domingo, 19 de outubro de 2014

# atleticania (xix)

 
Em Curitiba, o duelo entre os maiores rubro-negros das Américas abusa do óbvio ululante.

Afinal, em casa, há milênios o Atlético joga como nunca contra o seu rival de tom carioca.

E ontem foi outra prova disso: o magro placar era para ser goleada.

A escalação de um trio mais recuado -- Marcelo, Bady e Delattorre --, de um centroavante fixo e de dois volantes marcadores deixou o time muito diferente: melhor distribuído, o que torna o time equilibrado; melhor escalado, o que faz do time suficiente em cada canto do campo; e mais empenhado, o que faz de cada disputa de bola um lance de vida ou morte.

Enfim, o Atlético está melhor.

E, apesar de tudo -- e este tudo praticamente se resume à péssima gestão do Clube, em especial no que toca à formação do time e à sobrecarga em inúmeros jovens talentos --, o Atlético não cairá junto com os coxas.

Lamentável, entretanto, ver toda uma estrutura -- e toda uma massa rubro-negra, ainda alijada da Baixada -- refém de uma péssima condução do futebol, com profissionais de bastidores absolutamente incompetentes e desconhecedores do bê-á-bá do jogo, responsáveis por contratações e dispensas terríveis sob o aspecto técnico, desprezíveis sob a ótica estratégica, asininas sob a égide financeira e duvidosas sob a ordem ética.

Se no ano passado Paulo Baier, Ederson, Marcelo e Mancini tiram leite de lhama virgem de pedra, conduzindo o Atlético ao 4º lugar e à Libertadores, este ano, por insistente culpa e intransigência lógica da Diretoria -- que praticamente impede um raio de cair no mesmo lugar --, não se pode esperar sorte maior.

E permanecer na 1º Divisão será um feito, senão broxante, quase extraordinário.


 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

# no bico do corvo


Falar em medo é estranho.

Pode-se ter medo de bicho, de bicho-gente, de lugar, de não-lugar ou de qualquer coisa que existe, que se conhece ou ainda que só se ouviu falar, ainda que nesse caso se torne um medo prévio -- eu, por exemplo, tenho medo de tamanduá, depois dos relatos experimentais de uma amiga bióloga, e de ir passar um verão na Faixa de Gaza, pois dela há notícias pouco alvissareiras.

Depois, pode-se ter medo do que não existe, do que não se conhece ou do que só se ouve falar no mundo da ficção ou da religião -- é o medo da morte, de fantasma ou da Cuca.

Na política, até 2002 tinha-se medo do PT.

Era puro preconceito, sacanagem bruta, pois ninguém podia dizer o que viria a ser um governo do Partido dos Trabalhadores.

Afinal, nunca antes neste país um partido de centro-esquerda assumira as rédeas da nação. E, ainda, tinha Lula lá, a insistir em debutar na chefia de um Executivo.

À época, uma atriz aparecia na tv e no rádio para dizer: "tenho medo".

Em vão, indo fundo na tese, a direita provocava um dos mais primitivos instintos humanos para tentar, sob um preconceito atroz, não perder as eleições.

Ora, com ter medo de algo que nunca houve, que nunca se viu e que nunca se ouviu falar? E como ter medo de algo não-metafísico, ou seja, de algo que pode ser objeto de prova -- no caso uma "não-prova"?

O funesto episódio passou. E Lula venceu.

Com ele, o fim do modelo neoliberal, do Estado mínimo e do Brasil sem políticas sociais, sem desenvolvimento e sem soberania. E o início de um Brasil para todos.

Hoje, doze anos depois, a tese do medo volta, conforme aqui predizemos.

Mas é outro medo.

Repagina-se no medo do bicho tucano.

Sabe-se quem é, sabe-se o que fez, sabe-se o que fará e sabe-se quem e o quê defende, pois faz questão -- honra lhe seja -- de não esconder o bico (v. aquiaqui, aqui, aqui, aqui e aqui).

Não por acaso, nunca os candidatos tucanos, pós-Lula, quiseram debater para comparar as gestões do PT e do PSDB.

Eles fogem dessa discussão, simplesmente, com o argumento infantil de não querer olhar o passado, como se pudessem desprezar aquela tese quase bíblica: "diga-me o que tu fizeste que te direi quem és".

Logo, neste momento o "medo" é real, lógico e imediato.

Afinal, já bem conhecemos o que estamos a ver, a ouvir e a sentir.

E num agouro que antes só os corvos apresentavam.


