sujeito que ignora as fronteiras do público e do privado, do justo e do injusto, do certo e do errado em benefício exclusivo dos seus pares? Quem como nunca militariza e policia todo um aparato republicano como fetiche de forte apache? Quem mais desconhece qualquer caráter e pudor para se assumir como um avatar trágico e cruel das elites que liquidam o Brasil, senão um sujeito cuja essência é anticrística?

Enfim, Jair é um anticristo porque encarna o espectro do mal em sua totalidade, em cada um dos relacionamentos, dos atos e das palavras que estabelece e promove na sua trajetória de vida. 

Para além da sua concretude social e política, objetivamente manifestada, tamanha consciência para degradar a existência humana é resultado de quem vive o mal como categoria moral, arquétipo de um agente desumanizado que vagueia no infértil campo do ódio. 

Sim, nele há a prática do mal intencional, radical, torpe e profundo, símbolo da força e da energia que negam o evangelho de Cristo.  

E é preciso um basta, um expurgo das ações, das palavras e do pensamento que carregam a mensagem das sombras, da desgraça e do caos. 

Não por outra razão, o advento da paz passa por uma vitória sobre este anticristo e sua seita.

Afinal, como se disse, tirar Jair do poder não será apenas um ato político – será um redentor ato de amor.


Pastor Henrique Vieira e Emicida: o amor é o segredo de tudo



terça-feira, 24 de agosto de 2021

# e la nave va


Pela editora da UFSM, acaba de ser publicada minha tese de doutoramento (UFF/2018), um manifesto devidamente adaptado para chegar fora do meio acadêmico, agora sob o título: "Ricos & Malandros  A riqueza na estrutura da desigualdade brasileira: como os ricos atuam na sociedade".

Deixo a seguir o posfácio da obra.


E LA NAVE VA

(POSFÁCIO)

 

Em outubro de 2018 – dois meses após a defesa em banca examinadora da tese de doutorado da qual este livro é fruto – a nossa distopia sopra ares surreais ao ver eleita presidente uma aberração saída dos grotões do baixo clero parlamentar e saudada nos porões da ditadura cívico-militar.

Bizarramente, pelos próximos quatro anos a República seria ocupada por um dublê de abantesma obsessor: lasciate ogni speranzavoi ch'entrate”, passaria a ser gravado nas areias do litoral da Bahia para quem aqui desembarcasse.

À sombra desta assombração arregimentou-se grande parte da elite brasileira, disposta a articular (e distorcer) aquele protesto popular em prol dos seus interesses, a fim de manter benefícios e privilégios ainda que sob um cenário de guerra, em uma terra que hoje – mais do que nunca – condensa táticas de faroeste, técnicas de manicômio, taras de ditadura e totens eugênicos com vistas a dizimar os dispensáveis da razão neoliberal desta ordem capitalista.

A mudança na dialética social do Brasil – que perpassa pela religiosidade neopentecostal, a desconstrução do operariado sindical, a fetichização dos costumes, os valores liberais não identitários e a reorganização urbana da periferia – traduziu-se em um “fenômeno epidemiológico” que saiu das redes sociais e contagiou as urnas, assinalando o estado da nossa decadência moral e política e, principalmente, o ressentimento desesperado da massa brasileira que naquela imagem de meganha tosco e boquirroto imaginava um “mito”.

Neste processo, a classe dos “intocáveis” sempre fingiu isenção, admitindo as trevas de algo tipo governo: inepto e indecente, armado e desalmado, capenga e enjambrado, sem luz e sem lógica democrática, sem programas e sem propósito social, tudo num planalto cujo cenário associaria o astral de banheiro químico com a graça de uma necrópole.

Fingiu eximição, admitindo um modelo de sociedade baseado na precariedade, na expropriação e na violência oficial, objeto da conjugação infausta de neoliberalismo com submilitarismo.

Fingiu sublimação, admitindo viver no fio da navalha do obscurantismo regido pelas vontades de uma gente perigosamente medíocre e enfaticamente lunática cujo método é a mentira e cuja bússola, o ódio.

Fingiu esperança, admitindo ver o caos institucional e o colapso socioeconômico, sem ordem e sem progresso, sem ações e sem recursos, sem vida e sem negócios.

Fingiu. E finge. Finge sob as máscaras venezianas de quem parece desfilar em seu próprio e seleto carnaval, como sói acontecer com os brancos e azedos malandros da contemporaneidade.

Notoriamente, a “aliança siamesa” entre endinheirados e empoderados de novo revela a plena disposição que as nossas elites têm, histérica e historicamente, em não medir esforços para ofuscar a realidade e dissimular as causas e as razões da desgraça brasileira que longe passam da “corrupção” da (e na) política, canto medúsico soprado pelo bando que deslavava a jato o Direito e que diariamente ecoava pelos jornais nacionais até chegar aos ouvidos mais incautos e menos conscientes da população.

