terça-feira, 25 de junho de 2013

# pontos nos is


Diante dos tantos emails recebidos, a questionar e a confundir algumas das nossas posições sobre os últimos acontecimentos e a nossa bula (v. aqui), vamos por partes, à la Jack, the Ripper.

1) Léguas de mim a idéia de que sou contra o povo nas ruas. Sou, na verdade, extremamente favorável à efetiva e direta participação popular no debate dos problemas concretos do país. E não à toa, quem caminha à margem esquerda do rio é quem, historicamente, mais costuma se mobilizar e se mostrar presente em movimentos deste tipo – embora, claro, não detenha o monopólio do grito cívico e social. Portanto, quero sim falar, discutir e resolver o problema A, a questão B, a emenda C, a lei D, o gasto F, o investimento G, os recursos H...

2) Porém, sou contra a ida às ruas sem uma proposta definida, sem um tom certo de posição e sem reivindicações objetivas e concretas. O oba-oba de que tudo está ruim, a inocência de clamar “paz”, ou “chega da corrupção”, ou “político só rouba”, ou "o gigante acordou", ou "ame-o ou deixe-o", a meiguice de levantar vozes e cartazes por temas lúdicos e metafísicos, a inutilidade de se propor idéias abstratas e difusas sobre saúde, segurança e educação, o narcizismo espetacular de querer aparecer na tv e em redes sociais, de entrar na onda da galera e de fazer parte do clima da moda pseudodemocrática, e a infantilismo de se dizer apartidário, apolítico ou outro não-conceito escoteiro qualquer, são atitudes, para mim, no mínimo tolas.

3) Além de tolas, são vazias de sentido. E como não há vácuo em política, mostram-se muito suscetíveis de serem adotadas pelo outro lado da força, com orientação e fim absolutamente diferentes de qualquer sentido social e democrático.

4) O Brasil está mudando, está se transformando. Se desprovidos do ranço egocêntrico, preconceitual ou oposicionista, os avanços são mundo afora visíveis. E por isso não quero um retrocesso sócio-econômico. E por isso não quer retroceder politicamente. E por isso não admito que corramos o risco de voltar às trevas neoliberais e de rever a turma da casa-grande nos domínios da nação.

5) A quem interessava – como a própria grande mídia, percebeu e se empolgou – ver milhões nas ruas reivindicando coisas difusas e poéticas, combatendo o Estado e tudo o que o cerca, se manifestando contra a política e os políticos em geral e dizendo que o povo não quer e não precisa de partido, de movimentos sociais e de organizações civis?

6) Ora, por mais que uma ou outra pequena coisa fique limitada nas políticas municipal e estadual (passagens de ônibus, por exemplo), é lógico que o grande alvo e a maior exposição em tudo está no âmbito federal, ou seja, é no colo do Governo Federal que tudo desemboca. Logo, quem poderia sair mais prejudicada nisso tudo? 

7) E não foi por outra razão que Globo & Cia – sempre a serviço dos “donos do poder” (Raymundo Faoro), é claro – perceberam que ali tinham outra grande chance de desestabilizar e detonar Dilma e seu Governo, mostrando, quase 24 horas no ar, que todo o povo estava achando tudo uma merda, que todo o povo estava achando tudo deste Governo uma bosta, que todo o povo estava cansando de ser fudido e roubado por esta gente da Dilma e do PT. Afinal, é nesta toada que a Globo & Cia sacodem-se, esculachando a Política e os políticos para assim desqualificarem o povo e a soberania popular – assim como as nossas elites, que não suportam ver pobre votar –, únicos legítimos nas verdadeiras democracias.

8) E, com tal propósito, dá-lhe pressão nas ruas. E dá-lhe reprimir bandeiras vermelhas, camisetas vermelhas, boinas vermelhas, ceroulas vermelhas, culottes vermelhas, peles-vermelhas, e até o sangue vermelho. E dá-lhe mostrar para ao mundo que não temos partido, que não temos lado e que não temos interesse político nenhum. Bobagem, meus caros.

9) Bobagem que só não se tornou um golpe 2.0 – sim, promovido por aqueles que sabem não ser mais possível o uso de milicos, mas que bem sabem haver formas modernas de tomar o poder à revelia do povo – por duas razões fundamentais (afora, claro, a decisão das prefeituras de anularem o aumento dos preços do transporte público, ponto nascente das passeatas).

10) Primeiro, pela crescente turma marginal e delinquente que apareceu, o que fez espantar a grande maioria dos jovens piás de prédio pintados de arara-azul e que até então "curtiam" on-line a micareta cívica, e, ato contínuo, fez frustrar a própria empolgação da grande mídia, a qual não mais podia esconder o quebra-quebra generalizado e continuar convocando, candidamente, o povo para as ruas.

11) Depois, graças ao estratégico e cirúrgico pronunciamento da Presidenta da República, comportando-se como verdadeira Chefe de Estado e dizendo a toda a população: “Vocês são queridos, viva o Brasil... mas, deixa comigo que eu mando e resolvo isso aqui!” (v. aqui). O que fez a grande maioria se acalmar, voltar para casa e para a rotina, afinal, não à toa quase 80% da população acredita nela e no seu governo, com um conceito que, segundo todas as pesquisas que aparecem, varia do "ótimo" ao "regular", razão pela qual viram-se, por ora, satisfeitos com o que ouviram.

12) Portanto, não fui e jamais irei pra rua à toa. Minha cabeça não é de aluguel, não me deslumbro com as vitrines virtuais das redes sociais e não sou sadomasoquista político ou engraxate da opinião publicada.

