terça-feira, 17 de dezembro de 2013

# um conto sem fadas


Era uma vez um campeonato de futebol na Ilha de Vera Cruz.  

Sendo o futebol o esporte nº 1 do lugar, o torneio, mesmo com a fama de desorganizado e cheio de cambalacho, era disputadíssimo e comovia toda a Ilha.

O dinheiro envolvido era enorme e, logo, os interesses eram muitos.

Neste ano, porém, teve uma uma equipe, o Cruzado, que jogou muito mais que todas as outras e por isso não demorou muito para se sagrar campeã.

Porém, havia muitas outras coisas em disputa.

E nada causava tanto alvoroço do que a disputa para ver qual equipe seria a última rebaixada para a segundona do campeonato insular, ao lado do Vasko da Gema, Makaka e Nautibus.

E eis que chega o derradeiro fim de semana do campeonato.

Pelo fato de, em tese, ter duas equipes que não tinham mais interesses em jogo, marcou-se a partida entre ambas para sábado e as demais foram para o domingo.

Assim, no sábado, Mullambus contra Cruzado tinha tudo para ser um amistoso, pois o primeiro abrira 4 pontos da "zona da morte" e parecia que não teria risco de cair, enquanto o segundo já era o campeão da Ilha de Vera Cruz. 

Partida modorrenta, sem compromisso, e ao final o placar de 1 x 1.

Mas o que parecia insosso adquiriu ares de dramático com uma constatação ao fim do jogo: por absoluta incompetência da desestruturada direção do Mullambus, um dos seus jogadores acabou sendo escalado irregularmente.

Punição? Perda de 3 pontos, além dos pontos ganhos na partida – 1 (um), no caso –, num total de 4 pontos.

Ou seja, a depender dos resultados dos jogos do domingo, esta perda de 4 pontos levaria o Mullambus à inédita segunda divisão.

Clima tenso.

Clima financeiramente tenso, pois em jogo estariam os multimilionários interesses do showbizz, dos sponsors e, em especial, da Rainha Vênus Platinada.

Afinal, como aceitar que o time com a maior torcida – leia-se, mais audiência, mais anúncios e, logo, mais grana – da ilha fosse rebaixado?

O que fazer? O que não fazer? O que fazer? O que não fazer? Era o zum-zum-zum do ambiente...

“Fazemo-lo, amada Mestre!” – propõe alguém, ardida de ódio.

“É, armemos alguma coisa, pois só torcer não vai adiantar, será muito arriscado!” – outra pessoa, também ardida, vaticina.

“Hey!! Liguemos para a turma da Lusitânia!” – as ardidas, junto, sugerem como mágica.

Ora, Lusitânia era uma equipe pequenina, esquecida por tudo e todos, simpatizada por minguados torcedores, sem qualquer apelo midiático, sempre com campanhas pífias nos torneios nacionais e que, mais uma vez, estava lá no bloco de baixo. 

“Sim, se ela também perder 4 pontos quem cai é ela, e não nós!”, exclamam.

Portanto, Lusitânia parecia ser a isca perfeita... e, por um arranjo do destino, ela jogaria amanhã, num cenário que já poderia ser bem preparado.

“Ora, vão ver isso! E cortem-lhe a cabeça!”, exclama a Rainha, dando o veredicto.

E com os baús entupidos de moedas de ouro, lá foram os representantes mullambus atrás dos representantes lusitânios.

Chegam até a sede da Lusitânia e, para espanto delas, quem lá encontram? 

Sim, eles, os folclóricos representantes de um rival regional, da tribo tricolor Flordelince.

“O que fazem aqui?”, o mullambu, surpreso, indaga.

“Ah, pelo visto o mesmo que vocês...”, sentencia o dirigente da equipe de três cores, com cara de quem já rondava por ali há dias.

Bem, o Flordelince, coitado, estava em situação ainda pior que o Mullambus.

Praticamente rebaixado, ainda jogaria no domingo e só um milagre por debaixo dos panos, como de praxe, parecia fazê-lo não cair.

E, coincidentemente, o mesmo milagre desejoso pelo Mullambus: que Lusitânia perdesse 4 pontos e sucumbisse.

“Mas vamos ao que interessa...”, já emenda, rasgando, Joaquim, o dono da Lusitânia.

Já eram quase 10 da noite quando, enfim, a reunião começou pra valer.

Na mesa, muito bem definidas as propostas da Rainha Vênus, por parte do Mullambus, e da Yunymedi, o rico ente reitor, já com ares sagrados, do Flordelince.

No fundo, um só fim: em troca de milhões e milhões, 4 pontos.