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

# os anzóis


Um dos motes da ira transpirada pelos reacionários de plantão funda-se na ladainha de que o maior programa de transferência de renda do planeta -- o "Bolsa-Família" -- é um assistencialismo barato de compra de votos para manutenção do poder.

Antes, uma premissa irrefutável: este programa, por si só, não leva a nenhum outro lugar senão aplacar a fome -- é muito, claro, mas é paliativo e não-estruturante.

Ademais, é claro que não podemos ser ingênuos e achar que tudo funciona bem, maravilhosamente bem. E que não há o contingente de beneficiários vadios e prefeitos inescrupulosos -- essa turma, pois, é parte da nossa difícil condição humana, demasiadamente humana.

Porém ("ah, porém..."), ao cabo, funciona muito bem, como deve (e precisa) funcionar qualquer programa de proteção social mundo afora: mitigar a miséria, mitigar a dependência de caridade e a sensação de frustração e impotência sentida por esta ardida gente sem trabalho e sem perspectivas, que mendiga ou se escraviza.


É assim, por exemplo, que acontece nos EUA, com milhões de beneficiários do "food stamps" -- v. aqui.

E mais.

No caso do nosso "Bolsa-Família" -- lembremos que o programa é modelo de erradicação da pobreza, segundo a ONU  (v. aqui) -- ele difere dos tantos que há em razão de três das condicionalidades programáticas fundamentais: presença escolar, exames pré-natais e carnê de vacinação infantil em dia.

Aqui, portanto, tem mais eficácia pelo fato das famílias conseguirem com esse dinheiro desobrigar a criança a ir trabalhar para ganhar, em média, 168 reais no mês, e desobrigar o Estado a gastar tolamente em parte da saúde básica infantil (solucionada com as simples vacinas) e materna (com os exames pré-natais).

E, pela enésima vez, o programa foi esmiuçado pelo Governo Federal, a fim de confirmar o enorme preconceito existente sobre ele, conforme se pode ler aqui.

Logo, o que não dá, e o que nos causa náuseas, é a gritaria fascista da turma que, contaminada ainda pela branca cegueira daquele esplêndido "Ensaio" de Saramago, vê tais programas como desnecessários ou, pior, como estímulos à vadiagem, arrastando aquela ladainha de que o certo é "ensinar a pescar e não dar o peixe".

Uma balela de quem conseguiu "aprender a pescar" por já ter -- máxima regra -- os anzóis e a barriga cheia de peixe.

De quem não enxerga que uma coisa depende da outra: peixe e ensino, comida e educação, fome e anzol... elementos, pois, indissociáveis.

Pior, exaltam e se gozam quando veem o que rola na França (dois anos de seguro desemprego...), na Escandinávia (infindáveis bolsas, de tudo que é tipo, gosto, cor...) e nos EUA, mas detonam toda e qualquer iniciativa nacional.

"É populismo barato!", brada brava aquela gente.

Ora, mas é assim mesmo que o Estado também deve agir, com políticas para ao povo, populares e populistas, sem usar para esse a conotação pejorativa que por aí insistem.

E é por isso que, para continuar existindo, seja tão importante que junto às políticas sociais, especificamente no caso do Bolsa-Família, convivam duas presenças estatais, absolutamente fundamentais.

Primeiro, a "presença física", com salas de aula e professores e com centros e profissionais de saúde, dignos e competentes, vivos e presentes.

Depois, a "presença técnico-financeira", mediante programas (i) de microcrédito como incentivo aos micro e pequenos negócios -- e por isso o papel crucial dos bancos públicos, com juros subsidiados e regras flexibilizadas --, (ii) de fomento à agricultura familiar (PRONAF) e (iii) de educação técnico-profissionalizante (PRONATEC), todos absolutamente abandonados ou sucateados na época tucana.

Soluções nem tão simples, mas nem tão utópicas, inclusive porque já iniciadas.

Políticas de transferência de renda (articuladas e agregadas a outras, como é o caso, ou com condicionalidades, como também é o Bolsa-Família) são, assim, factíveis e devidas, em especial para o país que mais concentra renda do mundo e para a necessidade de acabarmos com a "armadilha da pobreza".

Basta termos coragem e competência para implementá-las, afinal, não se faz justiça e equidade sociais apenas dando 160 reais para um depauperado lar.

Assim como não se faz não dando...
fds

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

# caçador de corruptos


E o caçador de marajás do fim dos anos 80 se tornou o "caçador de corruptos" de 2014.

A exímia atuação da grande mídia, tatuando na testa de Dilma, Lula e do PT a propriedade exclusiva da corrupção, dentre outros fins e outras consequências, resultou, pari passu, na criação deste personagem, Aécio Neves, como se um mocinho de novela global num cenário de sci-fi.

