sexta-feira, 5 de outubro de 2018

# civilização ou barbárie



Difícil compreender que decidir pela democracia não deveria ser uma questão de “escolha”.

Assim como apenas votar não significa que se vive uma democracia.

Ocorre que, sob o aspecto formal, o ato de votar é um símbolo da democracia.

E por isso votamos, e por isso cada um, com suas visões de mundo ou seus raciocínios matemáticos – o voto também costuma se medir por cálculos objetivos – escolhe seus “representantes”. 

No Brasil, não à toa, a primeira frase do art. 1º diz que a República Federativa do Brasil constitui-se em Estado Democrático de Direito.

Logo, não deveria se flertar com a escolha entre viver ou não numa democracia, bem como, a esta altura da humanidade, não se poderia admitir um direito a escolher entre viver em uma sociedade moderna ou medieval.

Claro, há soluções políticas e receitas programáticas para todos os gostos, mais ou menos convenientes às visões de mundo – a "ideologia"  de cada um.

Mas “remédios” não servem como pílulas homeopáticas, placebos ou mandinga.

E por isso exigem seriedade no uso terapêutico, e por isso não se brinca com eles.

Ora, não se escolhe um tarja preta para curar diarreia.

Se o desatino intestinal é incontrolável, há outros meios de curá-lo.

Pela educação, por exemplo.

Aprende-se a comer direito, a ingerir alimentos saudáveis, a beber água, a evitar frituras e comida de plástico, a ouvir sérios conselhos, a ler bons livros, entre outras tantas ações.

Mas nunca um rivotril, um coquetel radioterápico ou uma operação cardiovascular – eles não, eles nunca.

Por mais que se goste – “ah... sou fascinado por uma cirurgiazinha...”, alguém poderia dizer –, isso não se faz porque não dá certo e não funciona, como há muito tempo e por todos os cantos se sabe.

Ao menos para quem admite e quer viver em uma sociedade plural, livre, igual, fraterna e moderna, na qual a bala, o ódio, o preconceito, o racismo, a xenofobia, a misoginia e a intolerância são absolutamente inadmissíveis.

Por quê?

Porque isso deve fazer parte da nossa decência cívica, da nossa incolumidade cidadã e da nossa vivência democrática.

É evidente que há muita gente gostando e ganhando, direta e concretamente, com esta insurreição fascista e o caos.

São os facínoras, cuja viuvez dos anos de chumbo é tratada com saudosismo e orgulho e em cuja órbita social não cabe o "outro". E são os vendilhões do nosso templo republicano, mais ou menos expostos na obstinada busca argentária  e diante desse pessoal toda lógica, todo direito, toda ética e todos os valores morais são absolutamente descartáveis, sendo, pois, impossível se cogitar qualquer reflexão para que possam se convencer do contrário.

E até os entendo, como filosofaria Schopenhauer.

Mas há também muita gente se enganando com o que imagina desejar.

São os antipetistas, classe média que trabalha sob a ojeriza a um grupo político e que pelas ruas e redes do Brasil pensam estar desembarcando na Normandia, combatendo a crise, a corrupção e as coisas todas ("tudo-que-está-aí") deixadas para trás desde 2003, sublimando que o "messias" seja absolutamente incapaz de oferecer uma mísera proposta substantiva para quaisquer dos grandes problemas nacionais (desigualdade, trabalho, saúde, educação, moradia, transporte, economia, saneamento, energia, meio ambiente etc.).

E são os descuidados, batalhadores deixados de lado pelo Estado e que, além de verem limites inexpugnáveis no projeto de inserção e ascensão sociais, também passaram a acreditar no discurso da violência como combatente da violência, ignorando que sob esta lógica eles continuarão a ser "objeto" da violência, como se numa epopeia suicidária agora com a chancela oficial do Governo e o delírio das "pessoas de bem". 

Ambos, assim, acreditam estar escolhendo uma mudança e decidindo pela salvação do país.

Mas não, não estão.

Pelo contrário, estão a sustentar (e a repetir) um grave erro da nossa história, que carcome nossos direitos e garantias e tinge com tinta sombria nosso futuro.

Sem saber, acabam por vibrar e flertar com as trevas de um arquétipo de governo: inventado, armado, enjambrado, com um lado e sem viva alma.

