domingo, 5 de outubro de 2014

# o pulso da direita


O pulso tucano ainda pulsa... O pulso tucano ainda pulsa.

Peste bubônica, câncer, FMI, precarização.

Raiva, arrocho, anemia, privatização.

Rancor, latifúndio, passado, penumbra, apagão.

Livre-mercado, super-mercado, deus-mercado, terceirização.

E o pulso tucano ainda pulsa... E o pulso tucano ainda pulsa...

Choques, miséria, meritocracia, fetiches, paralisia.

Ódio, retrocesso, castas, pirâmide, esquizofrenia.

Fome, entreguismo, petrobrax, coques de luxo, afasia.

Elite, branqueamento, individualismo, plutocracia.

Conservadorismo, pirataria, especulação, hipocrisia.

E o corpo ainda é pouco... E o corpo ainda é pouco...

Minas, miopia, mito, mínimo, misticismo, raquitismo estatal.

Washington, culpa, crise, cárie, cãimbra, banco mundial.

Armínio, Aécio, agências, alienação, apolítica, torniquete fiscal.

Tétano, ralo, juros, jaula, joelho, globo, gado, capital.

Desigualdade, desemprego, viralatismo, estado neoliberal.

E o pulso ainda pulso.

E o corpo ainda é pouco.

Pulso... Pulso...

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

# primeiro ou segundo turno


E a nossa Gandhi de saia já era.
 
Sim, passou a onda e o blá-blá-blá dos últimos trinta dias -- sem sentido, turvo e desconexo da realidade -- promovido pela "Madre Teresa da Amazônia" virou um nada, recolhendo-se ao imenso oceano da medíocre insignificância política.
 
Hoje, Marina tem tantas chances de ir ao 2º turno quanto o energúmeno Levy Fidelix -- até nome de personagem de gibi o sujeito tem... --, ou seja, nenhuma.
 
E, surpreendentemente, quem ressuscita dos mortos é a candidatura tucana e a sua plataforma de xoque de jestão para "arrendar o Brasil", algo que se imaginava engavetado e trancado para sempre no passado triste da nossa história, o que mostra a aptidão de parte da população ao sadomasoquismo.
 
Porém, ainda que o zumbi Aécio e o projeto neoliberal flertem com o renascimento, o fim de Marina torna muito grande a chance de uma vitória de Dilma no 1º turno.
 
E isso é ótimo para o Estado brasileiro, pois já a partir de segunda-feira se poderia reiniciar um renovado governo com o novo mandato.
 
Novos ministros, novas equipes política e técnica, novas pautas, novas ações e o mesmo norte: "País rico é país sem miséria".

Mas, ainda que não seja no 1º turno, a eleição certamente se dará no 2º, haja vista a absoluta distância, em todos os sentidos, para as demais candidaturas. 

E aí a reempossada Presidenta precisará arregalar os olhos e fazer um tête-à-tête com o espelho, narcisisticamente às avessas.
 
Já se disse aqui (e aqui, e aqui, e aqui) sobre a necessidade premente de que, agora ou nunca, Dilma Rousseff precisa reforçar o seu nome na História, já não apenas como a brava militante que nos anos 60 enfrentou heroicamente os milicos e os seus canhões, mas como uma grande Chefe da nossa República.

Dilma precisa, a exemplo do que faz Fernando Haddad na prefeitura de São Paulo,  promover um governo cuja gestão não tenha outros fins senão a transformação do país, ainda que para isso o custo político, e de enfrentar os donos do poder, seja bastante elevado, quase num limite do temerário.

Precisa compreender todos os recados das ruas e dos votos protestantes para energizar e intensificar a democracia, trazer a população para o centro das decisões, abusando da participação direta com referendos, plebiscitos e audiências públicas concretas, de modo a vitalizar o povo brasileiro, como tão bem ensinam Boaventura Santos e Mangabeira Unger.

Precisa recompor o velejar e recriar instituições, comprometendo-se em aprofundar questões chaves do nosso Estado: revoluções agrária, na mobilidade e moradia urbanas, na regulação da mídia, nas agências reguladoras, nas políticas fiscal e industrial, nas políticas de acesso à renda e às oportunidades, na segurança pública, na saúde e, claro, na educação média e fundamental.

Precisa, definitivamente, parar de dançar com o diabo, em alianças cuja inevitabilidade já tem um preço com custos perigosamente irrecuperáveis.

Precisa fazer do PT, e das políticas e lutas históricas do partido, o núcleo capital da navegação, convocando os quadros técnica e politicamente comprometidos com o projeto do Governo e, pois, mitigando ao máximo a influência nefasta daquela gente fruto de coligações e apoios sem pé e muito menos cabeça.

Precisa dizer que a garantia é ela, que a vitória é deles e, ainda que muito doa, que a banda passará a tocar de outro jeito, demonstrando à população, claramente, de que lado o Congresso Nacional passará a estar -- e, para isso, a urgente necessidade de se adonar da própria voz (v. aqui).

Precisa perceber o fim de um ciclo e que a hora é de avançar para "mudar mais".

Precisa, enfim, reguiar o leme à esquerda.

Avante, Dilma!