13) Afinal, como tanta e tanta gente, também quero mais mudanças e não tolero maus-feitos com a causa e o dinheiro públicos. E é justamente por isso que estou com Dilma e não com aquele povo biruta das ruas.

 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

# barões a nu


Em Curitiba, o transporte coletivo se tornou um problemaço: afamado o melhor do Brasil, hoje dá dó.
 
Mentira, engodo publicitário de décadas, fruto de uma dinheirama desenfreada em propaganda Brasil afora que faz o mundo pensar que a nossa cidade é um oásis tropicaliente, ou um reino encantado de araucárias.
 
Agora, diante dos últimos acontecimentos, o assunto “ônibus” voltou à minha pauta (v. aqui) e às manchetes.
 
Porém, o assunto veio pela metade, pois dá ares de não querer discutir o verdadeiro problema, ou seja, como chegamos a este estado de coisas e as razões pelas quais em todas as cidades do país – inclusive, claro, Curitiba – o transporte público é tão abjeto e caro.
 
O baronato de pseudo-empresários do transporte urbano, fruto de arranjos mafiosos em cujo ramo exclusivas famílias reinam há décadas (v. aqui), aproveita-se da incompetência ou da improbidade de gestores públicos para com isso fazer fortuna fácil e duradoura e ser destaque em colunas sociais, countries clubs e chás beneficentes país afora.
 
Ora, o negócio não é tão complexo, e nele vê-se duas equações possíveis: (1) soma-se um bando de picaretas com lucro fácil a uma administração pública historicamente sufocada e subserviente, ou (2) soma-se duas pontas corruptas (empresários e prefeitura), e em ambos os casos o resultado é um negócio fadado ao insucesso, pois economicamente impossível ou politicamente sujo, respectivamente.
 
E das licitações de faz-de-conta que a todo tempo acontecem, temos o seguinte, para cada um dos casos, ou seja, para uma situação de Prefeitura-refém ou para aquela de Prefeitura-cúmplice.

No caso (1), a Prefeitura não consegue, sem o risco de provocar o caos do sistema, mudá-lo, afinal, quem conseguirá competir com empresas que há milênios prestam (sic) estes serviços à população, com sua frota, sua logística e seus funcionários já a postos e contratados?

No caso (2), a Prefeitura não quer, sem o risco de perder a eleição vindoura, mudá-lo, afinal quem conseguirá se eleger sem o apoio logístico-financeiro daquelas empresas?
 
Sabemos que o caso do transporte público, pelas circunstâncias e dinâmica do negócio, seja um exemplo de “monopólio natural”, de inviável concorrência; logo, a solução para ambos os casos não está aqui, para frustração da turma liberal.
 
Sem querer partir para resoluções por demais stalinistas – como, por exemplo, o fim das concessões e a assunção direta dos serviços pelas Prefeituras, ainda que o texto constitucional admita (art. 30, V, CRFB) –, para ambas as situações há jeito menos traumático.
 
Para o caso (1), um passo óbvio seria abrir todas as planilhas de custos, detalhadamente – qual o lucro!? qual o investimento?! quais os custos e subsídios?!– e mostrar o quão toscas, vazias e pró-empresas elas são formadas. Depois, mostrando-se o disparate – e se confirmando que nesta relação cada parte (Prefeitura e população de um lado, e empresários de outro) entrou com uma parte diferente da anatomia do corpo humano –, revoga-se a concessão, obriga as empresas a continuarem prestando os serviços por tempo determinado e já prepara estudos para convocar nova licitação – sem, antes, declarar inidôneas ou suspender de qualquer concorrência pública vindoura cada uma daquelas empresas que por décadas sangram os cofres públicos e os esfíncteres da população. Podem ter certeza que argumentos jurídicos haverão, só bastaria aqui também combinar com os russos, ou seja, esperar que o Judiciário, que nestas matérias costuma exalar conservadorismo – vide o que ocorreu nos caso dos pedágios no Paraná – dê um passo à frente e renove-se no tocante aos contratos administrativos e ao interesse público.
 
Para o caso (2), só uma Reforma Política salva, especificamente no que tange ao financiamento público de campanhas. Por quê? Porque reduziríamos muito o “toma lá, dá cá” que a cada eleição sustenta as campanhas dos nossos políticos, fundada nas doações espúrias e travestidas em "n" caixas de arrecadação. Ora, com este método, a cada pleito eleitoral, seja lá quem for o vencedor – sim, os barões do transporte público bancam todos os candidatos com potencial êxito, não importa se à direita, à esquerda, se arriba, abajo, al centro, adentro... –, esta nobre classe tem a certeza de que os contratos e as “suas” linhas de ônibus serão mantidas incólumes, intocáveis, como feudos ou alguma capitania hereditária.
 
Mas, antes disso, o primeiro e fácil passo é parar com a hipocrisia beata que tenta (e consegue) esconder o diabo, para assim retirar das faixas laterais dos ônibus que rodam pelas ruas os gigantescos dizeres “Cidade de Curitiba” e dar o mesmo e claro espaço também para o prestador, sem nomes fantasia.
Ora, é notório que se trata de um “serviço público”  e que, salvo por alguma viagem alucinógena, se você está em Curitiba/PR o serviço de transporte público municipal não será da de Quixeramobim/CE...  e que até exista uma padronização nacional para identificar isso.

Mas vamos dar nome aos bois e deixar claro de quem (também) são os péssimos e caros serviços, vamos deixar claro quem é, ainda que sob o regime de concessão, o dono daqueles péssimos e caros serviços, vamos mostrar para todo mundo, vamos mostrar à Oropa, França & Bahia a cara de quem cara e pessimamente carrega milhares de curitibanos todos os dias. Vamos, enfim, desnudá-los e trazê-los para o sol.
 
