sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

# catedral



O Rio é uma ilha cercada de botequins por todos os lados.

Sujos, limpos, clássicos, desbeiçados, rebeldes, frescos, com purpurina e lantejoula, com aura olímpica, com histórias medievais, com mensagens subliminares, com fedor grã-fino, da moda, démodé, de cerveja, de conhaque, de cachaças, de acepipes, de porções, de pratos feitos, de pratos fartos, de pratos babacas, no estilo clássico, carioca, caído, carnavalizado, art déco, art nouveau, habitados por artesãos de cais do porto, boêmios, bêbados, boçais, bossas-novas, biltres, burgueses, mendigos, bichas, damas, putas, piás, pivetes, velhos, velhacos, e a preços de banana, módicos, honestos, ultrajantes, sem-vergonha, salafrários, de todo o salário.

Enfim...

Amanhã, na companhia de uma plêiade (ou um cáfila) de bons amigos, com Edu Goldenberg no timão, estarei, depois de um longo jejum -- é a distância geográfica que tanto nos separa -- no melhor bar do Rio de Janeiro.

Ele, o "Cachambeer", no (outrora bucólico) bairro do Cachambi, nas cercanias de Del Castilho.

Não bastasse ter as maiores e melhores carnes de gente grande destes trópicos, e o chopp insistente e minuciosamente tirado do traseiro das focas que se espraiam pelos balcões, o dono, Marcelo, é uma das figuras potencialmente lendárias desta cidade.

Um lord de botequim, autêntico, num atendimento que te faz pensar estar na churrasqueira do lar ou no sítio do avô.

Na casa, nada falta, tudo farta e, mesmo que digam que a mistura toda enfarta, a travessia por línguas, porcos, cabritos, moelas, linguiças e bois no bafo é daquelas que poderiam durar vários transatlânticos.

A qualidade é tão brutal que até as repugnantes revistas e os famigerados jornalões por lá dão as caras, os prêmios e as notinhas -- contudo, a genuinidade do lugar não cedeu um só centímetro, um só grama de sabor se perdeu na arte daquela arena.

O ambiente, meus caros, é daqueles para se passar uma vida -- ou melhor, mesmo depois dela, nele continuar.

"Aqui, jaz um portentoso cliente", se escreveria no meu epitáfio, à porta do lugar, com as cinzas misturadas ao resto de guimbas, espumas e ossos de costelas que a cada fim de noite decoram a alma do grande bar.

Sim, ali é quase um pórtico que te conduz para um outro espaço, como uma fenda a te propor uma dimensão diversa daquilo que se cria pelas zonas suis do dia a dia.

Afinal, enche-nos de esperança ver que ali não se cede à babaquização geral de bares e restaurantes, daquilo que remete às coisas do tipo gourmet, no afã de "dialogarem" com pratos e cardápios e "harmonizarem" com drinks e bebidas, num festival de etiquetas, hábitos, poses e flashes que causam náuseas (v. aqui).

Comove, pois, nestes tempos em que tudo se força para ser descolado, todos se maquiam para serem genuínos e toda ação se reduz ao seu próprio fim, estar num lugar desses.

O Cachambeer, meus caros, é uma espécie de Arca de Noé.