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

# e la nova va...




A França -- e o mundo todo, como a Itália de Federico Fellini --, vejam só, também já entendeu o que tem de "novo" na política de Marina, a nossa Madre Teresa da Amazônia (v. aqui), e para onde vai: é a nova direita...


terça-feira, 16 de setembro de 2014

# às claras


Já se falou aqui (e aqui, aqui, aqui) de que a tão auspiciosa candidatura de Marina Silva, a nossa "Madre Teresa da Amazônia", é a degradação em potencial da política, com a despolitização da vida pública e apolitização da vida social.

E acho que já foi o suficiente para deixar claro o que significa isso tudo.

É hora de começar a falar do que Dilma e o PT têm feito -- e do que muito mais se precisa fazer. 

E de lembrar, também, de que aqui (aquiaqui e aqui, por exemplo) já muito se criticou este terceiro governo petista. 

Mas, claro, diante do que se tem à mesa não há como sequer comparar Dilma com a sua adversária, e muito menos o PT com legendas como o PSB.

Antes, uma premissa escancarada: o PT é o único partido político minimamente organizado, estruturado e programado deste país. Não à toa, dos outros dez candidatos à presidência, 6 (seis!) estiveram no PT, com sérias e duradouras ligações, saindo dele pelos mais diversos motivos e sob as mais variadas causas e desculpas, verdades e mentiras.

Para um apanhado geral, comecemos pelo assunto mais midiático de todos: "corrupção".

Nunca antes na história deste país se jogou tão às claras sobre o assunto.

Nunca se combateu tanto, nunca se abriram tantas portas e nunca se deixou tanto a claridade entrar -- o sol, afinal, é o melhor desinfetante.

Ora, o combate à corrupção não é mera retórica. Enfrentá-la não é simplificar tudo na base meiga do “é bom ser do bem". Reconhecê-la não se sustenta na ideia de que na política é sempre assim ou no dogma da sua inevitabilidade tropical, como o fruto proibido eterno do lado de cá do Equador.

A questão, pois, está na criação de mecanismos institucionais de controle.

E na não-ilusão de que o mundo dos anjos deveria estar na política ou de que o mundo privado deveria ser exemplo para alguma coisa. 

Inclusive porque está no próprio mundo privado a nascente dos crimes -- a empresa é o "sujeito ativo" do crime de corrupção --, e é neste modus operandi do mundo privado que está, em regra, o segredo da grana e do sucesso. A propósito, foi no Governo Dilma, frise-se, que se criou uma lei responsabilizando administrativa e civilmente as empresas pela prática de atos contra o a Administração Pública.


Nesses quatro anos, o Governo Dilma ordenou à Polícia Federal a mais ampla liberdade de ação -- sim, mandou que tivessem liberdade, por mais estranho que isso pareça.

E se foi a fundo, na medida do possível e na medida dos freios aos impulsos democráticos impostos pelo impávido e colosso Poder Judiciário (v. aqui).

Nesses quatro anos, a Corregedoria-Geral da União -- criada por Lula e que, no âmbito do Poder Executivo, é a responsável pela defesa patrimônio público e ao incremento da transparência da gestão, por meio das atividades de controle interno, auditoria pública, correição, prevenção e combate à corrupção -- investigou e trabalhou com rara intensidade.

Nesses quatro anos, o Procurador-Geral da República -- na chefia de órgão independente que zela pelos interesses públicos, difusos e coletivos da sociedade --, não titubeou em nenhum momento e sob nenhuma circunstância, bem diferente dos anos dourados tucanos, em que tal autoridade ficou conhecida como "Engavetador-Geral da República".

É por isso que as coisas que sempre aconteceram só agora "acontecem", "surgem" e "vazam" -- e ainda bem.


E, claro, é por isso que a sensação é a de que se tem mais corrupção, mais malversações e mais filhos da puta no ambiente das relações público-público ou público-privado.

Evidentemente, os fatos que pululam são um prato-cheio para a grande mídia servir ao público, de modo a desgastar o partido do Governo (PT) e, claro, a Política.

Afinal, não se deixe dourar a pílula: a elite brasileira tem medo, muito medo da Política (v. aqui).

E do povo.

Por isso o Brasil precisa parar de ser hipócrita ou inocente acerca deste assunto.
E os brasileiros precisam parar de achar que tal praga é nosso privilégio ou coisa tupiniquim -- v. aqui, por exemplo --, e de usar qualquer outro argumento que, no fundo, quer apenas retirar da Política a arte de resolver as grandes questões nacionais.

E fazer acreditar, pois, em fadas e unicórnios.

Ou no mercado (v. aqui e aqui). 


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

# aspas (xliii)


Boaventura de Souza Santos -- cientista social de escol, professor catedrático da Universidade de Coimbra e coordenador do "Projeto Alice" (v. aqui) --, a respeito da candidatura da Gandhi de saias, a nossa Madre Marina da Amazônia (v. aqui):


