quarta-feira, 2 de outubro de 2019

# lava de chumbo



Esses dias deparei-me com um texto escrito por Osho.

Não o conhecia, até me parecer que, sem desprezar o "valor" das suas técnicas meditativas, seria outro destes gurus que volte e meia surge, no seu caso sob uma seita que parecia juntar coaching, neopentecostalismo hippie, crossfit tântrico e Jim Jones.

Bem, o tal texto  e é disso que quero tratar  falava de solidão, de solitude e do singular espaço e momento a sós.

Descobri este tal "vazio" vagando pela Europa, no meu particular camino santiagués, em profundos setenta e tal dias a rodar de mochila da Ibéria às profundezas do Leste, da Escandinávia aos confins do Adriático, com o centro do "velho mundo" como eixo e a busca do meu "novo centro" como meta.

E nele uma verdade: diante das dificuldades de "ser", são nestas situações que nos pervertermos para abrir os olhos e então conseguir ser, e (se) ver, e (se) enxergar, e (se) reparar, e se (re)encontrar. 

Peregrino, senti ultrapassar os limites da "solitude".

Lá, uma solidão sem fim abria espaço para tudo e, perigosa, levava à torrente intensa de ideias, teses, dogmas e sentimentos que faziam aprofundar ainda mais num espaço sem fim.

Intocável, vagueava até tatear numa realidade cada vez mais clara, num cheiro cego de quem ali só escutava o buraco meio misantropo de línguas que vinham a toda hora diferentes: o húngaro do diabo, o polonês da wodka, o neerlandês da fumaça, o barato do tcheco, o embrulho do croata, o grito da sicília e o sueco de um mundo que um dia há de vir – e que assim seja, amém.

Sê!, advertia-me a todo instante.

E deixava-me notar algo de muito errado no ar.

Ar rarefeito, sublinhe-se.

E que aspirado por quem não era, trazia o arrebatador efeito de compreender que a ordem das nossas coisas merece um novo arranjo.

Merecia a desordem para ser reconstruída à imagem e à semelhança de tudo o que é mais justo neste nonsense mar que permanece dividido, diluído, negro, morto.

Afinal, antes da solidão, enquanto ainda se está apenas sozinho, embrulhamo-nos num estômago de inquietações que nos fazemos sentir sem mentir, a permitir levar-se adiante como se aquilo tudo não fosse conosco, e como se dissimular para todo o exército que se forma diante do espelho fosse a resoluta salvação.

Não, não resolve.

Não, você não consegue não se ver.

E mais.

As emas que em volta emanam e borbulham aos borbotões, reclusas com suas cabeças mergulhadas em seus umbigos ou outros planetas, não te podem convencer de que a ótica é outra, de que o-seu-ponto-de-vista-não-tem-a-vista-verídica e de que as viscosas e grossas vistas de quem finge não querer ver compõem o melhor remédio da terra.

E então, naquele infindo tempo de isolação, você simplesmente percebe que lá atrás dele e de todas as sete cores daquela turva imensidão está, a um palmo do nariz, o pote dourado de colírio.

Mas, sem calma nesta hora: não se permita o mínimo resfôlego, pois o leão não é manso.

É que a sina solitária finge-se para não se mostrar que ali se está só no princípio, e neles outros verbos em outras conjugações.

Sempre, sempre no começo, a te levar só para eternos recomeços que te fazem sempre querer voltar ao zero, à vala vazia, àquela avara estaca do status quo ante, ao estado que te mantém no falso estado que te alivia para te alienar na pureza da inércia, do cômodo, do morno engodo vomitado pelas letras cartesianas da lei, da moral e dos bons costumes que por toda a vida te desencaminharam.

Esta é a promessa, esta é a jura da existência.

E por isso o privilégio por encontrar a gota d´água da cola mágica que sempre prometeram jamais existir.

Sim, sozinho e na poética da solidão, se descobre melhor o mundo que se há de viver a dois, a seis, em conjunto, em sociedade, coletivamente.

De dentro para fora, meu mundo em construção, como um álbum de figurinhas que de criança quase desisti: custoso, incerto, demorado e difícil, mas que completei e que para sempre ficará comigo guardado.

Como ficarão, espero, as lições aprendidas daquela minha silenciosa peregrinação.

Todas bem emaranhadas, apreendidas no labirinto da alma.



quarta-feira, 12 de junho de 2019

# orgulho e ilusão

Ana Maria, eu, Ben Gava, Simas, Flávia, Edu, Ben Simas e Candinha: pra deixar de padecer

Esta foto publicada hoje pelo Edu Goldenberg é daquelas coisas que provocam uma catarse sentimental.

Era junho de 2014. 

Era junho de Copa do Mundo.

Era junho de abertura da Copa do Mundo no Brasil.

E ali naqueles nossos olhos ainda se via certo orgulho e ilusão.

O orgulho do país, ainda iludidos por alguma coisa que se podia chamar de democracia, por uma sociedade que parecia acreditar no progresso e por toda uma frente política que prometia enfrentar (sem sair muito do lugar) os nossos históricos obstáculos.

