terça-feira, 14 de abril de 2015

# a arte de conviver sem se curvar



O reencontro entre Cuba e EUA, afora reforçar o fato de que o Papa Francisco -- arquiteto moral da reunião -- caminha para ser o mais importante líder religioso da história moderna, revela que "diplomacia" pode muito bem conviver com "soberania".

Cuba, com a medida, dá sinceras mostras de que quer -- porque precisa -- avançar e se adaptar à realidade do mundo 3.0, aos poucos reconhecendo que os cinquenta anos que se passaram desde a revolução tiveram, nesta dinâmica global, o efeito de uma "era", cujo presente mostra um passado insustentável diante do cotidiano real e das necessidades virtuais dos seus mais ou menos jovens, que não querem só comida, diversão e arte (v. aqui).

A Ilha, pois, sabe que para sustentar o seu modelo de Estado precisa adequar-se à tese do revolucionário chinês Deng Xiaoping, na retomada pós-Mao: "não importa a cor do gato, desde que cace o rato". Todavia, diante da sua história de audácia, resistência e bravura, Cuba certamente não haverá de se curvar a ponto de anular os seus tão caros valores nacionais e humanos.

Os Estados Unidos -- ou seriam apenas os democratas? --, muitos anos depois de convenientemente aceitarem China e Vietnan, já não veem mais sentido em continuar a desrespeitar Cuba e a sua autodeterminação popular, já não veem mais a mínima lógica em inventar uma cortina que separa os maus barbudos e os bons yankees e já não veem mais como agradar a imensa população hispânica que preenche os seus Estados fora de Miami.

Além disso, já veem os bons dividendos mercantis que o vizinho caribenho poderá lhe trazer. 

Mas, o motivo dos motivos, temem que os russos novamente cheguem primeiro, haja vista a intermitente "guerra fria" entre Tio Sam e Tio Putin e que hoje perigosamente se reaviva.

Em suma, uniram o externamente agradável ao internamente útil.

Entretanto, devem agora finalmente reconhecer a excrescência que é manter o abusivo e indecente embargo econômico -- um "ato de guerra", confessou a ONU --, que vai para muito além da mera vedação ao comércio bilateral -- algo que, sinceramente, até não se contestaria --, na qual se excetua apenas uma pequena lista de itens agrícolas e farmacêuticos.

O problema do negócio é que, como se vê aqui e aqui, o embargo alcança indiretamente o mundo inteiro que comercializa com Cuba.

Ou seja, para os EUA a regra real desse embargo é: "se você fizer negócios com Cuba, não fará mais comigo".

Sim, funciona tipo birra de colégio.

Porém, a jurássica mídia, claro, não deixa ninguém refletir o assunto -- e, muito menos, pensar sobre alternativas institucionais, sobre como se constroem sistemas de saúde e educação com um PIB ridículo (v. aqui e aqui), sobre como se obtêm índices de violência em níveis escandinavos  e, claro, sobre o grande estrago que faz o tal embargo.

Na real, está mídia apenas dá a sua imutável e jocosa versão para insistir na caricatura do negócio, de modo a bem entreter o seu público e os seus interesses, que como chapeuzinhos azuis gritam pelas estradas afora do Brasil coisas como "Vá pra Cuba!" ou pedem socorro diante de uma invasão "bolivariana".

Enfim, em que pese a questão principal não ter sido resolvida -- a manutenção do embargo econômico, repita-se --, já se pode dizer que a Política venceu.

E as economias nacionais -- e, evidentemente, a economia mais fraca -- poderão aos poucos lograr os frutos deste arranjo.

Com os avanços que a abertura econômica e a livre comercialização global proporcionarão, o Estado cubano vai se permitir atualizar-se no tempo e no espaço, o que não significa abrir mãos de valores e de ideias (v. aqui).

Afinal, valores e ideias baseadas na dignidade humana e na igualdade social devem ser "atemporais" e "universais".

E, ao menos nisso, Cuba ainda é uma viva fonte de lições.