UM ESPAÇO LÍRICO-SIDERAL SOBRE TURFE, UTOPIA, LIVROS, LEIS, NÓS, MARX, FILMES, POEMAS, TORRONES, DRONES, DEUS, DESTILARIAS, EGO, GOLS, FAROESTE, FAZ-DE-CONTA, METAFÍSICA E A VIDA, COMO ELA É...
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
# vendem-se vidas (globalização e intervenção estatal no acesso a medicamentos: perspectivas itinerantes face às patentes da indústria farmacêutica)
terça-feira, 7 de outubro de 2008
# o presente da crise (ou, "relax, o estado te carrega!")
Do "The New York Times", Paul Krugman -- um liberal (!), por isso cito-o -- traz um conjunto de medidas para a solução da crise estadunidense e, dentre elas, está a reestatização, ainda que temporária, de bancos (e do sistema financeiro), nos moldes do que alguns países escandinavos fizeram no início dos anos 90. Ademais, sobre o pacotaço pré-natalino de 700 bilhões de dólares dado como ajuda aos bancos, aduz, in verbis, que "em essência, o dinheiro é do povo e do país. Se é para fazer uma intervenção, o povo tem que ganhar algo com isso. Ao dar dinheiro para instituições financeiras, deve sair com um pedaço delas. Ao colocar dinheiro, o governo deve tornar-se sócio. O governo não deve simplesmente comprar papéis ruins sem que os banqueiros sejam punidos. Deve assumir um pedaço. Tendo controle, capitalizando quem se meteu no buraco, aí deve vender parte dos papéis ruins, mas também parte dos bons. De outra forma, o povo assume a dívida e os incompetentes lavam as mãos com suas fortunas".
Na íntegra, leia o que escreveu o economista de Princeton em seus dois últimos artigos: "Edge of the Abyss" (aqui) e "Cash for Trash" (aqui).
domingo, 5 de outubro de 2008
# e assim caminha a "humanidade" (ii)
Enquanto isso, numa festa de casamento, entre idas e vindas ao bar, ao buffet e ao toilette...
09:12 pm. Primeiro interlocutor, segundo diálogo (ou, primeira conversa após os normais cumprimementos):
- Então, ganhando muito dinheiro?
Pensei em responder o que realmente penso sobre isso, sobre essa necessidade absurda da nossa sociedade em acumular para si, neste individualismo possessivo abjeto, na falta de cristianismo e de coletividade, na diuturna inquietação que tenho em ver poucos com tanto e tantos sem nada, no crime&pecado desse consumismo barato e desenfreado, nesta repugnância toda da peruagem, da luxuosidade e do exibicionismo etc. Porém, evito todo esse discurso – na certeza de que me acharia um grande babaca –, dou um sorriso dissimulado, um tapas às costas e saio. Vejo que ele me achou meio estranho...
10:57 pm. Segundo interlocutor, quarto diálogo (ou, três conversas depois...):
- Hein, mas daí, enchendo o c... de grana?
Olho o teto, conto até 3, um leve sorriso falaz, um leve tapa às costas e saí de novo, quieto. Ele foi outro que também não entendeu, meio que fechou a cara e olhou-me bem esquisito...
11:28 pm. Terceiro e Quarto interlocutores, após breves diálogos:
- Puta que pariu, é isso mesmo... – é o terceiro se dirigindo ao quarto –, trabalhar bastante, forrar o bolso e....
Interrompo-lhe, mostro-lhes meu copo de uísque vazio, dou um largo sorriso anojoso, sem tapas às costas e saio. Percebo uma reacionária indignação e quase me xingam pelo silêncio comprometedor. Sinto-me um et.
00:21 am. Quinto interlocutor, já no meio de uma vã conversa:
- Mas o negócio é esse: ganhar muita grana pra sossegar e curtir a vida!