Afinal, nem tudo é só da cidade de Curitiba  embora "Redentor", "Cidade Sorriso", "Glória" e "Marechal" sejam sim tudo de uma só família, com sobrenome Gulin.
 
Definitivamente, levando a fama que for – a verdadeira ou a maquiada –, não podemos aceitar que a Cidade e a Prefeitura tenham o exclusivo ônus da imagem do sistema e unilateralmente recebam pedras e cartazes em manifestos deste tipo, enquanto os senhores de engenho viário, por suas vezes, desbundam-se com o lucro fácil e têm preservadas as suas bundas para só exporem, fagueiros e faceiros, as suas Caras.
 
Pois é, resta esperar para ver algum filhote desses barões com a cara-pintada e uma bandeira cheia de dizeres republicanos na frente do Homem Nu, para o bem da gente da nossa Cidade.


sábado, 22 de junho de 2013

# conhecemos teu valor


E em Curitiba, na sexta-feira, ainda como rotina da baderna que virou o oba-oba senil pelas ruas do Brasil, o Estádio Joaquim Américo – a Baixada do Atlético, ainda em reforma para a Copa do Mundo, sendo um dos dois únicos estádios particulares que serão usados para o evento, ao lado do Beira-Rio, em Porto Alegre – fora pretendido com alvo para depredação e achincalho da choldra de plantão.

Sim, fora... pois a turma, ao ter brilhante ideia, não esperava ver o que viu.

Eis que, chegando ao nosso Estádio com pedras, lanças, chicotes, criptonitas, foguetes e toda a má-intenção do mundo, deparou-se com uma partícula da maior torcida organizada do sul do Brasil, "Os Fanáticos", e aí meus amigos, a coisa mudou de figura (v. aqui).

Muito bem posicionados com tacapes à mão – sim, só tacapes, para assim humilhar a horda de otários que se aproximava –, a torcida rubro-negra pôs para correr as bestas que imaginavam poder detonar, talvez com ainda mais facilidade, outro patrimônio da nossa cidade, o enésimo daquela triste noite. 

E assim se fez a legítima defesa meus caros, absoluta e legítima defesa contra agressão a direito alheio metaindividual.

Ora, conforme prescreve o art. 25 do Código Penal, usou-se moderadamente dos meios necessários – no caso só se viu a torcida promover um "espanto da boiada", claro que sem antes acertar uma meia dúzia, mas só na base da chinelada, dentro dos limites necessários para se conter a agressão, como quer a lei –, repelindo-se injusta, atual e iminente agressão (e não mera provocação) a direito de outrem – no caso o patrimônio do Clube Atlético Paranaense.

Ademais, doutrina e jurisprudência são claras em afirmar (i) que a legítima defesa serve para tutelar qualquer bem jurídico – no caso um estádio de futebol –, (ii) que a legítima defesa deve acontecer quando se tem a consciência da situação de fato justificante – e ali se estava a defender o Estádio da injusta agressão, (iii) que a legítima defesa contra multidões é válida, e (iv) que o excesso na legítima defesa, se fosse o caso, teria sim caráter exculpante, uma vez que, nas mesmas circunstâncias e no mesmo contexto fático, qualquer pessoa de fato se excederia da maneira ocorrida.

Enfim, todos têm direito à autodefesa legítima, é a "justiça com as próprias mãos" admitida pela lei, na qual o agente substitui a atuação do Estado, o qual não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo, cabendo ao particular assegurar de modo eficiente e dinâmico a manutenção da ordem jurídica. E isto não tem nada a ver com milícias, grupos de extermínio etc. (art. 288-A, CP), como alguns quiseram comparar a defesa do nosso estádio feita por particulares diante dos ataques da noite de sexta-feira: primeiro pelo despropósito conceitual entre o grupo de torcedores organizados e as figuras pretensamente equiparadas; depois, pelo fato de que para se enquadrar como milícia ou coisas do gênero exige-se como elemento objetivo do tipo que a associação criminosa (?) seja permanente ou estável, construída para controlar determinada área ao longo de um tempo, exigindo uma contraprestação.

Sim, a torcida do Atlético esteve com toda a razão, porque juridicamente legítima a sua conduta.

E agora, além dela já notoriamente bem conhecer o valor do nosso clube – como canta o glorioso hino –, também se percebe que conhece o valor do nosso patrimônio, que tanto dinheiro e tempo está nos custando.




# aspas (xxxvii)



A Constituição da nossa República prevê, desde a sua promulgação (1988), a criação de um "Imposto sobre Grandes Fortunas", conforme expressa disposição do art. 153, VII.

Todavia, não é mera coincidência que o tributo ainda não tenha sido regulamentado pelo Congresso Nacional ou seja, a grande ideia escancarada no nosso texto máximo ainda não foi levada adiante pelo Parlamento, e por isso ainda não pode ser exigida, a restar estéril para delírio dos tantos Tios Patinhas nativos.