O orgulho de usar um verde e amarelo, ainda iludidos por uma coesão nacional de faz-de-conta, pela falsa ideia de nação soberana e pela frágil união em torno da constitucional harmonia social como valor fundante

O orgulho de um futebol brasileiro, ainda iludidos pela paixão da bola que cegava uma crescente ofensiva a imperativos culturais, sociais e políticos de maior importância.

Dali a pouco tempoporque por aqui talvez nunca possa mesmo dar certo, tudo começaria a desmoronar.

Pelo pouco que fez e acertou, um governo foi derrubado por um golpe jurídico-parlamentar,  apoiado por um barulhento séquito de amarelos lobotomizados da cabeça aos pés.

Pelo pouco de nacionalismo que havia, a lógica fácil contada por memes, pastores e tevês e a perversidade de instituições republicanas destruíram as nossas perspectivas de dar um passo a mais, de dar um grande salto para a nossa miserabilidade política e social.

E pelo pouco do pouco que restava, nosso futebol sucumbiu à tragédia do oba-oba, ao fracasso de uma era em que a imagem é tudo e, fundamentalmente, ao descaso à sua razão de ser como uma das maiores expressões da cultura popular.

Os anos foram assim.

E apagou aquela ilusão que tínhamos de tantos amigos e parentes que guardavam dentro de si e nos armários da alma toda a sorte de delírios, ódios, pestes, câncer, pneumonia, raiva, rubéola, tuberculose, anemia, rancor, cisticercose, caxumba, recalque e difteria.

E apagou aquela ilusão de um país vivo, pulsando potência em frenéticos arroubos de felicidade do presente e consciência do porvir, com suficiente coragem para impedir raptos fratricidas de um delinquente político qualquer.

E apagou aquela ilusão de que vivíamos sob uma sociedade democrática, repleta de homens cordiais e cheios de harmonia, todos conduzidos pelas ideias iluministas de liberdade, igualdade e fraternidade. 

Ilusões da vida, ilusões da história das quais fingíamos um tipo estranho de orgulho, diante das quais relutávamos em acordar.

O Brasil, naquele distante junho de 2014, parece assim ter dado um grande e último suspiro para o que adviria.

E cruzamos a ponte para o abismo, como se no timão do barco estivesse Caronte a conduzir um povo inteiro até o desembarque em algum círculo do inferno.

Desde então, a partir dos estádios da Copa e das orlas das nossas copacabanas, expôs-se as vísceras de um país marcado pelas cortinas fechadas do passado, que trancafia a mãe preta das periferias e que passou a cantar hinos em louvor a um mito feito de barro, pus e fel.

Desde então não se avança, não se pula, não se dança e nem se dá muito o direito a sonhar aqueles sonhos de uma utopia a ser construída. 

Desde então pautas sodomitas, operações bandidas, propostas de araque e agentes infaustos provocam-nos vertigens típicas de uma sociedade perdida, repleta de ignorância, indiferença e ódio a provocar pesadelos diários sobre nossos destinos.

Desde então destroçamo-nos em uma terra zumbi abandonada sob os restos de algo tipo capitalismo, um território triste e tétrico onde se misturam práticas do velho-oeste com circunstâncias de Mad Max, no qual grande parcela da população perambula selvagemente em busca de "pão, paz e terra", fazendo as suas revoluções particulares vinte e quatro horas por dia que nunca termina.

O Brasil, neste junho de 2019, parece assim estar prostrado e continuamente chamuscado por algum dragão do apocalipse, com sua gente intestinal e incontrolavelmente acreditando nos contos platinados e zapeados em que mocinhos redentores da pátria surgem para pôr um basta em-tudo-que-está-aí, a repetir frases sem sentido, ideias desconexas e conclusões estapafúrdias à revelia do óbvio e da realidade.

Enfim, eis o retrato, eis o tempo que passa e que vem à memória desde o tão longe junho de 2014.

E senão a luta em chama que não se apaga, daquele Brasil da foto não resta praticamente nada.

Mas, mesmo agora, no mais sombrio dos mundos, o que importa é que daquela foto restam a amizades que construímos aqui neste Rio de Janeiro.

E, principalmente, daquela foto resta o brilho dos olhos incendiários dos dois Benjamins, que agora se juntam aos de Santiago e Leonel para nos encher de luz e amor diante do caos.

Afinal, é desta perspectiva que vem a resistência e a esperança de um Brasil.



terça-feira, 12 de março de 2019

# um balanço no ninho



Neste fim de semana fui à casa do meu passado onde moram meus pais.

E é sempre inevitável voltar no tempo cada vez que adentro meu antigo quarto.

Ele foi minha casamata, minha alcova, meu quartel onde me trancafiava, onde afiava os meus dentes e onde pensava ser o general do mundo.

No meu covil, ora, tinha a certeza de quem era o centro do universo.

Hoje, entro e vejo que está quase tudo ali, em especial aquilo tudo que nem as marcas do tempo apagam, como se enraizado nas entranhas reais ou ficcionais daquele cômodo.

