segunda-feira, 28 de julho de 2014

# extrato evidente


E o tal Banco Santander, hein? (v. aqui)

Não, é claro que não surpreende.

Apenas expressou e agora deixou a clara prova de algo que sempre fez, faz e fará.

Afinal, é e está a serviço da elite, extrato sempre corrompido acerca de qualquer ideal ético ou de construção republicana.

Ademais, o que se esperar de uma "instituição financeira" – tenha-se, por exemplo, o que faz aquilo chamado HSBC, useiro e vezeiro em cambalachos e cambalhotas (v. aqui, ainda mais se tratando do maior banco estrangeiro no país?

Ora, a tchurma de bancos e do mercado financeiro nunca mede esforços para catapultar seus interesses e os interesses dos seus "acionistas" ou "investidores", cada vez mais se lixando se o que pensam e fazem é ilegal, é imoral ou se engorda – v. aqui.

Um bando, uma chusma mefítica que do caos e da bancarrota generalizada ergue-se sempre com mais força e mais impudor – é, pois, uma fênix do mal.

Pior, enraizada nas entranhas do Estado, goza de fecundas relações no Executivo, da lépida e da faceira parceria com o Legislativo e, claro, da sempre doce e meiga simpatia do Judiciário.

Por isso, qualquer governo que minimamente acene com a intervenção (v. aqui) e com novas perspectivas de gestão do erário e de políticas públicas é visto com repugnância, receio e medo. 

Bem, e talvez isso aí seja um bom e esperançoso sinal.

Um sinal vidente de que os próximos quatro anos de Dilma irão, enfim, tentar arrebentar com este câncer chamado "política monetarista-rentista".

Oxalá!



domingo, 27 de julho de 2014

# atleticania (xvii)


Para Benjamin, uma tarde de sono ou uma saracoteada de horas por entre seus brinquedos não valem, ainda, um gol do Atlético.
 
E pelo que (não) tivemos hoje, ainda bem.
 
Promissor, sério, moderno e com os pés no chão, o técnico Doriva acabou vacilando nesta tarde de domingo, talvez empolgado com os lampejos das últimas rodadas.
 
Aberto, frágil, murcho e suicida, pensou ter nas mãos um time com jogadores capazes de enfrentar, mano a mano, o bom time e o ótimo elenco tricolor – a propósito, o que joga este Cícero, hein?
 
Com uma dupla de zaga que já provou ser uma das piores do Brasil, jamais poderia ter escalado três atacantes e entregar todo um meio-campo  efetivamente vazio de rubro-negros , para um time que, além de tudo, já anunciava que jogaria com cinco por ali.

E mais: sem um homem para tentar fazer o jogo corrido dos nossos avantes  num embate nestas circunstâncias o nosso curumim camisa 10 não se mostra solitariamente capaz –, não impúnhamos medo e nem causamos susto algum, tornando tudo mais fácil para o time carioca, que passeou.
 
Um dia desses um time acabou levando 7 por pensar assim também  só que agora os nossos alemães tricolores foram mais piedosos (e nem tão competentes).
 
E o Atlético, meus caros, levou um dos maiores bailes dos últimos anos.

Ainda bem que só o concreto cinza e gelado (v. aqui) esteve presente nesta escura tarde em Curitiba.




 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

# desgraça


A elite brasileira é, no mínimo, engraçada.
 
Leonel Brizola  a histórica liderança política da esquerda brasileira – nela provocava singular medo, acusando-na de ser "a pior do mundo".
 
A "Carta Maior" publicou um texto singular, inspirador, que muito bem ilustra a elite nativa (v. aqui) e que mais ou menos caminha nos termos a seguir.
 
É que a elite brasileira gosta de ser elite, de mostrar que é elite, de viver como elite, de luzir como elite, de suar como elite, de ter sangue de elite nas veias. 

Entretanto, detesta ser chamada de "elite", principalmente quando associada a vários dos tantos problemas crônicos do Brasil  e isso, claro, é cômico.
 
A elite gosta de criticar e xingar tudo e todos  chama isso de "liberdade de expressão".
 
Mas a elite não gosta de ser criticada  aí vira perseguição, inveja, recalque, id (v. aqui).
 