E estão a sucumbir a isso.

Estão admitindo viver à margem da democracia, no fio da navalha do obscurantismo regido pelos interesses prostibulares de uma gente vil, com alarmantes déficits cognitivos e graves desvios éticos.

Estão, assim, a ver a imberbe construção da nossa nação vergar e se acabrunhar, de novo.

E estão a aceitar isso, num rotundo temor servil.

É, portanto, absolutamente perigoso e dramático este momento da nossa República.

E na vida há situações em que se deve firmar uma posição – se como dissera Kafka, num dos seus aforismos, que o ponto a se chegar é o ponto a partir do qual não há mais retrocesso, eis que nele chegamos.

E escolher um lado, posto que não se trata de um maniqueísmo qualquer.

E escolhendo um lado, em circunstâncias como as que hoje, de modo (sur)real, atravessa o Brasil, o convívio com o "diferente" – usarei este eufemismo – é impossível.

Não há, afinal, diálogo com o fascismo e seus adeptos.

Diante disso não há ideias, não há lógica, não há razão, não há coração, não há nada fora da ignorância e da continência.

Nem liberdade, nem direito, nem lei, nem povo, nem justiça, nem amor, nem ordem, nem progresso, nem nada.

Sendo assim, porquanto insustentável o convívio, evitarei aqueles que admitem ou passam a ser condescendentes com práticas para mim tão repugnantes como a tortura e a repressão e tão atrasadas quanto a violência e o militarismo.

Ora, acredito no Estado Social e Democrático de Direito, na Constituição e nas ideias de República e de cidadania.

Acredito nos valores da Declaração Universal dos Direitos do Homem e na construção de uma sociedade moderna, feliz e para todos.

Acredito – para não dizerem que não falei das flores – no combate aos crimes econômicos, financeiros e contra a Administração Pública (sonegação e corrupção, por exemplo), com investigação e punição independentemente do partido ou do sobrenome, como uma das medidas para tornar o país melhor e decente.

E por isso acredito que as trevas, o terror, o autoritarismo e o arbítrio de agora, em nosso quintal e a um palmo dos nossos narizes, precisam ser imediatamente controlados e repugnados, com a mais absoluta veemência.

Afinal, longe de ser papo de poesia, se hoje é com os "esquerdopatas", amanhã será com qualquer um, como exemplarmente revelou a escuridão de 1964 a 1985.

Desse modo, não posso compartilhar e estar na voluntária companhia de quem desacredita a história, de quem apoia ações ao arrepio da Carta Maior, de quem é contra a ordem democrática, de quem faz chiste e graça deste estado de coisas e de quem, apenas por ser "antipetista", admite o caos e um Brasil em cacos, a aceitar ou relevar as ofensivas bárbaras de um ser como – dê-se nome ao boi – Jair, abjeto e microscópico, protótipo do mau e caricato político e detentor de uma obtusidade comovente, mas que encanta seus pares ungulados.

Excetuando-se uma pequena parcela que, como em todo lugar do mundo, é realmente fascista – algo humano, demasiadamente humano – e que assim se posiciona mais ou menos dentro do armário, a convulsão nacional nasce da crença de que a corrupção é o maior problema do Brasil, numa ladainha oca e atrasada, cuja ardilosa construção visa a esconder o caráter vital da política e sublimar a "luta de classes", o grande motor das sociedades desde que a Idade Média acabou.

Ocorre que tudo se intensificou: pautas de plástico floresceram, preto acabou amarelo,  jabuti subiu em árvore, moral se tornou direito, focinho virou tomada e assim se chegou a este episódio que nauseia e nos apequena como nação  e claro que a esquerda e o PT têm culpa.

Partido esse que divirjo muito e em muitos aspectos. 

Partido esse, gize-se, que especialmente nos últimos anos antes do Golpe (2016) mereceu as minhas mais severas e pontuais críticas, como sempre expus em artigos, colunas e neste blog, justamente pelo Governo ter se afastado de seus programas e ideais, com muitos erros e desvios inexplicáveis. 

Contudo, está muito claro que agora já não se trata de PT ou de apreço por uma ou outra bandeira de pessoa, partido ou gestão, inclusive porque houve muitas opções reais neste processo eleitoral, para vários gostos e espectros. 

Há sim uma não candidatura muito clara  e, nada paradoxal, muito escura.