Marina Silva é um 'instrumento' da direita brasileira, que entendeu ser muito difícil voltar ao poder diretamente por meio de uma disputa ideológica entre Dilma Rousseff e Aécio Neves.
A direita descobriu, muito rapidamente, que Aécio Neves não é de forma nenhuma uma alternativa, porque faria uma disputa ideológica entre esquerda e direita.
As forças que sempre governaram o Brasil viram que era mais fácil chegar ao poder sem fazer essa disputa ideológica, utilizando uma terceira pessoa, que combina em sua ambiguidade alguns elementos de esquerda, não pelo que diz hoje, mas pelo que foi.
Tem que usar um desvio e o desvio necessário é buscar alguém que tem um perfil de esquerda para depois instrumentalizá-la. Marina Silva é, neste momento, esse instrumento. É, portanto, um desvio a que a direita é forçada para conquistar o poder.
Para nós, que viemos da Europa, basta quando vem aquela frase mágica da independência do Banco Central... É a grande marca do modelo neoliberal.
Tive o cuidado de ver o programa da Marina Silva e, obviamente, uma das coisas que diz o programa de política externa é, no fundo, voltar ao tradicional alinhamento do Brasil com os Estados Unidos.  
É só saber ler seu programa. As perspectivas são as políticas neoliberais.
Penso que essa fulguração de Marina atingiu seu máximo. As pessoas começam a ver os riscos por trás de uma política nova que, afinal, é bastante velha; a ver a fragilidade da Marina com as oscilações perante aqueles que controlam sua campanha e que lhe dão apoio.
Continua a haver uma esperança de que, no segundo mandato, a presidente Dilma vá fazer o que se espera de um governo do PT.
Ao passo que da Marina Silva, francamente, não há nada a esperar. 


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

# zumbília


Apesar de todo o blá-blá-blá sem sentido algum, muito bem se sabe o que se terá com Marina Silva na presidência da República: uma sopa rança temperada com raspas de tucano.

Não é medo preconceituoso, mas simples fobia conceitual da nossa recente história. 

E se Marina, a Gandhi amazônica, não precisava de mais provas do que pretendia sob os escombros do seu discurso vago, lunático e dissimulado, eis que pululam fatos.

Marina, com esteio no seu merchand da "nova política", traveste os farrapos da trupe neoliberal que se imaginava trancafiados num baú ou presos para sempre num passado (ainda) remoto.  

Marina, uma espécie de unicórnio da política, quer um banco central independente, e ao mesmo tempo quer a soberania econômico-financeira do Brasil.

Marina, herdeira única do trono episcopal, é contra as políticas de direitos de homossexuais, mas ao mesmo tempo é contra a discriminação de orientação sexual.

Marina, uma metamorfose anódina e histriônica, não aceita, mas também não recusa, doações de empresas de bebida, de tabaco e de agrotóxicos.

Marina, no seu jeito vaga-lume de ser, não é a favor e nem contra os transgênicos, nem quer e nem desquer a reforma agrária, apoia e desapoia as lutas no campo..

Marina, a Viúva Branca (v. aqui), diz, desdiz, contradiz e rediz coisas, as mesmas coisas, a todo instante e sobre variados temas, num circunlóquio constrangedor.

E não bastassem estas (e outras tantas) peripécias da candidata canonizada pela classe média brasileira e pelos discípulos de junho de 2013 (v. aqui e aqui), eis que Marina vem se superando.

Agora, vejam só, ela é contra a revisão da lei de anista aos torturadores da ditadura militar (v. aqui).

Diante de tão inusitada postura, os velhos milicos do Clube Militar do Rio de Janeiro, antro mofo dos reacionários de carteirinha, declaram-se fiéis eleitores da mítica candidata (v. aqui). 

E nada mais é preciso dizer.

A não ser cogitar o próximo ressuscitado: o barbeiro, da doença de Chagas. 


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

# atleticania (xviii)


De longe tudo pode parecer mais bonito.

A miopia da saudade, assim, provoca-nos a imaginar, a sonhar, a delirar sobre a realidade.

Nesta noite, o Clube Atlético Paranaense finalmente voltou para a sua terra e a sua gente.

Anos e anos de punição, de sofrimento e de mal-tratos que causaram a separação mais triste e longa da história do maior clube do Paraná: a torcida e a sua casa.

Hospedados nos mais diversos campos de Curitiba e do Brasil, a torcida do Atlético perfazia-se caixeira-viajante, um saltimbanco ciganeando pelos caminhos tortuosos de espaços alheios, acenando timidamente um lenço vermelho-e-preto apenas para não perder o rumo do vento e não abafar a ideia fixa na cabeça.

Desconfortável, se amontoava para tentar acompanhar os fracos times montados.

Reinante, não largou a sua paixão em nenhuma destas mais de mil e uma noites.

E hoje tudo passou, e a torcida rubro-negra manteve-se firme na prova da sua intransponível devoção. 

Agora, o Atlético, e a sua massa fanática como a maior razão de ser, só volta a exigir respeito.

E consideração, que não significa apenas ter o melhor estádio do Brasil e a melhor gestão financeira do nosso futebol.

Mas, sim, ver dentro das quatro linhas um grande time.

Que vista a camisa rubro-negra por amor.

Que tenha o sangue forte e o vigor sem jaça.

E que tenha a qualidade digna da sua estrutura e da sua gente.

Das arquibancadas, os jogadores já sabem, não se terá um minuto sequer de silêncio.

Resta agora partir para o plano de jogo, pois a novíssima Baixada já está feita e entregue.

Adonada pelos milhões de atleticanos está grandiosa como sempre.

E como hoje.

Numa noite em que olhava Deivid mas via Franz Beckenbauer.


# aspas (xlii)


A fascinante crônica do Velho Cronista sobre a grande noite que se reinaugura logo mais.

E nada mais precisa ser dito (v. aqui).