- Claro! Eu quem diga! – e assim, enfim, decidi responder. E continuei:
- Sabe como é: advogado é assim mesmo, rola muita grana... por exemplo: no criminal a gente defende traficante, político picareta, gente corrupta e empresário desonesto, e pega uma grana preta para tudo isso, sempre em nome de algo nebuloso e conveniente chamado "ampla e justa defesa"... no tributário, você sabe, é um bando de empresa que não quer pagar e quer desviar imposto – já que, você deve concordar, o Estado é um ladrão que só quer tirar dinheiro da gente –, e isso a gente chama de "elisão fiscal" ou "planejamento fiscal", dando outra embolsada forte ... no trabalhista, pô, a gente tem que defender a empresa seja como for, até o fim, pra evitar que o trabalhador lazarento, que ingressa em juízo para tentar receber o que lhe é de direito, logre êxito, pois, sabe como é, a empresa paga quase tudo por fora, explora um monte e não paga, essas coisas.... no cível, como essa cambada de consumidores vive enchendo o saco das empresas que defendo, a gente consegue também ser muito bem remunerado, evitando que elas paguem essas tantas indenizações que seriam devidas àqueles que são lesados... enfim, é assim... não tenho do que reclamar... e já viu, por aí vai... e com o tempo a gente também consegue um tráfico intenso com o tribunal, com a magistratura, e então as coisas ficam mais "facilitadas", como dizem por aí... um tezão... Ah, e agora, como estou a exercer a advocacia pública, é melhor ainda – e dou uma piscadela sarcástica, para então concluir:
Ele me puxa, quer ouvir mais. Parecia ter ouvido uma das bachianas. Dá-me repetidos parabéns. Os seus olhos brilham e é só sorrisos. Acha-me o máximo. Porém, não lhe dou bola e saio, pois a pressa para ir ao banheiro é grande.
Preciso vomitar.
sábado, 4 de outubro de 2008
# quo vadis, huracán?
Em 26/10/2005, direto de Coimbra, premeditei a queda coxa, cujo trabalho de cabala mereceu no título a seguinte pergunta: “cai, cai balão?” (veja aqui, na sombra da mangueira imortal).
Hoje, porém, para nosso consolo, a realidade rubro-negra é (e será...) menos penosa, pois, diferente do que alguns dizem, "basta" vencermos os cinco jogos em casa -- contra Fluminense, Sport, Cruzeiro, Vitória e Flamengo -- para que continuemos na primeira divisão. Assim, o que vier fora de casa -- Inter, Botafogo e, em especial, os que serão possíveis de tomar dos co-desesperados Vasco, Figueirense e Náutico -- será lucro.
# o pretérito perfeito da crise
O malandro / Na dureza / Senta à mesa / Do café ---- Bebe um gole / De cachaça / Acha graça / E dá no pé
O usineiro / Nessa luta / Grita(ponte que partiu) ---- Não é idiota / Trunca a nota / Lesa o Banco / Do Brasil
Nosso banco / Tá cotado / No mercado/Exterior ---- Então taxa / A cachaça / A um preço / Assutador
Mas os ianques / E seus tanques / Têm bem mais / O que fazer ---- E proíbem / Os soldados / Aliados / De beber
A cachaça / Tá parada/Rejeitada / No barril ---- O alambique / Tem chilique / Contra o Banco / Do Brasil
O usineiro / Faz barulho / Com orgulho / De produtor ---- Mas a sua / Raiva cega / Descarrega / No carregador
Este chega / Pro galego / Nega arrego / Cobra mais ---- A cachaça / Tá de graça / Mas o frete / Como é que faz?
O galego / Tá apertado / Pro seu lado / Não tá bom ---- Então deixa / Congelada / A mesada / Do garçom
O garçom vê / Um malandro / Sai gritando / Pega ladrão ---- E o malandro / Autuado / É julgado e condenado culpado pela situação.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
# o bruxo
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
# aforismo
terça-feira, 30 de setembro de 2008
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
# una nueva banana republic?
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
# e assim caminha a "humanidade"
Enquanto isso, num jantar entre amigos, eis a resposta dada por um deles, quando usei o exemplo do presidente equatoriano -- o novo pirata, que exigiu grossa indenização da construtura brasileira Odebrecht, por uma grande cagada por ela feita, e que foi paga rapidinho e sem chiar... -- , para assim mostrar como o Estado pode (e deve) intervir na economia, nas organizações e nos assuntos legais nacionais, a atuar solto das amarras oligarcas e compromissado apenas com a eficiência estatal e o interesse público:
terça-feira, 23 de setembro de 2008
# as feras do saldanha
1. Rodericus Sautxuxa (Rodrigo Sautchuk) - guarda-redes iraniano, ágil e rápido, é um maluco-sem-beleza e uma espécie rara de "aranha negra".
