domingo, 24 de agosto de 2014

# rebenquear

 
 
Dizem que se morre de saudades.
 
No meu caso, acho que prefiro morrer a sentir saudade.
 
Provavelmente alguém já disse isso, se não disse, é porque nunca a sentiu.
 
Sentir a saudade dói porque não cura nem com a sua ausência: não existe "não-saudade" como medida terapêutica.
 
Isso porque nunca não se tem saudade, não importa o tempo em que se fique junto.
 
E não se enganem: a convivência é cruel porque ilude, porque fantasia uma eternidade que não dura senão aqueles momentos, sempre breves, sempre intensos.
 
E quando menos se espera, há a separação, há a distância, e tudo volta à normalidade de alguém sempre rebenqueado das saudades.
 
Saudades, pois, que não podem ser medidas, nem repostas.
 
Para o que só há respostas na arte dos finitos reencontros – e, por isso, a saudade pode sim ser tocada, afinal, a cada momento antes das partidas pegamos, abraçamos, beijamos e tateamos quem vai nos deixar.
 
Até que para ela voltamos, e dela somos inescapáveis.
 
É esta a dimensão absurda da saudade.
 
Que açoita, açoita, açoita, açoita.
 
E nunca para.
 
 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

# garganta rasa


La Dolce Vita revela o vazio existencial e a decadência moral da sociedade burguesa italiana nos anos 60. 

Mas também, e muito bem, se aplica às soluções da turma demo-tucana (DEM e PSDB) para o Brasil, uma vez que se mostram absolutamente decadentes e vazias.

As suas ideias insistem em desabar num rotundo vácuo, a flagrar o nada existencial e político desta classe política que está num beco, sem saída e sem volta, só com um precipício à frente.

É esta direita, marcada na burguesia da obra de Fellini, que pretende retomar as rédeas do Brasil.

E nas propostas a comédia é dramática.

Uma delas, espalhada com insistência constrangedora por Aécio Neves, é aquela de reduzir o número de ministérios pela metade, magnânimo plano para reduzir custos da máquina pública mas que apenas mostra a retórica da velha ideologia do Estado mínimo – a propósito, v. aqui o bravo Ciro Gomes já desmontando esta panaceia, bem diante do ordinário choro do rapagote da Veja.

Ora, ora, qual seria o impacto fiscal? Praticamente nulo, afinal, (i) os servidores de carreira não serão demitidos, só serão incorporados por outros órgãos, e (ii) as políticas públicas não serão abandonadas, só serão repassadas para os orçamentos de outros órgãos. 

Ademais, os cortes serão em ministérios pequenos, com poucas despesas administrativas, parte das quais será incorporada a outros ministérios, sob pena de gerar um déficit de atenção em áreas tão importantes como "igualdade racial", "mulheres" e "pequenos negócios".

Enfim, o corte efetivo restringir-se-á aos salários dos ministros e às eventuais reduções de despesas administrativas, que reduzidas ao papel não chega a uma economia mensal minimamente razoável.

É claro que debater o número de ministérios faz sentido do ponto de vista gerencial, mas nunca sob a ótica financeira.

Mas isso a turma oposicionista passa longe, pois aquela ladainha de "xoque de jestão" dos tucanos já foi desmascarada e hoje não engana mais ninguém.

É claro que debater a contenção de gastos é importante, mas não se pode tratar a medida com este simplismo ou sob a cantilena de que só não se faz porque não se quer (v. aqui).

Mas disso não se fala a sério, tão-pouco com a mínima retidão exigida.


Afinal, Política não é o que se quer discutir.


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

# ao ataque submarinho



O objetivo da grande e tradicional mídia não é (e nunca será) fazer jornalismo.

Ela faz política, ela defende interesses privados e visa ao lucro – apenas isso.

O que vira "notícia" é a opinião, e não os fatos; a verdade, a informação e os feitos são substituídos por "versões", "pautas" e "boatos".

Ora servidas à la carte, ora na base do fast-foodora em rodízio, mas sempre à mostra, sempre à disposição do alimentando, irremissível na busca cega de saciar as suas conservadas convicções.

E o que causa estranheza é a a insistência no defensivo discurso de que esta mídia não poderia ser assim, de que isso é errado, de que é inconstitucional, de que há crimes na profusão de mentiras... enfim, causa desgosto tanto chororô chato e chinfrim.

Afinal, esse comportamento e esse ativismo dos grandes (e velhos) grupos de comunicação são da sua essência, são da sua razão de existir e fazem parte do histórico jogo promovido por eles (v. aquiaqui e aqui, e lembrem daquela história do professor de filosofia da rede pública de ensino que desmascarou o que efetivamente interessa à mídia, aqui).