Olhe lá, a Baixada quieta, calada feito criança culpada, não dispara um único som. Dorme um sono pesado, de concreto e ferro fundido.
Descansa, calma feito noite fria.
Tudo está quieto demais no front.
As trincheiras estão vazias, os bunkers estão desabitados, as casamatas estão desguarnecidas.
E todos nós já vimos filmes de guerra o bastante para saber que esse silêncio verborrágico, essa calada perniciosa, prenuncia um estrondo fatal e desvairado.
Na calada da noite, enquanto os santos dormem, uma multidão inteira, com pensamentos peçonhentos, ocupa as trilhas que levam ao Estádio Joaquim Américo.
E quando nos dermos conta, aquele estádio estará integralmente tomado por um povo ensandecido, com pavilhões e fardas a chacoalhar nas mãos, ecoando cânticos elevados e promissores.
Quando rebentar o primeiro disparo será como o estouro de mil manadas a correr, cascos febris castigando o concreto em galopes ligeiros.
Hoje, a imensa torcida do Clube Atlético Paranaense vai matar, com ferroadas lancinantes de fascínio, toda a saudade da sua casa.
E a massa vermelha nem vai ter tempo de chorar a emoção da volta. Mal vai pisar no concreto imaculado da Baixada e já vai ter de entoar gritos de escora e auxílio, empurrando o escrete para cima do adversário, posto que o encargo do Atlético-PR é mastodôntico: precisa impor terríveis três gols no tinhoso time do América-RN.
Quarenta mil almas serão forjadas no desespero e na aflição, curvando a cada giro do relógio. Os céticos – se é que ainda existem depois daquele embate contra o Sporting Cristal, comprado no calor das penalidades – que não apareçam por lá.
Este estádio, meus caros, não foi erguido para incrédulos. Ele foi feito para quem, à imagem dele, foi criado a ferro e fogo, a quem tem vigas no lugar de veias, a quem traz na espinha dorsal a firme convicção da virada.
Os ateus, portanto, que deixem espaço para quem segue esse time por toda parte.
Hoje, Curitiba sairá toda em romaria, gente de fé, multidão inteira, órfã de casa há mais de mil dias, que vem de pegar emprestados campos e arquibancadas Brasil afora, e que anseia em lançar mão de uma só vez sobre aquele campo que é só seu.
O Atlético-PR está voltando, enfim, para casa. E ele chega, pontual, no momento mais perfeito para o regresso: quando os estádios todos da Copa do Mundo já estão usados, frequentados, consumidos. O Joaquim Américo estreia hoje intacto. É como a joia guardada para o final, o presente que chega por último.
Obrigado aos Castelões, às Arena Manaus, às Fontes Novas, que abriram o espetáculo, mas é hora do recital principal.
Agora, todas as luzes desses holofotes curiosos estão mirando exatamente ela, a Baixada, que debuta hoje.
Morteiros vermelhos cruzarão os céus, canhões serão apontados para o centro da grama, lanças e setas viajarão pelo terreno. E o povão ensandecido encherá de cor aquele cinza e o Brasil inteiro verá que a palidez do cimento deste estádio é proposital – a matiz deste campo pertence ao povaréu nas arquibancadas, às camisas e flâmulas que tremulam incansáveis.
A Arena da Baixada hibernou por duas eternidades e agora se levanta.
E o país inteiro vai estremecer ao som dos seus rugidos.



segunda-feira, 1 de setembro de 2014

# falso atalho




Marina Silva, a Ghandi amazônica, é a infundada opção para a turma apolítica que se finge ser "contra tudo isso que aí está", mas que na verdade tem apenas vergonha de vestir o luto tucano e ir às ruas declarar seu fúnebre apoio ao PSDB – por isso, fica muito mais fácil e descolado aceitar goela abaixo esta midiática operação "besta de Troia".



quinta-feira, 28 de agosto de 2014

# mundo de oz


Devo fazer uma confissão, doída, mas precisa: a fina massa votante no projeto demo-tucano de sociedade e de país é merecedora dos meus respeitos.

Sim, como se trata de política, os cidadãos que votam no PSDB e no seu candidato, Aécio Neves, acreditam em algo corpóreo, em algo palpável, que existe, que tem forma, que tem cor, que tem gosto, que se pode ver, ouvir e cheirar. 

Independentemente de serem qualificadas sob os piores adjetivos possíveis, votar no PSDB é votar em teses, teorias e ideologia concretas. É votar em algo fisicamente possível, em algo quântico, quantificável, possível de ser selado, registrado e carimbado, por mais que o voo seja restrito só para as primeiras classes.

Sim, no plano da política e da conformação estatal, o PSDB e as suas pautas existem, as suas vontades e ações são propositadas, pertinentes e coerentes com os seus interesses, e os seus interesses, por sua vez, não se escondem e nem se dissimulam na demagogia existencial.

E tudo isso porque se fala de "política", e não de religião, na qual crer no metafísico ou na fé movedora de montanhas não permite discussão sobre razões ou porquês.

E tudo isso porque se fala de "projeto político", e não de projeção de ficção científica, na qual o imaginário, o impossível e o inverossímil seriam naturais e funcionais.

Portanto, votar no PSDB está numa dimensão real e humana, razão pela qual os seus ex-eleitores não precisam ter vergonha e fugir da raia para se esconder na obnubilação alheia.

Ao contrário, votar em Marina Silva, sem partido, sem lógica e sem noção, é votar numa onda espiritual, num mundo de fantasia, num conto de fadas, numa ideia de reino encantado e celestial que só cabe para se discutir e pensar religião e ficção.

E não política, e não o Estado.