2. Serginho Vaporub (Sergio M. Gonçalves) - ala-direita brasileiro, não desiste nunca, com ginga e sete pulmões é outro "filho do vento".
3. Oliva Itaipava (Luis F. de Oliveira) - zagueiro e lateral espanhol, performático nos bares e nas regatas, é o “kaiser".
4. Z. Iljitsch Samsa (Rodrigo Gava) - líbero e centro-médio uruguaio, com descendência tcheca e coração cubano, compositor, comunista e comandante de "coração valente".
5. Ricky Royce (Royce Oliveira) - zagueiro canadense naturalizado brasileiro, citius, fortius e sempre eficiente, é o "deus da raça".
6. Francisco Grizard (Luiz A. Grisard) - ala-esquerda mexicano radicado em San Francisco/EUA, exímio nas bolas paradas, tem uma "enciclopédia" no pé esquerdo.
7. Piotr Grabicoski (Pedro Márcio Grabicoski) - ponta-de-lança polonês, portentoso e pinípede, é um ás nos dribles e a "alegria do povo".
8. Wella Sandroski (Sandro de Godoy) - meia-armador polonês, tático, técnico e titânico, é o "príncipe" polaco.
9. Leonidas Rudi (Rudney Correa) - centroavante grego, aspira, matador e letal, tem uma "patada atômica".
10. Pavel Román (Paulo Leonardo Roman) - centroavante romeno, grão-artilheiro, mágico e que pára no ar, é "o possesso".
11. Guilherme Capanêltima (Guilherme Capanema) - meia-armador equatoriano, despacha, controla e arremata, é o “canhotinha de ouro”.
12. Haríate (Valmir Parisi) - único atleta alienígena, este guarda-redes e lateral de Eternia é o ídolo maior e o herói menor, uma muralha com as mãos ou com os pés, um “animal”.
13. M. Salamones (Marcelo Salomão) - lateral e zagueiro luso-brasileiro, um homem de confiança e de bastidores, como “ex-fio maravilha” é a lenda viva meuchapense.
14. Irräti de Camões (Roberto Cezar Pinto) - zagueiro islandês, poliglota e troglodita, furioso mas não veloz, traz nos pés “o divino” e em cada enxadada uma minhoca.
15. Juscelino DeNixon (Nixon Fiori). centro-médio camaronês, de nobre família anglo-brasileira, reina no meio-campo, com diplomacia e cadência, como um "major galopante".
16. Mestre Kisha (Alessandro Kishino) - ala e ponta-de-lança norte-coreano, com a força jedi e a habilidade samurai é quase sempre, dentro e fora do campo, o “furacão da copa”.
Técnico: Roger Donald (Rogerinho) - franco-brasileiro, alguns títulos e voz inconfundível, é o "velho lobo".
Vice-Presidente: Dr. Marcelo Salomão
# canto laudatório
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
# piratas
. O Presidente do Equador denunciou o contrato, avisou que não pagava mais um tusta, exigiu indenização e botou administradores da Odebrecht na cadeia.
. O Estadão, sempre na vanguarda do Golpe de “Estado de Direita” e, agora, adepto da ideologia do “Destino Manifesto” da elite branca brasileira, exigiu num editorial que o Governo Lula invadisse o Equador e depusesse esse malsinado esquerdista Rafael Correa.
. Mais esperta que os golpistas do “Estado de Direita”, a Odebrecht foi lá e fez um acordo.
domingo, 14 de setembro de 2008
sábado, 13 de setembro de 2008
# a lânguida decadência do feijão-preto
Há tempos tinha este sentimento, e hoje, atônito, percebo que realmente boiamos em uma temerária maré preconceituosa e movediça, ainda que jamais tenhamos nela mergulhado ou dela saído.
Já poderia admitir a globalização ou mesmo a irretroativa busca por uma elitização na sociedade em múltiplas e infinitas áreas; porém, hoje, ao abrir a geladeira para pegar a marmita amanhecida e verificar que ele não lá estava, foi muito, foi demais.