Bem, nesta toada, o estadunidense Warren Buffett, há muitos anos sempre entre os cinco homens mais ricos do mundo, sugere que os países parem de mimar os seus tantos bilionários e passem a cobrar mais tributos das classes do topo da pirâmide (v. aqui):

  "Nossos líderes pediram 'sacrifício compartilhado'. Mas quando fizeram a pergunta, eles me pouparam. Eu chequei com meus amigos mega-ricos para saber que sofrimentos eles estavam esperando. Eles, também, foram deixados intocados.
   Enquanto pobres e a classe média combatem por nós no Afeganistão, e enquanto a maioria dos americanos luta para sobreviver, nós, mega-ricos, continuamos a receber os nossos extraordinários incentivos fiscais. 
   Alguns de nós são gestores de investimentos e ganhamos bilhões com nosso trabalho diário, mas podemos classificar a nossa renda como “participação nos resultados”, pagando uma taxa de imposto de 15% , uma pechincha. Outros aplicam no mercado de futuros sobre os índices das próprias ações, por 10 minutos, e têm dois terços do seu lucro tributado a 15%, tal como se tivessem sido investidores de longo prazo.
   Estas e outras bênçãos são derramadas sobre nós por legisladores em Washington, que se sentem compelidos a nos proteger tanto, como se fôssemos corujas-pintadas ou alguma outra espécie ameaçada de extinção."
   No ano passado a minha conta de impostos federais – o imposto de renda que eu pago, bem como impostos sobre os salários pagos por mim e em meu nome – foi 6.938.744 dólares. Isso parece um monte de dinheiro. Mas o que eu paguei foi apenas 17,4 % dos meus rendimentos tributáveis . Isso, na verdade é um percentual menor do que foi pago por qualquer uma das outras 20 pessoas em nosso escritório. Seus impostos variaram de 33 a 41% – média de 36 % – sobre seus rendimentos. (...)
   Eu e meus amigos fomos mimados por muito tempo por um Congresso amigo dos bilionários. 
   É hora de nosso governo levar a sério o sacrifício compartilhado."



 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

# na mosca (e nas varejeiras)


Em rede nacional de rádio e tv, Dilma foi ótima, quase tão brilhante como, nestas horas, era o seu ex-companheiro de partido, Leonel Brizola.

A Presidenta de todos nós brasileiros falou e disse, dando uma lição em quem a imaginava irritada detonando os legítimos e objetivos pleitos populares e as honestas participações nas ruas; fulminando as pretensões de quem a imaginava tensa temendo as articulações golpistas; e decepcionando quem a imaginava volúvel e ensaboada querendo agradar a todo mundo.

Ponto a ponto, foi direta como sempre, destacando o que fez, faz e fará em relação aos assuntos mais combatidos, inclusive ao dar sonoros avisos a quem possa interessar, pegando muita gente de calça curta e, sem se furtar dos compromissos, apontando para outros corresponsáveis.

Ao falar que exigirá a aplicação da Lei de Acesso à Informação – diploma normativo que dá máxima transparência das contas, compras e custos de todos os poderes da República – por parte de todos os poderes, por exemplo, desagradará os impolutos, imaculados e onipotentes senhores do Poder Judiciário, historicamente (auto)reconhecidos como acima de tudo; e, saibam os senhores, a corrupção também corrói em larguíssima escala este Poder, nada diferente do que ocorre com os nossos Legislativo e Executivo.

Ao falar que abriremos as portas aos médicos estrangeiros – devidamente capacitados, sublinhe-se –, acabará a reserva de mercado e o corporativismo dos "doutores" e seus conselhos, fazendo chegar a saúde nos rincões do país onde os nativos não querem ir ou mesmo naqueles onde querem mas não vão.

Ao falar que está aguardando o Congresso Nacional se coçar para aprovar a sua lei que exige 100% dos recursos do petróleo (pré-sal) aplicados na educação, faz nascer brotoejas na turma que não quer um Brasil desenvolvido e um sistema educacional com professores, métodos e estruturas de qualidade.

Ao falar que, de imediato, mais uma vez receberá todos os representantes dos movimentos e organizações sociais, para saber, tête-à-tête, o que querem e o que pensam, frustou aqueles que nada pensam e nada querem, frustrou aqueles apolíticos e aqueles apartidários que vivem de preconceito, birra, umbigo e apocalipse.

Ao falar que os gastos com estádios da Copa não são tão gastos assim, lembrou que foram empréstimos e financiamentos – e não investimentos – e, ao cabo, que se trata de uma condição criada por vocês mesmos para realizar o evento (bem... na verdade aqui é mais ou menos isso... este negócio todo é estranho e nebuloso... e já aqui faço uma particular observação, que de novo percebo: ninguém me tira da cabeça que a Dilma, se na época fosse ela a Comandante, vetaria a ideia da Copa no Brasil, tal qual o ex-Governador Requião...).

Ao falar que é necessário oxigenar o “velho sistema político” e encontrar mecanismos que tornem as instituições mais transparentes, resistentes aos malfeitos e permeáveis à influência da sociedade, ela reforça que é um equívoco achar que qualquer país pode prescindir de partidos e do voto popular – a base de qualquer processo democrático –, frustrando quem via nela e no PT o prenúncio do fim da nossa democrática República Federativa do Brasil.   

(Só senti a falta, confesso, de ouvir ela falar que acabara de mandar pra rua algumas múmias paralíticas que ocupam cadeiras ministeriais tão importantes, tão próximas a ela e ligadas tão diretamente ao partido – e, pois, que assim independem do tal arranjo governista com a base aliada para serem demitidos –, nomeadamente o quinteto irreverente formado por Gleise Hoffman, Ideli Salvati, Gilberto Carvalho, Paulo Bernardo e José Eduardo Cardoso).

Por fim, a Presidenta da República falou com firmeza, coragem, serenidade e, melhor, com a postura de quem se coloca como referência de Estado e como liderança efetiva de uma nação.  

E vocês se perguntam: “Pô, mas precisava acontecer isso tudo pra ela agir?”. 

Não... e a pergunta é errada. 
E por uma simples razão: isso tudo já era feito, pari passu, no ritmo (lento) que o sistema democrático-institucional exige.

Ora, percebam que tudo o que foi acima dito e escrito já está acontecendo, já foi pensado e já foi proposto pela Presidenta.