Assim, pois, não se pode clamar por uma relação ou vinculação mais ou menos democrática, mais ou menos legítima, afinal, neste ambiente de embate político-ideológico a democracia é aparente, é uma sombra, é um não-combate, e o que os legitima é a própria liberdade de um país democrático, tudo a soar um tanto quanto contraditório.

Logo, o que o Estado precisa é precaver-se, mostrar-se e, principalmente, instituir um eficiente sistema de comunicação social que, na base das regras deste jogo, use do poder que lhe respalda e que democraticamente lhe afiançou.

Tese e antítese, ponto e contraponto, ataque e contra-ataque, denúncia e apuração, crítica e explicação, lado a lado, minuto a minuto, instantaneamente apresentados e virtuosamente reproduzidos.

E mais: com este sistema implementado, parar de encher os bolsões dos barões da mídia, que historicamente são abastecidos pela publicidade estatal.

Enfim, diante do sistema político e da conjuntura institucional vigente, a Administração Pública não pode se fiar na expectativa de grandes e inovadoras reformas legislativas, pois está à mercê dos historicamente arrendados interesses parlamentares.

Tão-pouco da misericórdia, do bom-senso e do civismo dos donos das vozes.

Tem, pois, que jogar o jogo, o jogo da "comunicação" – como aqui já dissertamos, lembrando do saudoso Chacrinha.

Enfim, um jogo duro no qual as armas já foram escolhidas.

É hora de aprender a usá-las.



 

terça-feira, 19 de agosto de 2014

# a baba e o espírito



A tese de Adolf Hitler -- ratificada pelas teorias que sempre trataram da psiquê humana -- era muito simples: nada une tanto um grupo díspar de seguidores do que o "ódio".

E assim o líder nazista construiu uma grande máquina na qual essa emoção negativa para tratar das subclasses funcionava com rara eficácia.

Por aqui, a negação do outro lado -- cujo teor fez surgiu, pós-Holocausto, a ideia da "banalização do mal" (v. aqui) -- também é alimentada, diuturnamente, por tvs, jornais, revistas, sites, rádios e para-choques de caminhão que mostram o pobre e o nordestino como seres inferiores, incapazes de terem seus próprios juízos.

A negação, partida de uma gente incapaz de pensar pelo lado esquerdo do peito e de sentir pelo lado humano do cérebro, funda-se no fetiche da meritocracia, digna daqueles bem-nascidos, ou na cantilena de que a sua consciência é a única ciente, a única com a ciência de avaliar o bem e o mal e de decidir os destinos do país.

Veem, pelos olhos platinados da tv, que o destino é ser "contra-tudo-isso-que-está aí".

Só esquecem de ver, com os olhos que a terra há de comer, que o destino deles não é o destino de outras dezenas de milhões de brasileiros mal classificados e que sempre foram -- e ainda são -- ultrajados pelas classes usurpadoras do Estado.

Os lancinantes discursos do Führer estimularam a paixão do ódio, tal qual os editoriais da grande mídia perante seu público-alvo.

E grande parte da nossa classe média -- medusicamente cooptada pelas teses reacionárias da elite -- comprou esta ideia, sorvendo o veneno produzido amiúde por todos os cantos midiáticos.

E o produto é o ódio, ódio babado e ruminado pela face pó-de-arroz nativa (v. aqui e aqui, nas palavras de Veríssimo e Bresser-Pereira).

Ora, o que sempre se percebeu no Brasil é a vontade de um Estado que tenha um só lado, que estanque a massa na miséria analfabeta e que pare de tentar ser de todos e para todos.

Essa é a nossa vontade secular, o desejo felino da nossa elite empedernida, tão desgostosa da ações populares e populistas e que na nossa história recente levou a matar Getúlio e a derrubar Jango para dar o Golpe.

Desta vez, quem escancara a divisão do país, o recalque social e a falta de espírito cívico, nacional e democrático das nossas elites são os governos Lula e Dilma.

E não ao contrário, como bem ilustrou Leonardo Boff (v. aqui e aqui).

Afinal, é o contrário da democracia, da soberania e da desigualdade que sustenta  as bases programáticas dos governos de direita e que dá asas à imaginação golpista de um udenismo ressuscitado.

Não à toa, a inveterada aversão por trás da contínua depreciação de um grupo político (e da incessante desconstrução da Política) tem por fim a retomada do status quo, a despolitização da vida pública, a apolitização do cidadão e o recrudescimento das "mãos visíveis" que algemam o Estado social.

É raiva de uma classe que jamais enxergou a realidade da "luta de classes", afinal, ora, ela sempre foi tutelada por governos que eram da sua classe, ao contrário da clara preferência que Lula e Dilma, do PT, fizeram nas suas campanhas, eleições e mandatos.