“Todos cederam!”, cá pensei, num grito triste. Indaguei-me acerca do que mais (e melhor) poderia acompanhar tomates, arroz, bife e batatas. Na real, quase lacrimosos, os meus olhos doíam ao enxergar no fundo do marmitex aquelas sementes marrons (ou brancas, como insistem em chamar a gastronomia) a substituir as boas e velhas pretinhas.
Com pesar, tenho ouvido amiúde idéias orientadas à fidelização do feijão-preto, de modo único e exclusivo, à feijoada; afora ela, em nada mais ele será permitido. Desconfio, já cabisbaixo, que essa verdade agasalha-se de uma realidade fática, pois noto que a massa não percebe essa alteração. Logo, dentre tantos outros episódios, irrefreáveis, que nos assolam e nos maculam, salta aos olhos o descaso com o nosso escurinho.
A mundialização da vida e da economia abriu espaço para tudo e para todos, permite o consumo das mais exóticas e inúteis coisas, colabora com a progressiva pesquisa cientifica na descoberta dos mais variados cruzamentos genéticos, mas, jamais, poderia permitir ou impassibilizar-se diante do triunfar de carioquinhas, fradinhos, rosinhas, manteigas, jalos, rajadinhos e roxinhos em detrimento do nosso feijão-preto. Ainda mais quando trocado por um branco! E mais: nem mesmo o indeciso feijão-mulatinho pode invocar, ainda que via o malfadado sistema de quotas, seu ingresso, seja alternativo ou substitutivo!
Por um lado, é passivo de entendimento que a comodista e egoísta elite -- que pensa ser aristocrática -- pretenda trocar estas e outras coisas quilombeiras, que nos remetem às raízes, por algo mais europeu, mais branco, mais azul; mas, esquecemo-la: o burguês de feijão-preto é algo tão incompatível como a madame de samba.
Assim, resignado, acredito numa épica busca pelo regresso do pretinho à classe média. E mais, em defesa da não-desfiguração do prato nacional, proclamo, urgente: "proletários de todo o Brasil, uni-vos!".
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
# salvador allende: 35 anos do mais triste 11/09

terça-feira, 9 de setembro de 2008
# evo (não) vê o lula
. Segundo últimas pesquisas, 64% dos brasileiros apóiam o Governo dele, inclusive os ricos.
. Lula está 17 pontos à frente do melhor momento do Governo do Farol de Alexandria.. Morales também é um campeão de popularidade na Bolívia.
. Morales não perde uma eleição.
. Lula também.
. Morales ganha todos os plebiscitos.
. Lula vai ganhar as eleições municipais de novembro.
. Morales não manda na Bolivia.
. Lula não manda no Brasil.
. Morales não manda no gás da Bolívia.
. Lula não vai mandar no Pré-Sal.
. Lula não vai ter peito para impedir que os amigos do Fernando Henrique explorem o pré-sal.
. Assim como Morales não manda em Tarija, a província que mais produz gás.. Os ricos da Bolívia não deixam Morales governar.
. Os ricos do Brasil acham o Governo Lula “ótimo ou bom”, mas não deixam ele governar.
. O PiG trabalha para derrubar o Morales e ele não tem mídia onde se defender.
. O PiG trabalha para derrubar o Lula e o Lula tem medo do PiG. . Lula não manda no Ministério das Comunicações – quem manda é a Globo.
. Lula não manda no BNDES – quem manda são o Carlos Jereissati e o Sergio Andrade.
. Lula não manda na Secretaria da Presidência. Quem manda é o Dirceu.
. Lula não manda no Ministério da Defesa. Quem manda é o Serra.
. Lula não manda no Congresso. Quem manda são os amigos do Daniel Dantas.
. Lula não manda no Bacen. Quem manda é um deputado do PSDB.
. Lula não manda na Anatel. Quem manda é o Daniel Dantas.
. Lula não manda na CVM – quem manda são os advogados de Dantas.
. Lula não tem “facilidades” no STF – quem tem é o Daniel Dantas.
. Lula não manda na ABIN. Quem manda é o Nelson Jobim, que degolou o ínclito Delegado Dr. Paulo Lacerda com "a fábula da máquina".
