UM ESPAÇO LÍRICO-SIDERAL SOBRE TURFE, UTOPIA, LIVROS, LEIS, NÓS, MARX, FILMES, POEMAS, TORRONES, DRONES, DEUS, DESTILARIAS, EGO, GOLS, FAROESTE, FAZ-DE-CONTA, METAFÍSICA E A VIDA, COMO ELA É...
segunda-feira, 5 de setembro de 2022
# armação ilimitada
quarta-feira, 13 de abril de 2022
# jair, um anticristo
A projeção do
mal sobre um deus, um ser vivo ou um objeto é fenômeno recorrente na
história da humanidade e ainda nos acompanha ao longo da existência, desde a bruxa malvada dos contos de fadas até as interpretações cinematográficas
de personagens demoníacos.
Por isso, na semana mais importante e crucial do ano cristão, carregada de fascinantes simbolismos, é oportuno dizer: Jair dá forma humana ao mal, é um anticristo.
E, atenção, não digo isso como mera retórica, nem figura de linguagem, tão pouco, como precavia Hegel, um exagero no argumento que prejudica a causa.
Logo, no seu mais relevante perfil escatológico, repito que Jair é um anticristo, talvez a forma da fôrma que, por certas horas, Deus considerou ter dado errado, como se diz no Gênesis ("e o Senhor arrepende-se de ter feito o homem na terra").
Não se trata, adiante-se,
de se reconhecer as mais ou menos complexas circunstâncias sociais, políticas e
morais responsáveis pela sua chegada ao poder, até porque há na história diversos
animálculos cujas ideias, discursos e ações dignificam minimamente o ser humano; aqui,
pois, diríamos que o minúsculo ser aparece com outra essência, como se adotasse a
fantasia vermiforme para ocultar aquela imagem tão decantada pelo cristianismo:
a besta chifrada.
Como se sabe, a figura do anticristo não é singular.
Ela está em uma categoria de pessoas que se extasiam ao provocar a desgraça, o medo, a iniquidade, a coisificação e a desolação.
O anticristo nega o Pai, o Filho e o espírito que era o Verbo e a Verdade, que sempre divinizou a vida, que ressignificou a paz, que enalteceu a partilha e o perdão, que pontificou a fraternidade e a igualdade, que engrandeceu a Terra e que priorizou pobres e marginalizados.
Cá entre nós, lutas contra anticristos fictícios, metafísicos ou de carne e osso são frequentes na história, desde priscas eras, opondo ao mal valores fundamentais como a paz e o amor.
E hoje a figura do anticristo é a concretização da anticivilização.
Como tal, é um contraponto a elementos – ideias, indivíduos, projetos – considerados absolutamente perversos, nocivos e disruptivos à sociedade, esteja ela em níveis maiores ou menores de ordem e de progresso.
Não por outra razão, o enquadramento moral e (sobre)natural de Jair como um anticristo poderia ser provado por inúmeros gestos e palavras, atos e omissões, no passado e no presente, de maior ou menor gravidade, de ampla ou restrita repercussão, nos mais diversos aspectos da nossa existência.
Jair é um anticristo porque despreza a vida. Ora, que outro sujeito estimula o contágio por um vírus pandêmico em tamanho grau? Quem caçoa o pesar e a tristeza pela perda de mais seiscentas mil pessoas, achando tudo irrelevante? Quem mais acredita no extermínio de diferentes como saída política e de paz social? Quem sacraliza a tortura, faz das prisões um altar e da violência miliciano-policial motivo de devoção? Quem faz com tanta graça e júbilo a apologia da barbárie e do horror cotidianos, como se numa roleta de bem-me-quer e malmequer?
Jair é um anticristo porque despreza a paz. Ora, quem usa armas como símbolo cotidiano, a todo instante trazendo falas e movimentos bélicos de ódio e guerra? Qual sujeito estimula a prática constante da violência, o uso amplo e irrestrito de armamentos e de todo um arsenal como sinal de vitória? Quem rotineiramente ousaria pegar na mão de crianças para fazer sinal de armas e tiros? Qual o indivíduo que gargalha o riso diabólico ao publicar suas taras com rifles, pistolas e quejandos? Quem fala em metralhar e fuzilar como se fossem verbos de uma gramática natural?