Tudo meio que coisa de psicanálise; aliás, outra coisa que ela adora fazer para nunca se resolver, sublinhe-se.
 
Quando a elite esculhamba o país, é porque ela é "moderna", estudou nos melhores colégios e por isso sabe o que é melhor para todos nós.

Já quando alguém esculacha a elite, é porque quer transformar nosso país em uma Cuba ou numa Venezuela, dois países que a elite conhece muito bem, embora não saiba exatamente onde ficam, nem o que fazem, nem porque pensam (v. aqui).

Ideia de elite é chamada de "opinião"; ideia contra a elite é chamada de ideologia.

A elite abusa de roupas, relógios e carros a preços de ordenados e casas. Tem jatinho e helicóptero. Tem aeroporto particular, às vezes, pago com dinheiro público  é para economizar um pouquinho, pois a vida não anda fácil para ninguém (v. aqui).

A elite gosta de mostrar que tem classe, de dizer que os outros são sem classe e de enfatizar que no Brasil não há classes  e nem preconceito de raças (v. aqui).

Mas, quando alguém reclama da elite por ser esnobe, preconceituosa e excludente, é acusado de incitar a luta de classes  e de cores.

A elite encastela-se em bairro chique, fofo e limpinho, mas gosta de acusar os outros de quererem dividir o país entre ricos e pobres.

Afinal, convenhamos, o negócio da elite não é dividir  é multiplicar, exponenciar e sugar (v. aqui).

A elite é magnânima, amalgamada e mal amada.

Até dá aulas de como ter classe  diz que, para ser da elite, tem que pensar como elite.

E tem gente que acredita.

E que se afunda nos círculos, hábitos, gostos e consumos mais toscos e infames que existem: circunavega copos de vinho, encobre-se de marcas, lê Caras, se narcisa em colunas sociais – algo que, convenhamos, fica bem ali perto do fundo do poço  e se embabaca com a futilidade carnívora que vê no cotidiano da elite.
 
Não sabe, porém, que o principal, talvez único, atributo da elite é o dinheiro  o resto é detalhe.

A elite reclama do Estado, do Brasil, de tudo e sempre  não o ama, mas também não o deixa.

Imprestável, a elite pugna pela terceirização de tudo.

O gosto disso é tamanho que nas casas-grandes até a educação dos próprios filhos é terceirizada  deixam-nos, pois, para as amas.

E a elite queixa-se dos impostos, inclusive daqueles que ainda não foram criados, embora previsto na nossa Constituição - é o caso notório do "imposto sobre grandes fortunas", engavetado antes de todos os tempos.

E, vejam só, queixa-se mesmo dos que ela não paga. Sim, é que aqueles jatinho, helicóptero, iate ou jetski, mesmo não sendo tomates, mas "veículos automotores", não pagam IPVA  é o direito, meu caro.

Mas a elite, de queixo caído e em cansada homenagem aos mais pobres e à classe média  que não cansam de pagar muito mais tributos do que ela (v. aqui, mantém um gigante painel luminoso nos centros de várias cidades do país: o "impostômetro", sempre ao alcance dos holofotes diários da grande mídia.
 
Afinal, para a elite, o dever fundamental de pagar impostos é coisa de filosofia do direito.

A elite se diz acima da Política  e do bem, e do mal.

E vê na política e na democracia formas de alienação bolchevique.

Ademais, cidadania é mero consumo, ora pois.

A elite diz que é contra a corrupção, mas é ela quem financia a campanha, a vida e a alma do corrupto (v. aqui). 
 
É a elite que aceita superfaturar, que aceita licitar ilicitamente e que ano a ano sonega fortunas bilionárias, sob o colo morno do Judiciário leniente que invariavelmente afaga os colarinhos brancos e bem-cheirosos que clamam clemência (v. aqui)
 
E quando dá algum problema, finge que não tem nada a ver com a coisa e reclama que ninguém vai para a cadeia  sim, "ninguém" é o apelido que a elite usa para designar o pessoal preto e pobre que entope as células de cela-tronco (v. aqui).
 
A elite não gosta do Bolsa Família, mas insiste em dizer que tem bom coração, que faz o bem e que é do bem (v. aqui).
 