Já dissemos aqui que corrupção não se combate com mera retórica, que não pode ser fulanizada e que tão-pouco é a desgraça brasileira.

A corrupção fetichizada, tal qual a grande mídia propaga, a reboque dos reacionários de plantão, objetiva desqualificar a política, visa a mostrar que a coisa pública ("res publica") não funciona e que a democracia, portanto, é um pastiche.

É óbvio que tal crime é um mal e que deve ser enfrentado com a máxima e incondicional firmeza, mas não por meio de um super-homem qualquer -- e, muito menos, por um de araque e sem qualquer envergadura moral para tal.

Ora, a corrupção deve ser tratada institucionalmente, com mecanismos de controle, apuração e punição que envolvam vários órgãos e todos os Poderes da República, como hoje já se começa a fazer -- mas que não se quer enxergar, pelo contrário, dissimula-se a questão.

Assim, esta lenga-lenga diária da grande mídia, atribuindo ao candidato tucano a pecha de imaculado conceição, além de ser caricatural e jocosa, é mentirosa.

Fingem, desavergonhadamente, que no âmbito do PSDB nunca houve e nem há malfeitos.

Que a sopa de alianças partidárias -- fio condutor maior dos casos de corrupção -- não está no PSDB, ampliada ainda mais agora, no 2º turno, com todos os "apoios" recebidos.

Que Aécio Neves é o novo, que nasceu ontem, em uma manjedoura mineira, sob o brilho de uma estrela cadente e ao redor de reis magos.

Fingem esquecer que o passado e o presente dele não são flores que se cheiram.

E que a políticas e as ideias do PSDB, de ontem e de hoje, são absolutamente decadentes.

Os tucanos, minha gente, só funcionam na tela da tv e nas manchetes dos jornais.

E nas rodinhas mágicas dos reis e rainhas da elite nativa (v. aqui).

terça-feira, 7 de outubro de 2014

# cheiro do ralo


E o Governo tanto demora a fazer que aí está o resultado.

Os tais manifestos de junho do ano passado (v. aqui, aqui, aqui e aqui), a reboque da direita, e o ódio de classe, figurado no "tudo menos o PT", eram retumbantes sinais da ameaça de perder a eleição presidencial, ainda que a concorrência fosse débil.

Primeiro, a turma que parou o país por algumas semanas de 2013, ao cabo, votou sim em projetos e senhores capazes de promover mudanças.

Mudanças para voltar no tempo.

Mudanças para bem-fadar Jair Bolsonaro (o deputado mais votado do Rio), Pastor Feliciano (o 3º mais votado de SP), Ratinho Jr. (o mais votado do PR), Lasier Martins (senador eleito no RS), Beto Richa (v. aqui e aqui) e Aécio Neves, só para ficar em alguns.

Toda uma turma que, flagrantemente, está a representar teses e programas do chorume da política, dos anos de chumbo, dos anos de chupa-que-a-cana-é-doce, dos anos que se pensavam guardados para sempre nas páginas tristes dos nossos livros de História (v. aqui).

Agora, vejam só, muda-se tudo para tudo voltar ao que era em priscas eras.

Reacionários, conservadores e neoliberais numa geleia geral que revela o quanto foi oportunista e safada a espetacularização daquelas manifestações. E quão vazias essas foram nos seus fins, pois Luciana Genro, Plínio Sampaio, comunistas e operários -- os profetas dos novos tempos, sabe-se lá o que queiram ser e dizer com isso -- continuaram a não ter votos.

A grande mídia, desregulada, alimentada e protegida como um mico-leão dourado, foi exímia ao colar na testa do PT a propriedade plena da incompetência e da corrupção, sem querer levar esse assunto para o debate sério e verdadeiro (v. aqui).

E com tamanha eficiência levou Dilma e o partido para o canto do ringue, apanhando muito, apanhando tanto quanto bastasse para que a população não se desse conta de que o Brasil, de 2003 para cá, é outro.

E de que há sim uma pessoa e um partido responsáveis por isso: Lula e o PT, bastante competentes neste propósito de tirar da fome e da miséria abjeta o equivalente a dois Chiles.

Mas, infelizmente, isso hoje vai se apagando a cada manchete sensacionalista, a cauda pauta negativa, a cada fato a dedo escolhido para desancar toda estes feitos, tudo sem um contraponto, sem uma resposta eficaz do Governo.

O PT, embora seja o maior partido político do Brasil, segue contraditoriamente acuado, sem comunicação, sem espaço, sem jeito e sem tempo para mostrar tudo o que bem faz -- não obstante as devidas críticas aos vários erros do mandato atual, como aqui (aquiaqui e aqui) já se disse, em especial pelo flagrante esgotamento deste modelo de commodities e consumo -- e então reagir.