Jair é um anticristo porque despreza a compaixão. Afinal, quem mais encarna a crueldade no ato de, ao contrário, desdenhar do outro? Jair é incapaz de sofrer o sofrimento do outro, de se colocar na vida e realidade sofredora do outro, por qualquer que seja essa dor: a morte, a doença, a fome, o desabrigo, o desemprego... Assim, Jair não nutre qualquer "paixão com" o outro; ao contrário, goza da malignidade e da perversão em um dia a dia de todos contra todos, sob o imperativo moral de cada um por si (e o mal por todos), abdicando do aspecto essencial da natureza humana, ou seja, a necessidade de um relacionamento amoroso com os outros.
Jair é um anticristo porque despreza a verdade. Mentiroso contumaz, faz da patranha um modo de vida. Engana e ludibria sobre tudo e todos, sobretudo os mais carentes de tempo e cognição. Estelionatário da fé pública, decreta sigilo de cem anos em assuntos de interesse público para ocultar a realidade. Mente por todos os lados, como se uma ilha da falsidade onde a verdade não entra para não poder ser conhecida, acorrentando na inverdade seu séquito mais fiel e ignorante.
Jair é um anticristo porque despreza a igualdade, a solidariedade e a comunhão. Dia e noite ele preconiza o anti-igualitarismo, fazendo do país uma sopa de merda, pus e fel. Se não ele, que outro indivíduo seria capaz de, em décadas de atividade política, jamais ter sequer mencionado o mais grave problema social, a concentração de riqueza? Qual sujeito seria tão capaz de agir em prol do racismo, da fome, da seca, do trabalho infantil e da deseducação pública, causas profundas da desigualdade social? Que outro indivíduo revelaria tanta falta de empatia, de sensibilidade e de compreensão dos problemas sociais, senão pode deliberada opção e vontade? Quem mais glorifica o egoísmo do "cada um por si" travestido de liberdade e celebra o individualismo amoral segregante e socialmente desarmônico, frutos da visão narcísica do sujeito "em-si-mesmo-sem-o-outro"?
Jair é um
anticristo porque despreza o meio-ambiente, o lugar onde vivemos. A Terra é a
nossa casa, e a nossa terra é a nossa sala, um lugar avassaladoramente devastado
para uma boiada poder passar e pastar. Quem mais desregulamenta, flexibiliza,
despenaliza, liberaliza e privatiza toda uma agenda ambiental, sob a sanha de
fazer da ecologia um tema ideológico e da natureza um espaço propício à destruição,
ao desmatamento, ao garimpo, à monocultura, ao latifúndio... como se numa medieval cruzada
antiambiental?
Jair é um anticristo porque despreza os fracos, as minorias e os oprimidos. Como um "homem da inequidade", lambuza-se ao ver o desemprego e o desespero de sem-teto e sem-terra, ofendendo a doutrina social do Papa Francisco presente em sua encíclica Fratelli tutti: “terra, teto e trabalho”. Não exalta os humilhados, mas humilha as pessoas fora das normas binárias de gênero e sexo e as comunidades indígenas e quilombolas. Faz da mulher um objeto adâmico, compreende a luta do povo negro como choro de perdedor e entusiasma-se com suas próprias palavras: as minorias devem se enquadrar à sua visão de mundo – ou então desaparecer.
Jair é um anticristo porque despreza a família. Ora, quem mais desconhece o espírito familiar senão um sujeito que propaga a idealização de uma família erguida sobre um moralismo de quinta-categoria que não se sustenta à brisa da manhã porque repleto de múltiplas transgressões? Quem é o sujeito que faz dos filhos projetos vis de homem e cidadão, construídos à sua imagem e semelhança? Quem mais faz das ex-mulheres um harém de negociatas e túmulos vivos de histórias que vão de aborto a traições? Qual sujeito cerca a sua gente de tanta gente sem virtudes e integridade, sempre sob o culto da "tradição"?
Jair é um anticristo porque despreza as relações humanas e políticas. Quem reiteradamente exalta uma antipolítica que ignora o debate de ideias, a oitiva de opiniões e o respeito às ciências como se fosse onisciente e onipotente? Qual o sujeito que ignora as fronteiras do público e do privado, do justo e do injusto, do certo e do errado em benefício exclusivo dos seus pares? Quem como nunca militariza e policia todo um aparato republicano como fetiche de forte apache? Quem mais desconhece qualquer caráter e pudor para se assumir como um avatar trágico e cruel das elites que liquidam o Brasil, senão um sujeito cuja essência é anticrística?