Um rio de dinheiro, um rio de janeiro a dezembro para Lusitânia usar como bem quisesse, onde quisesse e com quem quisesse.

Bastaria, simplesmente, perder 4 pontos e cair.

“Mas como fazer isso, se um jogo vale só 3?”, indaga o mandatário lusitânio.

“Escale um jogador irregular na tua equipe!”, respondem, em uníssono, os representantes outrora rivais.

E sobe à mesa mais um baú de dinheiro.

Fama, fortuna, mulheres, viagens, carros de luxo... tudo surge na conversa com poder de convencimento.

“Ah, mas e o futebol? E os meus torcedores? São poucos mais lhes devo satisfação!”, lamuria Joaquim.

“Não se preocupe, é tanto dinheiro que ano que vem Lusitânia poderá montar um ótimo time, já sobe pra 1ª divisão de novo e todo o povo esquece...”, diz o sujeito de cartola e pasta tricolor.

Era verdade. 

O mundo mineral sabia que, não fosse por uma questão de ética institucional, a Lusitânia não perderia nada com essa história de rebaixamento, pois não tinha pressão de patrocinadores, nem pressão de mídia, nem pressão de torcida... 

"Sim, e a Rainha promete que mandará toda a mídia mostrar vocês, acho até que vão inventar um apelido pra vocês, misturado com um desses times quem tem lá na Zoropa... tipo "Barcelusi!", o mullambu de sorriso sinistro emenda. 

“Ai meu Jesus...”, murmura aflito o homem.

Passa da meia-noite. Dá-se a impressão que toda a Ilha de Vera Cruz pesa sobre os ombros do Seu Joaquim e da Lusitânia.

Cabeça baixa, e ele, frio, sua muito.

E pensa, pensa, pensa... 

Até erguer-se para gritar: “Tá bem... Chama lá o Héverton!”.

E todos viverem felizes para sempre.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

# ecos do fim do mundo


Papa Francisco está prestes a morrer, e de morte matada.
 
Sinceramente, não acredito que a política vaticanista, os donos do poder e a comunidade burguesa internacional admitirão a sobrevida deste grande homem, que vem para chacoalhar as ideias da Igreja, dos católicos e de nós, humanos, demasiadamente humanos.

A cada dia, a cada mensagem, a cada visita, o Sr. Bergoglio – o Papa! – aprofunda o dedo nas feridas e nas veias abertas do nosso mundo.
 
Se na primeira “encíclica” de Sua Santidade – Lumen Fidei, em junho (v. aqui) – a mexida foi suave e pontual, agora, na primeira “exortação apostólica”, Evangelii Gaudium (v. aqui), o balanço foi geral, agudo e intenso.
 
Na contramão do que os seus antecessores mais recentes fizeram – João Paulo II, o tucano polaco, e Bento XVI, o teórico ratzinger –, o argentino Francisco veio lá do fim do mundo para dar as cartas e abertamente contestar todo este sistema.

Com veementes críticas ao processo capitalista (“uma nova tirania”), ao livre-mercado (“esta opinião, que nunca foi confirmada pelos fatos, exprime uma confiança vaga e ingênua na bondade daqueles que detêm o poder econômico e nos mecanismos sacralizados do sistema econômico reinante, entretanto, os excluídos continuam a esperar”), à péssima distribuição de renda, à acumulação materialista (“a economia de exclusão e desigualdade mata pessoas por todo o mundo”) e à miserabilização das relações humanas (“sistema sem ética, no centro, há um ídolo, e o mundo tornou-se idólatra do dinheiro”), Sua Santidade não perdoa.
 
Nas entrelinhas, ratifica-se o que a “teologia da libertação” propõe desde o final dos anos 60.
 
Indagado pelos meios de comunicação sobre ser marxista, responde: “não sou” mas “não me sinto ofendido com essa acusação” (v. aqui).
 
Enfim, um papa que não se omite de falar e fazer política, como todo homem público deve fazer.

E, diferente daquele pop João Paulo II, este nosso popular Papa Francisco fala e faz a política del otro lado del rio.

Com poucas (e poucos) papas na língua.

 

domingo, 15 de dezembro de 2013

# e o rio passa...


                                                                                 
Madrugada de sábado, em Madureira, no G.R.E.S.Portela.
Paulinho da Viola, Marisa Monte e a Velha Guarda.
Este é, também, o Rio de Janeiro.
O rio que passa em minha vida.



sábado, 14 de dezembro de 2013

# primeiro círculo



O Rio, não diferente do Brasil, é repleto de pessoas que se amontoam pelos cantos, flancos, bancos e tantos buracos e lapas da cidade.
 