Por dentro das portas dos armários, vestígios de alguém que por ali navegava, impreciso, num turbilhão de tantas fases e sob os seus mais indômitos devaneios.

De um lado, ideias talhadas na madeira escura que dali insistem em não fugir, embora da memória já pouco se tenha.

Sobrepostos, descontinuados e rarefeitos, são escritos que iam e vinham a cada descoberta, a cada frustração, a cada lágrima, a cada arrombo de alegria.

Do outro, cromos repetidos de álbuns incompletos e que eram colados como metáfora do abandono.

Noto que aquilo, naquela época infanto-juvenil, era como as relações que se apresentam hoje: as pessoas vão colando figurinhas e enchendo páginas e páginas festivas de uma vida virtual. 

Até que chegam aquelas mais difíceis...

E aí se deixa o álbum meio de lado e, simplesmente, parte-se para outro.

E assim vão se construindo afetos e contatos, cujo fim é o descarte na moldura fria de um canto do móvel – ou do facebook.

Entre os armários, agora já não há mais a minha cama e o seu baú embutido. Sequestrei-a. Carreguei-a comigo. Pintei-a.

E hoje compõe o quarto dos meus filhos, reduto onde depositarão, dormindo ou não, todos os seus sonhos da vida.

Pelas estantes, bem ao fundo ainda se vê o saldo da alma de coisas dos últimos anos do resto daquela minha vida  inclusive uma bandeira de mesa do meu amor de antes, de hoje e de sempre e que veste vermelho e preto.

Pelas paredes, ainda fulgura lânguidos rastros da cor de um ambiente que insisti em entintar de tinto, mas que já há algum tempo dá lugar à soma de todas as cores – como eu, a soma de tudo o que vivi.

Nos vidros da veneziana, a rebeldia emancipatória de quem imaginava, nos gestos de colar adesivos de marcas e de brados adolescentes, estar hasteando o pendão da ultraliberdade e transgredindo toda a ordem do lar.

Independência ou morte!, era o que se imaginava na cabeça do dono daquele principado de cuja varanda se lançaria para dominar o mundo.

E sobre a imbuia maciça da escrivaninha vejo sobrar as marcas, os riscos e os rabiscos de químicas e paixões, de contas e planos.

Soçobra uma época em que se imaginava amar a cada lindas tranças e a cada olhos de "cigana oblíqua e dissimulada" que fitava.

Sobeja um tempo em que se estudava para passar de ano e não para aprender, período gravado sob já apagadas fórmulas colegiais a revelar um jovem homem que calculava, mas que ainda só platonicamente pensava.

Diante de toda esta arqueologia, volto-me para tentar enxergar o que eu seria se não fosse aquilo tudo ali.

Para então ter a mais absoluta das certezas: não foi "aquilo tudo ali" o que me fez – e nem tão-pouco tinha na vida seca daquelas coisas a grande joia da minha coroa.

Sou, sim, fruto maleável do que sempre esteve do lado de fora daquele quarto, vivamente presente em todos os outros ambientes daquela casa, lado a lado, dia a dia, até me casar.

É dos meus pais e das minhas três irmãs que tenho a maior e mais importante memória do que me tornei.

E são neles onde sempre esteve a minha maior riqueza.




segunda-feira, 4 de março de 2019

# maestros, cavalos, deuses e hinchas



Quando o Club Athletico Paranaense entrar em campo hoje, na nova velha Baixada, pela Copa Libertadores da Américarecomeçará outra batalha da guerra que representa disputar o maior campeonato de futebol do planeta.

Sim, meus amigos, a peleja de logo mais será outra amostra da saga por esta Taça, que se soergue como máximo culto ao velho e rude esporte bretão.


É aqui, pela nuestra América, onde o futebol é jogado na sua essência, na sua pureza, onde maestros, corvos, deuses e hinchas desfilam juntos em epopeias dantescas: aqui é o "Inferno", meus senhores.

Aqui é onde cada esquadra vagueia conduzida por seus carontes nos reinos das sombras sul-americanas. 

Mas, atentem, o que se carrega não são reles almas mortas.

São jogadores.

São heróis, vilões, guerreiros, ídolos, múmias e até amargas ínguas na escura travessia dos mais de nove círculos em busca do céu libertador.

Ora, não me venham com a realeza das arenas belgas climatizadas.

Nem as pompas dos gramados de pastagem de vacas premiadas holandesas.

Nem as elegantes lantejoulas dos uniformes demi-sec franceses.

Nem a seda dos tronos imperiais das tribunas inglesas.

Nem o brilho comportamental dos torcedores alemães e seus canecos de vidro encervejados.

E nem toda aquela fascinação medúsica provocada pelo escrete barcelonês ou liverpooliano.

Não, meus amigos, não. 

Este nosso jogo é incapaz de ter a beleza pornográfica de todos aqueles espetáculos europeus, de ter a fleuma civilizatória do bom selvagem do velho mundo e de ter o bolo bilionário de tantos euros.