Enfim, Jair é um anticristo porque encarna o espectro do mal em sua totalidade, em cada um dos relacionamentos, dos atos e das palavras que estabelece e promove na sua trajetória de vida.
Para além da sua concretude social e política, objetivamente manifestada, tamanha consciência para degradar a existência humana é resultado de quem vive o mal como categoria moral, arquétipo de um agente desumanizado que vagueia no infértil campo do ódio.
Sim, nele há a prática do mal
intencional, radical, torpe e profundo, símbolo da força e da energia que negam o evangelho de
Cristo.
E é preciso um basta, um expurgo das ações, das palavras e do pensamento que carregam a mensagem das sombras, da desgraça e do caos.
Afinal, como se disse, tirar Jair
do poder não será apenas um ato político – será um redentor ato de amor.
terça-feira, 24 de agosto de 2021
# e la nave va
Deixo a seguir o posfácio da obra.
E LA NAVE VA
(POSFÁCIO)
Em outubro de 2018 – dois meses após a defesa em banca examinadora da tese de doutorado da qual este livro é fruto – a nossa distopia sopra ares surreais ao ver eleita presidente uma aberração saída dos grotões do baixo clero parlamentar e saudada nos porões da ditadura cívico-militar.
Bizarramente, pelos próximos quatro anos a República seria ocupada por um dublê de abantesma obsessor: “lasciate ogni speranza, voi ch'entrate”, passaria a ser gravado nas areias do litoral da Bahia para quem aqui desembarcasse.
À sombra desta assombração arregimentou-se grande parte da elite brasileira, disposta a articular (e distorcer) aquele protesto popular em prol dos seus interesses, a fim de manter benefícios e privilégios ainda que sob um cenário de guerra, em uma terra que hoje – mais do que nunca – condensa táticas de faroeste, técnicas de manicômio, taras de ditadura e totens eugênicos com vistas a dizimar os dispensáveis da razão neoliberal desta ordem capitalista.
A mudança na dialética social do Brasil – que
perpassa pela religiosidade neopentecostal, a
desconstrução do operariado sindical, a fetichização dos costumes, os valores
liberais não identitários e a reorganização urbana da periferia –
traduziu-se em um “fenômeno epidemiológico” que saiu das redes sociais e contagiou
as urnas, assinalando o estado da nossa decadência moral e política e,
principalmente, o ressentimento desesperado da massa brasileira que naquela
imagem de meganha tosco e boquirroto imaginava um “mito”.
Neste processo, a classe dos “intocáveis”
sempre fingiu isenção, admitindo as trevas de algo tipo governo: inepto e
indecente, armado e desalmado, capenga e enjambrado, sem luz e sem lógica
democrática, sem programas e sem propósito social, tudo num planalto cujo
cenário associaria o astral de banheiro químico com a graça de uma necrópole.
Fingiu eximição, admitindo um modelo de
sociedade baseado na precariedade, na expropriação e na violência oficial,
objeto da conjugação infausta de neoliberalismo com submilitarismo.
Fingiu sublimação, admitindo viver no fio da
navalha do obscurantismo regido pelas vontades de uma gente perigosamente
medíocre e enfaticamente lunática cujo método é a mentira e cuja bússola, o
ódio.
Fingiu esperança, admitindo ver o caos
institucional e o colapso socioeconômico, sem ordem e sem progresso, sem ações
e sem recursos, sem vida e sem negócios.
Fingiu. E finge. Finge sob as máscaras
venezianas de quem parece desfilar em seu próprio e seleto carnaval, como sói
acontecer com os brancos e azedos malandros da contemporaneidade.
Notoriamente, a “aliança siamesa” entre
endinheirados e empoderados de novo revela a plena disposição que as nossas
elites têm, histérica e historicamente, em não medir esforços para ofuscar a
realidade e dissimular as causas e as razões da desgraça brasileira que longe
passam da “corrupção” da (e na) política, canto medúsico soprado pelo bando que
deslavava a jato o Direito e que diariamente ecoava pelos jornais nacionais até
chegar aos ouvidos mais incautos e menos conscientes da população.
Ainda, as últimas eleições criminalizaram em grau máximo a política para
legitimar um sujeito que passaria a exercer o papel de “antipresidente”,
cultivando a mais carcomida política, vinculada a todos os vícios e fraudes que
há séculos o Brasil produz e no qual uma seleta casta eterniza-se em leito
esplêndido ou nas varandas da casa-grande enquanto invisibiliza a usurpação das
riquezas nacionais, a manipulação do mercado e, fundamentalmente, a exploração
do trabalho.