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

# alegorias e sátiras


Pela sopa de coligações, regimentos, alianças e conchavos que conformam a política de hoje, nunca mais o Brasil verá grandes debates, opondo ideias e propostas individualmente claras com dezenas de grandes partidos e as suas máximas e sérias lideranças.
 
Por isso, doravante os debates sempre serão o que se viu ontem: voláteis, vulgares e vazios.
 
Mas, mesmo assim, alguma análise se pode fazer  e v. aqui um bom resumo.
 
A primeira, é da absoluta necessidade de volte-e-meia se ver esta gente que radicaliza. Mas não radicais preconceituosos, reacionários e bandidos, que usam da posição parlamentar ou cívica para blasfemar contra pobres, negros, homossexuais etc., e nem os "radicais de conveniência", que falam apenas para tentar soarem bem, ficando claro que não acreditam numa só gota do que dizem. 

Falo, pois, dos radicais utópicos, heréticos e malditos que gritam contra o pensamento único político, econômico, cultural e moral, como ontem figuraram Luciana Genro (PSOL) e, ainda que de forma meio histriônica, Eduardo Jorge (PV). Eles, se não servem para nada sob o ponto de vista da praxis política, servem ao menos para lembrar que nestes delírios e nessas mais descabeladas fantasias é que reside o "ser" humano.
 
Depois, mais uma confirmação de que o PSDB acabou (v. aqui). 

É claro que o cansado candidato até tentou – e se esforçou, com uma clara evolução pessoal na arte de (tentar) se comunicar –, o problema é que o discurso e a prática da banda demo-tucana realmente faliu, silenciada e soterrada pela história que a revelou como a última grande vendilhona do templo. 

Agora, portanto, só resta saber se o tal Pastor Everaldo ultrapassará Aécio Neves no dia 5 de outubro.
 
Por fim, sobre as duas candidatas que lideram as intenções de voto, duas conclusões.
 
A primeira é a de que a presidenta Dilma realmente não consegue dizer o que pensa, o que faz e o que fará. É, claro, quase um defeito congênito; logo, não tem como se transformar numa brilhante oradora ou transmutar-se para adquirir a verve dos grandes políticos de palanque. 

Corrigiu muita coisa e evoluiu bem, mas Dilma seria imbatível se conseguisse falar, com clareza e fluidez, tudo o que sabe, tudo o que tem feito e tudo o que continuará a fazer no comando e na gestão pública do Brasil. Uma pena, pois, para a pauta progressista em jogo – e para a campanha, que ainda tenta absorver parte dos brancos e indecisos.
 
A segunda, é de que a candidata Marina é mesmo um anjo que caiu dos céus nos braços da direita (v. aqui). 
 
E um anjo inclusive no sentido espiritual, afinal, tem o dom da ubiquidade, de reunir em cada gesto e em cada fala a virtude da comunhão plena, de congraçar tudo e todos num mesmo pote sagrado para alçar-se como a divina providência que salvará o povo brasileiro. 
 
Sim, meus caros, Marina, a nossa Ghandi amazônica, é o protótipo da imaculada política, uma espécie de anti-Maquiavel.

Marina é a "princesa" que toda a massa apolítica tanto e sempre ansiava. 

E que os conservadores, ilustrados pela grande e velha mídia, como nunca esperavam.

 

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

# enterro


De tudo o que temos visto nestes últimos dias de campanhas eleitorais, a maior das verdades é a seguinte: o PSDB definitivamente acabou.

A turma tucana, as suas ideias e o seu jeito de fazer e pensar a política estão em flagrante processo falimentar.

Exclua-se São Paulo – embora engula a sua capital com Fernando Haddad, o ótimo prefeito recém-eleito do PT , e os restos mortais do PSDB se acumulam sob um contínuo ritmo de decomposição para, em breve, se juntar à UDN, à Arena, ao PFL e ao DEM entre as famosas siglas findas ou decadentes da nossa história político-partidária.

É claro que a pobre Marina se mostra apenas mais uma versão conservadora reloaded e, ao cabo, seguirá a adorada cartilha dos neoliberais, uma vez que não tem voz ativa alguma e já se cerca da pior espécie de economistas, gestores e financiadores (v. aqui e aqui).

Porém, Marina e o PSB, embora já sejam da direita (v. aqui), não são da autêntica cepa demo-tucana.

Por isso, 2014 será enfim o ano de enterro daquele partido e dos seus infames projetos para o Brasil.

Mas, atenção, pois certamente eles ressurgirão das profundezes do apocalipse, quietinhos, rastejando e ronronando para os braços da Marina e a sua suprema e miraculosa divindade. 

É nisso, enfim, que toda a direita passa a depositar as suas esperanças, canonizando-a em praça televisiva como uma Tiradentes de saias, uma Gandhi amazônica – ou, simplesmente, acolhendo-a como uma besta de Troia.

Afinal, a grande mídia já comprou a ideia, descartando de vez a candidatura do oco Aécio.

O funeral do PSDB, meus caros, já começou.



domingo, 24 de agosto de 2014

# rebenquear

 
 
Dizem que se morre de saudades.
 
No meu caso, acho que prefiro morrer a sentir saudade.
 
Provavelmente alguém já disse isso, se não disse, é porque nunca a sentiu.
 
Sentir a saudade dói porque não cura nem com a sua ausência: não existe "não-saudade" como medida terapêutica.
 
Isso porque nunca não se tem saudade, não importa o tempo em que se fique junto.
 