Embora ainda continue com o maior número de representantes, perdeu espaço no Congresso Nacional. E embora tenha vencido o 1º turno, vê renascer do inferno a direita com os tucanos e seus canhões.

A bala de prata contra o maior partido da oposição -- a troika dos sistemas Globo, Veja e Folha -- seria a imprescindível  "Lei de Meios de Comunicação", que colocaria ordem no bandido mundo midiático, mas que está engavetada (v. aqui). Uma lei que no mundo inteiro já existe, menos por aqui, onde é vista como "censura", como "ditadura", como "cubanismo" ou como qualquer outra coisa que zombe para dissimular a verdade.

Mas, se ainda insistisse em não querer dispará-la, o Governo Federal ao menos deveria ter mexido na gestão da comunicação, criado e aperfeiçoado meios de dialogar e de se apresentar à população, como aqui e aqui já se explicou. E, ainda, deveria ter estancado o mar de dinheiro que, por meio das suas tantas empresas públicas, a cada ano despeja nas grandes redes em venturosas publicidades sem sentido.

Enfim, um vacilo atrás do outro.

Depois, na eleição presidencial, o voto em Aécio não é seriamente explicado, mas motivado pelo mais pueril (e juvenil) argumento: "não gosto" do PT, como se tratasse de um pudim, e "não gosto" da Dilma, como se fosse uma escolha de amiga de escola ou para miss simpatia.

Ora, em jogo está a discussão do Brasil, a discussão de um projeto de Estado e de ações políticas que está, qua sera tamen, transformando o país, bem ao contrário do retrocesso, da estagnação, da elitização e do vazio social dos programas pilotados pela direita de hoje e de sempre.

Ademais, eis então a verdade recôndita nesta onda conservadora (e reacionária) que vota no candidato do PSDB: o ódio de classes, o ódio de castas, algo bem mais sórdido, simples e direto do que tentar entender ou compartilhar do modelo neoliberal que escancara as políticas desse partido.

A imensa parcela dos 33% que votou em Aécio tem nojo de se ver no outro, tem ojeriza do convívio com quem não nasceu de sangue azul e nem habitou a casa-grande, mas que hoje pode estudar, viajar e conjugar o infausto verbo do pertencimento pós-moderno: consumir.

Uma gente que se indigna com o fato da senzala já não aceitar se servir como escravos domésticos, já não admitir perder direitos e já poder se enxergar, minimamente, como dona de cidadania.

Uma gente que tem pavor ao ver que seu país está a dar oportunidades de emprego, estudos, de cursos técnico-profissionalizantes, de microcrédito e na agricultura familiar a dezenas de milhões de brasileiros, e que isso é obra de um partido que na sua história, mais ou menos, sempre teve um lado.

Uma gente que não suporta um governo social e que se governa pelo lado esquerdo peito.

Que não aceita políticas públicas populares, populistas e para ao povo. 

Que não acredita na política, na república e na democracia.

Que tem chiliques ao perceber que o país deve ser de todos.

Afinal, para esta gente o Brasil não somos nós.


domingo, 5 de outubro de 2014

# o pulso da direita


O pulso tucano ainda pulsa... O pulso tucano ainda pulsa.

Peste bubônica, câncer, FMI, precarização.

Raiva, arrocho, anemia, privatização.

Rancor, latifúndio, passado, penumbra, apagão.

Livre-mercado, super-mercado, deus-mercado, terceirização.

E o pulso tucano ainda pulsa... E o pulso tucano ainda pulsa...

Choques, miséria, meritocracia, fetiches, paralisia.

Ódio, retrocesso, castas, pirâmide, esquizofrenia.

Fome, entreguismo, petrobrax, coques de luxo, afasia.

Elite, branqueamento, individualismo, plutocracia.

Conservadorismo, pirataria, especulação, hipocrisia.

E o corpo ainda é pouco... E o corpo ainda é pouco...

Minas, miopia, mito, mínimo, misticismo, raquitismo estatal.

Washington, culpa, crise, cárie, cãimbra, banco mundial.

Armínio, Aécio, agências, alienação, apolítica, torniquete fiscal.

Tétano, ralo, juros, jaula, joelho, globo, gado, capital.

Desigualdade, desemprego, viralatismo, estado neoliberal.

E o pulso ainda pulso.

E o corpo ainda é pouco.

Pulso... Pulso...

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

# primeiro ou segundo turno


E a nossa Gandhi de saia já era.
 