Eis a plutocracia brasileira, que se alvoroça
em torno do seu títere de ocasião não para domesticá-lo, mas para que áreas
caras aos seus interesses sejam cuidadas sob um novo arranjo normativo, na
forma de um tratamento à terra, à educação, à saúde, às relações de trabalho, à
infraestrutura, ao meio-ambiente, às empresas públicas, aos pequenos negócios e
aos movimentos sociais que unem o medieval ao neoliberal e o selvagem ao
mafioso, arruinando toda uma agenda tão sensível à maioria da população.
Assim, o horror da desigualdade social – que
em 2016 retomara o crescimento de forma calculada e acelerada – imediatamente
transformou-se em uma “não-pauta”, absolutamente abandonada da selvagem agenda
do presidente eleito, não apenas como sinal do seu déficit
humano-civilizacional, mas como resposta ao desejo da elite brasileira de
conservar o seu colossal quinhão da renda e da riqueza nacionais como uma eterna
capitania hereditária: o “orçamento público”, máquina da qual brotam inúmeros mecanismos de apropriação de dinheiro público – via,
especialmente, aprimorados ardis financeiros e bancários – de forma a
continuamente renovar o processo de dominação.
A caracterizar universalmente o país como o
samba e o futebol, a desigualdade volta a ser relativizada sob falácias
liberais e ordens de ajuda motivacionais que enviesam a análise do problema de
modo a ofuscar o lado perverso desta equação brasileira, crescentemente
concentrado no topo piramidal do reino social, efeitos
naturais de um sistema que manifesta seus sintomas de morbidez e decrepitude cujas
consequências são escancaradas no dia a dia das nossas cidades.
Enquanto aos ricos (e ao
capital) dia a dia são atribuídas feições heroicas e vitoriosas, seja pelos
holofotes da grande mídia, seja em declarações oficiais de um obnóxio governo
que almeja ser bem falado nos “clubes de golfe”, escondem-se as reais
circunstâncias estruturais do subdesenvolvimento e do empobrecimento geral, a
fim de que não se conheçam as razões institucionais e ideológicas da guetização
de um povo esfacelado.
E justamente nesta estética
de zoológico rural e lógica de desordem e retrocesso que caracteriza o momento
brasileiro, em 2020 o nosso pandemônio coroa-se com uma “pandemia” cujo maior
reflexo é a morte a quilo dos supérfluos humanos – a maioria das nossas
periferias –, sinal macabro da vilania debochada e também do desprezo à nossa
questão central: a desigualdade social que avisa e determina quem são as nossas
grandes vítimas, mero detalhe para a necropolítica e eterno normal para o
capitalismo como legítima expressão da barbárie.
E o tempo passa... e ao fundo um rinoceronte enfaixado segue sendo
alimentado por nossos barões enquanto bizarramente capitaneia o barco Brasil
nesta travessia infernal, com salva-vidas cuidadosamente selados para muito
poucos. Até quando?
Rodrigo Gava
Copacabana,
Rio de Janeiro
quarta-feira, 2 de outubro de 2019
# lava de chumbo
Esses dias deparei-me com um texto escrito por Osho.
Não o conhecia, até me parecer que, sem desprezar o "valor" das suas técnicas meditativas, seria outro destes gurus que volte e meia surge, no seu caso sob uma seita que parecia juntar coaching, neopentecostalismo hippie, crossfit tântrico e Jim Jones.
Bem, o tal texto – e é disso que quero tratar – falava de solidão, de solitude e do singular espaço e momento a sós.
Descobri este tal "vazio" vagando pela Europa, no meu particular camino santiagués, em profundos setenta e tal dias a rodar de mochila da Ibéria às profundezas do Leste, da Escandinávia aos confins do Adriático, com o centro do "velho mundo" como eixo e a busca do meu "novo centro" como meta.
E nele uma verdade: diante das dificuldades de "ser", são nestas situações que nos pervertermos para abrir os olhos e então conseguir ser, e (se) ver, e (se) enxergar, e (se) reparar, e se (re)encontrar.
Peregrino, senti ultrapassar os limites da "solitude".
Lá, uma solidão sem fim abria espaço para tudo e, perigosa, levava à torrente intensa de ideias, teses, dogmas e sentimentos que faziam aprofundar ainda mais num espaço sem fim.