Ainda, as últimas eleições criminalizaram em grau máximo a política para legitimar um sujeito que passaria a exercer o papel de “antipresidente”, cultivando a mais carcomida política, vinculada a todos os vícios e fraudes que há séculos o Brasil produz e no qual uma seleta casta eterniza-se em leito esplêndido ou nas varandas da casa-grande enquanto invisibiliza a usurpação das riquezas nacionais, a manipulação do mercado e, fundamentalmente, a exploração do trabalho.

Eis a plutocracia brasileira, que se alvoroça em torno do seu títere de ocasião não para domesticá-lo, mas para que áreas caras aos seus interesses sejam cuidadas sob um novo arranjo normativo, na forma de um tratamento à terra, à educação, à saúde, às relações de trabalho, à infraestrutura, ao meio-ambiente, às empresas públicas, aos pequenos negócios e aos movimentos sociais que unem o medieval ao neoliberal e o selvagem ao mafioso, arruinando toda uma agenda tão sensível à maioria da população.

Assim, o horror da desigualdade social – que em 2016 retomara o crescimento de forma calculada e acelerada – imediatamente transformou-se em uma “não-pauta”, absolutamente abandonada da selvagem agenda do presidente eleito, não apenas como sinal do seu déficit humano-civilizacional, mas como resposta ao desejo da elite brasileira de conservar o seu colossal quinhão da renda e da riqueza nacionais como uma eterna capitania hereditária: o “orçamento público”, máquina da qual brotam inúmeros mecanismos de apropriação de dinheiro público – via, especialmente, aprimorados ardis financeiros e bancários – de forma a continuamente renovar o processo de dominação.

A caracterizar universalmente o país como o samba e o futebol, a desigualdade volta a ser relativizada sob falácias liberais e ordens de ajuda motivacionais que enviesam a análise do problema de modo a ofuscar o lado perverso desta equação brasileira, crescentemente concentrado no topo piramidal do reino social, efeitos naturais de um sistema que manifesta seus sintomas de morbidez e decrepitude cujas consequências são escancaradas no dia a dia das nossas cidades.

Enquanto aos ricos (e ao capital) dia a dia são atribuídas feições heroicas e vitoriosas, seja pelos holofotes da grande mídia, seja em declarações oficiais de um obnóxio governo que almeja ser bem falado nos “clubes de golfe”, escondem-se as reais circunstâncias estruturais do subdesenvolvimento e do empobrecimento geral, a fim de que não se conheçam as razões institucionais e ideológicas da guetização de um povo esfacelado.

E justamente nesta estética de zoológico rural e lógica de desordem e retrocesso que caracteriza o momento brasileiro, em 2020 o nosso pandemônio coroa-se com uma “pandemia” cujo maior reflexo é a morte a quilo dos supérfluos humanos – a maioria das nossas periferias –, sinal macabro da vilania debochada e também do desprezo à nossa questão central: a desigualdade social que avisa e determina quem são as nossas grandes vítimas, mero detalhe para a necropolítica e eterno normal para o capitalismo como legítima expressão da barbárie.

E o tempo passa... e ao fundo um rinoceronte enfaixado segue sendo alimentado por nossos barões enquanto bizarramente capitaneia o barco Brasil nesta travessia infernal, com salva-vidas cuidadosamente selados para muito poucos. Até quando?

 

 

Rodrigo Gava

Copacabana, Rio de Janeiro

nas águas amargas de março de 2021



quarta-feira, 2 de outubro de 2019

# lava de chumbo



Esses dias deparei-me com um texto escrito por Osho.

Não o conhecia, até me parecer que, sem desprezar o "valor" das suas técnicas meditativas, seria outro destes gurus que volte e meia surge, no seu caso sob uma seita que parecia juntar coaching, neopentecostalismo hippie, crossfit tântrico e Jim Jones.

Bem, o tal texto  e é disso que quero tratar  falava de solidão, de solitude e do singular espaço e momento a sós.

Descobri este tal "vazio" vagando pela Europa, no meu particular camino santiagués, em profundos setenta e tal dias a rodar de mochila da Ibéria às profundezas do Leste, da Escandinávia aos confins do Adriático, com o centro do "velho mundo" como eixo e a busca do meu "novo centro" como meta.

E nele uma verdade: diante das dificuldades de "ser", são nestas situações que nos pervertermos para abrir os olhos e então conseguir ser, e (se) ver, e (se) enxergar, e (se) reparar, e se (re)encontrar. 

Peregrino, senti ultrapassar os limites da "solitude".