Sim, passou a onda e o blá-blá-blá dos últimos trinta dias -- sem sentido, turvo e desconexo da realidade -- promovido pela "Madre Teresa da Amazônia" virou um nada, recolhendo-se ao imenso oceano da medíocre insignificância política.
 
Hoje, Marina tem tantas chances de ir ao 2º turno quanto o energúmeno Levy Fidelix -- até nome de personagem de gibi o sujeito tem... --, ou seja, nenhuma.
 
E, surpreendentemente, quem ressuscita dos mortos é a candidatura tucana e a sua plataforma de xoque de jestão para "arrendar o Brasil", algo que se imaginava engavetado e trancado para sempre no passado triste da nossa história, o que mostra a aptidão de parte da população ao sadomasoquismo.
 
Porém, ainda que o zumbi Aécio e o projeto neoliberal flertem com o renascimento, o fim de Marina torna muito grande a chance de uma vitória de Dilma no 1º turno.
 
E isso é ótimo para o Estado brasileiro, pois já a partir de segunda-feira se poderia reiniciar um renovado governo com o novo mandato.
 
Novos ministros, novas equipes política e técnica, novas pautas, novas ações e o mesmo norte: "País rico é país sem miséria".

Mas, ainda que não seja no 1º turno, a eleição certamente se dará no 2º, haja vista a absoluta distância, em todos os sentidos, para as demais candidaturas. 

E aí a reempossada Presidenta precisará arregalar os olhos e fazer um tête-à-tête com o espelho, narcisisticamente às avessas.
 
Já se disse aqui (e aqui, e aqui, e aqui) sobre a necessidade premente de que, agora ou nunca, Dilma Rousseff precisa reforçar o seu nome na História, já não apenas como a brava militante que nos anos 60 enfrentou heroicamente os milicos e os seus canhões, mas como uma grande Chefe da nossa República.

Dilma precisa, a exemplo do que faz Fernando Haddad na prefeitura de São Paulo,  promover um governo cuja gestão não tenha outros fins senão a transformação do país, ainda que para isso o custo político, e de enfrentar os donos do poder, seja bastante elevado, quase num limite do temerário.

Precisa compreender todos os recados das ruas e dos votos protestantes para energizar e intensificar a democracia, trazer a população para o centro das decisões, abusando da participação direta com referendos, plebiscitos e audiências públicas concretas, de modo a vitalizar o povo brasileiro, como tão bem ensinam Boaventura Santos e Mangabeira Unger.

Precisa recompor o velejar e recriar instituições, comprometendo-se em aprofundar questões chaves do nosso Estado: revoluções agrária, na mobilidade e moradia urbanas, na regulação da mídia, nas agências reguladoras, nas políticas fiscal e industrial, nas políticas de acesso à renda e às oportunidades, na segurança pública, na saúde e, claro, na educação média e fundamental.

Precisa, definitivamente, parar de dançar com o diabo, em alianças cuja inevitabilidade já tem um preço com custos perigosamente irrecuperáveis.

Precisa fazer do PT, e das políticas e lutas históricas do partido, o núcleo capital da navegação, convocando os quadros técnica e politicamente comprometidos com o projeto do Governo e, pois, mitigando ao máximo a influência nefasta daquela gente fruto de coligações e apoios sem pé e muito menos cabeça.

Precisa dizer que a garantia é ela, que a vitória é deles e, ainda que muito doa, que a banda passará a tocar de outro jeito, demonstrando à população, claramente, de que lado o Congresso Nacional passará a estar -- e, para isso, a urgente necessidade de se adonar da própria voz (v. aqui).

Precisa perceber o fim de um ciclo e que a hora é de avançar para "mudar mais".

Precisa, enfim, reguiar o leme à esquerda.

Avante, Dilma!


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

# e la nova va...




A França -- e o mundo todo, como a Itália de Federico Fellini --, vejam só, também já entendeu o que tem de "novo" na política de Marina, a nossa Madre Teresa da Amazônia (v. aqui), e para onde vai: é a nova direita...


terça-feira, 16 de setembro de 2014

# às claras


Já se falou aqui (e aqui, aqui, aqui) de que a tão auspiciosa candidatura de Marina Silva, a nossa "Madre Teresa da Amazônia", é a degradação em potencial da política, com a despolitização da vida pública e apolitização da vida social.

E acho que já foi o suficiente para deixar claro o que significa isso tudo.

É hora de começar a falar do que Dilma e o PT têm feito -- e do que muito mais se precisa fazer. 

E de lembrar, também, de que aqui (aquiaqui e aqui, por exemplo) já muito se criticou este terceiro governo petista. 