E não se enganem: a convivência é cruel porque ilude, porque fantasia uma eternidade que não dura senão aqueles momentos, sempre breves, sempre intensos.
 
E quando menos se espera, há a separação, há a distância, e tudo volta à normalidade de alguém sempre rebenqueado das saudades.
 
Saudades, pois, que não podem ser medidas, nem repostas.
 
Para o que só há respostas na arte dos finitos reencontros – e, por isso, a saudade pode sim ser tocada, afinal, a cada momento antes das partidas pegamos, abraçamos, beijamos e tateamos quem vai nos deixar.
 
Até que para ela voltamos, e dela somos inescapáveis.
 
É esta a dimensão absurda da saudade.
 
Que açoita, açoita, açoita, açoita.
 
E nunca para.
 
 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

# garganta rasa


La Dolce Vita revela o vazio existencial e a decadência moral da sociedade burguesa italiana nos anos 60. 

Mas também, e muito bem, se aplica às soluções da turma demo-tucana (DEM e PSDB) para o Brasil, uma vez que se mostram absolutamente decadentes e vazias.

As suas ideias insistem em desabar num rotundo vácuo, a flagrar o nada existencial e político desta classe política que está num beco, sem saída e sem volta, só com um precipício à frente.

É esta direita, marcada na burguesia da obra de Fellini, que pretende retomar as rédeas do Brasil.

E nas propostas a comédia é dramática.

Uma delas, espalhada com insistência constrangedora por Aécio Neves, é aquela de reduzir o número de ministérios pela metade, magnânimo plano para reduzir custos da máquina pública mas que apenas mostra a retórica da velha ideologia do Estado mínimo – a propósito, v. aqui o bravo Ciro Gomes já desmontando esta panaceia, bem diante do ordinário choro do rapagote da Veja.

Ora, ora, qual seria o impacto fiscal? Praticamente nulo, afinal, (i) os servidores de carreira não serão demitidos, só serão incorporados por outros órgãos, e (ii) as políticas públicas não serão abandonadas, só serão repassadas para os orçamentos de outros órgãos. 

Ademais, os cortes serão em ministérios pequenos, com poucas despesas administrativas, parte das quais será incorporada a outros ministérios, sob pena de gerar um déficit de atenção em áreas tão importantes como "igualdade racial", "mulheres" e "pequenos negócios".

Enfim, o corte efetivo restringir-se-á aos salários dos ministros e às eventuais reduções de despesas administrativas, que reduzidas ao papel não chega a uma economia mensal minimamente razoável.

É claro que debater o número de ministérios faz sentido do ponto de vista gerencial, mas nunca sob a ótica financeira.

Mas isso a turma oposicionista passa longe, pois aquela ladainha de "xoque de jestão" dos tucanos já foi desmascarada e hoje não engana mais ninguém.

É claro que debater a contenção de gastos é importante, mas não se pode tratar a medida com este simplismo ou sob a cantilena de que só não se faz porque não se quer (v. aqui).

Mas disso não se fala a sério, tão-pouco com a mínima retidão exigida.


Afinal, Política não é o que se quer discutir.


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

# ao ataque submarinho



O objetivo da grande e tradicional mídia não é (e nunca será) fazer jornalismo.

Ela faz política, ela defende interesses privados e visa ao lucro – apenas isso.

O que vira "notícia" é a opinião, e não os fatos; a verdade, a informação e os feitos são substituídos por "versões", "pautas" e "boatos".

Ora servidas à la carte, ora na base do fast-foodora em rodízio, mas sempre à mostra, sempre à disposição do alimentando, irremissível na busca cega de saciar as suas conservadas convicções.

E o que causa estranheza é a a insistência no defensivo discurso de que esta mídia não poderia ser assim, de que isso é errado, de que é inconstitucional, de que há crimes na profusão de mentiras... enfim, causa desgosto tanto chororô chato e chinfrim.

Afinal, esse comportamento e esse ativismo dos grandes (e velhos) grupos de comunicação são da sua essência, são da sua razão de existir e fazem parte do histórico jogo promovido por eles (v. aquiaqui e aqui, e lembrem daquela história do professor de filosofia da rede pública de ensino que desmascarou o que efetivamente interessa à mídia, aqui).

Assim, pois, não se pode clamar por uma relação ou vinculação mais ou menos democrática, mais ou menos legítima, afinal, neste ambiente de embate político-ideológico a democracia é aparente, é uma sombra, é um não-combate, e o que os legitima é a própria liberdade de um país democrático, tudo a soar um tanto quanto contraditório.

Logo, o que o Estado precisa é precaver-se, mostrar-se e, principalmente, instituir um eficiente sistema de comunicação social que, na base das regras deste jogo, use do poder que lhe respalda e que democraticamente lhe afiançou.

Tese e antítese, ponto e contraponto, ataque e contra-ataque, denúncia e apuração, crítica e explicação, lado a lado, minuto a minuto, instantaneamente apresentados e virtuosamente reproduzidos.

E mais: com este sistema implementado, parar de encher os bolsões dos barões da mídia, que historicamente são abastecidos pela publicidade estatal.

Enfim, diante do sistema político e da conjuntura institucional vigente, a Administração Pública não pode se fiar na expectativa de grandes e inovadoras reformas legislativas, pois está à mercê dos historicamente arrendados interesses parlamentares.

Tão-pouco da misericórdia, do bom-senso e do civismo dos donos das vozes.