Lá, uma solidão sem fim abria espaço para tudo e, perigosa, levava à torrente intensa de ideias, teses, dogmas e sentimentos que faziam aprofundar ainda mais num espaço sem fim.

Intocável, vagueava até tatear numa realidade cada vez mais clara, num cheiro cego de quem ali só escutava o buraco meio misantropo de línguas que vinham a toda hora diferentes: o húngaro do diabo, o polonês da wodka, o neerlandês da fumaça, o barato do tcheco, o embrulho do croata, o grito da sicília e o sueco de um mundo que um dia há de vir – e que assim seja, amém.

Sê!, advertia-me a todo instante.

E deixava-me notar algo de muito errado no ar.

Ar rarefeito, sublinhe-se.

E que aspirado por quem não era, trazia o arrebatador efeito de compreender que a ordem das nossas coisas merece um novo arranjo.

Merecia a desordem para ser reconstruída à imagem e à semelhança de tudo o que é mais justo neste nonsense mar que permanece dividido, diluído, negro, morto.

Afinal, antes da solidão, enquanto ainda se está apenas sozinho, embrulhamo-nos num estômago de inquietações que nos fazemos sentir sem mentir, a permitir levar-se adiante como se aquilo tudo não fosse conosco, e como se dissimular para todo o exército que se forma diante do espelho fosse a resoluta salvação.

Não, não resolve.

Não, você não consegue não se ver.

E mais.

As emas que em volta emanam e borbulham aos borbotões, reclusas com suas cabeças mergulhadas em seus umbigos ou outros planetas, não te podem convencer de que a ótica é outra, de que o-seu-ponto-de-vista-não-tem-a-vista-verídica e de que as viscosas e grossas vistas de quem finge não querer ver compõem o melhor remédio da terra.

E então, naquele infindo tempo de isolação, você simplesmente percebe que lá atrás dele e de todas as sete cores daquela turva imensidão está, a um palmo do nariz, o pote dourado de colírio.

Mas, sem calma nesta hora: não se permita o mínimo resfôlego, pois o leão não é manso.

É que a sina solitária finge-se para não se mostrar que ali se está só no princípio, e neles outros verbos em outras conjugações.

Sempre, sempre no começo, a te levar só para eternos recomeços que te fazem sempre querer voltar ao zero, à vala vazia, àquela avara estaca do status quo ante, ao estado que te mantém no falso estado que te alivia para te alienar na pureza da inércia, do cômodo, do morno engodo vomitado pelas letras cartesianas da lei, da moral e dos bons costumes que por toda a vida te desencaminharam.

Esta é a promessa, esta é a jura da existência.

E por isso o privilégio por encontrar a gota d´água da cola mágica que sempre prometeram jamais existir.

Sim, sozinho e na poética da solidão, se descobre melhor o mundo que se há de viver a dois, a seis, em conjunto, em sociedade, coletivamente.

De dentro para fora, meu mundo em construção, como um álbum de figurinhas que de criança quase desisti: custoso, incerto, demorado e difícil, mas que completei e que para sempre ficará comigo guardado.

Como ficarão, espero, as lições aprendidas daquela minha silenciosa peregrinação.

Todas bem emaranhadas, apreendidas no labirinto da alma.



quarta-feira, 12 de junho de 2019

# orgulho e ilusão

Ana Maria, eu, Ben Gava, Simas, Flávia, Edu, Ben Simas e Candinha: pra deixar de padecer

Esta foto publicada hoje pelo Edu Goldenberg é daquelas coisas que provocam uma catarse sentimental.

Era junho de 2014. 

Era junho de Copa do Mundo.

Era junho de abertura da Copa do Mundo no Brasil.

E ali naqueles nossos olhos ainda se via certo orgulho e ilusão.

O orgulho do país, ainda iludidos por alguma coisa que se podia chamar de democracia, por uma sociedade que parecia acreditar no progresso e por toda uma frente política que prometia enfrentar (sem sair muito do lugar) os nossos históricos obstáculos.

O orgulho de usar um verde e amarelo, ainda iludidos por uma coesão nacional de faz-de-conta, pela falsa ideia de nação soberana e pela frágil união em torno da constitucional harmonia social como valor fundante

O orgulho de um futebol brasileiro, ainda iludidos pela paixão da bola que cegava uma crescente ofensiva a imperativos culturais, sociais e políticos de maior importância.

Dali a pouco tempoporque por aqui talvez nunca possa mesmo dar certo, tudo começaria a desmoronar.

Pelo pouco que fez e acertou, um governo foi derrubado por um golpe jurídico-parlamentar,  apoiado por um barulhento séquito de amarelos lobotomizados da cabeça aos pés.