E neste cotidiano avassalador, há um evento que sempre me faz parar para pensar muito sobre tudo: os cafés da manhã com os moradores de rua, todas as quintas-feiras, na Glória, região central da cidade.
 
Na verdade, este trabalho institucionaliza-se no PROAMOR (v. aqui) e os cafés da manhã, a cada dia da semana em um ponto fixo do Rio, são apenas os canais de entrada de todo o incipiente processo de amparo às pessoas que têm as suas vidas na rua. 
 
Nesta quinta-feira, nada diferente do que se vê em todas as vezes, o mundo mostrou as suas vísceras, o seu outro lado, o lado B, o lado que não se quer ver.
 
Aqui, não é a "revolução" que não se televisona (v. aqui).

Aqui é a vida desta gente largada, ignorada e estuprada a cada minuto por uma ampulheta que insiste em escorrer cada vez mais devagar. 

Um easy rider sem fetiche, sem o glamour do lsd e sem as pompas de Woodstock.
 
É o retrato explícito, ao vivo e à cores, sobre o cúmulo deste ilógico sistema que acumula e desta ilógica vida que lamuria, o que nos dá a certeza da mais absoluta lógica cartesiana de que outro mundo é possível e de que outro plano existe.

E, por isso, ainda não consigo entender aqueles que comentam sobre a falta de lógica na crença divina, haja vista que nada é mais ilógico do que a forma desta vida terrena.
 
E ontem, em mais outra prova acachapante sobre isto tudo, no meio das mais de 150 pessoas que ali estavam, três velhos em frangalhos me saltam aos olhos.
 
Neste dia, afora uma razoável quantidade de roupas, tinha eu três mochilas usadas para distribuir; e, após o rito tradicional daquelas manhãs, chamei e me reuni com os três barbas brancas para entregá-las.
 
Cada qual já com a sua, sugeri que se livrassem dos sacos de estopa onde carregavam trapos, ratos e coisas podres – sim, carregavam a vida em enormes e sujos sacos pendurados às costas. 
 
Pensaram, titubearam, mas aceitaram a dica.
 
E começaram a esvaziar: cobras, lagartos, vermes, protozoários, afora restos e detritos de toda sorte.
 
O gesto de um deles, ao tirar um imenso embrulho de papel bolha azul-claro, me intrigou.
 
Tolo, perguntei "para quê" aquilo, e disse para ele jogar fora também.
 
"É meu colchão!", o vovô responde.
 
E por aí foi... uma coisa pior, mais triste e mais descartável que a outra – mas, é assim, juntando tudo que encontram que se sentem possuidores de alguma coisa, materialmente mais confortáveis.
 
Novamente, insistia para que começassem do zero e descartassem (quase) tudo. E mesmo ressabiados, aceitavam eliminar um a um daquele chorume.
 
Ao final, quase reduzido a pó todo aquele lixo que antes entupia os seus sacos, fechamos tranquilamente as mochilas.
 
E poucas vezes vi três pessoas tão felizes. 
 
Rodavam-se e desfilavam pela praça, a mostrar as novidades.
 
Agora, vejam só, carregavam as suas vidas literalmente nas costas.
 
Afortunados, já não seriam mais os “homens do saco”, cujas figuras os pais usam para amedrontar as crianças.
 
E como se eu fosse um rei mago, agradeceram-me muito.
 
Até saírem, de novo tomando o rumo em direção ao nada de sempre.
 
Como suspiraria Villa-Lobos no início da sua Valsa da Dor: “Êta, vida!”.



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

# tiro ao álvaro


O alvo do tiro dado por Joaquim Barbosa – Ministro-Relator e dono do processo chamado "mensalão" no STF –, com amplo e irrestrito apoio midiático, para condenar (e tentar jogar nas trevas) o PT deverá agora, perigosamente, se multiplicar. 

A principal das tortas teses adotadas em juízo – a teoria do domínio do fato – deverá agora também servir para condenar políticos petistas e da tal "base aliada"– afinal, tucanos são inimputáveis , urbi et orbi.

Se José Dirceu e José Genuíno – Chefe da Casa Civil e Presidente do PT, respectivamente – deveriam saber o que se passava nos intestinos de setores do Governo federal e do PT, e por isso foram condenados, embora jamais tivessem seus nomes citados em todo o processo e contra os quais não havia qualquer prova, é óbvio, por questões de silogismo elementar, que doravante outros tantos superiores imediatos da cúpula governista, seja em que circunstâncias forem, também deveriam saber de tudo e de todos.