Intocável, vagueava até tatear numa realidade cada vez mais clara, num cheiro cego de quem ali só escutava o buraco meio misantropo de línguas que vinham a toda hora diferentes: o húngaro do diabo, o polonês da wodka, o neerlandês da fumaça, o barato do tcheco, o embrulho do croata, o grito da sicília e o sueco de um mundo que um dia há de vir – e que assim seja, amém.
Sê!, advertia-me a todo instante.
E deixava-me notar algo de muito errado no ar.
Ar rarefeito, sublinhe-se.
E que aspirado por quem não era, trazia o arrebatador efeito de compreender que a ordem das nossas coisas merece um novo arranjo.
Merecia a desordem para ser reconstruída à imagem e à semelhança de tudo o que é mais justo neste nonsense mar que permanece dividido, diluído, negro, morto.
Afinal, antes da solidão, enquanto ainda se está apenas sozinho, embrulhamo-nos num estômago de inquietações que nos fazemos sentir sem mentir, a permitir levar-se adiante como se aquilo tudo não fosse conosco, e como se dissimular para todo o exército que se forma diante do espelho fosse a resoluta salvação.
Não, não resolve.
Não, você não consegue não se ver.
As emas que em volta emanam e borbulham aos borbotões, reclusas com suas cabeças mergulhadas em seus umbigos ou outros planetas, não te podem convencer de que a ótica é outra, de que o-seu-ponto-de-vista-não-tem-a-vista-verídica e de que as viscosas e grossas vistas de quem finge não querer ver compõem o melhor remédio da terra.
E então, naquele infindo tempo de isolação, você simplesmente percebe que lá atrás dele e de todas as sete cores daquela turva imensidão está, a um palmo do nariz, o pote dourado de colírio.
Mas, sem calma nesta hora: não se permita o mínimo resfôlego, pois o leão não é manso.
É que a sina solitária finge-se para não se mostrar que ali se está só no princípio, e neles outros verbos em outras conjugações.
Esta é a promessa, esta é a jura da existência.
E por isso o privilégio por encontrar a gota d´água da cola mágica que sempre prometeram jamais existir.
Sim, sozinho e na poética da solidão, se descobre melhor o mundo que se há de viver a dois, a seis, em conjunto, em sociedade, coletivamente.
De dentro para fora, meu mundo em construção, como um álbum de figurinhas que de criança quase desisti: custoso, incerto, demorado e difícil, mas que completei e que para sempre ficará comigo guardado.
Como ficarão, espero, as lições aprendidas daquela minha silenciosa peregrinação.
Todas bem emaranhadas, apreendidas no labirinto da alma.
quarta-feira, 12 de junho de 2019
# orgulho e ilusão
Ilusões da vida, ilusões da história das quais fingíamos um tipo estranho de orgulho, diante das quais relutávamos em acordar.
terça-feira, 12 de março de 2019
# um balanço no ninho
Neste fim de semana fui à casa do meu passado onde moram meus pais.
E é sempre inevitável voltar no tempo cada vez que adentro meu antigo quarto.
Ele foi minha casamata, minha alcova, meu quartel onde me trancafiava, onde afiava os meus dentes e onde pensava ser o general do mundo.
No meu covil, ora, tinha a certeza de quem era o centro do universo.
Hoje, entro e vejo que está quase tudo ali, em especial aquilo tudo que nem as marcas do tempo apagam, como se enraizado nas entranhas reais ou ficcionais daquele cômodo.
Por dentro das portas dos armários, vestígios de alguém que por ali navegava, impreciso, num turbilhão de tantas fases e sob os seus mais indômitos devaneios.
De um lado, ideias talhadas na madeira escura que dali insistem em não fugir, embora da memória já pouco se tenha.
Sobrepostos, descontinuados e rarefeitos, são escritos que iam e vinham a cada descoberta, a cada frustração, a cada lágrima, a cada arrombo de alegria.
Do outro, cromos repetidos de álbuns incompletos e que eram colados como metáfora do abandono.
Noto que aquilo, naquela época infanto-juvenil, era como as relações que se apresentam hoje: as pessoas vão colando figurinhas e enchendo páginas e páginas festivas de uma vida virtual.
Até que chegam aquelas mais difíceis...
E aí se deixa o álbum meio de lado e, simplesmente, parte-se para outro.