Pelo pouco de nacionalismo que havia, a lógica fácil contada por memes, pastores e tevês e a perversidade de instituições republicanas destruíram as nossas perspectivas de dar um passo a mais, de dar um grande salto para a nossa miserabilidade política e social.

E pelo pouco do pouco que restava, nosso futebol sucumbiu à tragédia do oba-oba, ao fracasso de uma era em que a imagem é tudo e, fundamentalmente, ao descaso à sua razão de ser como uma das maiores expressões da cultura popular.

Os anos foram assim.

E apagou aquela ilusão que tínhamos de tantos amigos e parentes que guardavam dentro de si e nos armários da alma toda a sorte de delírios, ódios, pestes, câncer, pneumonia, raiva, rubéola, tuberculose, anemia, rancor, cisticercose, caxumba, recalque e difteria.

E apagou aquela ilusão de um país vivo, pulsando potência em frenéticos arroubos de felicidade do presente e consciência do porvir, com suficiente coragem para impedir raptos fratricidas de um delinquente político qualquer.

E apagou aquela ilusão de que vivíamos sob uma sociedade democrática, repleta de homens cordiais e cheios de harmonia, todos conduzidos pelas ideias iluministas de liberdade, igualdade e fraternidade. 

Ilusões da vida, ilusões da história das quais fingíamos um tipo estranho de orgulho, diante das quais relutávamos em acordar.

O Brasil, naquele distante junho de 2014, parece assim ter dado um grande e último suspiro para o que adviria.

E cruzamos a ponte para o abismo, como se no timão do barco estivesse Caronte a conduzir um povo inteiro até o desembarque em algum círculo do inferno.

Desde então, a partir dos estádios da Copa e das orlas das nossas copacabanas, expôs-se as vísceras de um país marcado pelas cortinas fechadas do passado, que trancafia a mãe preta das periferias e que passou a cantar hinos em louvor a um mito feito de barro, pus e fel.

Desde então não se avança, não se pula, não se dança e nem se dá muito o direito a sonhar aqueles sonhos de uma utopia a ser construída. 

Desde então pautas sodomitas, operações bandidas, propostas de araque e agentes infaustos provocam-nos vertigens típicas de uma sociedade perdida, repleta de ignorância, indiferença e ódio a provocar pesadelos diários sobre nossos destinos.

Desde então destroçamo-nos em uma terra zumbi abandonada sob os restos de algo tipo capitalismo, um território triste e tétrico onde se misturam práticas do velho-oeste com circunstâncias de Mad Max, no qual grande parcela da população perambula selvagemente em busca de "pão, paz e terra", fazendo as suas revoluções particulares vinte e quatro horas por dia que nunca termina.

O Brasil, neste junho de 2019, parece assim estar prostrado e continuamente chamuscado por algum dragão do apocalipse, com sua gente intestinal e incontrolavelmente acreditando nos contos platinados e zapeados em que mocinhos redentores da pátria surgem para pôr um basta em-tudo-que-está-aí, a repetir frases sem sentido, ideias desconexas e conclusões estapafúrdias à revelia do óbvio e da realidade.

Enfim, eis o retrato, eis o tempo que passa e que vem à memória desde o tão longe junho de 2014.

E senão a luta em chama que não se apaga, daquele Brasil da foto não resta praticamente nada.

Mas, mesmo agora, no mais sombrio dos mundos, o que importa é que daquela foto restam a amizades que construímos aqui neste Rio de Janeiro.

E, principalmente, daquela foto resta o brilho dos olhos incendiários dos dois Benjamins, que agora se juntam aos de Santiago e Leonel para nos encher de luz e amor diante do caos.

Afinal, é desta perspectiva que vem a resistência e a esperança de um Brasil.



terça-feira, 12 de março de 2019

# um balanço no ninho



Neste fim de semana fui à casa do meu passado onde moram meus pais.

E é sempre inevitável voltar no tempo cada vez que adentro meu antigo quarto.

Ele foi minha casamata, minha alcova, meu quartel onde me trancafiava, onde afiava os meus dentes e onde pensava ser o general do mundo.

No meu covil, ora, tinha a certeza de quem era o centro do universo.

Hoje, entro e vejo que está quase tudo ali, em especial aquilo tudo que nem as marcas do tempo apagam, como se enraizado nas entranhas reais ou ficcionais daquele cômodo.

Por dentro das portas dos armários, vestígios de alguém que por ali navegava, impreciso, num turbilhão de tantas fases e sob os seus mais indômitos devaneios.

De um lado, ideias talhadas na madeira escura que dali insistem em não fugir, embora da memória já pouco se tenha.