Tem, pois, que jogar o jogo, o jogo da "comunicação" – como aqui já dissertamos, lembrando do saudoso Chacrinha.

Enfim, um jogo duro no qual as armas já foram escolhidas.

É hora de aprender a usá-las.



 

terça-feira, 19 de agosto de 2014

# a baba e o espírito



A tese de Adolf Hitler -- ratificada pelas teorias que sempre trataram da psiquê humana -- era muito simples: nada une tanto um grupo díspar de seguidores do que o "ódio".

E assim o líder nazista construiu uma grande máquina na qual essa emoção negativa para tratar das subclasses funcionava com rara eficácia.

Por aqui, a negação do outro lado -- cujo teor fez surgiu, pós-Holocausto, a ideia da "banalização do mal" (v. aqui) -- também é alimentada, diuturnamente, por tvs, jornais, revistas, sites, rádios e para-choques de caminhão que mostram o pobre e o nordestino como seres inferiores, incapazes de terem seus próprios juízos.

A negação, partida de uma gente incapaz de pensar pelo lado esquerdo do peito e de sentir pelo lado humano do cérebro, funda-se no fetiche da meritocracia, digna daqueles bem-nascidos, ou na cantilena de que a sua consciência é a única ciente, a única com a ciência de avaliar o bem e o mal e de decidir os destinos do país.

Veem, pelos olhos platinados da tv, que o destino é ser "contra-tudo-isso-que-está aí".

Só esquecem de ver, com os olhos que a terra há de comer, que o destino deles não é o destino de outras dezenas de milhões de brasileiros mal classificados e que sempre foram -- e ainda são -- ultrajados pelas classes usurpadoras do Estado.

Os lancinantes discursos do Führer estimularam a paixão do ódio, tal qual os editoriais da grande mídia perante seu público-alvo.

E grande parte da nossa classe média -- medusicamente cooptada pelas teses reacionárias da elite -- comprou esta ideia, sorvendo o veneno produzido amiúde por todos os cantos midiáticos.

E o produto é o ódio, ódio babado e ruminado pela face pó-de-arroz nativa (v. aqui e aqui, nas palavras de Veríssimo e Bresser-Pereira).

Ora, o que sempre se percebeu no Brasil é a vontade de um Estado que tenha um só lado, que estanque a massa na miséria analfabeta e que pare de tentar ser de todos e para todos.

Essa é a nossa vontade secular, o desejo felino da nossa elite empedernida, tão desgostosa da ações populares e populistas e que na nossa história recente levou a matar Getúlio e a derrubar Jango para dar o Golpe.

Desta vez, quem escancara a divisão do país, o recalque social e a falta de espírito cívico, nacional e democrático das nossas elites são os governos Lula e Dilma.

E não ao contrário, como bem ilustrou Leonardo Boff (v. aqui e aqui).

Afinal, é o contrário da democracia, da soberania e da desigualdade que sustenta  as bases programáticas dos governos de direita e que dá asas à imaginação golpista de um udenismo ressuscitado.

Não à toa, a inveterada aversão por trás da contínua depreciação de um grupo político (e da incessante desconstrução da Política) tem por fim a retomada do status quo, a despolitização da vida pública, a apolitização do cidadão e o recrudescimento das "mãos visíveis" que algemam o Estado social.

É raiva de uma classe que jamais enxergou a realidade da "luta de classes", afinal, ora, ela sempre foi tutelada por governos que eram da sua classe, ao contrário da clara preferência que Lula e Dilma, do PT, fizeram nas suas campanhas, eleições e mandatos.

É o rancor pelo potencial fim de um exército de mão-de-obra barata, explorada e fruto dos processos de colonização escravocrata, de urbanização favelizada e, claro, de  educação talhada, retalhada e destroçada.

É, pois, o espírito da casa-grande, do patrimonialismo, da nobiliarquia e da sociedade estamental em estado bruto. 

Na contramão do mundo, a oportuna cegueira faz uma grande parte do Brasil ser conduzida pelos cabrestos interesses de quem na história sempre fez desta "terra" uma terra de poucos, agora sob os auspícios de um neoliberalismo que sabe à naftalina.

Mas, como se disse, é uma "cegueira branca", aquela da alegoria de Saramago (v. aqui e aqui).

Afinal, porque incapaz de querer ver (e poder reparar), não se faz a crítica honesta, coerente, técnica e politizada dos erros que este governo comete.

Não.

Hoje, a fúria que baba do canto da fala é patológica e, porque ilógica, ensaia o retrocesso, o regresso e o resgate de programas econômicos funestos e de políticas públicas nauseabundas.

A nau que pode voltar a nos conduzir, não sejamos tolos, tem um porto certo.

E neste norte a bússola é o ódio.

De um ódio que pode mover montanhas.



 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

# a aranha e a tábua de salvação


Dantes uma mera eco-fundamentalista neandertal, eis que a grande mídia (e a classe média) redescobre Marina Silva e faz dela a evolução da espécie política para recarimbá-la como a “queridinha do Brasil”.

Mas, convenhamos, não há nenhuma surpresa nesse fato: há quatro anos a estratégia foi a mesma e, há oito, até em Heloísa Helena a onda midiática depositou certas esperanças de conter Dilma e Lula.

O que não se esperava, porém, é a mesma tática com a mesma pessoa (v. aqui).

Hoje, com a morte da plataforma Eduardo Campos e seus pífios 8%, a coisa transmuda e novamente vem esverdeada, com um sorriso franciscano e com ares de mico-leão-dourado.