E assim vão se construindo afetos e contatos, cujo fim é o descarte na moldura fria de um canto do móvel – ou do facebook.
Entre os armários, agora já não há mais a minha cama e o seu baú embutido. Sequestrei-a. Carreguei-a comigo. Pintei-a.
E hoje compõe o quarto dos meus filhos, reduto onde depositarão, dormindo ou não, todos os seus sonhos da vida.
Pelas estantes, bem ao fundo ainda se vê o saldo da alma de coisas dos últimos anos do resto daquela minha vida – inclusive uma bandeira de mesa do meu amor de antes, de hoje e de sempre e que veste vermelho e preto.
Pelas paredes, ainda fulgura lânguidos rastros da cor de um ambiente que insisti em entintar de tinto, mas que já há algum tempo dá lugar à soma de todas as cores – como eu, a soma de tudo o que vivi.
Nos vidros da veneziana, a rebeldia emancipatória de quem imaginava, nos gestos de colar adesivos de marcas e de brados adolescentes, estar hasteando o pendão da ultraliberdade e transgredindo toda a ordem do lar.
Independência ou morte!, era o que se imaginava na cabeça do dono daquele principado de cuja varanda se lançaria para dominar o mundo.
E sobre a imbuia maciça da escrivaninha vejo sobrar as marcas, os riscos e os rabiscos de químicas e paixões, de contas e planos.
Soçobra uma época em que se imaginava amar a cada lindas tranças e a cada olhos de "cigana oblíqua e dissimulada" que fitava.
Sobeja um tempo em que se estudava para passar de ano e não para aprender, período gravado sob já apagadas fórmulas colegiais a revelar um jovem homem que calculava, mas que ainda só platonicamente pensava.
Diante de toda esta arqueologia, volto-me para tentar enxergar o que eu seria se não fosse aquilo tudo ali.
Para então ter a mais absoluta das certezas: não foi "aquilo tudo ali" o que me fez – e nem tão-pouco tinha na vida seca daquelas coisas a grande joia da minha coroa.
Sou, sim, fruto maleável do que sempre esteve do lado de fora daquele quarto, vivamente presente em todos os outros ambientes daquela casa, lado a lado, dia a dia, até me casar.
É dos meus pais e das minhas três irmãs que tenho a maior e mais importante memória do que me tornei.
E são neles onde sempre esteve a minha maior riqueza.
segunda-feira, 4 de março de 2019
# maestros, cavalos, deuses e hinchas
Quando o Club Athletico Paranaense entrar em campo hoje, na nova velha Baixada, pela Copa Libertadores da América, recomeçará outra batalha da guerra que representa disputar o maior campeonato de futebol do planeta.
Sim, meus amigos, a peleja de logo mais será outra amostra da saga por esta Taça, que se soergue como máximo culto ao velho e rude esporte bretão.
Aqui é onde cada esquadra vagueia conduzida por seus carontes nos reinos das sombras sul-americanas.
Mas, atentem, o que se carrega não são reles almas mortas.
São jogadores.
São heróis, vilões, guerreiros, ídolos, múmias e até amargas ínguas na escura travessia dos mais de nove círculos em busca do céu libertador.
Ora, não me venham com a realeza das arenas belgas climatizadas.
Nem as pompas dos gramados de pastagem de vacas premiadas holandesas.
Nem as elegantes lantejoulas dos uniformes demi-sec franceses.
Nem a seda dos tronos imperiais das tribunas inglesas.
Nem o brilho comportamental dos torcedores alemães e seus canecos de vidro encervejados.
E nem toda aquela fascinação medúsica provocada pelo escrete barcelonês ou liverpooliano.
Ela tem qualquer coisa de triste, que chora, que sente em cada carrinho e em cada cotovelada a saudade da Casa.
Afinal, nesta Copa tudo extraterritorial é terra inimiga, quase sem-lei, proibida para menores e tratada com tarja preta.
E mais.
Ela tem uma beleza que, embora bata na tristeza de um molejo de amor sangrado da sobrancelha aberta e machucada, transborda em uma alegria sublime, incompatível a qualquer outra de padrão europeu.
Aqui, meus caros, sofre-se profundamente pelas mais depauperados escretes, rasga-se e morde-se pelo mais irraciocinado dos amores.
E se chora, e se grita, e se late, e se morre, se arrebenta e se abrem as veias sulamericanas para que tudo acabe em um deleite que não se entope, que não se explica.