Sobrepostos, descontinuados e rarefeitos, são escritos que iam e vinham a cada descoberta, a cada frustração, a cada lágrima, a cada arrombo de alegria.

Do outro, cromos repetidos de álbuns incompletos e que eram colados como metáfora do abandono.

Noto que aquilo, naquela época infanto-juvenil, era como as relações que se apresentam hoje: as pessoas vão colando figurinhas e enchendo páginas e páginas festivas de uma vida virtual. 

Até que chegam aquelas mais difíceis...

E aí se deixa o álbum meio de lado e, simplesmente, parte-se para outro.

E assim vão se construindo afetos e contatos, cujo fim é o descarte na moldura fria de um canto do móvel – ou do facebook.

Entre os armários, agora já não há mais a minha cama e o seu baú embutido. Sequestrei-a. Carreguei-a comigo. Pintei-a.

E hoje compõe o quarto dos meus filhos, reduto onde depositarão, dormindo ou não, todos os seus sonhos da vida.

Pelas estantes, bem ao fundo ainda se vê o saldo da alma de coisas dos últimos anos do resto daquela minha vida  inclusive uma bandeira de mesa do meu amor de antes, de hoje e de sempre e que veste vermelho e preto.

Pelas paredes, ainda fulgura lânguidos rastros da cor de um ambiente que insisti em entintar de tinto, mas que já há algum tempo dá lugar à soma de todas as cores – como eu, a soma de tudo o que vivi.

Nos vidros da veneziana, a rebeldia emancipatória de quem imaginava, nos gestos de colar adesivos de marcas e de brados adolescentes, estar hasteando o pendão da ultraliberdade e transgredindo toda a ordem do lar.

Independência ou morte!, era o que se imaginava na cabeça do dono daquele principado de cuja varanda se lançaria para dominar o mundo.

E sobre a imbuia maciça da escrivaninha vejo sobrar as marcas, os riscos e os rabiscos de químicas e paixões, de contas e planos.

Soçobra uma época em que se imaginava amar a cada lindas tranças e a cada olhos de "cigana oblíqua e dissimulada" que fitava.

Sobeja um tempo em que se estudava para passar de ano e não para aprender, período gravado sob já apagadas fórmulas colegiais a revelar um jovem homem que calculava, mas que ainda só platonicamente pensava.

Diante de toda esta arqueologia, volto-me para tentar enxergar o que eu seria se não fosse aquilo tudo ali.

Para então ter a mais absoluta das certezas: não foi "aquilo tudo ali" o que me fez – e nem tão-pouco tinha na vida seca daquelas coisas a grande joia da minha coroa.

Sou, sim, fruto maleável do que sempre esteve do lado de fora daquele quarto, vivamente presente em todos os outros ambientes daquela casa, lado a lado, dia a dia, até me casar.

É dos meus pais e das minhas três irmãs que tenho a maior e mais importante memória do que me tornei.

E são neles onde sempre esteve a minha maior riqueza.




segunda-feira, 4 de março de 2019

# maestros, cavalos, deuses e hinchas



Quando o Club Athletico Paranaense entrar em campo hoje, na nova velha Baixada, pela Copa Libertadores da Américarecomeçará outra batalha da guerra que representa disputar o maior campeonato de futebol do planeta.

Sim, meus amigos, a peleja de logo mais será outra amostra da saga por esta Taça, que se soergue como máximo culto ao velho e rude esporte bretão.


É aqui, pela nuestra América, onde o futebol é jogado na sua essência, na sua pureza, onde maestros, corvos, deuses e hinchas desfilam juntos em epopeias dantescas: aqui é o "Inferno", meus senhores.

Aqui é onde cada esquadra vagueia conduzida por seus carontes nos reinos das sombras sul-americanas. 

Mas, atentem, o que se carrega não são reles almas mortas.

São jogadores.

São heróis, vilões, guerreiros, ídolos, múmias e até amargas ínguas na escura travessia dos mais de nove círculos em busca do céu libertador.

Ora, não me venham com a realeza das arenas belgas climatizadas.

Nem as pompas dos gramados de pastagem de vacas premiadas holandesas.

Nem as elegantes lantejoulas dos uniformes demi-sec franceses.

Nem a seda dos tronos imperiais das tribunas inglesas.

Nem o brilho comportamental dos torcedores alemães e seus canecos de vidro encervejados.

E nem toda aquela fascinação medúsica provocada pelo escrete barcelonês ou liverpooliano.

Não, meus amigos, não. 

Este nosso jogo é incapaz de ter a beleza pornográfica de todos aqueles espetáculos europeus, de ter a fleuma civilizatória do bom selvagem do velho mundo e de ter o bolo bilionário de tantos euros.

Ela tem, diria Vinícius e batucaria Baden, "qualquer coisa" além da beleza. 