Ela tem, diria Vinícius e batucaria Baden, "qualquer coisa" além da beleza. 

Ela tem qualquer coisa de triste, que chora, que sente em cada carrinho e em cada cotovelada a saudade da Casa.


Afinal, nesta Copa tudo extraterritorial é terra inimiga, quase sem-lei, proibida para menores e tratada com tarja preta. 

E mais.

Ela tem uma beleza que, embora bata na tristeza de um molejo de amor sangrado da sobrancelha aberta e machucada, transborda em uma alegria sublime, incompatível a qualquer outra de padrão europeu. 

Aqui, meus caros, sofre-se profundamente pelas mais depauperados escretes, rasga-se e morde-se pelo mais irraciocinado dos amores.


E se chora, e se grita, e se late, e se morre, se arrebenta e se abrem as veias sulamericanas para que tudo acabe em um deleite que não se entope, que não se explica.

Porque não tentem convencer chilenos, uruguaios ou argentinos do contrário.

Ora, todos sabem que as suas cores representam uma paixão única, daquelas feitas apenas para amar e para ao final sofrer de um eterno amor. 

Como aqui, com o coração rubro-negro que confirmará, luta a luta, a alma em frangalhos de um sofrimento inacabado em infinitos noventa minutos. 

Senhores, a Copa Libertadores da América é assim: feita de paixão, feita de sangue, suor, socos e lágrimas, como em nenhum outro canto desportivo da Terra.

E hoje nada mais importa neste Reino de Bolívar, Artigas San Martín senão estar no caldeirão, em nossa trincheira, empurrando nosso time à mais outra grande vitória.

Saravá!


terça-feira, 29 de janeiro de 2019

# só resta uma certeza



A tragédia da morte é sempre trágica porque é uma tragédia.

Cristão talvez fajuto, não consigo imaginar uma morte sequer que não se qualifique como trágica.

Não consigo, pois, deixar de encarar o fato como um ato de foice a ceifar a vida – e nele, neste fatídico fato, foi-se a seiva elaborada da vida.

É lógico que o inesperado, o acaso, o infortúnio, o funesto da morte abrupta espanta e tonteia.

Mas como admitir uma hierarquia entre o desespero do acidente fatal, a angústia da contínua e crescente perda e a extrema dor da última despedida, como assim pungia um de meus maiores amigos cuja querida mãe velava nesta quinta-feira?

Logo, a mim o que enlouquece é a loucura de que aquela pessoa – "de repente, não mais que de repente", poetizaria Vinícius – não estará mais contigo, não estará mais ali, junto, ao lado, ao longe, ao muito longe, enfim, fisicamente presente podendo ser abraçada, tocada, beijada, vista e ouvida a qualquer momento, numa visita ou num telefone qualquer.

Custa-me muito querer entender tudo isso – e olha que não faltam conversas, reflexões, aulas e exemplos dos mais variados tipos, formas e gostos acerca desta ideia, como aqui  aqui já tratei.

Já pensei, vejam só, que o ideal seria nascermos com esta certeza: prazo de validade tatuado na bochecha.

E assim, como velas, íamos aos poucos apagando, apagando, apagando... mas logo penso no caos prático disto, afora, claro, toda a filosofia religiosa que se propõe a garantir um sentido disso tudo aqui e que, então, passaria a não ter significado e valor algum.

Portanto confesso ainda não aceitar o fato de ser "a única certeza da vida". 
Nem a desculpa sobre a tal "ordem natural das coisas" é capaz de sensibilizar-me quando o caso envolve os nossos velhos. Tão-pouco a tese do "destino divino" me conforta para as excepcionais situações.

Insisto, assim, em ser pragmático num assunto que nunca se encaixará no pragmatismo.

É, portanto, um problema de estrutura e método, e ao mesmo tempo de especulação do ser, cuja associação não consigo compreender, tal qual nas cartesianas "meditações metafísicas".

Ou, então, ideia assente nos pontos de vista da "vontade" e da "representação", nos quais Schopenhauer pretendia defender a tese da indestrutibilidade da nossa essência. 


Para o filósofo alemão, a preocupação com tão breve espaço de tempo – com este "intermezzo momentâneo", com esta “mediação de um sonho efêmero de vida” –  e com este apego à vida é irracional e cega.

Eu, porém, insisto em não admitir porque não me imagino aceitando, como num passe de lógica, nunca mais viver com as pessoas que tanto amamos, as quais, num qualquer segundo seguinte, se vão como um "sopro", diria Oscar.

Calma, lá nos céus da vida eterna haverá o definitivo (re)encontro... não, não, a minha fé, ainda que hesitante, assegura a vida eterna – a Vida –, mas não que vou ter com as pessoas amadas, viventes comigo aqui na efemeridade deste plano.

Até, quem sabe, realmente trate-se de ser mais ou menos espiritualizado, mais ou menos teológico, católico e cristão.

Mas, para além, também se trata de não aguentar não se acabar em prantos para o fato de que todas essas pessoas que tão íntima e intensamente convivemos passarão a não mais existir.