Se antes Marina saiu do PT (e do Governo) para não entrar na história, agora os ventos parecem soprar com mais força e carregá-la junto sabe-se bem para onde.

Ainda raivosa pelo fato de Lula ter preterido-a em relação à Dilma como candidata presidencial de 2010, Marina entregou-se ao ardiloso e insistente assédio do afoito Campos, pois nele enxergou a oportunidade de ressurgir do nada, ressair do ostracismo e resplandecer para os holofotes platinados e midiáticos globais. 

Sabe-se, claro, que no Brasil os verdes nunca federam e nem cheiraram o orgânico sabor de um partido ideológico e independente. 

Aproveitando-se disso, Marina debandou para tentar ficar mais moderninha e livre para criar um novo partido, uma tal de REDE que até hoje não saiu do papel e não enredou ninguém.

Logo, o real foco, agora, é outro, e nada sócio-filosófico-ideológico-antropológico-ecológico... 

E ela passou a ser bastante (e convenientemente) pragmática, com a sua filiação à uma ensopada legenda (PSB) e com um discurso ubíquo e umbilicalmente ligado a tudo e a todos. 

Em suma, se na lente da Globo a candidata Marina condena o pragmatismo do PT, fora dela faz o mesmo, travestido de "alternativa".

Ora, nestes nossos tempos, os ex-verdes olorizam-se pelo aroma prosecco das cheias taças que desfilam sobre as mesas enfeitadas da malta pequeno-burguesa, sob o arrepio de se fazer um "nova política"  é, segundo eles, a lógica da darwinização.

E desta cepa, como indefectível fruto, brota Marina Silva.

Marina, a reboque da grande mídia, que por sua vez é porta-voz dos grandes interesses econômico-financeiros e da ignorância da classe média, tem uma meta: matar a gestão Lula e Dilma, usando como arma a comoção geral em face do episódio trágico, a atmosfera de pena e de velas transmitida a toda hora sob um ar de "recado divino". 

Marina, coitada, antes defensora de índios, boitatá e pirarucus e da política evangelista – e não da evangelização na política –, torna-se agora a última esperança de um 2º turno e a última bala de prata da oposição retrógrada. E, assim, torna-se a heroína defensora das políticas mais atrasadas e mais reacionárias do mundo político.

Marina, com o mote de sair-se bem aos olhos do povo, nega o desenvolvimento e nega a política, pretendendo que se despolitize a Política (v. aqui). E, assim, cai no gosto populesco com as teses do mundo privado, privatista e não-governamental.

Marina não tem senso administrativo, não tem noção de gestão pública e não tem governança alguma, e por isso - sim, por isso! - foi catapultada como a grande herdeira de um espólio ainda bastante raso. E, assim, acalanta os interesses de quem quer ver uma marionete no comando do Estado.

Marina, ainda, com esta cantilena da "terceira via", veste um capuz mágico para iludir que há outro caminho além da direita ou da esquerda

Ora, ora... se não vou para lá e nem para cá – ainda que mais ou menos próximo das extremas e do centro –, fico no meio e, então, passo a ser um conservador. E é desse jogo que as famiglias nacionais gostam, e dos seus resultados são dependentes. E é este clima que os revoltosos nacionais curtem, e do seu chorume é que se fartam (v. aqui).

Marina, meus caros, embora com um passado que não o faça ser de direita e com algumas convicções do presente que não a façam estar à direita, é apenas mais uma destas figuras que se tornaram da direita (v. aqui).

Diante da atual conjuntura nacional que não engole mais o papo da turma demo-tucana e que já prepara o seu funeral – salvo, ainda, no Estado de São Paulo –, Marina traveste-se como a exótica musa capaz de convencer alienados e descolados de que o projeto petista não pode mais seguir em frente.

E, assim, nela se vê a única (e última) esperança de derrotar Dilma que, de chapeuzinho do MST e vestida de vermelho, finalmente dançará a sua dança para, neste seu próximo mandato, propor um governo sem o diabo (v. aqui).

Sim, apenas a ex-chapeuzinho verde será agora capaz de levar os interesses conservadores para um 2º turno, momento em que se tentará, a todo custo, promover a reviravolta eleitoral e insistir com a "ordem" em um país que precisa retomar o progresso (v. aqui).

E, por isso, desconfia-se até que a tosca candidatura de Aécio Neves seja abandonada e que a banda tucana e todo o turbilhão da grande mídia pule de cabeça na débil teia da "Viúva Branca", uma espécie rara, inapta para atacar e incapaz de armar e sustentar a sua própria estrutura, agindo apenas por meio de um blá-blá-blá turvo, volúvel e vazio, bem a gosto das co-espécies verdadeiramente venenosas

O jogo, assim, está com essa gente toda que, não tendo a mínima coragem de votar no ideal retrógrado e vendilhão do PSDB – e de admitir, pelas vias diretas, a volta do mercado na condução do Estado – e tendo máximo hor-ror aos acertos e erros do PT – e de reconhecer, nas urnas, os progressistas governos que Lula e Dilma fizeram –, preferirá sair do “nulo”, do “branco” ou da “abstenção” para cair no conto da vigária.

Enfim, nesta fúnebre alquimia que está a criar uma candidata sobre-humana, finalmente há um certo risco de Dilma não ser eleita, para júbilo da oposição.

E para agonia do Brasil.