Ela tem qualquer coisa de triste, que chora, que sente em cada carrinho e em cada cotovelada a saudade da Casa.


Afinal, nesta Copa tudo extraterritorial é terra inimiga, quase sem-lei, proibida para menores e tratada com tarja preta. 

E mais.

Ela tem uma beleza que, embora bata na tristeza de um molejo de amor sangrado da sobrancelha aberta e machucada, transborda em uma alegria sublime, incompatível a qualquer outra de padrão europeu. 

Aqui, meus caros, sofre-se profundamente pelas mais depauperados escretes, rasga-se e morde-se pelo mais irraciocinado dos amores.


E se chora, e se grita, e se late, e se morre, se arrebenta e se abrem as veias sulamericanas para que tudo acabe em um deleite que não se entope, que não se explica.

Porque não tentem convencer chilenos, uruguaios ou argentinos do contrário.

Ora, todos sabem que as suas cores representam uma paixão única, daquelas feitas apenas para amar e para ao final sofrer de um eterno amor. 

Como aqui, com o coração rubro-negro que confirmará, luta a luta, a alma em frangalhos de um sofrimento inacabado em infinitos noventa minutos. 

Senhores, a Copa Libertadores da América é assim: feita de paixão, feita de sangue, suor, socos e lágrimas, como em nenhum outro canto desportivo da Terra.

E hoje nada mais importa neste Reino de Bolívar, Artigas San Martín senão estar no caldeirão, em nossa trincheira, empurrando nosso time à mais outra grande vitória.

Saravá!


terça-feira, 29 de janeiro de 2019

# só resta uma certeza



A tragédia da morte é sempre trágica porque é uma tragédia.

Cristão talvez fajuto, não consigo imaginar uma morte sequer que não se qualifique como trágica.

Não consigo, pois, deixar de encarar o fato como um ato de foice a ceifar a vida – e nele, neste fatídico fato, foi-se a seiva elaborada da vida.

É lógico que o inesperado, o acaso, o infortúnio, o funesto da morte abrupta espanta e tonteia.

Mas como admitir uma hierarquia entre o desespero do acidente fatal, a angústia da contínua e crescente perda e a extrema dor da última despedida, como assim pungia um de meus maiores amigos cuja querida mãe velava nesta quinta-feira?

Logo, a mim o que enlouquece é a loucura de que aquela pessoa – "de repente, não mais que de repente", poetizaria Vinícius – não estará mais contigo, não estará mais ali, junto, ao lado, ao longe, ao muito longe, enfim, fisicamente presente podendo ser abraçada, tocada, beijada, vista e ouvida a qualquer momento, numa visita ou num telefone qualquer.

Custa-me muito querer entender tudo isso – e olha que não faltam conversas, reflexões, aulas e exemplos dos mais variados tipos, formas e gostos acerca desta ideia, como aqui  aqui já tratei.

Já pensei, vejam só, que o ideal seria nascermos com esta certeza: prazo de validade tatuado na bochecha.

E assim, como velas, íamos aos poucos apagando, apagando, apagando... mas logo penso no caos prático disto, afora, claro, toda a filosofia religiosa que se propõe a garantir um sentido disso tudo aqui e que, então, passaria a não ter significado e valor algum.

Portanto confesso ainda não aceitar o fato de ser "a única certeza da vida". 
Nem a desculpa sobre a tal "ordem natural das coisas" é capaz de sensibilizar-me quando o caso envolve os nossos velhos. Tão-pouco a tese do "destino divino" me conforta para as excepcionais situações.

Insisto, assim, em ser pragmático num assunto que nunca se encaixará no pragmatismo.

É, portanto, um problema de estrutura e método, e ao mesmo tempo de especulação do ser, cuja associação não consigo compreender, tal qual nas cartesianas "meditações metafísicas".

Ou, então, ideia assente nos pontos de vista da "vontade" e da "representação", nos quais Schopenhauer pretendia defender a tese da indestrutibilidade da nossa essência. 


Para o filósofo alemão, a preocupação com tão breve espaço de tempo – com este "intermezzo momentâneo", com esta “mediação de um sonho efêmero de vida” –  e com este apego à vida é irracional e cega.

Eu, porém, insisto em não admitir porque não me imagino aceitando, como num passe de lógica, nunca mais viver com as pessoas que tanto amamos, as quais, num qualquer segundo seguinte, se vão como um "sopro", diria Oscar.

Calma, lá nos céus da vida eterna haverá o definitivo (re)encontro... não, não, a minha fé, ainda que hesitante, assegura a vida eterna – a Vida –, mas não que vou ter com as pessoas amadas, viventes comigo aqui na efemeridade deste plano.