Mas, claro, diante do que se tem à mesa não há como sequer comparar Dilma com a sua adversária, e muito menos o PT com legendas como o PSB.

Antes, uma premissa escancarada: o PT é o único partido político minimamente organizado, estruturado e programado deste país. Não à toa, dos outros dez candidatos à presidência, 6 (seis!) estiveram no PT, com sérias e duradouras ligações, saindo dele pelos mais diversos motivos e sob as mais variadas causas e desculpas, verdades e mentiras.

Para um apanhado geral, comecemos pelo assunto mais midiático de todos: "corrupção".

Nunca antes na história deste país se jogou tão às claras sobre o assunto.

Nunca se combateu tanto, nunca se abriram tantas portas e nunca se deixou tanto a claridade entrar -- o sol, afinal, é o melhor desinfetante.

Ora, o combate à corrupção não é mera retórica. Enfrentá-la não é simplificar tudo na base meiga do “é bom ser do bem". Reconhecê-la não se sustenta na ideia de que na política é sempre assim ou no dogma da sua inevitabilidade tropical, como o fruto proibido eterno do lado de cá do Equador.

A questão, pois, está na criação de mecanismos institucionais de controle.

E na não-ilusão de que o mundo dos anjos deveria estar na política ou de que o mundo privado deveria ser exemplo para alguma coisa. 

Inclusive porque está no próprio mundo privado a nascente dos crimes -- a empresa é o "sujeito ativo" do crime de corrupção --, e é neste modus operandi do mundo privado que está, em regra, o segredo da grana e do sucesso. A propósito, foi no Governo Dilma, frise-se, que se criou uma lei responsabilizando administrativa e civilmente as empresas pela prática de atos contra o a Administração Pública.


Nesses quatro anos, o Governo Dilma ordenou à Polícia Federal a mais ampla liberdade de ação -- sim, mandou que tivessem liberdade, por mais estranho que isso pareça.

E se foi a fundo, na medida do possível e na medida dos freios aos impulsos democráticos impostos pelo impávido e colosso Poder Judiciário (v. aqui).

Nesses quatro anos, a Corregedoria-Geral da União -- criada por Lula e que, no âmbito do Poder Executivo, é a responsável pela defesa patrimônio público e ao incremento da transparência da gestão, por meio das atividades de controle interno, auditoria pública, correição, prevenção e combate à corrupção -- investigou e trabalhou com rara intensidade.

Nesses quatro anos, o Procurador-Geral da República -- na chefia de órgão independente que zela pelos interesses públicos, difusos e coletivos da sociedade --, não titubeou em nenhum momento e sob nenhuma circunstância, bem diferente dos anos dourados tucanos, em que tal autoridade ficou conhecida como "Engavetador-Geral da República".

É por isso que as coisas que sempre aconteceram só agora "acontecem", "surgem" e "vazam" -- e ainda bem.


E, claro, é por isso que a sensação é a de que se tem mais corrupção, mais malversações e mais filhos da puta no ambiente das relações público-público ou público-privado.

Evidentemente, os fatos que pululam são um prato-cheio para a grande mídia servir ao público, de modo a desgastar o partido do Governo (PT) e, claro, a Política.

Afinal, não se deixe dourar a pílula: a elite brasileira tem medo, muito medo da Política (v. aqui).

E do povo.

Por isso o Brasil precisa parar de ser hipócrita ou inocente acerca deste assunto.
E os brasileiros precisam parar de achar que tal praga é nosso privilégio ou coisa tupiniquim -- v. aqui, por exemplo --, e de usar qualquer outro argumento que, no fundo, quer apenas retirar da Política a arte de resolver as grandes questões nacionais.

E fazer acreditar, pois, em fadas e unicórnios.

Ou no mercado (v. aqui e aqui). 


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

# aspas (xliii)


Boaventura de Souza Santos -- cientista social de escol, professor catedrático da Universidade de Coimbra e coordenador do "Projeto Alice" (v. aqui) --, a respeito da candidatura da Gandhi de saias, a nossa Madre Marina da Amazônia (v. aqui):