Há um Jair no meio do nosso caminho, homem-pedra que não titubeia em ofender e assumir a destruição das regras básicas de uma sociedade moderna e de um país democrático.

Por isso, grite-se, o que está verdadeiramente em jogo é o inabalável respeito aos princípios, aos fundamentos  e aos objetivos contidos na Constituição da República Federativa do Brasil. 


Sendo assim, minha gente, não há escolha, não cabe omissão e nem se aceita isenção.

Logo, até quem sabe outro dia, vou querer apenas a companhia, o afeto, os beijos e os abraços daqueles que partilham comigo desta mesma margem do rio.

Um rio cuja correnteza infelizmente está a levar muita gente para um outro lado, um lado triste e sombrio da nossa história.

Afinal, não mais se trata de política, modelos e cores partidárias.

Trata-se de escolher entre civilização ou barbárie, entre luz e trevas, entre progresso e caos.

E do desejo, lá na frente do tempo, de quando tivermos nossos netos no colo e ouvi-los a perguntar desta época, poder lhes dizer que tudo só foi um susto e um soluço.

E, com o brilho dos olhos de um velho, dizer-lhes com orgulho de que lado aqui estivemos.

E que vencemos.





terça-feira, 18 de setembro de 2018

# o horror e a carrocinha



Em 2016, às vésperas das eleições dos EUA que deram a vitória ao tio Donald contra a Madame Clinton, o filósofo Slavoj Žižek disse que, entre ambos os horrores, eleger o magnata do showbiz seria menos horrendo (v. aqui).

Os seus argumentos? Era necessário pôr fim à ideia de que "não fazer nada"  e com isso aprofundar o fracasso da política e da sociedade estadunidense  seria pior do que eleger alguém com o "risco" disso, mesmo com as promessas de mudança à direita e eticamente desmoralizantes.

De modo frio e calculista, Žižek dizia que, menos do que apoiar um ser desprezível como Trump, a ideia era se emancipar da política protecionista, elitista e bélica daqueles "democratas" e que tanto mal continuariam fazendo ao povo dos EUA (e ao mundo), e para isso o candidato republicano seria um "mal menor".

Ainda, entendia o filósofo que o modus operandi deste grupo de "republicanos" liderados por Trump, por mais repulsivo que fosse  como, por exemplo, suas ideias xenófobas e seus preconceitos de múltiplas ordens , passaria longe de se traduzir em medidas totalitárias ou restritivas à liberdade do povo americano. 

Bem, agora vamos à nossa realidade.

Urbi et orbi falamos: as semelhanças que há entre Jair (PSL), a mula-sem-cabeça dos patos amarelos, e o Donald são as mesmas que há entre uma mexerica e um alfaiate.

Afora todas as diferenças e distâncias entre ambos que já apresentamos (v. aqui), os riscos que se colocavam à eleição do outsider à presidência dos EUA, em termos de perigo e ameaça à democracia, não poderiam se comparar àqueles existentes com o ex-milico e projeto de fantoche de um "sistema antipovo", uma vez que a complexa trama de instituições políticas e sociais norte-americanas – conquanto bem se saiba como funcionam e a quem atendem – não poderiam ser superadas por rompantes de um boitatá qualquer.

Ocorre que no Brasil pós-golpe a conversa é outra, confirmando-se que tudo é possível, tudo é meio mambembe, tudo parece movediço ou suscetível de cambalhotas, gritos e viradas de mesa antidemocráticas.

No contexto ora em destaque, esse Jair francamente se apresenta como uma ilha mobral rodeada de jagunços verde-oliva por todos os lados e que não exitam em assumir publicamente os limites das suas vontades: um governo à força e uma gestão à fórceps que não cora em propagandear um "autogolpe".

E Jair não esconde este seu gosto e, por não saber e nem entender bulhufas fora da cartilha comportamental da Idade Média que defende, se submeterá in totum à "agenda pinochetiana" imposta pela trupe que lhe afiança a candidatura: fundamentalismo de mercado com repressão social.