Ora, ora, por que então amamos tanto e tanto estes seres que nasceram e viveram conosco?

É por isso que às vezes gostaria mesmo de ter nascido filho de chocadeira.

Para depois viver no eterno celibato de um monge ermitão.


Sozinho, como uma vela.



terça-feira, 30 de outubro de 2018

# eu, eu mesmo e os outros



Tenho e sempre tive amigos e familiares dos mais variados espectros políticos  e, por conta do meu habitat e da minha criação e formação, a ampla maioria é meio liberal, meio reacionária, ou seja, situada a minha direita, como assim se convencionou denominar os conservadores de plantão.

E sempre encarei isso com muita naturalidade, pois visões de mundo dentro de quadrantes políticos não poderiam superar a sincera troca de afetos e a busca pelo aprimoramento das relações pessoais e sociais, posto que o lugar político e o paradigma existencial que nos orientavam era sempre o mesmo: a democracia e a dignidade da pessoa humana.

Ocorre que este 2018 trouxe um tsunami que arrancou a fantasia político-ideológica e os adereços "do bem" de muita gente.

E assim desnudou a real essência de muitos que, afinal de contas, nunca quiseram saber de política, de debater política, de defender e de compreender a política. 

Estes, na real, revelaram-se gostar de ideias, práticas e sujeitos que estão fora dos quadrantes da política, por uma razão bastante simples: toda a arquitetura do fascismo nega e está fora da política.

Não por outro motivo, o que a candidatura vitoriosa sempre ofereceu foi à revelia do diálogo, da razão, da fraternidade, da igualdade, da liberdade, do pluralismo e da harmonia social.

E em momento algum o que diz, o que pensa e o que promete se concilia com democracia e com nossos supremos valores constitucionais.

Pelo contrário, sempre encarnou fundamentos não civilizatórios, quase medievais e bastante autoritários, alicerçados em pontos bastante relevantes e onipresentes da sua campanha e da sua existência, cercado de outros seres tão esdrúxulos, toscos, obtusos e picaretas quanto ele.

Este indivíduo, da linha hominídeo despreza qualquer luz de democracia: não se importa com "as regras do jogo", nega a legitimidade de oponentes político, delira com a violência e a restrição das liberdades e ignora a diferença, a diversidade e as pautas humanitárias em geral.

Junte-se a este conjunto a mais absoluta incompetência, a total falta de noção de gestão pública, o flagrante desconhecimento da realidade brasileira, o culto à paranoia do inimigo público, a insensibilidade às classes mais vulneráveis e às minorias e... voilàtudo está flagrante no ser e no viver de Jair, esta figura que, lembrou o filósofo Vladimir Safatle, parece se inspirar naqueles líderes autoritários invariavelmente representados como uma mistura de militar com barbeiro de província (v. aqui).

Mas, evidentemente, da grande "pizza" que representa os eleitores do candidato eleito tenho em meus laços familiares e de amizade tipos em diversas fatias.

Vejo nelas o voto do orgulho fascista, mas também há o voto do ódio antipetista e o voto da ordem militarista, os quais representam a maior parte da fôrma e que me merecem desprezo e desrespeito, por todos os argumentos e razões que neste e em vários espaços mais ou menos virtuais já discorri: em resumo, não se trata de política, são escolhas pré-iluministas, conceitos pré-modernos e desejos civis, sociais e morais a mim repulsivos.

Claro que, em pedaços muito menores  pelo "lugar social" que ocupo , há o voto da fé neopentecostal, o voto da ignorante desinformação e o voto esquizofrênico contra-tudo-que-está-aí, mas confesso que estes me causam culpa, remorso e uma certa aflição, cujos sentimentos exigem ainda mais conversa, atenção e participação de nossa parte.

Entretanto, nesta pizza também tem uma considerável fatia sem a cobertura escancarada destes sabores, mas com a borda recheada: é a daqueles que votaram nulo.

E se aquelas primeiras pessoas, que já há algum tempo insistem em propagar, apoiar e confirmar uma candidatura cheia de raiva, rubéola, tuberculose, anemia, espuma, armas e mentiras, são pessoas por mim esquecidas e de cuja companhia dispensei, agora não esquecerei as pessoas que, num sopro de pseudoplenitude, julgaram-se acima do bem e do mal para lavar as mãos, como se aceitando indiferente o grito desvairado da ruas: "Crucifica-o! Crucifica-o!".

E atenção: como sempre na história, fascistas não chegam ao poder porque a maioria da população era fascista. Na verdade, chegam ao poder porque muitas pessoas bastante razoáveis e moderadas se abstiveram, se calaram e fizeram vista grossa da tragédia que adviria.

Por falta de coragem, por falta de vontade ou por excesso de irracionalidade  nascido do horror psíquico a um partido político , estas pessoas, com o seu não-voto, são corresponsáveis pela eleição de Jair, o Platelminto (v. aqui).

Omissas, aceitaram que um psicopata, um dos mais abjetos incompetentes "políticos" da história deste país fosse eleito.