Eis, pois, todo o absurdo da kafkaniana tese adotada pelo Sr. Joaquim Barbosa, o mais novo ídolo tupiniquim, como se fosse algum big brother de plantão.

Sim, tão absurda que Claus Roxin – o próprio jurista alemão que desenvolveu a tese do "domínio do fato" para fundamentar a condenação do alto comando nazista ou de mandatários de países não-democráticos (!) – disse que ela não pode e não deveria ser aplicada no Brasil, em especial nas condições e circunstâncias do que aconteceu no caso do tal "mensalão" (v. aqui).

Doravante, dando-se guarida à jabuticabização da tese alemã, todo e qualquer superior hierárquico, seja no âmbito público ou privado, poderá (e deverá) ser condenado pelos maus-feitos de seus subordinados, haja ou não prova, valendo-se apenas de suposições ou pseudo-domínios de fatos. 

Eis, pois, o grande coelho que juízes e tribunais sempre tirarão da cartola para, frustrados por investigações não prósperas, condenar os inimigos da pátria, bem ao gosto da massa lobotomizada pela velha mídia que, babando pelas redes sociais, exige o enforcamento em praça pública daqueles vermelhos comedores de criancinha.

Portanto, como não veio ao caso se (e quanto) Dirceu e Genoíno sabiam do que se passava nas relações entre as bancadas aliadas e as empresas públicas, e como tão-pouco importou o que fizeram – a tal da tipicidade , não se dará importância para o fato de Lula ou Dilma também de nada saberem e nada terem ordenado e, principalmente, contra eles não advierem quaisquer provas. 

E, aos poucos, vai se dando adeus ao Estado de Direito.

Enquanto, ao redor da lâmpida, as mariposas não param de dar vortas e vortas...


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

# madiba



Como sempre fiel cumpridora do seu papel, eis que a grande mídia global resolve descolorir Nelson Mandela, um dos últimos dos moicanos. 
 
(E, a propósito... daqui há 40 ou 50 anos, para quem derrubaremos lágrimas e faremos funerais grandiosamente merecedores? Há alguém neste caminho? Ou esta minha solúvel instantânea geração não se mostrará digna e capaz de lamentar a morte de pessoas que significativamente mudaram o mundo?) 
 
Bem, o que as donas da informação insistem em esconder é que o grande Mandela não foi este vovozinho de túnica branca e gestos papais que cavalgou África afora montado num pequeno pônei portando uma mensagem apolítica de axé. 
 
Não! 
 
Nelson Mandela só era Nelson Mandela porque foi um revolucionário, porque foi político, porque fez política. 

E porque a sua vida pautava-se rotundamente pelo lado esquerdo do peito.
 
Mandela enfrentou os poderosos e racistas nativos e confrontou os ricos donos do poder. 
 
Mandela foi para a linha de frente contra os interesses das grandes potências brancas (e negras) que faziam vistas grossas ao apartheid sul-africano. 
 
Mandela não admitia uma África pobre, desigual, separatista, antidemocrática, controlada por poucas famílias e sob o jugo europeu. 
 
Mandela combateu o podre poder local, combateu os EUA e a intervenção cotidiana da CIA e foi preso, assim ficando durante 27 anos. 
 
E foi por estas e outras que, durante décadas, o seu nome foi proibido nos jornalões do mundo e que a sua figura era non grata nas grandes sociedades. Margaret Thatcher, por exemplo, considerava-o terrorista, comunista e comedor de criancinhas. 
 
Antes da prisão, na clandestinidade, foi o grande líder e mentor do Congresso Nacional Africano (CNA), partido que reunia um grupo cada vez maior e mais competente de militantes com vistas a acabar com o racismo, a segregação sócio-racial e as injustiças de um país negro sob as rédeas de suseranos brancos. 
 
E neste período todo de lutas e com Mandela já encarcerado, foi Cuba um dos poucos países do mundo que sempre esteve ao seu lado e ao lado do seu povo – lembre-se, pois, que Fidel conseguiu em Cuba o que Mandela queria conseguir na África; não apenas na retórica, por inúmeras vezes a Ilha caribenha prontificou-se a ir se juntar aos revolucionários sul-africanos na guerra contra a opressão e o apartheid, tal qual fez, com sucesso, na batalha pela independência da vizinha Angola (v. aqui). 
 
Mandela, assim, sempre teve Fidel e Cuba como seus parceiros (e espelhos, e horizontes) históricos, deles recebendo total e incondicional apoio, com altruísmo e solidarismo ímpares – e todo essa amizade internacional mereceu, mais uma vez, a eterna gratidão do povo sul-africano. 
 