A elite diz que conceder benefícios aos extremamente mais pobres não é direito, é esmola. É uma coisa que incita o pecado da "preguiça" – e taca-lhe pau naquele discurso, com a velha ladainha descendo o morro da hipocrisia: "não pode dar o peixe, tem que ensinar a pescar..." (v. aqui e aqui). 

Mas, como num passe de mágica, quando a elite recebe recursos governamentais ou isenções fiscais, a "esmola" se transforma em incentivo produtivo e de consumo para o Brasil crescer  sem qualquer perfídia, é claro, já que a "gula" acreditam ser um pecado bem menor.
 
A elite gosta de levar vantagem em tudo, certo? Chama isso de "visão", de "Eu S/A", sempre ciceroneada pelos mais afamados e amorais causídicos do país.
 
E quando não é da elite, levar vantagem é lei de Gérson ou ranço do nefasto jeitinho brasileiro, um horror que adora propalar nas viagens que faz para Miami ou pelos clubs privés que frequenta na nossa terra.
 
Investir em servidor público e no aparato institucional é gasto público; pagar muito mais com os maiores juros da Terra ao sistema financeiro é "responsabilidade fiscal", fruto inclusive do xoque de jestão.
 
Mas quando um governo mexe no cálculo do dinheiro que é reservado a pagar estes juros, despreza superavits para fomentar o desenvolvimento e para mitigar a miséria e rompe com o capital vadio, aí é acusado de ser leniente com as contas públicas e de ser populista.
E eis que a elite comprou o avassalador livro de um francês intitulado "O Capital no Século 21" (v. aqui).
 
Não gostou, achou que era só sobre dinheiro e business até descobrir que o principal assunto era a desigualdade.
 
É que o climax do livro está no trecho onde se revela que as 85 pessoas mais ricas do mundo controlam uma riqueza equivalente à da metade da população mundial  ou seja, 85 seres humanos têm o mesmo dinheiro que 3,5 bilhões de pessoas juntas.
 
E a elite, enfim, não parece ter achado isso engraçado.


segunda-feira, 21 de julho de 2014

# açougue


Não há argumento que resista ao que se vê na carnificina de Israel sobre palestinos.

Dizer que civis palestinos são usados como escudo pelo Hamas  "ah, quem mandou usar o povo inocente?" , dizer que infelizmente a discrepância de poderes bélico-político faz parte da guerra  "ah, quem mandou se meter com a gente?"  e dizer que nestas circunstâncias erros acontecem e por isso tantos mortos "ah, quem mandou não obedecer a regra imposta e vigente?"  são casos patentes de cínica má-fé.

Ora, com a torpe tolerância européia e sob o atroz apoio estadunidense, o comando israelense continua a fazer gato e sapato do pouco que resta da Palestina (v. aqui).

Os números, por ora, mostram um despautério na análise que busca comparar os dois lados, as razões envolvidas e o bom, o feio, o sujo e o malvado disso tudo. 

São mais de quinhentos mortos de um lado, contra menos de vinte de outro; são 80% de um território atingido contra 10% de outro; é um arsenal político-militar acachapante de um lado contra rebeldes de arco-e-flecha e rojões quase juninos de outro (v. aqui). 

E tudo, tudo, por uma causa em que, ambos certos-e-errados, o lado absurdamente mais fraco tem agora a mínima razão  afinal, dê-se Gaza a quem merece a infeliz miséria de Gaza (v. aqui).

Novamente, como disse Eduardo Galeano (v. aqui), bem parece que aquele funesto costume europeu de ter caçado judeus tem a sua histórica dívida sendo cobrada, com sangue e na pele, do povo palestino  que, veja-se a ironia, é semita...

Mas esqueçamos isso agora.

Hoje já não se trata mais de guerra religiosa, de disputa territorial, de conflito político, de belicismo entre a ultradireita de Israel e os radicais do Hamas ou de qualquer outra coisa que minimamente o valha e que mereça ser, oxalá, resolvido.

Trata-se de um massacre.

E que deve ser analisado no seu intransitivo.

Com a mais firme, ativa e urgente reprimenda mundial.


segunda-feira, 14 de julho de 2014

# e teve a copa


A derrota das derrotas de terça-feira não pode apagar, nem tampouco minimizar, o brilho da nossa realização.

A incapacidade e incompetência na organização e no jogar do nosso futebol não pode ofuscar a capacidade e a competência na realização do grande evento.