É o rancor pelo potencial fim de um exército de mão-de-obra barata, explorada e fruto dos processos de colonização escravocrata, de urbanização favelizada e, claro, de  educação talhada, retalhada e destroçada.

É, pois, o espírito da casa-grande, do patrimonialismo, da nobiliarquia e da sociedade estamental em estado bruto. 

Na contramão do mundo, a oportuna cegueira faz uma grande parte do Brasil ser conduzida pelos cabrestos interesses de quem na história sempre fez desta "terra" uma terra de poucos, agora sob os auspícios de um neoliberalismo que sabe à naftalina.

Mas, como se disse, é uma "cegueira branca", aquela da alegoria de Saramago (v. aqui e aqui).

Afinal, porque incapaz de querer ver (e poder reparar), não se faz a crítica honesta, coerente, técnica e politizada dos erros que este governo comete.

Não.

Hoje, a fúria que baba do canto da fala é patológica e, porque ilógica, ensaia o retrocesso, o regresso e o resgate de programas econômicos funestos e de políticas públicas nauseabundas.

A nau que pode voltar a nos conduzir, não sejamos tolos, tem um porto certo.

E neste norte a bússola é o ódio.

De um ódio que pode mover montanhas.



 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

# a aranha e a tábua de salvação


Dantes uma mera eco-fundamentalista neandertal, eis que a grande mídia (e a classe média) redescobre Marina Silva e faz dela a evolução da espécie política para recarimbá-la como a “queridinha do Brasil”.

Mas, convenhamos, não há nenhuma surpresa nesse fato: há quatro anos a estratégia foi a mesma e, há oito, até em Heloísa Helena a onda midiática depositou certas esperanças de conter Dilma e Lula.

O que não se esperava, porém, é a mesma tática com a mesma pessoa (v. aqui).

Hoje, com a morte da plataforma Eduardo Campos e seus pífios 8%, a coisa transmuda e novamente vem esverdeada, com um sorriso franciscano e com ares de mico-leão-dourado.

Se antes Marina saiu do PT (e do Governo) para não entrar na história, agora os ventos parecem soprar com mais força e carregá-la junto sabe-se bem para onde.

Ainda raivosa pelo fato de Lula ter preterido-a em relação à Dilma como candidata presidencial de 2010, Marina entregou-se ao ardiloso e insistente assédio do afoito Campos, pois nele enxergou a oportunidade de ressurgir do nada, ressair do ostracismo e resplandecer para os holofotes platinados e midiáticos globais. 

Sabe-se, claro, que no Brasil os verdes nunca federam e nem cheiraram o orgânico sabor de um partido ideológico e independente. 

Aproveitando-se disso, Marina debandou para tentar ficar mais moderninha e livre para criar um novo partido, uma tal de REDE que até hoje não saiu do papel e não enredou ninguém.

Logo, o real foco, agora, é outro, e nada sócio-filosófico-ideológico-antropológico-ecológico... 

E ela passou a ser bastante (e convenientemente) pragmática, com a sua filiação à uma ensopada legenda (PSB) e com um discurso ubíquo e umbilicalmente ligado a tudo e a todos. 

Em suma, se na lente da Globo a candidata Marina condena o pragmatismo do PT, fora dela faz o mesmo, travestido de "alternativa".

Ora, nestes nossos tempos, os ex-verdes olorizam-se pelo aroma prosecco das cheias taças que desfilam sobre as mesas enfeitadas da malta pequeno-burguesa, sob o arrepio de se fazer um "nova política"  é, segundo eles, a lógica da darwinização.

E desta cepa, como indefectível fruto, brota Marina Silva.

Marina, a reboque da grande mídia, que por sua vez é porta-voz dos grandes interesses econômico-financeiros e da ignorância da classe média, tem uma meta: matar a gestão Lula e Dilma, usando como arma a comoção geral em face do episódio trágico, a atmosfera de pena e de velas transmitida a toda hora sob um ar de "recado divino". 

Marina, coitada, antes defensora de índios, boitatá e pirarucus e da política evangelista – e não da evangelização na política –, torna-se agora a última esperança de um 2º turno e a última bala de prata da oposição retrógrada. E, assim, torna-se a heroína defensora das políticas mais atrasadas e mais reacionárias do mundo político.

Marina, com o mote de sair-se bem aos olhos do povo, nega o desenvolvimento e nega a política, pretendendo que se despolitize a Política (v. aqui). E, assim, cai no gosto populesco com as teses do mundo privado, privatista e não-governamental.

Marina não tem senso administrativo, não tem noção de gestão pública e não tem governança alguma, e por isso - sim, por isso! - foi catapultada como a grande herdeira de um espólio ainda bastante raso. E, assim, acalanta os interesses de quem quer ver uma marionete no comando do Estado.