Ora, todos sabem que as suas cores representam uma paixão única, daquelas feitas apenas para amar e para ao final sofrer de um eterno amor.
Como aqui, com o coração rubro-negro que confirmará, luta a luta, a alma em frangalhos de um sofrimento inacabado em infinitos noventa minutos.
Saravá!
terça-feira, 29 de janeiro de 2019
# só resta uma certeza
A tragédia da morte é sempre trágica porque é uma tragédia.
Já pensei, vejam só, que o ideal seria nascermos com esta certeza: prazo de validade tatuado na bochecha.
E assim, como velas, íamos aos poucos apagando, apagando, apagando... mas logo penso no caos prático disto, afora, claro, toda a filosofia religiosa que se propõe a garantir um sentido disso tudo aqui e que, então, passaria a não ter significado e valor algum.
Portanto confesso ainda não aceitar o fato de ser "a única certeza da vida". Nem a desculpa sobre a tal "ordem natural das coisas" é capaz de sensibilizar-me quando o caso envolve os nossos velhos. Tão-pouco a tese do "destino divino" me conforta para as excepcionais situações.
Insisto, assim, em ser pragmático num assunto que nunca se encaixará no pragmatismo.
É, portanto, um problema de estrutura e método, e ao mesmo tempo de especulação do ser, cuja associação não consigo compreender, tal qual nas cartesianas "meditações metafísicas".
Ou, então, ideia assente nos pontos de vista da "vontade" e da "representação", nos quais Schopenhauer pretendia defender a tese da indestrutibilidade da nossa essência.
Para o filósofo alemão, a preocupação com tão breve espaço de tempo – com este "intermezzo momentâneo", com esta “mediação de um sonho efêmero de vida” – e com este apego à vida é irracional e cega.
Eu, porém, insisto em não admitir porque não me imagino aceitando, como num passe de lógica, nunca mais viver com as pessoas que tanto amamos, as quais, num qualquer segundo seguinte, se vão como um "sopro", diria Oscar.
Calma, lá nos céus da vida eterna haverá o definitivo (re)encontro... não, não, a minha fé, ainda que hesitante, assegura a vida eterna – a Vida –, mas não que vou ter com as pessoas amadas, viventes comigo aqui na efemeridade deste plano.
Até, quem sabe, realmente trate-se de ser mais ou menos espiritualizado, mais ou menos teológico, católico e cristão.
Mas, para além, também se trata de não aguentar não se acabar em prantos para o fato de que todas essas pessoas que tão íntima e intensamente convivemos passarão a não mais existir.
Ora, ora, por que então amamos tanto e tanto estes seres que nasceram e viveram conosco?
É por isso que às vezes gostaria mesmo de ter nascido filho de chocadeira.
Para depois viver no eterno celibato de um monge ermitão.
Sozinho, como uma vela.
terça-feira, 30 de outubro de 2018
# eu, eu mesmo e os outros
Tenho e sempre tive amigos e familiares dos mais variados espectros políticos – e, por conta do meu habitat e da minha criação e formação, a ampla maioria é meio liberal, meio reacionária, ou seja, situada a minha direita, como assim se convencionou denominar os conservadores de plantão.
E sempre encarei isso com muita naturalidade, pois visões de mundo dentro de quadrantes políticos não poderiam superar a sincera troca de afetos e a busca pelo aprimoramento das relações pessoais e sociais, posto que o lugar político e o paradigma existencial que nos orientavam era sempre o mesmo: a democracia e a dignidade da pessoa humana.
Ocorre que este 2018 trouxe um tsunami que arrancou a fantasia político-ideológica e os adereços "do bem" de muita gente.
E assim desnudou a real essência de muitos que, afinal de contas, nunca quiseram saber de política, de debater política, de defender e de compreender a política.
Estes, na real, revelaram-se gostar de ideias, práticas e sujeitos que estão fora dos quadrantes da política, por uma razão bastante simples: toda a arquitetura do fascismo nega e está fora da política.
Não por outro motivo, o que a candidatura vitoriosa sempre ofereceu foi à revelia do diálogo, da razão, da fraternidade, da igualdade, da liberdade, do pluralismo e da harmonia social.
E em momento algum o que diz, o que pensa e o que promete se concilia com democracia e com nossos supremos valores constitucionais.