Marina Silva é um 'instrumento' da direita brasileira, que entendeu ser muito difícil voltar ao poder diretamente por meio de uma disputa ideológica entre Dilma Rousseff e Aécio Neves.
A direita descobriu, muito rapidamente, que Aécio Neves não é de forma nenhuma uma alternativa, porque faria uma disputa ideológica entre esquerda e direita.
As forças que sempre governaram o Brasil viram que era mais fácil chegar ao poder sem fazer essa disputa ideológica, utilizando uma terceira pessoa, que combina em sua ambiguidade alguns elementos de esquerda, não pelo que diz hoje, mas pelo que foi.
Tem que usar um desvio e o desvio necessário é buscar alguém que tem um perfil de esquerda para depois instrumentalizá-la. Marina Silva é, neste momento, esse instrumento. É, portanto, um desvio a que a direita é forçada para conquistar o poder.
Para nós, que viemos da Europa, basta quando vem aquela frase mágica da independência do Banco Central... É a grande marca do modelo neoliberal.
Tive o cuidado de ver o programa da Marina Silva e, obviamente, uma das coisas que diz o programa de política externa é, no fundo, voltar ao tradicional alinhamento do Brasil com os Estados Unidos.  
É só saber ler seu programa. As perspectivas são as políticas neoliberais.
Penso que essa fulguração de Marina atingiu seu máximo. As pessoas começam a ver os riscos por trás de uma política nova que, afinal, é bastante velha; a ver a fragilidade da Marina com as oscilações perante aqueles que controlam sua campanha e que lhe dão apoio.
Continua a haver uma esperança de que, no segundo mandato, a presidente Dilma vá fazer o que se espera de um governo do PT.
Ao passo que da Marina Silva, francamente, não há nada a esperar. 


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

# zumbília


Apesar de todo o blá-blá-blá sem sentido algum, muito bem se sabe o que se terá com Marina Silva na presidência da República: uma sopa rança temperada com raspas de tucano.

Não é medo preconceituoso, mas simples fobia conceitual da nossa recente história. 

E se Marina, a Gandhi amazônica, não precisava de mais provas do que pretendia sob os escombros do seu discurso vago, lunático e dissimulado, eis que pululam fatos.

Marina, com esteio no seu merchand da "nova política", traveste os farrapos da trupe neoliberal que se imaginava trancafiados num baú ou presos para sempre num passado (ainda) remoto.  

Marina, uma espécie de unicórnio da política, quer um banco central independente, e ao mesmo tempo quer a soberania econômico-financeira do Brasil.

Marina, herdeira única do trono episcopal, é contra as políticas de direitos de homossexuais, mas ao mesmo tempo é contra a discriminação de orientação sexual.

Marina, uma metamorfose anódina e histriônica, não aceita, mas também não recusa, doações de empresas de bebida, de tabaco e de agrotóxicos.

Marina, no seu jeito vaga-lume de ser, não é a favor e nem contra os transgênicos, nem quer e nem desquer a reforma agrária, apoia e desapoia as lutas no campo..

Marina, a Viúva Branca (v. aqui), diz, desdiz, contradiz e rediz coisas, as mesmas coisas, a todo instante e sobre variados temas, num circunlóquio constrangedor.

E não bastassem estas (e outras tantas) peripécias da candidata canonizada pela classe média brasileira e pelos discípulos de junho de 2013 (v. aqui e aqui), eis que Marina vem se superando.

Agora, vejam só, ela é contra a revisão da lei de anista aos torturadores da ditadura militar (v. aqui).

Diante de tão inusitada postura, os velhos milicos do Clube Militar do Rio de Janeiro, antro mofo dos reacionários de carteirinha, declaram-se fiéis eleitores da mítica candidata (v. aqui). 

E nada mais é preciso dizer.

A não ser cogitar o próximo ressuscitado: o barbeiro, da doença de Chagas. 


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

# atleticania (xviii)


De longe tudo pode parecer mais bonito.

A miopia da saudade, assim, provoca-nos a imaginar, a sonhar, a delirar sobre a realidade.

Nesta noite, o Clube Atlético Paranaense finalmente voltou para a sua terra e a sua gente.

Anos e anos de punição, de sofrimento e de mal-tratos que causaram a separação mais triste e longa da história do maior clube do Paraná: a torcida e a sua casa.

Hospedados nos mais diversos campos de Curitiba e do Brasil, a torcida do Atlético perfazia-se caixeira-viajante, um saltimbanco ciganeando pelos caminhos tortuosos de espaços alheios, acenando timidamente um lenço vermelho-e-preto apenas para não perder o rumo do vento e não abafar a ideia fixa na cabeça.

Desconfortável, se amontoava para tentar acompanhar os fracos times montados.

Reinante, não largou a sua paixão em nenhuma destas mais de mil e uma noites.

E hoje tudo passou, e a torcida rubro-negra manteve-se firme na prova da sua intransponível devoção. 

Agora, o Atlético, e a sua massa fanática como a maior razão de ser, só volta a exigir respeito.

E consideração, que não significa apenas ter o melhor estádio do Brasil e a melhor gestão financeira do nosso futebol.