Assim, afora o absoluto colapso institucional e o certo caos econômico para o qual seremos empurrados e lá trancados, conforme o funesto modelo colono-neoliberal que será implementado no Brasil sob a batuta do jogador de casino Paulo Guedes e seus crupiês, a realpolitik será ditada com as mãos de ferro e nada invisíveis da galera do Vice Mourão, uma espécie de superlativo daquele juiz paranaense, porém mais sincero e autoritário e que troca gravata por coturnos e caneta por cassetetes.

Em suma, deve restar claro aos incautos e vacilantes brasileiros o seguinte: votar nesta turma toda não significa apenas flertar com o poder das forças armadas, mas assumir que no horizonte não se titubeará em colocar as forças armadas no poder, as quais tirarão do quepe competências e atributos para pôr "ordem e progresso" no país, e dar luz, voz e formalidade a um regime que oficialmente desprezará o estado de direito e a soberania popular, dando lugar a uma tragédia absoluta.

Portanto, se na leitura de Žižek o horror de Trump seria menor do que com Hillary, por aqui não se pode cogitar tal paralelo: seja qual for o adversário do mitológico candidato do PSL, a sua desgraça não alcança nenhum outro concorrente.

A mexerica Jair, portanto, nem nisso se aproxima do falastrão prêt-à-porter yankee.

Afinal, no nosso caso, o sujeito e sua trupe galopam montados sobre alvoroçadas cadelas no cio. 

Aquelas, aquelas cujo nome é fascismo.



sexta-feira, 14 de setembro de 2018

# fiat lux


Uma das versões de um conto da mitologia grega narra Zeus, injuriado com Prometeu – porque esse roubara o fogo dos deuses para dar aos homens , mandando entregar a Pandora, a primeira mulher e cujo único defeito era a curiosidade, uma perigosa caixa contendo todos os males do mundo, com uma única recomendação: nunca abrir.

Mas é claro que lá pelas tantas ela acabou abrindo, fazendo com que saísse todas as desgraças mundanas: pecados, doenças, vícios etc.

Eis a "caixa de Pandora".

Aproprio-me da lenda a fim de lembrar a frase que talvez simbolizará para a história as eleições de 2018, proferida pelo grande brasileiro Ciro Gomes: "é preciso pôr o Ministério Público e o Judiciário de volta nas suas caixinhas".

É claro que não se pode ver em ambos a fonte de todos os males, nem tão-pouco considerá-los uma desgraça e si.

O problema, portanto, está no papel que hoje inventaram ter e nas funções que se adonaram, bem representados, por exemplo, no modus operandi da "Lava Jato" e na frase de um dos ministros do STF: "iremos refundar a República!".

"Iremos" quem, cara-pálida?

Sem qualquer mandato e sem a menor atribuição para tal este dueto, crê-se ungido pela água batismal do Rio Jordão e insiste em desenhar um Estado e um Direito à la carte para diretamente resolver os desígnios político-eleitorais de um povo, como fruto do descrédito do Legislativo e da acefalia do Executivo pós-golpe.

Assim, se no Brasil houve o voto censitário, aberto, bipartidário, de cabresto, por procuração, por testemunha... agora há o "voto tabelado", aquele que depende da moral e da convicção de meia dúzia de cidadãos concursados ou togados, os quais acusam, desculpam, soltam e prendem em estrita observância ao seu gosto ideológico e, nesta época, ao calendário e às campanhas eleitorais.

E esta lógica que depende do apetite da dupla revolucionária tupiniquim avacalha o pleito e torna absolutamente anormal o já desgastado processo democrático brasileiro – e desta vez como nunca antes na história pós-ditadura, pois agora se vê manipulado o
 sistema representativo de democracia não apenas pelo processo econômico ("dinheiro"), mas também pelo processo judicial ("caneta"). 

Desde a sua cogitação, manifestei-me contra a tal da "ficha limpa", um dos braços-fins de atuação do consórcio travestido de bastião refundador da República, como se fosse um poder constituinte moderador.

Ora, a quem cabe definir quem pode ou não ser eleito, respeitando-se a ordem constitucional, é o povo soberano.

A ele cabe, nas urnas, vetar ou não alguém, e não um regramento judicial pouco objetivo e baseado em ações e decisões que funcionam na base da conveniência.

O que deve ficar claro é que não é a meninada do Ministério Público, tão-pouco os iluminados da Idade Média do Judiciário que devem definir quem pode ou não pode ser candidato, como se competentes para fazer uma "triagem" de quem a população pode gostar ou não.