Hoje, neste capítulo final da vida de Mandela, não por acaso o presidente cubano Raul Castro foi convidado a ser um dos cinco oradores no funeral do líder máximo do continente negro, ao lado de Dilma (o Brasil é o maior parceiro da África do Sul e o maior país negro não-africano), de Obama (por razões de simbolismo racial) e dos chefes de Estado da Índia e da China. 
 
E a mídia, claro, continua louvando-o pelo fato dele não ter conseguido fazer tudo o que queria ter feito (v. aqui), a insistir com borboletas e baobás, com crisântemos e croissants, com adornos de carneirinhos em nuvens brancas e com a imagem de um Mandela alvejado, doce e fofo. 
 
Ora, embora sin perder la ternura jamás, o herói universal Nelson Mandela nunca quis ser Madre Tereza de Calcutá. 
 
E nem poderia. 
 
Ave, Madiba!  Nkosi sikelel' iAfrika!

 

 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

# mito de sísifo


Após um necessário período de hibernação, retomemos. 
 
E, en passant, tratemos da vida, ou da morte, direto das arquibancadas do jogo entre Atlético e Vasco, em Joinville. 
 
É que os acontecimentos deste triste domingo para a espécie humana provocaram-me a refletir sobre isso.
 
Os bichos que se violentaram, numa selvageria anojosa, gratuita, estúpida e voluntária, estavam dispostos a ter qual fim? 
 
Abstraindo-me, se possível fosse, de questões religiosas, defendo que a morte de todos  sim, todos, literalmente todos os que diretamente ansiavam por aquele momento, para se evitar que, sendo só de um ou outro desgraçado, não se faça injustiça ou, pior, façam-se mártires  os envolvidos naqueles atos seria natural, algo óbvio, calculado e pertinente. 
 
Note-se que se falou desejar ou querer a morte de outrem – para ainda tentar mais uma vez resgatar o fundamento cristão que sempre me move –, mas em respeitar o desejo de cada um dos bichos que se entreveram naquele cenário de cimento e ódio

Ora, eles estavam ali naquele meio porque queriam – não foram perseguidos, não foram abandonados, não foram surpreendidos e não foram iludidos até o local. 
 
Ora, eles foram para lá porque quiseram – não foram coagidos, não foram por dinheiro, ou por deus, pela pátria, pela liberdade ou pela revolução. 
 
Eles, sedentos e famintos como javalinas no cio, estavam à disposição para aquilo tudo. O fim, a morte, não lhes era algo caro ou diferente
 
Na verdade, eram indiferentes a ela. Era, sim, o maior barato ali estar. 
 
Se Hanna Arendt desenhou a “banalidade do mal”, as dezenas de animais que envergonharam a espécie humana banalizaram, ali, a vida
 
A vida entre eles, só deles e desprezada por eles, já não lhes tinha uma razão de ser, nem de existir; a morte entre eles, só deles e provocada por eles, já não seria um acaso, mas mero ocaso
 
Estavam, pois, dispostos a tudo: engolir, estrangular, marretar, ralar, rolar, roer, socar, quebrar, cortar, perfurar, pisotear, atropelar, amassar, morder e moer tudo, todos, inconsequentemente.
 
Não havia, portanto, qualquer causa ou consequência aos seus atos que os proibissem ou os impossibilitassem de agirem daquele modo. 

E se pergunta: pena? 
 
Alguém, não sendo um doente mental, que pela adrenalina senta num veículo de passeio para seguir pela estrada afora a 200 km/h e morre sem ver o lobo-mau? Suicídio involuntário? 
 
Alguém, não sendo um doente químico, que pela curtição se tranca num quarto para se entupir de heroína veia adentro e morre sem ver a fada-dos-dentes? Suicídio indireto? 
 
Alguns, não sendo doentes ou escravos civis, que pela adrenalina, pela curtição e pelo ódio, se dirigem a uma praça vazia para se agredirem incessantemente com tacapes, lanças e chutes, e morrem? Suicídio coletivo? 
 
Não, não me parecem casos de pena (salvo, é claro, em relação aos familiares, que em tese nada tiveram com aquilo e deverão sofrer pela perda dos respectivos entes amados...). 
 
Pelo contrário, são casos em que devemos respeitar os autodesígnios de cada um – o "livre-arbítrio", como ensinou Santo Agostinho  e os desejos felinos de curtirem as suas histórias.

São casos, como o de Joinville, em que até se chegaria num (insensato) nível de se lamentar o não-ocorrido  e tudo pelo bem da sociedade, pelo bem do futebol brasileiro e, repita-se, pelo bem de cada um dos envolvidos, uma vez que estavam bem dispostos a morrerem pelas cores vãs das suas facções. 