Marina, ainda, com esta cantilena da "terceira via", veste um capuz mágico para iludir que há outro caminho além da direita ou da esquerda

Ora, ora... se não vou para lá e nem para cá – ainda que mais ou menos próximo das extremas e do centro –, fico no meio e, então, passo a ser um conservador. E é desse jogo que as famiglias nacionais gostam, e dos seus resultados são dependentes. E é este clima que os revoltosos nacionais curtem, e do seu chorume é que se fartam (v. aqui).

Marina, meus caros, embora com um passado que não o faça ser de direita e com algumas convicções do presente que não a façam estar à direita, é apenas mais uma destas figuras que se tornaram da direita (v. aqui).

Diante da atual conjuntura nacional que não engole mais o papo da turma demo-tucana e que já prepara o seu funeral – salvo, ainda, no Estado de São Paulo –, Marina traveste-se como a exótica musa capaz de convencer alienados e descolados de que o projeto petista não pode mais seguir em frente.

E, assim, nela se vê a única (e última) esperança de derrotar Dilma que, de chapeuzinho do MST e vestida de vermelho, finalmente dançará a sua dança para, neste seu próximo mandato, propor um governo sem o diabo (v. aqui).

Sim, apenas a ex-chapeuzinho verde será agora capaz de levar os interesses conservadores para um 2º turno, momento em que se tentará, a todo custo, promover a reviravolta eleitoral e insistir com a "ordem" em um país que precisa retomar o progresso (v. aqui).

E, por isso, desconfia-se até que a tosca candidatura de Aécio Neves seja abandonada e que a banda tucana e todo o turbilhão da grande mídia pule de cabeça na débil teia da "Viúva Branca", uma espécie rara, inapta para atacar e incapaz de armar e sustentar a sua própria estrutura, agindo apenas por meio de um blá-blá-blá turvo, volúvel e vazio, bem a gosto das co-espécies verdadeiramente venenosas

O jogo, assim, está com essa gente toda que, não tendo a mínima coragem de votar no ideal retrógrado e vendilhão do PSDB – e de admitir, pelas vias diretas, a volta do mercado na condução do Estado – e tendo máximo hor-ror aos acertos e erros do PT – e de reconhecer, nas urnas, os progressistas governos que Lula e Dilma fizeram –, preferirá sair do “nulo”, do “branco” ou da “abstenção” para cair no conto da vigária.

Enfim, nesta fúnebre alquimia que está a criar uma candidata sobre-humana, finalmente há um certo risco de Dilma não ser eleita, para júbilo da oposição.

E para agonia do Brasil.


terça-feira, 5 de agosto de 2014

# toga & beluga


O estranho caso do juiz de direito que expressou em recente decisão a pífia verve ideológica que o sustenta (v. aqui e aqui) parece ser apenas mais uma prova a corroborar a tese de que o Poder Judiciário é o mais crítico e sórdido dos poderes da República.
 
Formado por uma casta que, de quando em vez, aceita um ou outro alienígena como membro, o Judiciário alcatifa-se sob os mais convenientes mantos para driblar a justiça.
 
Para soar seus atos como imparciais, aplica a letra fria da lei, sob uma exegese pobre e baldia, aplicada aos borbotões nos casos que envolvem a massa, aqui sempre num ritmo de produção em série e pouca séria.
 
Entretanto, para atender aos interesses das figuras secularmente reinantes nestes tristes trópicos, costuma tergiversar, inventar e carcomer o espírito da lei, fatiando-a e servindo à la carte, com esteio em tudo que é doutrina, jurisprudência ou mandinga disponível. 

São merecidos, claro, parênteses para sublinhar as admiráveis exceções, pois se conhece Brasil adentro vários magistrados que não apenas legitimam o cargo público, como também honram a nossa gente e a nossa nação, orgulhando-nos pela independência, competência e excelência.
 
Mas eis que na tal decisão judicial em comento, o juiz, de modo bastante tosco, parece gostar do maniqueísta discurso que reduz as pessoas de esquerda – sim, isso existe, para desespero dos apóstolos do fim da história e dos crentes da geleia geral – de modo a catalogá-las no reino da "hipocrisia", no caso de não serem pobres, ou da "inveja", nos fartos casos em que são (v. aqui breve digressão sobre essa lógica infame).
 
Não fosse pela raciocínio débil e infantil em si – o que porém não deve ser proibido, pois se trata do pleno gozo da "liberdade de expressão" e de "manifestação de pensamento" constitucionalmente previstas , o divino magistrado ultrapassa qualquer limite do legal e do razoável ao expressar a sua volúpia patrulheira em uma peça judicial que, técnica por excelência, jamais poderia admitir elucubrações de cunho tão pernóstico e burlesco.
 