. Lula não manda na Polícia Federal. Quem manda é o Daniel Dantas.. Agora, tem uma diferença entre Morales e Lula: Evo Morales não tem medo.
segunda-feira, 28 de abril de 2008
# não leia, nem veja
Reproduzimos a seguir o que extraímos do site da Fundação Mario Soares, escrito pelo próprio ex-Presidente e ex-Primeiro Ministro português - um dos grandes líderes da Revolução dos Cravos que, em 1974, acabou com a ditadura, de inspiração fascista, comandada pelos militares e pela "direita" portuguesa -, e que data de 25 de fevereiro de 2008:
“Quem ler os jornais, cheios de faits divers e de escândalos e seguir as televisões, parece que o Brasil está à beira de um colapso. Casos de corrupção, de violência nas cadeias e nas favelas, insegurança generalizada. Ora, não é assim. O Brasil está hoje na maior, para usar uma expressão bem brasileira. A inflação é baixa e está totalmente controlada. O emprego tem subido espectacularmente. A pobreza extrema diminuiu sensivelmente. O Brasil pagou as suas dívidas externas e dispensou os auxílios do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional. O real tem uma cotação próxima do dólar. As exportações aumentaram 162 bilhões de dólares nos últimos 12 meses (o maior valor histórico). As reservas internacionais subiram a 162,9 bilhões nos últimos doze meses. Os investimentos externos no Brasil crescem há 14 trimestres consecutivos. Não quero maçar os leitores com os números. Direi tão só que a qualidade de vida dos brasileiros tem vindo a aumentar significativamente. Há um aumento de renda que permite aos mais pobres comprarem frigoríficos, máquinas de lavar, televisões, etc. A agricultura cresceu. Os programas "bolsa de família" e "luz para todos" têm sido um êxito reconhecido. E os brasileiros estão francamente otimistas, quanto ao futuro, como revelou uma sondagem muito completa divulgada, quando eu estava no Brasil. Lula aparece no auge da sua popularidade. Como dizem os brasileiros, com uma expressão característica: "o Brasil está a dar certo"! Não é só um "país emergente". Tornou-se, realmente, numa grande potência. O que representa um enorme orgulho para Portugal e um parceiro insubstituível. Longe vão os tempos em que, com Stefan Zweig, se escrevia: "Brasil, país de futuro". Hoje é uma incontornável realidade!”
sábado, 26 de abril de 2008
# mafalda (ou, sobre a mente de um coxa)
Evangelino era um garoto estranho. Estranho, branquelo e, meio corcunda, tinha um certo ar de "vovô".
Dava tudo por um saiote xadrez, daqueles escoceses chamado "kilt", pois queria impressionar a turma da Mafalda, a mais bela turma de garotas da escola e que achava o máximo aquele gosto, que fazia lembrar os grandes heróis e guerreiros celtas e tido como marca registrada da turma do Caveira, formado por uma rapaziada mais moderna e despachada.
Evangelino era também frustrado, pois sabia que na casa onde morava, as meninas jamais o visitariam, pois, além de velha e apoucada, o odor que dela saía era bastante desagradável, levando ele mesmo a duvidar se sua casa merecia o nome de pocilga...
Uma bela tarde, Mafalda e suas turmas reuníam-se para mais uma tarde de agitação na casa de Caveira quando encontraram Evangelino e o convidaram, com um certo ar de sarcasmo, para ir junto.
Sem titubear, o garoto branquelo aceitou o convite e imaginou: "Puxa, hoje vai ser uma tarde daquelas".
E, de ônibus, lá foram todos a caminho da melhor casa da cidade. Ainda que isolado das moças, o êxtase de Evangelino era tamanho que os pêlos arrepiados faziam despontar ainda mais o branco de suas coxas – e, claro, não poderia ser diferente, haja vista a desproporção de realidades mundanas existente entre ele e a turma do Caveira, da qual, pelo menos por algumas horas, ele poderia agora ver diminuída.
Chegando lá, ainda isolado e sem perspectiva de conseguir fazer parte da turma, Evangelino passeia e se deslumbra com o que vê em volta, pois a modernidade e a excelência de tudo que vinha daquele lugar e daquela turma era indescritível.