Lembremos: o futebol inglês, ou melhor, todo o estado de coisas que circundava (e preenchia) o futebol inglês, só mudou depois que dezenas de pessoas morreram – e lá a grande maioria injustamente! – em razão das podres condições do superlotado estádio e do enésimo confronto entre hooligans, os marginais torcedores nativos; hoje, a Inglaterra tem o maior, o mais rico, o mais cheio e o mais seguro futebol do planeta. 
 
O Brasil, portanto, precisa e clama pelos seus kamikazes, por seres dispostos a se entregarem  como ontem  para a redenção do nosso futebol. 

Logo, neste domingo parece que se perdeu uma grande chance disso acontecer, tamanha a sanguinária e voluptuosa vontade dos envolvidos, afinal, no baixio das bestas lá estavam elas, saltitantes, encubadas num terreno só delas para orgulhosamente morrerem. 
 
E, consumado o ato, lá na frente, talvez por piedade, poderíamos oferecer nomes de pontes, de pracinhas, de bosques ou criar um muro das lamentações em homenagem a cada um dos finados que prestaram um grande serviço à nação.

Como diria Fernando Pessoa, "absurdemos a vida, de leste a oeste".

 

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

# não seria você

 

Não sendo de plástico, não sendo produtos pasteurizados da moda medonha que avassala, não sendo entregues fracionados para um meio que à la carte consome, somos resultados de um empilhamento de acontecimentos que nos formam.

Neste presente, neste processo contínuo que carrega do passado medos, memórias, manchas, marcas, maravilhas e cicatrizes.

E neste futuro, em que seremos o que viemos sendo, e o que vimos, e o que vivemos, pois ninguém seria do jeito que é se não passasse pelas mesmas experiências que passou.

E o que passou nos formou, numa metamorfose constante.

E o que nos formou é o que conquistou, e quem conquistou jamais seria este que nunca foi.

E com este lúcido amor, e desta maneira lúdica, e deste lindo e luminado jeito que o resto da vida inteira assim nos fez.

E fora todo o resto de percalços, sobressaltos, saltos vagos e vagas lembranças de algo que não se deu.

Porque não somos criaturas criadas em laboratórios da tv, e porque não somos etiquetados com algum emblema de vaca holandesa premier, e porque não somos vazios como tudo o que se vê alienar-se e preencher-se por aí.

E porque esquecemos que o que aquece não é o frio da perfeição da retidão padrão.

Porque esquecemos que uma alça não calça a importância de se ter um grande amor pra viver.

E porque não tem horário, e não tem a hora, e não tem ponteiros, e nem tem um cuco pra nos fazer nos ver. 

E porque amamos sabendo como, e quando, e a partir de onde.

Neste mar de saudades que me ilhava, desconfio que Neruda quase errou.
 
 
 
 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

# da gema


O Rio é uma ilha cercada de botequins por todos os lados.
 
Mas, na companhia de um fraternal casal – e da própria dona do lugar, um gênio da arte e da simpatia, que passou horas conosco à mesa , conheci nesta noite um daqueles que, não fosse pela distância de casa, seria o meu lugar, daqueles de bater ponto, de fazer hora-extra e de nunca pedir a conta. 
 
É o Bar da Gema, na gloriosa Tijuca.
 
E mais não ouso falar.



terça-feira, 13 de agosto de 2013

# bitucas acesas

 
Para além de uma câmara na mão e uma ideia na cabeça, a onda do lado B da realidade político-social não precisa ter o nome ninja que tem.

Na verdade, esta outra visão, este outro ponto de vista, esta outra roupagem desnuda da vida fora das cercanias compromissadas da grande mídia é apenas reflexo da "verdade libertadora" descrita em João, 8:32.
Ou, ao menos, uma outra libertação, em vias de se mostrar menos libertadora assim, afinal, embora se dê os devidos créditos da presumida inocência e da pertinência temática, dê-se também a desconfiança que o tempo resolverá, pois, como quase tudo, há sim que merecer pontuações e ponderações.
Mas, não há cama que nos desminta: a turma dos Poderes da República insiste em querer brincar com fogo.
E, agora, boa parte dos mijados estão a fim de expor fezes nos ventiladores do país, com muito Sol e pouca sombra.
E a internet mostra tudo, sem filtro, x-rated. 




quarta-feira, 7 de agosto de 2013

# atleticania (v)


Paulo Baier é o maior ídolo do Atlético da era pós-moderna  entenda-se isso de 2006 pra cá, após a geração vice-campeã brasileira e da Libertadores, e entenda-se que para isso não precisa ser um garrincha ou ter ganho o mundo. 
 