O problema é que não estamos num país com partido único ou com unicidade de poderes, razão pela qual (quase) tudo deve passar por negociações políticas, debates partidários e chancelas do Legislativo (e mesmo, por vezes, do Judiciário).
É, não é tão simples tudo isso, mas acho que dá para entender... 
E, quem sabe, para ajudar, ao invés de ir às ruas para tirar fotos em facebooks ou para contar aos colegas no recreio do dia seguinte ou para se pintar de arara e sorrir à imprensa com frases-feitas a tiracolo, este pessoal começasse a estudar, a ler e a refletir mais sobre todo este estado de coisas?
Duvido que ainda continuassem a querer brincar de Turquia ou de Praça Tahrir pelas avenidas brasileiras.

Ao fundo, o caos da noite de ontem; à frente, um grupo de gigantes acordados e
bastante preocupados com as "reformas" no país.

# saída pela esquerda


E o "Movimento Passe Livre" (MPL), que liderou os protestos Brasil afora com vistas à diminuição do preços das passagens do transporte público, já pulou fora.

Elementar, meu caro Watson.
 
A galera, formada por gente de esquerda aliada a tantos outros movimentos sociais importantes no nosso país – MST, por exemplo – percebeu a enrascada e o embuste que o negócio se tornou.
 
Exitosa no seu objetivo e finalístico pleito, declarou que a passeata passou a ser conservadora, de viés fascista e índole reacionária.
 
E que não admitia a censura à participação de partidos, de movimentos sociais e de organizações sociais.
 
E, ao contrário do que pregam, disse que a nova marcha não era tão difusa assim.
 
Sim, escancarou a liderança, o mote e os interesses, que vão além do mero interesse em postar fotos e curtir a agitação no Facebook.
Tudo elementar, meu caro Watson.


Momento em que um dos membros do MPL resolve seguir seu caminho, e é perseguido por um dos manifestantes das redes sociais 


 

# odisseia


Nada é por acaso – já dizia um amigo baiano, vendo numa mesa a magra com seu prato de salada&atum e a gordinha com sua lasagna quatro queijos.
 
E as passeatas que inebriam uma pequena parte do Brasil é uma caso clássico disso.

Ignorância e ingenuidade são apenas alguns dos mínimos atributos para qualificar a maioria que se cumpliciou deste crime cívico.

Pequena e nos seus delírios rebeldes, esta massa ajudou a empurrar um cavalo de Tróia que, dentro, levava os mais sórdidos, mesquinhos e reacionários interesses, para incrédulo delírio da turma que não quer um Brasil para todos.

Na verdade, esta turma ainda não acredita que o negócio, após tantas e tantas tentativas frustradas de retomar o poder, caiu assim no seu colo, de repente, sem esperar - e, pior, sem no seu início querer, pois, claro, detonava o protesto contra o aumentos das tarifas de ônibus.

Eis que agora, surpresa, já não mais consegue esconder o êxtase pela retomada de um jogo quase perdido.

Esta turma, como sempre, tem seus interesses defendidos pela grande mídia nativa, a qual não poupa esforços.

A Globo, cândida como só ela, finge provocar as mais bipolares análises, como se pudesse ludibriar alguém minimamente atento: enquanto diz que é tudo pela democracia, pela paz, pela honestidade, pelo fim da corrupção (sic), coloca no Jornal Nacional 40 minutos de imagens de quebradeira, de fogo, de balas e de confrontos. E diz que a coisa está preta, que não há mais controle etc. E assim enganam meio-mundo, como sempre desatento.

Na rádio, CBN e BandNews disputam o posto de quem consegue provocar mais pânico e mais estardalhaço, insistindo que tudo é belo e formoso, que é lindo ver o povo nas ruas... mas, rapidamente, destaca 80% do tempo da programação para falar das brigas, do vandalismo, do quebra-quebra e do estado de perigo. E repte a ladainha, dizendo que não há controle, que a juventude está revoltada etc.

Nos jornais impressos, capas e contra-capas de carros pegando fogo, lojas quebradas, gente ferida etc.

“Tranquem tudo”! – já começa a sugestionar muita gente.

“Invadam tudo mesmo”! – já gritam outros.

É meus caros, Tróia parece que vai mesmo ser tomada.
 
Como numa outra história, só espero juntar mais uns trezentos para ajudar na sua defesa...



# e assim caminha a humanidade (xxi)


Enquanto isso, num despretensioso café expresso com um amigo, ele me conta mais uma da “turma das passeatas”, destes caras pintadas 2.0, versão hi-tech, que, ingênuos, empurram o cavalo troiano do golpe.

Falava da reunião de umas 30 pessoas que tratavam de organizar a primeira “manifestação” (sic) em uma pequena cidade fluminense. Era um microcosmos deste negócio todo.

Para o encontro, o grupo convidou o irmão do meu amigo para documentá-la, na qualidade de jornalista.

E assim seguiu a conversa entre os jovens, na íntegra, sem exageros:

- Então!? Sobre o que vamos protestar? – grita um, abrindo a pauta.

- Pois é, sobre o quê? – todos, em uníssono, emendam.

Ao fundo, por alguns minutos, só grilos e toques de SMS...

- Galera, pô, a gente precisa saber sobre o que vamos gritar e escrever! – esbraveja o líder.

- É!!! O que vamos reivindicar?! Senão não dá, né!! – diz outro, meio preocupado, meio revoltoso.

- Hein, a gente podia falar sobre o preço do ônibus mesmo... – define o organizador, limpando o suor com a manga da sua camisa polo da marca do jacaré.

E a resposta vem na hora, todos juntos vibrando: “Isso!”, “Boa!”, “Fechado!”, "Legal, vou por no Face!"