Refeito do impacto, vê ao longe a doce Mafalda e, trazendo consigo a força dos antepassados que outrora mandavam na cidade, arrisca e dela se aproxima Mafalda, pois a mesma parecia triste com o fato de ter sido ignorada por Caveira.
Sim, já há algum tempo Caveira desprezava-a, pois passou a ter os olhos voltados apenas para Raquel, um outro tipo de mulher, mais adulta, mais cosmopolita e que vivia Brasil afora, bem diferente do ar caseiro e regional – ou "jacu", segundo Huracán, amigo de Caveira – de Mafalda.
Papo cá e lá, enquanto quase toda a Casa só falava na Raquel, ficava visível que Mafalda era uma ciúme só. Achava que não merecia ser tão desprezada. Achava que não era tão pior que Raquel. Achava que toda aquela Casa tinha que lhe prestigiar. Achava que Evangelino era a pessoa certa, no lugar certo.
Mas, como não poderia fazer nada dentro da casa de Caveira, sai e vai até o portão com Evangelino, vira-se e, de repente, beija-o.
"Ele conseguiu catá-la!", brada Huracán, expiando-os pela janela. Todos riem, e acham aquilo tudo bastante caricatural. Menos Mafalda, que achou pouca graça naquilo tudo, e vai embora, no primeiro táxi que passa. Evangelino, por sua vez, tenta voltar para a Casa de Caveira, mas a turma toda despacha-o e diz: "Nos vemos por aí, mas por ora é melhor voltar para a sua pocilga...".
E assim, a pé, Evangelino quase não acredita na tarde que teve. Lembra dos aposentos da Casa de Caveira, dos banheiros, das salas, da cozinha, das comidas, da limpeza, enfim, fica deslumbrado com tudo o que viu e, por pouco tempo, viveu. Mas, infelizmente, sabe que aquela não é a sua realidade, ainda que, ao que parece, tenha conseguido voltar a viver no meio daquela gente grande, pois o Caveira lembrou que o veria "por aí" – "... mas por quanto tempo será?", pensa Evangelino.
Sozinho, já no ônibus, teme a volta à sua vida, vivida numa casa engraçada, velha e mal cheirosa.
Porém, se socorre nas lembranças que tem de Mafalda ("Ah, a Mafalda...", suspira) e fica a pensar como fará para conseguir comprar o seu "kilt"...
quinta-feira, 24 de abril de 2008
# querem invadir o paraguay?
– diante dos conservadores e da direita que comanda o segundo país mais pobre da América do Sul há mais de 60 anos – e nas declarações do seu novo presidente, Fernando Lugo, o qual afirmou a urgente necessidade de serem revistas algumas cláusulas do contrato da Itaipu.
segunda-feira, 21 de abril de 2008
# la porca miseria
quarta-feira, 5 de março de 2008
# ricos & mendazes: dedicatórias e agradecimentos
Já a aproveitar este especial dia em que o meu maestro soberano faz 60 anos, convém reproduzir aqui a "dedicatória" e os "agradecimentos" que justa e inesquecivelmente ilustram as páginas inaugurais da obra "Ricos & Mendazes", tese de mestrado recém-lançada pela clássica Editora Almedina e escrita por Rodrigo Gava, (almost ghost) writer deste sideral espaço virtual (compre aqui):
DEDICATÓRIAS
fdsfds "Para Odemir Gava, meu companheiro, meu irmão, meu mentor e, mais do que tudo isso, meu grande herói, cuja magna lição de vida – como pai e como homem – diariamente me inspira;
fdsfds para Leyla, iluminada e amiga mãe, cujo eterno amor (e zelo, e dedicação) será capaz de sempre me trilhar pelos atalhos da felicidade e da bela vida;
fdsfds para Ana Maria, mulher amada, estrela derradeira e minha amiga e companheira, que, fazendo-nos resistir ao desespero e à solidão, tem, de tudo, o meu maior amor atento antes;
fdsfds para Giovana, grande irmã e parceirinha cem por cento, e para Juliana, Alessandra e Gabriela, irmãs e afilhada também amáveis, todas sempre juntas sabendo unir a ação ao sentimento, em carinho, alegria e comprometimento;
fdsfds e, para Luís, meu avô, com quem o destino não me permitiu compartilhar dos mesmos vagões desta vida, mas que certamente faz guardar o esperado encontro para a estação final dessa minha viagem."