Se há ou não razões para se sustentar a prisão dos jovens, que se debruce sobre o contexto fático-probatório e, com base na lei, se decida, independentemente dos holofotes e dos infaustos interesses em jogo, porquanto respeitantes do ordenamento nacional – a propósito, v. aqui e aqui aquela mui afamada peripécia magistrática.

E já igualmente gize-se: não há qualquer mínima chance de se apoiar manifestações vazias e bandidas – sejam de esquerda, de direita, de cima, de fora, do meio, meigas, doces, roxas, rosas, acres, ocres ou de que lado, tipo ou gosto forem – cujos fins exijam meios inconciliáveis com um Estado Republicano, Democrático e de Direito, como inclusive aquiaquiaqui colocamos.  
 
Porém, é inconcebível tratar a matéria com tamanha jocosidade e pequenez, com se fosse o magistrado partícipe de alguma rixa juvenil, em ambiente colegial, tudo sob os apupos das histéricas meninas em suas marias-chiquinhas.
 
Ou de sermão paterno, típico dos velhacos de outrora ou dos reaças de hoje, leitores contumazes da velha mídia e de seus "especialistas" – por sinal, um desses "especialistas", dono da versão brasileira da frase usada pelo juiz na sentença ("esquerda caviar"), recentemente tomou aqui uma sonora tosquiadela em rede nacional.
 
Ou, quem sabe ainda, de enfadonha ladainha eclesiástica que inundava os templos pré-Francisco, defensora dos fortes e opressores e promotora do status quo.
 
Este juiz, sob o cadafalso do Estado, pensa que a toga outorga-lhe o direito de não fazer e de não pensar o Direito.

Razão pela qual julga suficiente derramar sobre o papel timbrado do Judiciário todo o seu fanatismo, apunhando uma pena amotinada, amulética e amolecada.

E jurando tudo ser apolítico.

 

segunda-feira, 28 de julho de 2014

# extrato evidente


E o tal Banco Santander, hein? (v. aqui)

Não, é claro que não surpreende.

Apenas expressou e agora deixou a clara prova de algo que sempre fez, faz e fará.

Afinal, é e está a serviço da elite, extrato sempre corrompido acerca de qualquer ideal ético ou de construção republicana.

Ademais, o que se esperar de uma "instituição financeira" – tenha-se, por exemplo, o que faz aquilo chamado HSBC, useiro e vezeiro em cambalachos e cambalhotas (v. aqui, ainda mais se tratando do maior banco estrangeiro no país?

Ora, a tchurma de bancos e do mercado financeiro nunca mede esforços para catapultar seus interesses e os interesses dos seus "acionistas" ou "investidores", cada vez mais se lixando se o que pensam e fazem é ilegal, é imoral ou se engorda – v. aqui.

Um bando, uma chusma mefítica que do caos e da bancarrota generalizada ergue-se sempre com mais força e mais impudor – é, pois, uma fênix do mal.

Pior, enraizada nas entranhas do Estado, goza de fecundas relações no Executivo, da lépida e da faceira parceria com o Legislativo e, claro, da sempre doce e meiga simpatia do Judiciário.

Por isso, qualquer governo que minimamente acene com a intervenção (v. aqui) e com novas perspectivas de gestão do erário e de políticas públicas é visto com repugnância, receio e medo. 

Bem, e talvez isso aí seja um bom e esperançoso sinal.

Um sinal vidente de que os próximos quatro anos de Dilma irão, enfim, tentar arrebentar com este câncer chamado "política monetarista-rentista".

Oxalá!



domingo, 27 de julho de 2014

# atleticania (xvii)


Para Benjamin, uma tarde de sono ou uma saracoteada de horas por entre seus brinquedos não valem, ainda, um gol do Atlético.
 
E pelo que (não) tivemos hoje, ainda bem.
 
Promissor, sério, moderno e com os pés no chão, o técnico Doriva acabou vacilando nesta tarde de domingo, talvez empolgado com os lampejos das últimas rodadas.
 
Aberto, frágil, murcho e suicida, pensou ter nas mãos um time com jogadores capazes de enfrentar, mano a mano, o bom time e o ótimo elenco tricolor – a propósito, o que joga este Cícero, hein?
 
Com uma dupla de zaga que já provou ser uma das piores do Brasil, jamais poderia ter escalado três atacantes e entregar todo um meio-campo  efetivamente vazio de rubro-negros , para um time que, além de tudo, já anunciava que jogaria com cinco por ali.