Ao se tentar sopesar os princípios constitucionais, a diretriz da moralidade não pode sobrepor-se à soberania popular que, embora não-absoluta, não pode admitir restrições injustificáveis ao direito político fundamental de elegibilidade como a que fora estabelecida em tal lei 
 que, vejam só, nasce de iniciativa popular.

É ao povo que cabe errar e acertar, confiar ou duvidar, se animar ou se frustrar, nos limites que a lei imporá às propagandas e às verdades das candidaturas postas. E é a partir dessas escolhas feitas que o povo irá se iludir, se arrepender e se orgulhar. 


Se o povo quer eleger seus betos richas, seus platelmintos ou seus facínoras e caricaturas de adoração, ele tem todo esse direito, não sendo legítimo submeter o ato de eleger alguém às plumas e paetês de uma caneta jurisdicional lastreada em processos mal-acabados e inacabados  lembre-se que no Brasil "segunda instância" não significa "trânsito em julgado"  e que culmina na invasão de espaços de cidadania e, insista-se, na moralização do voto.

E cabe à sociedade, neste contexto, dedicar-se para que esta sua gente saiba os porquês das suas escolhas e as consequências delas, aprendendo com isso e reconhecendo a formação das suas visões de mundo e do processo ideológico que lhe dá sustentação e que carece de explicação. 

Afinal, lembremos com Chomsky: "a população em geral não sabe o que está acontecendo e nem sequer sabem que não sabe".

Logo, cabe a sociedade, por meio de um processo educacional amplo e transformador (v. aqui) e mediante um sistema de comunicação efetivamente público, tal qual prescreve a Constituição, ensinar e informar à população as relações de causa e consequência, a verdade de atos e fatos e os interesses e os prejuízos em jogo. 

Cabe dar os instrumentos necessários para que a população compreenda porque escolhe fulanos e não beltranos; cabe fazer refletir sobre como funcionam as coisas, sobre os donos do poder e sobre a luta de classes, o eterno motor da história.

E não restringir ainda mais o modelo representativo, na base de uma "pré-seleção" feita pelo Poder Judiciário que bloqueia a democracia em nome de uma construção pseudomoralizadora da política, como se possível fosse querer a perfeição ou encontrar em candidatos a quadratura do círculo.

Pior, ao lado da tal "ficha limpa" vê-se medidas espalhafatosas de um Ministério Público associado aos holofotes midiáticos, cujas ações são cronometricamente estabelecidas vis-à-vis ao processo eleitoral, mais uma vez judicializando-se a política. 

E por isso, tão importante quanto devolver o MP e o Judiciários para as suas respectivas caixas de atribuições e competências, é a necessidade de recrudescer e criar mecanismos efetivos de controle das suas ações fora-da-caixa, evitando que continuem a transitar num mundo marvel de superpoderes.

Uma das medidas mais notáveis estaria na modificação da composição, funções e razões de ser do Conselho Nacional de Justiça e do Conselho Nacional do Ministério Público, instituições criadas em 2004, mas que, apesar dos propósitos constitucionais ("controle da atuação administrativa e financeira" da respectiva instituição-poder e "cumprimento dos deveres funcionais" dos respectivos agentes políticos"), ainda não dispõem dos "dentes" necessários para fazer valer as suas existências, ainda amarradas no formalismo, no corporativismo e na atuação em pontos marginais das vidas ministerial e judicial.

Outras, como mandatos fixos para membros das cortes superiores, nova metodologia dos "quintos" constitucionais e alterações em aspectos das Leis Orgânicas da Magistratura e do Ministério Público, como relacionadas às sanções e ao ingresso de seus membros, são também bem-vindas.

Ademais, é por essas veredas que também se tem a ideia de transformação de um Direito que dialogue com a heresia e a utopia para a reconstrução de uma nova matriz prático-metodológica, de modo a não perpetuar a mediocridade sufocante encarnada nos "homens da lei".

E, com ela, o advento de uma nova cultura jurídica que aproxime a justiça da cidadania e da democracia.


Sem a degeneração moral e intelectual de magistrados (v. aqui) e promotores (v. aqui) que atuam medusicamente atraídos pelos holofotes da mídia e do poder, agora verdadeiramente conscientes e responsabilizados pelos seus papéis num ambiente limitado e sustentado pelo estado democrático de direito.