fdsfds e, também,
fdsfds agradeço à augusta FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA (FDUC), seio de mentes brilhantes e em cujo testamento reside a indelével contribuição para a formação da história e do pensamento jurídico brasileiro, pela oportunidade e pela estrutura proporcionadas no decorrer do Curso e da Investigação, como, também, pelo excelso acolhimento oferecido nesses dezoito meses, interregno no qual as suas dependências serviram-me como um verdadeiro lar;
fdsfds agradeço, de modo singular, ao Professor Catedrático Doutor Manuel Carlos Lopes Porto, uma grande pessoa, pela sapiência jus-econômica com que me orientou, me instigou e me animou nas aulas e nas conversas, pela cordial maneira com que sempre me atendeu neste trabalho – cuja idiossincrasia elegantemente ressalvava – e, ainda, pela complacência em permitir parte do desenvolvimento desta tese em minha terra, uma terra em desenvolvimento;
fdsfds agradeço, em especial, ao Professor Catedrático Doutor António Avelãs Nunes, por ter muito acreditado neste trabalho e em sua publicação e, mormente, pelas brilhantes, críticas e sociais lições de economia política, de globalização e mercado, nas quais sempre mostra a urgente necessidade de ser construído um novo e admirável mundo; também, agradeço ao Professor Doutor Fernando Borges de Araújo, o qual também fez parte do Júri das minhas provas de Mestrado, pelas construtivas críticas e pontuais arguições, as quais se consolidaram como indiscutíveis fontes para a minha reflexão;
fdsfds agradeço, muito, às várias pessoas que contribuíram de alguma forma para a idealização deste trabalho, dentre as quais relevo, da minha ora extendida família, André, Vó Angelina, Tia Dete, Pe. Gabriel, Tio Luizinho, Márcio, Pastor, Tati e tantos outros, pela amizade, o apoio e os muitos gestos e pensamentos positivos; assim como agradeço a alguns dos tantos professores que tive, principalmente aqueles (i) da “Escola de Coimbra”, sobretudo o Prof. Cated. Dr. Diogo Leite de Campos (pelas sábias e precisas reflexões jurídicas e, especialmente, da vida) e o Prof. Dr. Jorge Leite (pelas grandes aulas de um sempre social direito laboral), e, de forma genérica, (ii) do “Colégio Marista Santa Maria”, núcleo da minha primitiva formação humano-acadêmica; e, ainda, ao Prof. Dr. Renato Flôres, da Fundação Getúlio Vargas, pela importante consulta prestada, em um momento chave da elaboração desta dissertação; e, como também não poderia deixar de ser, também sou bastante grato a alguns dos grandes amigos, da nova e velha guardas, que acompanharam – de perto ou de longe – estes escritos, entre eles Bernardo, Daniel, Filipe, Guida, Guilherme, Julian, Lanfredi, Cavali e Samy (a malta de Coimbra), e Chico, Cris, Dayan, Gerson, Jeco, Mauro, Nego, Neto, Raphael e Zappa (a turma de Curitiba), pela dedicada parceria, pelas boas e estranhas idéias e, maiormente, pelas tantas horas de boêmia e discussão mundanal;
fdsfds agradeço, enfim, às diversas obras literárias, cinematográficas e musicais, ora representadas em Kafka, Drummond, Pessoa, Dostoievski, Hitchcock, Buñuel, Vinícius, Chico, Tom, Bach, Tchaikovsky... por terem se apresentado como providenciais acompanhantes neste meu voluntário exílio e, principalmente, por terem sido oportunos escapes, abstrações e inspirações nos momentos de cotidiana angústia e de aridez cerebral;
fdsfds e, neste presente momento, agradeço à EDITORA ALMEDINA, locus das máximas obras da ciências jurídicas portuguesas, que, ao dar crédito a esta tese, permitiu que o abstrato e eremítico tempo de reflexões e estudos no velho mundo fosse, agora, eternamente materializado e publicizado."
# o voo do bigode
Odemir Gava, meu pai, é um homem de muitos causos.
Sempre saca da manga alguma história pitoresca sobre figuras dos tantos rincões do Brasil por onde viaja.