- É! E fica até mais fácil, já que tá todo mundo falando nisso, né!! – resume o mais gordinho, largando o canudo do milk-shake.

- Então pronto... Ei, mas tem um problema galera! – adverte um deles.

- Qual? – emenda a guria, enquanto fuçava no i-phone.

- Alguém sabe o preço da passagem?

Silêncio geral.

E vai todo mundo com seus smartphones, no Google, procurar saber.

- Parece que é R$ 2,50... Não, acho que não... Peraí... É, é, aqui, R$ 2,65! – diz um, meio sem segurança.

- Não, é R$ 2,50 mesmo! – fala um deles, com a bandeira do brasil simetricamente amarrada no pescoço.

- Cara, mas de que ônibus vocês estão falando?  – confessa um, na lata, pouco antenado.

- Hein, tá errado, tô vendo aqui, achei... é R$ 2,70! – diz outro, com ar de arqueólogo.

Diante da confusão, o líder da tal blusa do jacaré se irrita:

- Hei! Atenção! Assim não dá! A gente precisa saber certo pra escrever nos cartazes, porra! Senão vai sair preços diferentes e vai ficar estranho, parece que a gente não sabe do que ´tá falando!

Outro minuto de silêncio.

E todos caem no riso.



quinta-feira, 20 de junho de 2013

# o ovo da serpente


Não, você não está na Europa dos anos 30, nem nas trevas da América Latina dos anos 70.

Também não está no mundo das arábias com seus ditadores mafiosos de turbantes e diamantes; tampouco no Sudão, na Islândia ou na Grécia pós-modernas e pouco olímpicas.

Por mais globalizado que esteja, você deve estar no Brasil, país hoje pulsando na roda-viva do planeta Terra e no qual um governo, há menos de dois meses e apesar de tantos erros, tinha 65% de aprovação popular, com ótimo ou bom, como as pesquisas demonstravam (v. aqui).

Localizado no tempo e no espaço, pergunte-se: qual o real sentido desta onda que enche ruas, praças, orlas, emails e redes sociais? Claro que ainda tanta coisa não funciona, que um mar de gente está à busca de novos sentidos para a vida, que novos valores estão em jogo sem a melhor participação estatal... Mas, parece, não é bem isso.

Na real, a bandeira concentra-se na "luta contra a corrupção", expressão da moda que vem e vai no balanço do "mar de lama", mas que se trata, sim, de uma velha ideia démodé que sempre causou mais estragos que consertos por conta do seu errado foco.

Disformes e esquisitos, esses protestos, com passeatas e manifestações, parecem os testes de Rorschach: cada um vê neles o que quer e, assim, se revela no que vê – isso até soa meio complexo, mas não é, garanto.

Antes de tudo, porém, registre-se a complexidade de tudo e de todos: cá estamos, afinal, longe de um terreno raso deglutido em coraçõezinhos e 140 caracteres das redes sociais.

Depois, não desprezemos de pronto e por completo as vozes que ecoam em cada esquina mais ou menos periférica e suburbana do país, pois, se tem uma coisa que há milênios provoca nojo e náuseas é o modus operandi das empresas de transporte coletivo país afora: estas empresas de ônibus são mafiosas, canalhas de um "setor" que se caracteriza pelo que de mais perverso há nestas relações públicos-privadas, típicas de uma sociedade patrimonialista.

Depois, claro, até se compreende também dois outros da "ideia em potência", marcados (i) na insatisfação pela ausência de reconhecimento dos cidadãos nas representações políticas e dos trabalhadores nos seus meios e locais de trabalho, bem como (ii) na certa (certíssima!) frustração pelos limites das promessas de ascensão social dos governos petistas, não tocando nos pilares deste neoliberalismo que sufoca, segrega e sucumbe 90% da população, ainda concentrando muita renda e riqueza e, fundamentalmente,  (iii) na marca de um governo que insistiu em repetir modos de (des)funcionamento político e institucional do passado.

Mas isso, vê-se, não é o foco. Seria como se assim pensassem: "olha, não sabemos o que seja, não entendemos o que possa ser, mas, na boa, tem algo nos incomodando..."

Ou seja, incapazes de pretenderem uma utopia ou um sonho revolucionário, traduzem o incômodo assim, numa sopa difusa de gritos e cartazes sem sentido, talvez decifráveis em divãs de psicanalista ou rodas de haxixe, mas que querem mostrar um descontentamento, uma tristeza, uma melancolia por uma broxada astral só reerguida por pílulas azuis de pseudocivismo.

Mas, à margem disso, agora já parece – verdadeiramente!  trazer evidências transformadoras que se sustenta no seguinte clamor pseudo-popular: "tudo contra a política!” e “tudo contra o Estado!” – inclusive o âncora matutino da rádio BandNews assim denomina a coisa, com aplausos gerais...

Ora, por favor, não me venham transformar um protesto legítimo – revisão dos preços e das concessões dos serviços de transporte público e, até, a frustração quase metafísica por um estado de coisas – em uma ação despolitizante contra tudo e todos, afinal, bem se conhece a famosa frase da obra "Il Gattopardo" (Tomasi di Lampedusa): “mude-se tudo, para que tudo permaneça como está”.

Ora, não se vê ninguém a pedir a Reforma Política ou a Reforma Agrária. Ninguém está a falar em se fazer, pra valer, as Reforma Tributária, Previdenciária, dos Meios de Comunicação e do Poder Judiciário, medidas institucionais que redistribuam a grana e o poder, todas absolutamente cruciais para o avanço do país.