E mais: sem um homem para tentar fazer o jogo corrido dos nossos avantes  num embate nestas circunstâncias o nosso curumim camisa 10 não se mostra solitariamente capaz –, não impúnhamos medo e nem causamos susto algum, tornando tudo mais fácil para o time carioca, que passeou.
 
Um dia desses um time acabou levando 7 por pensar assim também  só que agora os nossos alemães tricolores foram mais piedosos (e nem tão competentes).
 
E o Atlético, meus caros, levou um dos maiores bailes dos últimos anos.

Ainda bem que só o concreto cinza e gelado (v. aqui) esteve presente nesta escura tarde em Curitiba.




 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

# desgraça


A elite brasileira é, no mínimo, engraçada.
 
Leonel Brizola  a histórica liderança política da esquerda brasileira – nela provocava singular medo, acusando-na de ser "a pior do mundo".
 
A "Carta Maior" publicou um texto singular, inspirador, que muito bem ilustra a elite nativa (v. aqui) e que mais ou menos caminha nos termos a seguir.
 
É que a elite brasileira gosta de ser elite, de mostrar que é elite, de viver como elite, de luzir como elite, de suar como elite, de ter sangue de elite nas veias. 

Entretanto, detesta ser chamada de "elite", principalmente quando associada a vários dos tantos problemas crônicos do Brasil  e isso, claro, é cômico.
 
A elite gosta de criticar e xingar tudo e todos  chama isso de "liberdade de expressão".
 
Mas a elite não gosta de ser criticada  aí vira perseguição, inveja, recalque, id (v. aqui).
 
Tudo meio que coisa de psicanálise; aliás, outra coisa que ela adora fazer para nunca se resolver, sublinhe-se.
 
Quando a elite esculhamba o país, é porque ela é "moderna", estudou nos melhores colégios e por isso sabe o que é melhor para todos nós.

Já quando alguém esculacha a elite, é porque quer transformar nosso país em uma Cuba ou numa Venezuela, dois países que a elite conhece muito bem, embora não saiba exatamente onde ficam, nem o que fazem, nem porque pensam (v. aqui).

Ideia de elite é chamada de "opinião"; ideia contra a elite é chamada de ideologia.

A elite abusa de roupas, relógios e carros a preços de ordenados e casas. Tem jatinho e helicóptero. Tem aeroporto particular, às vezes, pago com dinheiro público  é para economizar um pouquinho, pois a vida não anda fácil para ninguém (v. aqui).

A elite gosta de mostrar que tem classe, de dizer que os outros são sem classe e de enfatizar que no Brasil não há classes  e nem preconceito de raças (v. aqui).

Mas, quando alguém reclama da elite por ser esnobe, preconceituosa e excludente, é acusado de incitar a luta de classes  e de cores.

A elite encastela-se em bairro chique, fofo e limpinho, mas gosta de acusar os outros de quererem dividir o país entre ricos e pobres.

Afinal, convenhamos, o negócio da elite não é dividir  é multiplicar, exponenciar e sugar (v. aqui).

A elite é magnânima, amalgamada e mal amada.

Até dá aulas de como ter classe  diz que, para ser da elite, tem que pensar como elite.

E tem gente que acredita.

E que se afunda nos círculos, hábitos, gostos e consumos mais toscos e infames que existem: circunavega copos de vinho, encobre-se de marcas, lê Caras, se narcisa em colunas sociais – algo que, convenhamos, fica bem ali perto do fundo do poço  e se embabaca com a futilidade carnívora que vê no cotidiano da elite.
 
Não sabe, porém, que o principal, talvez único, atributo da elite é o dinheiro  o resto é detalhe.

A elite reclama do Estado, do Brasil, de tudo e sempre  não o ama, mas também não o deixa.

Imprestável, a elite pugna pela terceirização de tudo.

O gosto disso é tamanho que nas casas-grandes até a educação dos próprios filhos é terceirizada  deixam-nos, pois, para as amas.

E a elite queixa-se dos impostos, inclusive daqueles que ainda não foram criados, embora previsto na nossa Constituição - é o caso notório do "imposto sobre grandes fortunas", engavetado antes de todos os tempos.

E, vejam só, queixa-se mesmo dos que ela não paga. Sim, é que aqueles jatinho, helicóptero, iate ou jetski, mesmo não sendo tomates, mas "veículos automotores", não pagam IPVA  é o direito, meu caro.

Mas a elite, de queixo caído e em cansada homenagem aos mais pobres e à classe média  que não cansam de pagar muito mais tributos do que ela (v. aqui, mantém um gigante painel luminoso nos centros de várias cidades do país: o "impostômetro", sempre ao alcance dos holofotes diários da grande mídia.
 
Afinal, para a elite, o dever fundamental de pagar impostos é coisa de filosofia do direito.