Até, quem sabe, realmente trate-se de ser mais ou menos espiritualizado, mais ou menos teológico, católico e cristão.

Mas, para além, também se trata de não aguentar não se acabar em prantos para o fato de que todas essas pessoas que tão íntima e intensamente convivemos passarão a não mais existir.

Ora, ora, por que então amamos tanto e tanto estes seres que nasceram e viveram conosco?

É por isso que às vezes gostaria mesmo de ter nascido filho de chocadeira.

Para depois viver no eterno celibato de um monge ermitão.


Sozinho, como uma vela.



terça-feira, 30 de outubro de 2018

# eu, eu mesmo e os outros



Tenho e sempre tive amigos e familiares dos mais variados espectros políticos  e, por conta do meu habitat e da minha criação e formação, a ampla maioria é meio liberal, meio reacionária, ou seja, situada a minha direita, como assim se convencionou denominar os conservadores de plantão.

E sempre encarei isso com muita naturalidade, pois visões de mundo dentro de quadrantes políticos não poderiam superar a sincera troca de afetos e a busca pelo aprimoramento das relações pessoais e sociais, posto que o lugar político e o paradigma existencial que nos orientavam era sempre o mesmo: a democracia e a dignidade da pessoa humana.

Ocorre que este 2018 trouxe um tsunami que arrancou a fantasia político-ideológica e os adereços "do bem" de muita gente.

E assim desnudou a real essência de muitos que, afinal de contas, nunca quiseram saber de política, de debater política, de defender e de compreender a política. 

Estes, na real, revelaram-se gostar de ideias, práticas e sujeitos que estão fora dos quadrantes da política, por uma razão bastante simples: toda a arquitetura do fascismo nega e está fora da política.

Não por outro motivo, o que a candidatura vitoriosa sempre ofereceu foi à revelia do diálogo, da razão, da fraternidade, da igualdade, da liberdade, do pluralismo e da harmonia social.

E em momento algum o que diz, o que pensa e o que promete se concilia com democracia e com nossos supremos valores constitucionais.

Pelo contrário, sempre encarnou fundamentos não civilizatórios, quase medievais e bastante autoritários, alicerçados em pontos bastante relevantes e onipresentes da sua campanha e da sua existência, cercado de outros seres tão esdrúxulos, toscos, obtusos e picaretas quanto ele.

Este indivíduo, da linha hominídeo despreza qualquer luz de democracia: não se importa com "as regras do jogo", nega a legitimidade de oponentes político, delira com a violência e a restrição das liberdades e ignora a diferença, a diversidade e as pautas humanitárias em geral.

Junte-se a este conjunto a mais absoluta incompetência, a total falta de noção de gestão pública, o flagrante desconhecimento da realidade brasileira, o culto à paranoia do inimigo público, a insensibilidade às classes mais vulneráveis e às minorias e... voilàtudo está flagrante no ser e no viver de Jair, esta figura que, lembrou o filósofo Vladimir Safatle, parece se inspirar naqueles líderes autoritários invariavelmente representados como uma mistura de militar com barbeiro de província (v. aqui).

Mas, evidentemente, da grande "pizza" que representa os eleitores do candidato eleito tenho em meus laços familiares e de amizade tipos em diversas fatias.

Vejo nelas o voto do orgulho fascista, mas também há o voto do ódio antipetista e o voto da ordem militarista, os quais representam a maior parte da fôrma e que me merecem desprezo e desrespeito, por todos os argumentos e razões que neste e em vários espaços mais ou menos virtuais já discorri: em resumo, não se trata de política, são escolhas pré-iluministas, conceitos pré-modernos e desejos civis, sociais e morais a mim repulsivos.

Claro que, em pedaços muito menores  pelo "lugar social" que ocupo , há o voto da fé neopentecostal, o voto da ignorante desinformação e o voto esquizofrênico contra-tudo-que-está-aí, mas confesso que estes me causam culpa, remorso e uma certa aflição, cujos sentimentos exigem ainda mais conversa, atenção e participação de nossa parte.

Entretanto, nesta pizza também tem uma considerável fatia sem a cobertura escancarada destes sabores, mas com a borda recheada: é a daqueles que votaram nulo.

E se aquelas primeiras pessoas, que já há algum tempo insistem em propagar, apoiar e confirmar uma candidatura cheia de raiva, rubéola, tuberculose, anemia, espuma, armas e mentiras, são pessoas por mim esquecidas e de cuja companhia dispensei, agora não esquecerei as pessoas que, num sopro de pseudoplenitude, julgaram-se acima do bem e do mal para lavar as mãos, como se aceitando indiferente o grito desvairado da ruas: "Crucifica-o! Crucifica-o!".