Menos ainda, longe passa o pensamento que efetivamente conteste o óbvio: a necessidade  de se transformar a ordem vigente, enterrando o capitalismo e fazendo nascer, a fórceps, outro sistema, outro modelo, outra forma social capaz de unir e incluir e toda uma multidão.

Por quê? Ora, porque se trata, na maioria, de uma turma apolítica, despolitizada e que se cria em chats, nets e quejandos virtuais de discussão, reflexão e estudos, tudo muito volúvel, muito superficial e muito “líquido”, como diria Bauman.

Afora o mesmo pessoal de sempre – aquele que tem horror às mudanças sociais e econômicas efetivamente construídas no país e que representam os eternos 25% da população –, (não) surpreende a profusão de "revoltados on-line" a ajudar a chocar este ovo ou a embalar este cavalo troiano.

Sim, bandeiras, cirandas, plumas e paetês contra a corrupção, "pela paz" e em favor da vida são vertigens sociais e realisticamente inúteis.

Na verdade, o que políticos e endinheirados filhos da puta mais desejam são, justamente, manifestações “contra tudo o que está aí”, “contra a política”, "contra partidos", “contra instituições” etc., tudo sem imiscuir no real e no concreto.

A história recente é sempre farta em exemplos e em nos ensinar, para não nos deixar esquecer: nos anos 60, pré-Golpe, as “filhas de Maria” também queriam um estado democrático e um país melhor – mas sem o Jango (e o povo).

Sim, ironia pura, os reacionários daquela época entupiam as ruas de Rio e São Paulo clamando e marchando por Deus, “pela Tradição, pela Família, pela Liberdade” e, claro, pela Democracia e pelo Brasil-sil-sil.

Naquele golpe, portanto, os clamores também eram belos e justos na sua formosura, com um blá-blá-bla bonitinho (e sempre ordinário).

Porém, a “democracia” deles só servia sem um presidente da República legitimamente eleito, popular e de centro-esquerda, no caso Jango – e o golpe, a reboque da grande mídia, foi questão de minutos.

Logo, qual o efeito político desta marcha, desta onda e destas cartazes atuais? A quem interessa? Quem banca e está por trás disso? Qual o sentido desestabilizador disso tudo (v. aqui)?

Não sejamos tolos: basta ver a redireção tomada pela grande mídia diante dos movimentos, as edições de texto e imagem, as manchetes associativas e as mensagens subliminares de culpa que promovem.

Ora, os "donos do país" já se apropriaram dos caras-pintadas 2.0, a versão high tech de uma turma que nos anos 90 mimetizava o impacto dos “anos rebeldes” da tv e pedia a excomunhão de Fernando Collor por motivos que interessavam muito mais à grande e velha indústria multinacional aqui instalada e a uma boa parte do Congresso frustrado pelos rompantes monarquistas de um arrogante Presidente do que à população em geral. 

A história, inclusive, hoje detalha muito bem isso.

Logo, que insatisfação seria essa de agora, justamente num momento em que o Brasil parece acordar, resgatando a dívida secular com a dignidade de dezenas de milhões de brasileiros e inserindo-se definitivamente como co-protagonista no cenário político e econômico mundial? 

E, mais, num momento em que, mesmo com o insano e diário bombardeio midiático, o atual governo continua a gozar de alta popularidade (ótimo/bom/regular com mais de 70%, segundo as últimas pesquisas) e cujo partido passa a governar a maior cidade da América Latina (São Paulo)?

É óbvio que há muitas e muitas (...) coisas a melhorarem; são, sim, notórias as nossas desgraças sociais, os nossos problemas e deficiências, as nossas carências humanas e estruturais, os nossos desequilíbrios institucionais e a nossa decepção com o freio centrista e conservador do governo federal em várias áreas  sim, o PT atua como o partido da ordem.

Como também há uma "crise de representatividade", que quer redimensionar a via direta do exercício do poder, uma "crise de esperança", que quer mudar a dinâmica política para (re)ver o concreto das relações cotidianas, e uma "crise de futuro", que quer outro norte para a sociedade.

Contudo, mesmo que se vá às ruas na busca deste caminho – ação condicionalmente legítima –, é absolutamente obrigatório o olhar para o presente, para o conquistado e para o que está em jogo, aspectos esquecidos pelos bandos que invadem as nossas ruas e Casas, com suas cabeças ocas ou já bem programadas. 

Atenção: ainda que a pequenos e lentos passos, Brasil está mudando, e isso precisa ficar claro, e isso precisa ser visto – e não enxergado pelas lentes turvas de quem não tem interesses populares, coletivos, cívicos e republicanos.

E isso precisa ser feito por vias efetivamente democráticas, assentadas na militância, na participação, no voto e nos desejos de governo de cada um de nós.

Portanto, minha gente, por maior que seja a inconsistência das posições políticas e a ausência de efetivas propostas e demandas das ruas, do que se vê o resultado será apenas um.

Na marra, será o começo do fim deste governo de centro-esquerda e das pautas conciliatórias  até quando esse papo-furado!?  desta "social-democracia petista", com as consequências mais desgraçadas para a nossa República e para o nosso povo: um mergulho ao abismo cívico-institucional sob a agenda neoliberal de uma gente disposta a tudo.

E neste caso nada surpreendente ou sem querer, exatamente como naquele último golpe militar em que se arregaçou a nossa rarefeita democracia para dar espaço às vontades da elite empresarial, sustentadas pelos interesses da geopolítica estadunidense e reverberadas pelos gritos reacionários da imensa parcela da classe média que sempre curtiu manter no país um exército de escravos. 

Daqui para frente, flertamos com o caos e o terror.



domingo, 16 de junho de 2013

# desiberna (ou, "o meu portão")


Eis-me aqui, de novo, enfim.