A elite se diz acima da Política  e do bem, e do mal.

E vê na política e na democracia formas de alienação bolchevique.

Ademais, cidadania é mero consumo, ora pois.

A elite diz que é contra a corrupção, mas é ela quem financia a campanha, a vida e a alma do corrupto (v. aqui). 
 
É a elite que aceita superfaturar, que aceita licitar ilicitamente e que ano a ano sonega fortunas bilionárias, sob o colo morno do Judiciário leniente que invariavelmente afaga os colarinhos brancos e bem-cheirosos que clamam clemência (v. aqui)
 
E quando dá algum problema, finge que não tem nada a ver com a coisa e reclama que ninguém vai para a cadeia  sim, "ninguém" é o apelido que a elite usa para designar o pessoal preto e pobre que entope as células de cela-tronco (v. aqui).
 
A elite não gosta do Bolsa Família, mas insiste em dizer que tem bom coração, que faz o bem e que é do bem (v. aqui).
 
A elite diz que conceder benefícios aos extremamente mais pobres não é direito, é esmola. É uma coisa que incita o pecado da "preguiça" – e taca-lhe pau naquele discurso, com a velha ladainha descendo o morro da hipocrisia: "não pode dar o peixe, tem que ensinar a pescar..." (v. aqui e aqui). 

Mas, como num passe de mágica, quando a elite recebe recursos governamentais ou isenções fiscais, a "esmola" se transforma em incentivo produtivo e de consumo para o Brasil crescer  sem qualquer perfídia, é claro, já que a "gula" acreditam ser um pecado bem menor.
 
A elite gosta de levar vantagem em tudo, certo? Chama isso de "visão", de "Eu S/A", sempre ciceroneada pelos mais afamados e amorais causídicos do país.
 
E quando não é da elite, levar vantagem é lei de Gérson ou ranço do nefasto jeitinho brasileiro, um horror que adora propalar nas viagens que faz para Miami ou pelos clubs privés que frequenta na nossa terra.
 
Investir em servidor público e no aparato institucional é gasto público; pagar muito mais com os maiores juros da Terra ao sistema financeiro é "responsabilidade fiscal", fruto inclusive do xoque de jestão.
 
Mas quando um governo mexe no cálculo do dinheiro que é reservado a pagar estes juros, despreza superavits para fomentar o desenvolvimento e para mitigar a miséria e rompe com o capital vadio, aí é acusado de ser leniente com as contas públicas e de ser populista.
E eis que a elite comprou o avassalador livro de um francês intitulado "O Capital no Século 21" (v. aqui).
 
Não gostou, achou que era só sobre dinheiro e business até descobrir que o principal assunto era a desigualdade.
 
É que o climax do livro está no trecho onde se revela que as 85 pessoas mais ricas do mundo controlam uma riqueza equivalente à da metade da população mundial  ou seja, 85 seres humanos têm o mesmo dinheiro que 3,5 bilhões de pessoas juntas.
 
E a elite, enfim, não parece ter achado isso engraçado.


segunda-feira, 21 de julho de 2014

# açougue


Não há argumento que resista ao que se vê na carnificina de Israel sobre palestinos.

Dizer que civis palestinos são usados como escudo pelo Hamas  "ah, quem mandou usar o povo inocente?" , dizer que infelizmente a discrepância de poderes bélico-político faz parte da guerra  "ah, quem mandou se meter com a gente?"  e dizer que nestas circunstâncias erros acontecem e por isso tantos mortos "ah, quem mandou não obedecer a regra imposta e vigente?"  são casos patentes de cínica má-fé.

Ora, com a torpe tolerância européia e sob o atroz apoio estadunidense, o comando israelense continua a fazer gato e sapato do pouco que resta da Palestina (v. aqui).

Os números, por ora, mostram um despautério na análise que busca comparar os dois lados, as razões envolvidas e o bom, o feio, o sujo e o malvado disso tudo. 

São mais de quinhentos mortos de um lado, contra menos de vinte de outro; são 80% de um território atingido contra 10% de outro; é um arsenal político-militar acachapante de um lado contra rebeldes de arco-e-flecha e rojões quase juninos de outro (v. aqui). 

E tudo, tudo, por uma causa em que, ambos certos-e-errados, o lado absurdamente mais fraco tem agora a mínima razão  afinal, dê-se Gaza a quem merece a infeliz miséria de Gaza (v. aqui).

Novamente, como disse Eduardo Galeano (v. aqui), bem parece que aquele funesto costume europeu de ter caçado judeus tem a sua histórica dívida sendo cobrada, com sangue e na pele, do povo palestino  que, veja-se a ironia, é semita...

Mas esqueçamos isso agora.