Intransigentes, arrogantes e soberbas, não quiseram enxergar o movimento vivo que saltava e se balançava a um palmo dos seus narizes, crendo, ao contrário, num fantasma e se alimentando por uma falsa imagem da realidade, capaz de fazê-las compreender um Brasil entre dois "extremos".

Cegas como as personagens da fábula máxima de José Saramago e no silêncio de uma hipocrisia sórdida que acredita na "neutralidade" diante do caos, foram covardes e inconsequentes na anulação do seu voto e no simbolismo do seu discurso.

Estas pessoas, infelizmente, ajudaram a sustentar (e a repetir) um grave erro da nossa história, que atropelará nossos valores constitucionais, carcomerá nossos direitos e garantias, destruirá nossas instituições e tingirá com tinta sombria nosso futuro, flertando na roleta-russa do "pagar para ver" o quanto de verdade haverá na quantidade de falsas promessas que Jair há trinta anos faz.

Fingindo isenção, admitiram as trevas de um arquétipo de governo: inventado, armado, enjambrado, sem propostas concretas, sem programas sociais e sem lógica democrática, tudo num "barata voa" digno de esquetes humorísticos.

Fingindo eximição, admitiram um modelo infausto de sociedade, baseado na precariedade, na violência oficial e objeto da conjugação pinochetiana de neoliberalismo com militarismo.

Fingindo sublimação, admitiram viver no medo de um Estado moralizador e no fio da navalha do obscurantismo regido pelos interesses prostibulares de uma gente perigosamente medíocre e enfaticamente lunática.

Fingindo esperança, admitiram ver o caos institucional e o colapso econômico no qual mergulharemos, sem ordem e sem progresso, sem ações e sem dinheiro, sem programas e sem negócios.

E, francamente, calaram-se diante do colapso, produzindo uma "autoverdade" que despreza não apenas os fatos e a razão, mas o próprio óbvio ululante, simulando assim um ar de normalidade, sem perceber estarem entorpecidas por um blend de ódio e delírio (v. aqui) que colocou no poder um "capitão de milícias" cheio de memórias nauseabundas. 

Tristemente, não conseguiram compreender os riscos deste modelo, as ameaças deste governo e a intensidade da tragédia social que está em jogo, ousando ver com descaso os seus efeitos ou como mero falastrão o seu líder, não enxergando que o dito cujo é uma besta que vende falso moralismo para se alimentar de reais mamatas e mutretas. 

E aceitaram tudo isso, com recalque e à revelia do que foi exposto amiúde nas últimas semanas – inclusive por mim, em conversas, em cartas e em mensagens, sem nunca oferecerem a racionalidade como argumento e a realidade como premissa.

Temos, ao cabo, que o resultado disso é complexo fruto de uma sociedade doente e distópica, incapaz de não ver a diferença entre dois mundos, entre duas eras, entre dois tempos históricos.

Seja na ação delirante do voto em Jair, seja na omissão em ladainha do voto nulo, veem um lado ser contra a tortura, a barbárie, o preconceito, a repressão e o autoritarismo e querem comparar com um outro lado que estimula estes desvalores, a afrontar direitos e garantias fundamentais, previstas em qualquer carta mais ou menos universal de direitos humanos.

Esquecem, assim, que a ruptura democrática e a perversão social não são obras de um estúpido qualquer.

São, na verdade, obras de legitimação desta sua estupidez.

E se a história do Brasil será implacável com a escolha feita por estas pessoas, e se a s suas histórias, cedo ou tarde, as acusarão de cúmplices da tragédia protofascista que mergulhará o país em trevas totais, eu demorarei para superar a decepção e a traição delas às nossas histórias em particular.

Ora, de que servem aqueles abraços, aqueles brindes, aqueles porres e aqueles tantos gestos e momentos de afeto se, do lado de fora, diante do outro, os valores, a vontade e a verdade são outros?


É uma pena, enfim, ignorarem que sob tal visão fatiada de sociedade o "outro" seja uma mera circunstância.


Até porque, como outrora disse Bertolt Brecht, importar-se apenas quando nos convém costuma ser tarde demais.




terça-feira, 23 de outubro de 2018

# se isto é uma sociedade



No livro "Ravensbrück - a história do campo de concentração nazista para mulheres" ("If this a woman", no original, cujo nome tem fonte na clássica obra de Primo Levi, "Se questo è un uomo", na qual descreve suas experiências em Auschwitz), entre outras revelações, apresenta-se a grande estratégia de sobrevivência daquelas mulheres confinadas e marcadas para morrer: fecharem-se ao que estava em volta e, buscando refúgio no círculo meio mágico que criavam entre elas, assim poderem viver.

E entre si, como se pudessem esquecer a tragédia e a barbárie que se passava do lado de fora daquele cotidiano insuportável, tornavam-se capazes de conversar, lembrar, sorrir e amar.

E entre elas, imersas numa realidade de dor, medo e angústia, poderiam ao menos juntas compartilhar todo o sofrimento e terror daquela situação.