Afinal, ele corre e pensa o jogo todo, ele orienta e comanda o jogo inteiro, ele arma, marca, lança, fuça, bate falta, lateral e escanteio, tira o toss, tira foto, tira onda. E faz muitos gols.
 
Quase onipresente em campo, Paulo Baier é um furacão, é um fanático, é o maestro. 
 
É impressionante e emocionante vê-lo, no apagar das luzes de um relacionamento já antigo, declarando-se um apaixonado pelas nossas cores e pela nossa gente ao final de cada jogo.
 
Caiu naquela desgraça e foi o primeiro a dizer que ficaria para voltar; aceitou o segundo plano que quiseram lhe impor e disse que era apenas um soldado, e que também voltaria, sempre com uma humildade franciscana.
 
E quando tudo parecia caminhar para a sua aposentadoria, vem Vágner Mancini  o nosso novo e surpreendente treinador, com jeitão de enfermeiro do SUS e intervenções cirurgicamente brilhantes  e dá a braçadeira, a batuta e a bola pra ele.
 
E quando tudo está ruim, turvo, modorrento e quase perdido como nesta noite contra o tricolor baiano, Paulo Baier acha um canto, um buraco, uma brecha e nos tira do sufoco. Um a zero. E na pressão, ele sossega, e no sossego, ele pressiona, tudo numa dinâmica que não deixa nenhum dos nossos jovens e aspirantes jogadores apavorados ou avoados em campo.

Hoje o time é dono de si, porque dentro do campo tem um dono, porque o time tem o líder.
 
E agora, absolutamente ciente dos seus limites e propósitos, o Atlético está apenas um ponto atrás do carrossel das ervilhas mecânicas, o "Barcelona das Araucárias", como por aí cogitam.
 
Sem estádio, sem grana, sem a grande torcida, sem renomados atletas e sem os holofotes platinados da mídia chauvinista. 
 
Mas com Paulo Baier.



# anti-fahrenheit 451


Para entender e se situar no mundo, o discurso do Senador Roberto Requião (PMDB/PR) na sessão plenária inaugural do segundo semestre legislativo, quinta-feira passada, lembra, na sua forma, Cícero.

E no seu conteúdo traz a lembrança de Marx, Keynes, Furtado, Bobbio, enfim, de muita gente boa, como o meu professor de Coimbra, António Avelãs Nunes, na atualidade um dos mais renomados críticos deste "estado de coisas" e deste falido sistema que desmonta a Europa e que insiste em carcomer meio-mundo.

Apertem os cintos e assistam, pensem, reflitam, sonhem... e não percam a cara embasbacada do presidente da Casa, fingindo (não) entender aquilo tudo.

Este, afinal, é o nosso tempo.






sexta-feira, 2 de agosto de 2013

# baratas, moscas e a lama


E não é que o frustrante "Campus Fidei", aquele ex-local da grande marcha de peregrinos da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), foi escolhido a dedo por motivos não tão peregrinos assim?
 
Uma das donas do terreno – uma área maior que o bairro de Ipanema – é a multicitada família Barata, aquela mesma que no ano da graça de 2013 finalmente apareceu ao mundo, famosa por ser dona do transporte público viário carioca há séculos e por prestar serviços com "eficiência" e "preços módicos" à população (v. aqui e aqui).
 
E assim, como se numa visão santificada, a Prefeitura e o Governo do Estado convenceram a organização da JMJ de que lá, bem perto de onde Judas perdeu as suas botas, na famosa caixa-prego, nos calabouços desvalidos do município, seria o local ideal para melhor simbolizar o evento. Tudo, é claro, com ares de sacrossanto desinteresse econômico e comercial.
 
O fato de ser área de proteção ambiental? De ser aterro clandestino? De exigir investimento público para preparar a infraestrutura de um terreno de mangue? Ah, detalhes que a jovial marcha e a sociedade não dariam importância.
 
E assim, apesar do cancelamento do evento no local, toda aquela área foi trazida à luz, quase por fórceps, para finalmente (e forçosamente) justificar uma intervenção financeira do Estado.
 
Afinal, com todo o grande coração republicano que lhes acometem, Governo e Prefeitura prometem agora lá investir para criar um grande bairro, para delírio das baratinhas de plantão, que se desbundarão com as reviravoltas da terra naquela região.

E aquele mar de lama que se formou em Guaratiba passa a ter também um sentido figurado.

Mas tudo, claro, é mera coincidência.

Como também é absoluta coincidência a reviravolta do caso "Maracanã", justamente num momento em que a pressão sobre o Governador atinge níveis bizarros e que o distinto público deu claros sinais de que não pagará o valor dos ingressos que o consórcio achava que poderia cobrar (e muito lucrar). 
 