E, invariavelmente, ele mesmo é um destes personagens.
Hoje, no seu aniversário de 60 anos e para o qual preparamos um grande furdunço na Casa, quero contar uma destas histórias e da qual fiz parte.
Como o maior companheiro de sempre, é notória a presença dele na minha vida, em tudo.
É, em especial, bem conhecida a participação do meu pai na minha vida esportiva da juventude, tanto no futebol de salão, como, em especial, no basquete.
Ia a todos os jogos, frequentava treinos, às vezes viajava junto, era amigo de meus treinadores e companheiros, cobrava dedicação e desempenho, conhecia os adversários.
E conhecia os árbitros, claro.
Sendo assim, embora jamais tivesse tido intimidade com a "bola laranja", sabia muito bem o que rolava dentro e fora das quadras.
Estávamos em 1993, semifinal do Campeonato Estadual juvenil de basquete: Santa Mônica, o famoso clube da capital que à época montava grandes times de basquete e cuja base era a (minha) equipe do Colégio Santa Maria, contra Maringá.
Era uma "melhor de 3", com um jogo no interior e os dois jogos seguintes em Curitiba, por termos a melhor campanha.
No jogo da ida, num sábado à noite, com o Ginásio Chico Neto lotado, vencemos.
Jogamos bem, fui o cestinha ("às favas, a modéstia") e lembro bem de um grande parceiro, Vinícius Bollauf, que também arrebentou com o jogo.
O jogo da volta foi marcado para o Ginásio do CEFET -- o Santa Mônica não tinha um ginásio próprio e éramos ciganos pelas quadras curitibanas --, ali na Silva Jardim, numa noite fria de quinta-feira.
Tudo indicava uma nova vitória.
Meu pai, claro estava lá: saído do trabalho, de calça, camisa e sapatos sociais -- sapatos, diga-se, que sempre são com taco na sola, nunca borracha: "sapatos bailantes", ele sempre enfatiza).
Antes do jogo, na preleção, o nosso grande treinador Fernando Sanches deu o alerta: um dos árbitros escalados para o jogo era uma conhecida e cretina figura do interior do Estado e que a vida toda tentou nos foder.
O jogo começa.
E tudo começa a melar.
O tal árbitro segurava o apito nos nossos ataques e deixava-o frouxo nos ataques da equipe de Maringá.
A torcida começava a se irritar.
Para nós nada era falta; para eles, tudo.
Contra mim, em particular, era vale-tudo.
Roubo e sacanagem explícitas.
E a irritação aumentava.
Terminamos o primeiro tempo atrás no placar e eu com 3 faltas e meia dúzia de pontos.
Na volta do intervalo, de cara o árbitro apita outra falta minha.
Mais uma e eu estaria eliminado do jogo.
Sento no banco.
E a irritação aumentava cada vez mais.
O clima era terrível.
Perdíamos o jogo e o assalto continuava.
Faltando metade do segundo tempo, retorno à quadra e no ataque seguinte ele apita minha "falta de ataque".
Estou fora!
Foi o estopim.
Meu pai todo piuchado, de modo tresloucado, salta da arquibancada.
Na verdade, ele voa: a altura entre ela e a quadra é de uns de 3 metros.
Ao aterrissar, desequilibra-se por conta dos sapatos (e da altura, claro), torce o pé, sai mancando à caça do árbitro, dá-lhe um direto no queixo e parte pra cima com pontapés aleatórios.
Começa a confusão.
As comissões técnicas e jogadores se digladiam, árbitros e mesa saem para o vestiário, surge a turma do "deixa disso" e os dois PMs que faziam a "segurança" do jogo enfim entram em quadra para dar um basta.
Meu pai é gloriosamente levado para fora do ginásio, aplaudido pela torcida.
Eu e mais três jogadores somos expulsos -- coincidentemente, dois jogadores do banco do Maringá... -- e o jogo reinicia.
Nós acabamos perdendo e a arbitragem pede escolta policial para sair.
No carro a caminho de casa, meu pai é mudo.
Suspenso, não pude jogar o jogo decisivo, no sábado.
E perdemos de novo.
No sacrossanto churrasco de domingo, meu pai enfim rompe o silêncio para repetir a sua icônica frase:
- "Que situação..."