Sei bem que há léguas a nos separar, mas nestes dias em que estive em Curitiba, minha terra natal, o dia a dia foi cercado e concentrado assim, entre os meus.

Com meus pais, minhas irmãs, minhas sobrinhas e alguns queridos amigos que comungam da mesma visão de mundo, que partilham dos mesmos valores e que percebem – com os olhos que esta terra haverá de comer – o rumo trágico das coisas, tive instantes de conversas, afetos e abraços que dão o conforto e ajudam a compreender o que está a se passar com a nossa sociedade. 

Doente, débil, bestial, raivoso e irracional, o mundo lá fora passa a ser inóspito para quem insiste em não querer ler a nossa realidade como a bula de cereal matinal ou não querer ver nossas soluções sociais estampadas em para-choques de caminhão.

Em Curitiba, militância à parte, estar agarrado aos meus era como não ouvir os gritos tresloucados desta gente amarelada, as frases enlatadas de bobos da corte, os preconceitos pré-iluministas de jegues de carga, os discursos da plataforma bélica e medieval de um verme alado e, claro, a ladainha nula e lamentável de quem acredita ser crível reinar de cócoras sobre o muro das isenções, como se fosse difícil escolher entre a luz e as trevas.

Com eles e ao lado da minha mulher e dos meus filhos, conseguia não sentir o gosto ou o cheiro do ódio, da vingança, da infâmia, da hipocrisia, da vilania, do fascismo e das cavernas onde há milhares de anos tacapes e grunhidos reinavam como modo de viver.

Entre nós, até tocávamos nas veias e feridas abertas da nossa sociedade em cujo tecido social floresce a indigência ética e cognitiva de tantos dos nossos pares que infelizmente atravessaram a margem civilizacional, mas o toque se fazia sempre com raciocínio e argumentos dignos de um debate racional, social e plural.

Ali, vejam só, pude cantar, jantar, rezar, brindar, abraçar, chorar e fazer juras de amor à uma vida que fora dali parece que trilhará sobre a plataforma de um navio pirata em direção ao alto-mar.

E não sei nadar, não sei cozinhar, não sei cerzir, não sei fazer tantas outras coisas que o destino talvez me obrigue a saber.

Mas, ao menos durante estes poucos dias, também pude deixar de saber que, por ser um "vermelho", era considerado um inimigo cujo fim é ser objeto da faxina mais-que-perfeita que visará ao meu abate – ou, na melhor das hipóteses, ao meu abate cívico, pátrio e moral. 

Ali, naquelas tantas horas de olhos nos olhos com cada um deles, a melancolia dava espaço a esperança e o tanto de ternura não fazia esquecer da necessidade de endurecer a cada dia e em cada circunstância.

Afinal, não é possível naturalizar este nosso estado de coisas tal qual muitos estão a fazer, admitindo um caminho sórdido sob a falsa compreensão de estar em cima de um muro, como se pairando equidistante a dois extremos – é mentira, uma ilusão de isenção e neutralidade cujo preço será caro demais para aceitar tal omissão.

Na beira do abismo onde o Brasil se encontra, há agora dois movimentos a serem feitos.

Ou recuamos para reconstruir esta sociedade desgraçada pela desigualdade, pela recessão e pela violência, sob os valores do iluminismo, os ares da modernidade e as pautas de uma agenda civilizatória.

Ou então daremos mais alguns passos que, pasmem, nos arremessarão para um nada admirável mundo novo, a reproduzir algo "tipo sociedade" que ousará misturar Idade Média com Whatsapp, que reunirá um comportamento selvagem com ideias zoófitas e que nos afundará num poço sem fim de cada vez mais desigualdade, mais recessão e mais violência.

Não sei se ainda há tempo.

Mas sei que volto para o Rio com muitas saudades daquele meu campo  e com a expectativa de não precisar dele para sobreviver.



terça-feira, 9 de outubro de 2018

# o voto e o caminho



Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.
"Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago (Epígrafe).


No segundo turno das eleições presidenciais de 2018 – o ano que nunca acaba –, o Brasil estará frente a frente com um dilema.

E não se trata de um dilema político.

A encruzilhada em que nos metemos coloca-nos em outro plano de discussão.

Estamos, assim, frente a dois caminhos que nos levam a discutir duas eras históricas: civilização ou barbárie (v. aqui).

Por isso, não se trata da escolha de um partido, de um modelo econômico ou de uma saga ideológica ou guerra anticorrupção.

Por isso não se está a falar simplesmente de ganhar uma eleição, nem tão-pouco significa a vitória de um fulano ou de um grupo político, posto que seus resultados transcendem um quadriênio e superam qualquer nome ou cor faccionária.

Na verdade, a escolha significa a vitória de cada um de nós que deseja viver num país real, sério, gigante e plural, num país que respire o ar da democracia, da razão, das liberdades sexual, política e de fé, das ciências e das culturas.