Mas, sim, ver dentro das quatro linhas um grande time.

Que vista a camisa rubro-negra por amor.

Que tenha o sangue forte e o vigor sem jaça.

E que tenha a qualidade digna da sua estrutura e da sua gente.

Das arquibancadas, os jogadores já sabem, não se terá um minuto sequer de silêncio.

Resta agora partir para o plano de jogo, pois a novíssima Baixada já está feita e entregue.

Adonada pelos milhões de atleticanos está grandiosa como sempre.

E como hoje.

Numa noite em que olhava Deivid mas via Franz Beckenbauer.


# aspas (xlii)


A fascinante crônica do Velho Cronista sobre a grande noite que se reinaugura logo mais.

E nada mais precisa ser dito (v. aqui).

Olhe lá, a Baixada quieta, calada feito criança culpada, não dispara um único som. Dorme um sono pesado, de concreto e ferro fundido.
Descansa, calma feito noite fria.
Tudo está quieto demais no front.
As trincheiras estão vazias, os bunkers estão desabitados, as casamatas estão desguarnecidas.
E todos nós já vimos filmes de guerra o bastante para saber que esse silêncio verborrágico, essa calada perniciosa, prenuncia um estrondo fatal e desvairado.
Na calada da noite, enquanto os santos dormem, uma multidão inteira, com pensamentos peçonhentos, ocupa as trilhas que levam ao Estádio Joaquim Américo.
E quando nos dermos conta, aquele estádio estará integralmente tomado por um povo ensandecido, com pavilhões e fardas a chacoalhar nas mãos, ecoando cânticos elevados e promissores.
Quando rebentar o primeiro disparo será como o estouro de mil manadas a correr, cascos febris castigando o concreto em galopes ligeiros.
Hoje, a imensa torcida do Clube Atlético Paranaense vai matar, com ferroadas lancinantes de fascínio, toda a saudade da sua casa.
E a massa vermelha nem vai ter tempo de chorar a emoção da volta. Mal vai pisar no concreto imaculado da Baixada e já vai ter de entoar gritos de escora e auxílio, empurrando o escrete para cima do adversário, posto que o encargo do Atlético-PR é mastodôntico: precisa impor terríveis três gols no tinhoso time do América-RN.
Quarenta mil almas serão forjadas no desespero e na aflição, curvando a cada giro do relógio. Os céticos – se é que ainda existem depois daquele embate contra o Sporting Cristal, comprado no calor das penalidades – que não apareçam por lá.
Este estádio, meus caros, não foi erguido para incrédulos. Ele foi feito para quem, à imagem dele, foi criado a ferro e fogo, a quem tem vigas no lugar de veias, a quem traz na espinha dorsal a firme convicção da virada.
Os ateus, portanto, que deixem espaço para quem segue esse time por toda parte.
Hoje, Curitiba sairá toda em romaria, gente de fé, multidão inteira, órfã de casa há mais de mil dias, que vem de pegar emprestados campos e arquibancadas Brasil afora, e que anseia em lançar mão de uma só vez sobre aquele campo que é só seu.
O Atlético-PR está voltando, enfim, para casa. E ele chega, pontual, no momento mais perfeito para o regresso: quando os estádios todos da Copa do Mundo já estão usados, frequentados, consumidos. O Joaquim Américo estreia hoje intacto. É como a joia guardada para o final, o presente que chega por último.
Obrigado aos Castelões, às Arena Manaus, às Fontes Novas, que abriram o espetáculo, mas é hora do recital principal.
Agora, todas as luzes desses holofotes curiosos estão mirando exatamente ela, a Baixada, que debuta hoje.
Morteiros vermelhos cruzarão os céus, canhões serão apontados para o centro da grama, lanças e setas viajarão pelo terreno. E o povão ensandecido encherá de cor aquele cinza e o Brasil inteiro verá que a palidez do cimento deste estádio é proposital – a matiz deste campo pertence ao povaréu nas arquibancadas, às camisas e flâmulas que tremulam incansáveis.
A Arena da Baixada hibernou por duas eternidades e agora se levanta.
E o país inteiro vai estremecer ao som dos seus rugidos.



segunda-feira, 1 de setembro de 2014

# falso atalho




Marina Silva, a Ghandi amazônica, é a infundada opção para a turma apolítica que se finge ser "contra tudo isso que aí está", mas que na verdade tem apenas vergonha de vestir o luto tucano e ir às ruas declarar seu fúnebre apoio ao PSDB – por isso, fica muito mais fácil e descolado aceitar goela abaixo esta midiática operação "besta de Troia".