Sem as relações feudais que envolvem os grandes escritórios de advocacia e os membros do sistema judiciário, agora desmercantilizando o método e o resultado das ações judiciais.


Sem a ação e a produção interpretativa que se afasta do quadro e do espírito normativos, agora repotencializando os ideais impessoal e democrático dos marcos jurídicos.


Sem a deficiência conveniente do Poder Judiciário que se sustenta na lentidão de um processo medieval e na distância de um sistema nobilíssimo, agora reformando a prática e o palco de aplicação do Direito.


Sem os véus e salamaleques que registram a formação enciclopédica e escolástica de seus fidalgos em regra ignorantes, insensíveis, neutros como um sabão em pó e que vivem a léguas da conjuntura e da história nacional, agora revelando a realidade brasileira nos bancos das faculdades, pluralizando-as radicalmente, de modo a formar cabeças verdadeiramente conscientes e independentes.


Sem o oco dos imperativos constitucionais de papéis que criam sombras de direitos fundamentais e amarras heterogêneas de realização, agora reconstruindo alternativas ao Direito, com novos conceitos e atores (e movimentos) sociais capazes de produzir novas fontes para a própria libertação sob a perspectiva dos grandes e intocáveis conflitos nacionais.


A onipotência institucional, o estelionato corporativo, a picaretagem científica, a midiatização funcional e a insipidez e o distanciamento social são os grandes enfrentamentos perante os quais a comunidade política, para a reconstrução do Estado Democrático de Direito e a realização da Justiça, não pode tergiversar.


Portanto, além de transformar, é necessário trazer MP e Judiciário para as suas caixas republicanas e assim apagar seus males e fogos, nesta espécie de "sexto círculo" do Inferno dantesco no qual a nossa sociedade está a queimar, já que esta parece insistir na heresia de não reconhecer naquelas autoridades políticas a figura de deuses. 

Deuses, porém, que não sabem que fora da política e de uma democracia viva e emancipadora inexiste salvação civilizacional.

E luz.


P. S. Pandora, ao ver o erro que cometera e crendo que tudo estaria consumado, decide por reabrir a sua caixa para então perceber que no fundo dela havia, vejam só, a "esperança"... esta que seria um prolongamento do suplício, segundo Nietzsche, ou um hábito da alma bem-aventurada, como queria Santo Agostinho?


sexta-feira, 29 de junho de 2018

# um platelminto



Desde que no horizonte eleitoral de 2018 apareceu um candidato da ultradireita, neomedieval, fanfarrão, picareta, de rasa cognição e ululante despreparo chamado Jair Bolsonaro, digo: "senta que o bicho é manso!". 

Ainda que sob o risco de antecipar projeções políticas, futurologia estranha à ciência política, talvez com um certo exagero comparava as suas chances com a de um ornitorrinco de gravata e gestos histriônicos – e os argumentos eram vários

De cara, deveria ficar claro que ele não seria o esperado outsider, uma versão "doriana" que preencheu de sorrisos matinais as casas paulistas de 2016 ou do "homem laranja" daqueles sonhos yankees de dois anos atrás

Apenas a título de exemplo, senão no pensamento autoritário  que flerta com o antidemocrático, repudiando as instituições  e na postura boquirrota  repleta de frases feitas (e falsas)  as semelhanças entre Jair e Donald Trump são as mesmas que há entre um esqui e uma mexerica: enquanto Trump é o clássico forasteiro ("apolítico", magnata, showman bon vivant, articulado e com fama de "gestor"), Jair não passa de um ex-militar de patente rasa que há trinta anos vive na caverna parlamentar como um tosco e folclórico deputado. 

E mais: sem nenhuma articulação política (isolado num partido escurril), sem qualquer espaço no "mercado" (absolutamente estranho à filosofia dos valores da tal livre iniciativa), sem apoio popular de massa (está restrito a certos grupos fragmentados), seria praticamente impossível sustentar uma candidatura deste porte.

E, convenhamos, Jair não teria nas mãos um país do tamanho geopolítico dos EUA, gigante capaz de permitir que Trump faça praticamente o que bem quiser mundo afora, cujo radicalismo também em política externa acaba por vezes sendo engolido por outras nações.