Hoje já não se trata mais de guerra religiosa, de disputa territorial, de conflito político, de belicismo entre a ultradireita de Israel e os radicais do Hamas ou de qualquer outra coisa que minimamente o valha e que mereça ser, oxalá, resolvido.

Trata-se de um massacre.

E que deve ser analisado no seu intransitivo.

Com a mais firme, ativa e urgente reprimenda mundial.


segunda-feira, 14 de julho de 2014

# e teve a copa


A derrota das derrotas de terça-feira não pode apagar, nem tampouco minimizar, o brilho da nossa realização.

A incapacidade e incompetência na organização e no jogar do nosso futebol não pode ofuscar a capacidade e a competência na realização do grande evento.

E se o nosso escrete não pôde ter comissão técnica e CBF como aliados, o nosso Governo, como sempre, pôde contar com o nosso povo na concretização do maior espetáculo da Terra.

O mundo embasbacou-se com o que viu por aqui.

E o que se viu por aqui frustrou um bando de babacas nativos, vira-latas por completos e que, como infames profetas do apocalipse, ansiavam pelo desastre e pela vergonha nacional em rede mundial.

Se na terça-feira tivemos os mais desastroso e vexatório dia do futebol brasileiro, nestes mais de 30 dias tivemos o brio e a altivez de mostrar para ao mundo inteiro o nosso valor.

De mostrar a nossa gente, que muito além de multa inzoneira é educada, gentil, competente, pelejadora e feliz.

E de mostrar a nossa terra, que tem muito mais do que sol, florestas, rios e macacos.

Briosos, abrimos as nossas casas para milhões de pessoas que vieram, viram e gostaram.

E nós, fora do campo, vencemos.

Altivos, escancaramos as nossas janelas para bilhões de pessoas que pela tv e pela internet não sabiam deste Brasil, que inclusive ousou tentar acabar com um dos braços mafiosos da FIFA, capo di tutti capi (v. aqui).

Mas nunca é tão fácil assim de se ver e saber.

Afinal, o que a grande mídia nativa gosta mesmo de repercutir mundo afora é o que dá errado, o que não funciona, o que não perfuma, o que é caricato e o que pode ser-lhe útil na tutela e promoção dos seus privados interesses.

Como a política e o governo, é claro.

Política que no Brasil, mais do que em todo lugar, é sempre amaldiçoada.

E governo que, como em todo lugar, se não serve cordeiramente aos interesses privados, é sempre um grande telhado para onde se jogam pedras, cuspes e bosta.

Claro que com muitos trancos e sob tantos barrancos, mas o Brasil, com seu povo e seu governo, fez sim a Copa das Copas.

Agora sim, com muito orgulho e com muito amor.

Afinal, se antes a seleção nacional de futebol era o melhor do Brasil, hoje esse já pode se sentir (e se mostrar) melhor e maior que aquela.


terça-feira, 8 de julho de 2014

# marcha fúnebre


Na "marcha da quarta-feira de cinzas", Vinícius cantava que acabara o nosso carnaval, que ninguém mais ouvia cantar canções e que ninguém mais passava brincando feliz.

E que no coração o que restara eram saudades e cinzas.

Hoje, nesta noite soturna de terça-feira, pelas ruas de Copacabana pessoas murchas vagam como se velassem um ente querido.

Atropelado e depois espancado com ares de requinte e crueldade, o defunto está irreconhecível, dilacerado, atassalhado.

A lembrança é dos seus bons tempos, da ginga, da magia, da improvisação, do balacobaco, do chegar ao topo por meio de pernas tortas, de crioulos benditos ou de gênios indomáveis.

À mente vem a memória de um reinado que se esperava eterno -- como, afinal, toda dinastia pressupõe.

Mas ele se foi, perdemos o trono e recusamos a enxergar que tudo -- inclusive ele -- mudou. 

E agora este martírio, neste velório simples de alguém que já perdeu a majestade e que hoje já não se impõe, e hoje já não é modelo, e hoje já não arromba de alegria a retina de quem vê.

O fim foi amargo, azedo, ácido, acre, como jamais visto.

E o clima é triste, como poucas vezes se viu.

Agora chove a cântaros, como no inverno do Rio de Janeiro não se costuma ver.

Uma chuva que não nos lava a alma, mas serve para mascarar as lágrimas da maior humilhação sofrida pela nossa máxima expressão cultural.

É a decadência acachapante de alguém que já foi o maior de todos, iludido por um "vamos que vai dar" sem pés e sem cabeças, e que agora dói.

E assim, nesta noite fria e molhada, em cada esquina desta minha via sacra de volta para casa o futebol brasileiro é velado.

Espera-se a sua ressurreição.

Mas não no terceiro dia.