Pelo contrário, sempre encarnou fundamentos não civilizatórios, quase medievais e bastante autoritários, alicerçados em pontos bastante relevantes e onipresentes da sua campanha e da sua existência, cercado de outros seres tão esdrúxulos, toscos, obtusos e picaretas quanto ele.
Este indivíduo, da linha hominídeo despreza qualquer luz de democracia: não se importa com "as regras do jogo", nega a legitimidade de oponentes político, delira com a violência e a restrição das liberdades e ignora a diferença, a diversidade e as pautas humanitárias em geral.
Junte-se a este conjunto a mais absoluta incompetência, a total falta de noção de gestão pública, o flagrante desconhecimento da realidade brasileira, o culto à paranoia do inimigo público, a insensibilidade às classes mais vulneráveis e às minorias e... voilà, tudo está flagrante no ser e no viver de Jair, esta figura que, lembrou o filósofo Vladimir Safatle, parece se inspirar naqueles líderes autoritários invariavelmente representados como uma mistura de militar com barbeiro de província (v. aqui).
Mas, evidentemente, da grande "pizza" que representa os eleitores do candidato eleito tenho em meus laços familiares e de amizade tipos em diversas fatias.
E se aquelas primeiras pessoas, que já há algum tempo insistem em propagar, apoiar e confirmar uma candidatura cheia de raiva, rubéola, tuberculose, anemia, espuma, armas e mentiras, são pessoas por mim esquecidas e de cuja companhia dispensei, agora não esquecerei as pessoas que, num sopro de pseudoplenitude, julgaram-se acima do bem e do mal para lavar as mãos, como se aceitando indiferente o grito desvairado da ruas: "Crucifica-o! Crucifica-o!".
E atenção: como sempre na história, fascistas não chegam ao poder porque a maioria da população era fascista. Na verdade, chegam ao poder porque muitas pessoas bastante razoáveis e moderadas se abstiveram, se calaram e fizeram vista grossa da tragédia que adviria.
Estas pessoas, infelizmente, ajudaram a sustentar (e a repetir) um grave erro da nossa história, que atropelará nossos valores constitucionais, carcomerá nossos direitos e garantias, destruirá nossas instituições e tingirá com tinta sombria nosso futuro, flertando na roleta-russa do "pagar para ver" o quanto de verdade haverá na quantidade de falsas promessas que Jair há trinta anos faz.
Fingindo sublimação, admitiram viver no medo de um Estado moralizador e no fio da navalha do obscurantismo regido pelos interesses prostibulares de uma gente perigosamente medíocre e enfaticamente lunática.
Fingindo esperança, admitiram ver o caos institucional e o colapso econômico no qual mergulharemos, sem ordem e sem progresso, sem ações e sem dinheiro, sem programas e sem negócios.
Tristemente, não conseguiram compreender os riscos deste modelo, as ameaças deste governo e a intensidade da tragédia social que está em jogo, ousando ver com descaso os seus efeitos ou como mero falastrão o seu líder, não enxergando que o dito cujo é uma besta que vende falso moralismo para se alimentar de reais mamatas e mutretas.
Temos, ao cabo, que o resultado disso é complexo fruto de uma sociedade doente e distópica, incapaz de não ver a diferença entre dois mundos, entre duas eras, entre dois tempos históricos.
Seja na ação delirante do voto em Jair, seja na omissão em ladainha do voto nulo, veem um lado ser contra a tortura, a barbárie, o preconceito, a repressão e o autoritarismo e querem comparar com um outro lado que estimula estes desvalores, a afrontar direitos e garantias fundamentais, previstas em qualquer carta mais ou menos universal de direitos humanos.
Esquecem, assim, que a ruptura democrática e a perversão social não são obras de um estúpido qualquer.
São, na verdade, obras de legitimação desta sua estupidez.
E se a história do Brasil será implacável com a escolha feita por estas pessoas, e se a s suas histórias, cedo ou tarde, as acusarão de cúmplices da tragédia protofascista que mergulhará o país em trevas totais, eu demorarei para superar a decepção e a traição delas às nossas histórias em particular.
Ora, de que servem aqueles abraços, aqueles brindes, aqueles porres e aqueles tantos gestos e momentos de afeto se, do lado de fora, diante do outro, os valores, a vontade e a verdade são outros?
É uma pena, enfim, ignorarem que sob tal visão fatiada de sociedade o "outro" seja uma mera circunstância.
Até porque, como outrora disse Bertolt Brecht, importar-se apenas quando nos convém costuma ser tarde demais.