E confesso: pelo andar da minha carruagem, 
esperava não mais voltar.

Mas eis que retorno, com uma motivação que poderia ter surgido de tantas e tantas coisas.
O crescimento do benjamin, o gigante ser que a cada dia toma mais conta de mim. O amor maior do mundo pela mulher amada. As saudades angustiantes do cotidiano com minha família ao sul, mas sempre no centro do meu universo. A falta de minha gabriela. A distância mexicana de uma irmã. A paixão pulsante pelo atlético. Os encontros com tanta gente querida nesta minha nova cidade. Os desencontros com tanta gente querida da minha velha urbe. As regatas com meus chapas, as doses com atroveran e os trucos com gavas e luízes. A minha praia, a minha rua, o meu bar, o meu lar. A minha religião, a minha teologia e a minha libertação. As reflexões, os temores, as idéias, a cólera por tudo o que vem e passa no teatro da minha vida. Os tantos e diplomáticos pedidos, de leste a oeste. O vazio e os fins existenciais. A alta do dólar, o alto da compadecida. A baixa do sapateiro e o baixio das bestas. A crise pela minha abstinência de orelha de elefante com chimichurri. O último bolinho de camarão, de siri, de feijão, de chuva. A próxima roda de choro, viva, gigante. As penúltimas lágrimas. O preço do tomate, dos tremoços, do chicabon, das brahmas extras e das caixas de lenço de papel para onde assoo a minha melancólica alma. A massa ruminante e a baba bovina. A classe média ao molho pardo. O branqueamento de capitais e do futebol. A imprensa marrom e golpista. Os smurfs, os backyardigans, as peppas e os tucanos. As febres, as ânsias, os asnos e as antas. Os meus ídolos, as minhas overdoses. O quase 2014, talvez o último ano do resto de nossas vidas...
Enfim, justificativas não faltam.
Nem tempo, pois vinte e quatro horas são suficientes para tudo.
Inclusive para não fazer nada.
E é este nada que voltaremos a materializar aqui, no coletivo divã deste meu sideral espaço virtual.

En garde!


Eu voltei... para este meu portão, por trás do qual estão algumas das minhas histórias, memórias e segredos




quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

# um particular dia da criação

 
O mundo parou.
 
Por um longo instante de vários dias o mundo pareceu-me parado, suspenso.
 
Ao menos em câmera lenta, nele eu levitava.
 
E nele via a vida, e nela tudo não acontecendo, tudo em silência, tudo bisextamente congelado.
 
À mente, em movimento, vinha apenas a realidade passada, do que fomos e fizemos, e a futura, do que seremos e faremos, enquanto todo o presente insistia em permanecer em seu plano quase surreal.
 
Da conjugação entre o nosso desejo familiar-cristão-civilizacional e a sanha imperativa cromossômica, eis que se conformam os aromas de mais elevados sentimentos e matizes e os acordes de mais profundo lirismo e transcendência poética, para, assim, do dia para a noite, chegar a grande boa nova que modifica para sempre as nossas vidas.
 
Foi o nosso dia da (nossa) criação.
 
Daquele momento em diante – ainda que o nascimento pré-entreluz tenha se dado há quatro ou cinco semanas –, o que estava no plano hipotético do planejar e do querer concretizou-se na forma de um vivo projeto de microscópico ser.
 
Na verdade, nessa ainda transição de pulsante energia humana para uma ultraminúscula gente, maior que o júbilo é o caráter fantástico do acontecimento, afinal, mais difícil que conhecer a conformação físico-químico-biológica de todo este nosso desenvolvimento celular, é saber responder de qual plano viemos e do que será imaterialmente formado.
 
Sim, não será um mero mini-mim.
 
Com essa descoberta, um misto da prova genética e fabulosa de Deus, colocamos em marcha um (fiapo de) sentido que a todo instante ameaçará transformar o conjunto desgarrado – e por vezes sem nexo – de episódios a que chamamos "vida" numa narrativa, se não entendível, ao menos finalística.
 
Parece-me que é apenas de agora em diante, embora ainda com ares metafísicos, que passaremos a compreendê-la.
 
Fora dele, já começamos a ter a impressão de que tudo fora dessa nova vida dispõe do peso necessário para ser importante.
 
A nossa própria existência, inclusive, parece pulverizar-se e desatar da gravidade, tudo em prol da maravilhosa epopeia do proto-crescimento que, ao final, em seu estágio já pleno, deverá nos mostrar não sermos aquele que criamos, mas apenas nele estarmos e na vida dele nos reconhecermos.
 
Sim, esta é a razão da nossa multiplicação.
 
Neste nosso caso, saber que o amor humano – em todas as suas faces e, em especial, nas suas vindouras doses de afeto, zelo, doação, privação... – materializa-se na forma de um novo ser humano, faz-nos ter a complexa e dogmaticamente auto-explicativa certeza do divino poder da criação, pelo qual Ele, com a nossa constante contribuição, é capaz de nos deixar, em franco processo de evolução, mais humanos, demasiadamente humanos.
 
Afinal, ainda que não saibamos o que encontraremos neste nosso novo caminho, infinitamente marcado por incertezas, dúvidas e surpresas, a relação que teremos com a nova vida que estamos a gerar será, sempre, de absoluto amor e de incondicional atenção.
 
Tão certos quanto as plurimotivadas lágrimas, alegrias e emoções que doravante (não) haverei de conter.
 
 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

# al/dl


 
Este filho também não fugiu à luta; este filho não abandonará o nosso barco.
E assim veremos que a nossa terra nunca mais será a mesma.
A nossa terra será, enfim, de todos.
Obrigado, Presidente Lula!