Significa a vitória de cada um dos nossos filhos e netas que ainda não sabem o que tudo isso significa, mas que certamente não irão gostar de crescer em um país marcado pela oficialização de práticas fascistas, pela falta de alternativas, pelo medo do autoritarismo, pelo preconceito ao negro e ao nordestino, pela banalização da desigualdade, pelo desprezo ao pobre e à mulher, pela violência ao diferente e pela intransigência ao pensamento alternativo.

Significa a vitória de todos nós que formamos uma sociedade regida pelo estado democrático de direito, idealizada por uma constituição cidadã e social e calcada nos princípios da  liberdade religiosa, da liberdade econômica, da liberdade cultural e da liberdade cívica.

Significa a vitória de um Brasil como o maior Estado-nação latino-americano, como uma  potência energética surreal, como um modelo mundial de construção soberana com dimensões continentais e plurais.

Significa a vitória do ser humano contra o obscurantismo, contra a intolerância e contra as bravatas pré-iluministas e totalitárias que tanto de sangue já tingiram o planeta.

Claro que, como em todo canto do mundo, um pequeno grupo é fascista – é natural e até humano, demasiadamente humano

Mas é uma minoria, quero crer nisso.

Hoje, se 33% das pessoas aptas a votar deram seu sufrágio ao psicopata Jair, é porque uma considerável parcela ainda não despertou e está amarrada à seus laços sociais ou a seus líderes religiosos ou submersa na avalanche de mentiras e notícias falsas que impedem de sair da catarse de uma rede telefônica que não dá espaço à reflexão e nem ao diálogo, sendo engolida na base de memes e pequenos vídeos, num flagrante regresso comunicacional, dignos dos grunhidos e dos litóglifos das cavernas.

Assim, nestas três semanas de debates, entrevistas e propagandas eleitorais, quero crer que a maioria do povo brasileiro – e aqui já incluo, além dos não fascistas, aqueles que no primeiro turno votaram em opções do campo democrático de outra matriz – irá reencontrar a verdade, fora da selvageria insana que mistura choque com caos e que não dá espaço para o pensamento.

Nestas três semanas restantes, a maioria do eleitores verá, quero ajudar a crer, que não há nenhuma alternativa fora da argumentação política, da civilidade e das ideias para o desenvolvimento nacional.

A maioria dos nossos cidadãos verá, quero ajudar a crer, que a candidatura do Jair, de fio a pavio, nada oferece e não dá nenhuma solução para a brutal crise econômica brasileira.

Cada um, como se revigorados de uma cegueira branca, poderá enxergar que Jair e sua gente não apresentam nenhuma resposta para os vários desafios nas áreas da educação, da saúde, do emprego, da segurança, da moradia, dos transportes, da energia, do meio ambiente, enfim, em tantas áreas que exigem a máxima atenção do Estado.

Bala, fim das cotas e servir como quintal dos EUA não são soluções para uma nação tão imensa e complexa como a brasileira.

Cadeiaescola sem partido e privatizar tudo não são propostas dignas e viáveis para um país que há poucos anos atrás chegou a ser a 5ª maior economia do mundo.

Fim do comunismocartilha antigay e perguntar tudo a um posto de gasolina não são plataformas sérias para um candidato a Presidente da República em pleno séc. XXI.

Enfim, chegamos a uma daquelas reconhecidas como "hora-chave" da história de uma nação.

O Brasil está a 21 dias de optar por qual caminho seguirá, uma escolha que terá reflexos por muitas e muitas décadas.

Nós, povo brasileiro, iremos escolher o futuro de uma sociedade moderna, plural e civilizada, sob o cotidiano da racionalidade e da fraternidade, e livre para tentar ter seus próprios anseios de prosperidade e felicidade, em cuja trajetória se apresentam múltiplas alternativas democráticas.

Ou escolher o passado de um Estado medieval, fechado e bárbaro, sob o império do terror e preso às pautas morais e às soluções fáceis que nunca resolveram nada e nem funcionaram em nenhum lugar do planeta, a consistir em uma via sem alternativas e alimentada somente pela repressão e pelo choque.

Portanto, aperte o nariz, mas não puxe a descarga para empurrar um mar de brasileiros pelo ralo da sociedade. 

Retraia os olhos e franza a teste, mas não ignore as importantes pautas que o séc. XXI nos exige, ligadas ao trabalho, às mulheres, à ralé, aos imigrantes, aos índios, ao meio ambiente e, principalmente, à desigualdade social.

Proteste, mas não permita que o país siga num rumo sem alternativas sérias e sem propostas concretas, à revelia do mundo moderno.

É a hora de cada um compreender o que está em jogo, ouvir os argumentos e conhecer as consequências.

O Brasil está tendo a incrível chance de escolher um voto, um caminho pela paz, pela liberdade, pelo progresso e pela democracia, contra a sociopatia de um lunático picareta.

Para isso precisamos colocar a mão na consciência e dizer um não rotundo ao ódio e a um país-beco sem saída.

Um não que apenas o nulo não irá resolver.

Acredite: apesar de tudo, será imprescindível apertar o 13.

Caso contrário, é à nossa História que você irá prestar contas. 

Afinal, você aceitou a vitória de um dos piores seres humanos que a humanidade já viu.