E havia ainda outras tantas razões: a sua posição ali era apenas momentânea, enquanto interessasse para a direita tradicional tê-lo como o tal bode na sala; todo o barulho em torno do seu nome era virtual, criado do teclado de navegantes ou da massa de robôs da internet; a fundação moral brasileira não era historicamente tão desesperançada (e cretina) a ponto de  ter milhões interessados em entregar a nação para alguém com um perfil assim etc. 

Ademais, para além disso, nenhum dos "motivos" que iludiam o potencial de eleitores desta candidatura sobreviveriam com o início das campanhas e dos debates. 

Afinal, no curto prazo  isto é, além da instantaneidade das redes sociais  é avassalador o poder de autodestruição de Jair ao abrir a boca, de cujo órgão não saem ideias, mas apenas perdigotos cheio de ódio, pus e vírus de toda espécie. 

Ao se expor à luz, fora do seu habitat, em poucos minutos se revela que não a figura honesta que se autoproclamava, que não é alguém diferente no universo das práticas políticas, que não tem qualquer projeto real relacionado à violência e à segurança pública, que não tem qualquer proposta adulta em saúde e educação e que não tem qualquer noção da realidade brasileira, particularmente a socioeconômica e a administrativa. 

Depois, esta fragilidade é tamanha que em segundos a grande mídia pode destruí-lo, pondo a nu a sua falta de ética na atividade parlamentar, a sua espumante ignorância e o seu pleno desconhecimento de todos os assuntos de interesse nacional... tudo, obviamente, em prol do real candidato da direita que, muito em breve, iria aparecer. 

Logo, largado no asfalto, lhe sobraria de lastro eleitoral três pequenos grupos: (i) os órfãos do regime militar, representados pelos instintos odiosos e fascista da extrema direita e pela cognição binária das "pessoas de bem", (ii) os suicidários da República, um grupo cuja ideia é pôr uma bomba que exploda o país e ver "o circo pegar fogo" e (iii) o público mais ou menos jovial que mistura a frustração de uma vida vã com a curtição pela zoação com memes, zaps e gritos de "mito", que se conforta na futebolização da política e que se identifica com a estética pop do antipoliticamente correto, sob um viés torto de "estar transgredindo" – mas que talvez não perceba que boa parte desta onda que surfa e curte é ilegal, imoral e apenas engorda a cadela sempre no cio do fascismo. 

E isso tudo somado não daria 16% de votos.

Em suma, sempre vi no Jair um picareta do baixo clero, um ladrãozinho de galinha que vive à custa de desvios e mal-feitos no curso dos seus mandatos. Sempre vi neste sujeito uma aberração humana que mistura andanças com milicianos, poses mussolinianas e shows de baixaria explícita. Sempre vi nesta coisa a versão facebook de um Enéas fardado e desbarbado, com mais votos, menos cérebro e os mesmos quinze segundos de fama que, por todo o contexto, não o levariam a lugar algum.

Mas acontece que estamos em meados de julho (!) e o tal cavaleiro andante da direita real que levaria à glória, entre outros, os anseios do centro liberal  não apareceu.  

Ninguém do eixo PSDB-DEM-PMDB emplacou  uma vez que os efeitos do golpe estão marcados a ferro nas suas testas e projetos , nenhum outsider nasceu com vida e, como o tempo já está curto demais para se criar um "fato" que adie as eleições, em outubro a esquerda praticamente não veria concorrência nas urnas. 

Diante disso, qual seria a saída em desespero da direita, do consórcio formado pelos "lavajatinos" e pelo "mercado" (do campo, da cidade, das finanças e do exterior), carregados pela Globo e intermediados pelos 300 de Cunha (o centrão sem pudores do Congresso e da base aliada do governo) e que não empurraram o Brasil para o caos à toa?

Elementar, meus caros.

A pauta moralista dos primeiros e os grandes interesses dos demais parecem não ter (e nem procurar) outra saída senão se segurar no sujeito-estepe que restou  e que eles mesmos pariram , já que o ódio de classe e a agenda conservadora jamais lhes permitiriam seguir uma candidatura de centro-esquerda (embora aqui tivéssemos apresentado uma pequena fenda de possibilidade).