E atenção: como sempre na história, fascistas não chegam ao poder porque a maioria da população era fascista. Na verdade, chegam ao poder porque muitas pessoas bastante razoáveis e moderadas se abstiveram, se calaram e fizeram vista grossa da tragédia que adviria.

Por falta de coragem, por falta de vontade ou por excesso de irracionalidade  nascido do horror psíquico a um partido político , estas pessoas, com o seu não-voto, são corresponsáveis pela eleição de Jair, o Platelminto (v. aqui).

Omissas, aceitaram que um psicopata, um dos mais abjetos incompetentes "políticos" da história deste país fosse eleito.

Intransigentes, arrogantes e soberbas, não quiseram enxergar o movimento vivo que saltava e se balançava a um palmo dos seus narizes, crendo, ao contrário, num fantasma e se alimentando por uma falsa imagem da realidade, capaz de fazê-las compreender um Brasil entre dois "extremos".

Cegas como as personagens da fábula máxima de José Saramago e no silêncio de uma hipocrisia sórdida que acredita na "neutralidade" diante do caos, foram covardes e inconsequentes na anulação do seu voto e no simbolismo do seu discurso.

Estas pessoas, infelizmente, ajudaram a sustentar (e a repetir) um grave erro da nossa história, que atropelará nossos valores constitucionais, carcomerá nossos direitos e garantias, destruirá nossas instituições e tingirá com tinta sombria nosso futuro, flertando na roleta-russa do "pagar para ver" o quanto de verdade haverá na quantidade de falsas promessas que Jair há trinta anos faz.

Fingindo isenção, admitiram as trevas de um arquétipo de governo: inventado, armado, enjambrado, sem propostas concretas, sem programas sociais e sem lógica democrática, tudo num "barata voa" digno de esquetes humorísticos.

Fingindo eximição, admitiram um modelo infausto de sociedade, baseado na precariedade, na violência oficial e objeto da conjugação pinochetiana de neoliberalismo com militarismo.

Fingindo sublimação, admitiram viver no medo de um Estado moralizador e no fio da navalha do obscurantismo regido pelos interesses prostibulares de uma gente perigosamente medíocre e enfaticamente lunática.

Fingindo esperança, admitiram ver o caos institucional e o colapso econômico no qual mergulharemos, sem ordem e sem progresso, sem ações e sem dinheiro, sem programas e sem negócios.

E, francamente, calaram-se diante do colapso, produzindo uma "autoverdade" que despreza não apenas os fatos e a razão, mas o próprio óbvio ululante, simulando assim um ar de normalidade, sem perceber estarem entorpecidas por um blend de ódio e delírio (v. aqui) que colocou no poder um "capitão de milícias" cheio de memórias nauseabundas. 

Tristemente, não conseguiram compreender os riscos deste modelo, as ameaças deste governo e a intensidade da tragédia social que está em jogo, ousando ver com descaso os seus efeitos ou como mero falastrão o seu líder, não enxergando que o dito cujo é uma besta que vende falso moralismo para se alimentar de reais mamatas e mutretas. 

E aceitaram tudo isso, com recalque e à revelia do que foi exposto amiúde nas últimas semanas – inclusive por mim, em conversas, em cartas e em mensagens, sem nunca oferecerem a racionalidade como argumento e a realidade como premissa.

Temos, ao cabo, que o resultado disso é complexo fruto de uma sociedade doente e distópica, incapaz de não ver a diferença entre dois mundos, entre duas eras, entre dois tempos históricos.

Seja na ação delirante do voto em Jair, seja na omissão em ladainha do voto nulo, veem um lado ser contra a tortura, a barbárie, o preconceito, a repressão e o autoritarismo e querem comparar com um outro lado que estimula estes desvalores, a afrontar direitos e garantias fundamentais, previstas em qualquer carta mais ou menos universal de direitos humanos.

Esquecem, assim, que a ruptura democrática e a perversão social não são obras de um estúpido qualquer.

São, na verdade, obras de legitimação desta sua estupidez.

E se a história do Brasil será implacável com a escolha feita por estas pessoas, e se a s suas histórias, cedo ou tarde, as acusarão de cúmplices da tragédia protofascista que mergulhará o país em trevas totais, eu demorarei para superar a decepção e a traição delas às nossas histórias em particular.

Ora, de que servem aqueles abraços, aqueles brindes, aqueles porres e aqueles tantos gestos e momentos de afeto se, do lado de fora, diante do outro, os valores, a vontade e a verdade são outros?


É uma pena, enfim, ignorarem que sob tal visão fatiada de sociedade o "outro" seja uma mera circunstância.


Até porque, como outrora disse Bertolt Brecht, importar-se apenas quando nos convém costuma ser tarde demais.