Em três jogos, prejuízo inesperado e a expectativa de que encheria o estádio com R$ 100 per capita foi frustrante, assim como os reveses dos negócios anexos ao Estádio, que fizeram o grupo privado se compadecer com a situação de inimigo público imposta a Sergio Cabral.
 
E neste cenário, como se iluminado pela luz dos anjos e do Papa, o próprio Governador resolve rever algumas questões do contrato de concessão do ex-Maracanã. 
 
Sim, séculos e séculos depois de muitos estudos, de muitas discussões e de muitas reuniões, quando já tudo resolvido e enfiado goela abaixo, resolve-se que alguns "conceitos" merecem ser revistos. E sobrou até para os quase-índios, em vias de serem reincorporados à terra sagrada. 

E diante de tudo, o consórcio recuou, estrategicamente, coincidentemente. E ardilosamente desejado? 

Ora, é claro que ter uma velha opinião formada sobre tudo não é sempre legal, e que a metamorfose ambulante é por vezes fundamental.
 
Porém, "ai, porém...", há casos diferentes. 

Há situações em que os sujeitos apenas se fantasiam de camaleão, e a mimetização, portanto, é falsa, é dissimulada, é trapaceada, é de araque. 

No caso, uma antiarapuca da incompetência privada, que se recusa a engolir as moscas no meio de mais outra lama.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

# baseado em ciências


Em vias de ser aprovada a nova lei que regulamentará a plantação, a distribuição e o consumo de maconha ("Ley de Regulación  de la Marihuana"), o Uruguai está a dar um crucial passo no controle da violência das periferias, no descaminho de milhares de jovens, na retomada de territórios apartados do Estado e, principalmente, no fim da guerra ao narcotráfico.

Absolutamente longe de se intentar qualquer apologia ao uso, não há qualquer justificativa razoável e minimamente técnico-científica para que continuemos a renegar a erva às sombras e à escuridão, rotineiramente trazida e montada pelos esgotos das cidades, habitualmente distribuída e comercializada por ratos, corvos e bandidos, e invariavelmente consumida a doses industriais em todas as festas, campings e circos da Oropa, França & Bahia.


Os estudos, as pesquisas, os dados, os dossiês, os astros, as bulas, os espelhos, os evangelhos, os orixás, tudo aponta para a irracionalidade da medida da sua proibição.


Claro que ela não dá tanto lucro quanto as drogas químicas, as patentes farmacêuticas (v. aqui), o transporte público viário (v. aqui) e os pedágios nas estradas brasileiras – refiro-me àquelas rodovias cujos contratos de concessão foram firmados antes de 2003, na época neolibelô, já que depois disso as regras e os preços ajustados foram absolutamente diferentes (v. aqui) –, porém, ainda assim, nos moldes de hoje, traficar cannabis constitui um negócio fabuloso para a criminalidade, e péssimo para o Estado e a sociedade.

Como aqui, aqui e aqui já enfatizamos, há muita base e inteiro respaldo das ciências biológicas, sociais, econômicas e jus-criminais para afirmar que, jamais desprezando os seus múltiplos malefícios, a maconha não pode receber um tratamento diferente daquele dispensado às outras maiores drogas sociais (álcool e cigarro), ainda mais prejudiciais e viciogênicas.

A questão, pois, parece se sustentar em contas mal feitas acerca dos custos públicos da medida – e de um erro crasso na solução desta public choice, que trata o problema da maconha como questão de polícia e segurança pública, e não de saúde pública; ou, então, em aspectos metafísicos, meio dogmáticos, meio carola, tese reducionista de uma turma puritana que acha o baseado simplesmente uma coisa do capeta.

E é, se continuar a ser monopólio do crime organizado, a causar milhares de mortes todos os anos e a custar milhões em aparato e corrupção policialescos.

Mas acredito no bom senso e no progresso da Política.


E que a liberação controlada, selada, carimbada, registrada e fiscalizada do cultivo e distribuição da maconha pelo Estado uruguaio (e de modo ainda mais rigoroso do que acontece com fármacos, destilados e tabaco) é uma prévia do que virá, muito em breve, a acontecer América Latina afora.

Além do jeito desprendido de lidar com o poder e o dinheiro, o presidente Pepe Mujica passa assim a ser também exemplo na forma independente, altiva e eficaz que encontrou para enfrentar os narcotraficantes.

Afinal, a guerra contra eles já foi perdida há muito tempo.


O vídeo-bomba que liquida o narcotráfico no Uruguay