Nesta toada, a justiça de araque nascida da Lava Jato se manteria viva e dissimulada para, entre outros propósitos, promover a sua autoridade inatacável (e truculenta)  que transfere o direito, ciência da lei, para a moral, pauta dos homens  e os anseios corporativistas da sua gente, tutelando a agenda antirrepublicana do Judiciário (STF et caterva) e do Ministério Público.

Por sua vez, a massa amarela das passeatas em louvor a Moro (outro "mito") e à "luta-contra-um-tipo-de-corrupção" também engoliria a opção que restou, tanto de forma voluntária, como de modo entubado-lobotomizado, tudo em louvor e graça ao antipetismo.

O primeiro grupo iria com o orgulho antilulistaanticomunista antiesquerdista na veia, refletido em qualquer ser vivo com chance de enterrar aqueles que querem impor um bolchevismo tupiniquim e deixar a nossa bandeira vermelha.

O segundo grupo seria induzido pelo conto do cabresto moderno ou pelo canto medúsico da mídia, respectivamente sob duas forças.

Pelos 300 de Cunha  as mãos do dinheiro , que comodamente levariam o nome ungido para seus fiéis currais eleitorais interioranos, afinal, se trata de uma legião de mercenários transitando em partidos fisiológicos que desembarcaria em qualquer campanha conservadora que mais frutos rendesse  são as perspectivas do poder em jogo , sempre a misturar religião e benesses com a política de ocasião.

E, principalmente, por ela, as Organizações Globo  a voz do dinheiro , que tudo topa para manter seu monopólio, a qual promoveria país afora a "não campanha" mais acampada possível, assentada sobre um terreno sempre fértil aos históricos interesses que defende, fantasiando-se de "isenta" e abrindo caminho para o Minoasinus sair do seu labirinto e ocupar a cabeça dos "neutros" de plantão.

E o "mercado"? 

Ora, ele sempre só quer grana, é claro. 

E mais, nestes tempos de rentismo, refluxos sociais e recolonização, ele está ainda mais longe de qualquer apreço por democracia e de querer um Presidente real.

Ao contrário, quer alguém fraco, parvo e sabujo para pôr no bolso – e é este exatamente o caso, como se ao candidato dissesse: "dá-me a economia e dar-te-ei a glória".

E a glória viria a galope, na corrida quadrúpede de um cavalo a ser montado pelos cavaleiros de Chicago.

Ou seja, almeja-se concretizado o revival de uma versão pinochetiana de Estado.

Nele, permite-se ao capital financeiro e às grandes corporações (especialmente internacionais) darem incondicionalmente as cartas e livremente se ocuparem deste mix de massa falida com faroeste que se tornou o país, enquanto a "presidência" tutela costumes e comportamentos, sob pautas esdrúxulas e medievas.

Nele, submetem a nação a um longo pesadelo cuja realidade conjugará versões redivivas de fascismo e neoliberalismo, enterrando os propósitos de soberania, desenvolvimento e estado democrático de direito.

Portanto, a poucos meses do registro de candidaturas à Justiça Eleitoral e do início da propaganda eleitoral nas ruas e na internet, parece que do lado de lá somente resta uma peça no tabuleiro.

E esta peça poderá reunir ungulados, múmias, motosserras, coxas, crentes, cretinos, olavos, otários, imberbes, arianos, bandalhos, biltres, yankees, youtubers, tucanos-marinhos e todo o country club nacional, numa diabólica aliança para conjurar o campo progressista e o que nos resta de sanidade e democracia.

Eis o ponto a que chegamos, senhoras e senhores: estaria a esquerda disputando o destino do Brasil com um platelminto?

Bem, no creo en brujas, pero...


sexta-feira, 20 de abril de 2018

# milhões de palavras





Uma das imagens mais icônicas do golpe e do ambiente tirânico do sistema de justiça que desintegra o estado brasileiro e nos mantém atolados no abismo social.

Uma das imagens definitivas para ilustrar do que toda essa gente que deu corpo e asas ao processo de ruptura democrática é feita: vilania, soberba, desprezo e ignorância.

Trata-se de Leonardo Boff, senhoras e senhores, um dos cinco maiores brasileiros vivos (v. aqui), sentado com sua bengala à portaria da Polícia Federal em Curitiba, enquanto aguardava o aviso de uma beócia togada que iria proibi-lo de visitar seu amigo-irmão.

Que tristeza, minha gente.