E se o nosso escrete não pôde ter comissão técnica e CBF como aliados, o nosso Governo, como sempre, pôde contar com o nosso povo na concretização do maior espetáculo da Terra.

O mundo embasbacou-se com o que viu por aqui.

E o que se viu por aqui frustrou um bando de babacas nativos, vira-latas por completos e que, como infames profetas do apocalipse, ansiavam pelo desastre e pela vergonha nacional em rede mundial.

Se na terça-feira tivemos os mais desastroso e vexatório dia do futebol brasileiro, nestes mais de 30 dias tivemos o brio e a altivez de mostrar para ao mundo inteiro o nosso valor.

De mostrar a nossa gente, que muito além de multa inzoneira é educada, gentil, competente, pelejadora e feliz.

E de mostrar a nossa terra, que tem muito mais do que sol, florestas, rios e macacos.

Briosos, abrimos as nossas casas para milhões de pessoas que vieram, viram e gostaram.

E nós, fora do campo, vencemos.

Altivos, escancaramos as nossas janelas para bilhões de pessoas que pela tv e pela internet não sabiam deste Brasil, que inclusive ousou tentar acabar com um dos braços mafiosos da FIFA, capo di tutti capi (v. aqui).

Mas nunca é tão fácil assim de se ver e saber.

Afinal, o que a grande mídia nativa gosta mesmo de repercutir mundo afora é o que dá errado, o que não funciona, o que não perfuma, o que é caricato e o que pode ser-lhe útil na tutela e promoção dos seus privados interesses.

Como a política e o governo, é claro.

Política que no Brasil, mais do que em todo lugar, é sempre amaldiçoada.

E governo que, como em todo lugar, se não serve cordeiramente aos interesses privados, é sempre um grande telhado para onde se jogam pedras, cuspes e bosta.

Claro que com muitos trancos e sob tantos barrancos, mas o Brasil, com seu povo e seu governo, fez sim a Copa das Copas.

Agora sim, com muito orgulho e com muito amor.

Afinal, se antes a seleção nacional de futebol era o melhor do Brasil, hoje esse já pode se sentir (e se mostrar) melhor e maior que aquela.


terça-feira, 8 de julho de 2014

# marcha fúnebre


Na "marcha da quarta-feira de cinzas", Vinícius cantava que acabara o nosso carnaval, que ninguém mais ouvia cantar canções e que ninguém mais passava brincando feliz.

E que no coração o que restara eram saudades e cinzas.

Hoje, nesta noite soturna de terça-feira, pelas ruas de Copacabana pessoas murchas vagam como se velassem um ente querido.

Atropelado e depois espancado com ares de requinte e crueldade, o defunto está irreconhecível, dilacerado, atassalhado.

A lembrança é dos seus bons tempos, da ginga, da magia, da improvisação, do balacobaco, do chegar ao topo por meio de pernas tortas, de crioulos benditos ou de gênios indomáveis.

À mente vem a memória de um reinado que se esperava eterno -- como, afinal, toda dinastia pressupõe.

Mas ele se foi, perdemos o trono e recusamos a enxergar que tudo -- inclusive ele -- mudou. 

E agora este martírio, neste velório simples de alguém que já perdeu a majestade e que hoje já não se impõe, e hoje já não é modelo, e hoje já não arromba de alegria a retina de quem vê.

O fim foi amargo, azedo, ácido, acre, como jamais visto.

E o clima é triste, como poucas vezes se viu.

Agora chove a cântaros, como no inverno do Rio de Janeiro não se costuma ver.

Uma chuva que não nos lava a alma, mas serve para mascarar as lágrimas da maior humilhação sofrida pela nossa máxima expressão cultural.

É a decadência acachapante de alguém que já foi o maior de todos, iludido por um "vamos que vai dar" sem pés e sem cabeças, e que agora dói.

E assim, nesta noite fria e molhada, em cada esquina desta minha via sacra de volta para casa o futebol brasileiro é velado.

Espera-se a sua ressurreição.

Mas não no terceiro dia.


quinta-feira, 12 de junho de 2014

# pátria de chuteiras


Vai começar.

Sessenta e quatro anos depois, finalmente o país deu um jeito  e se deu o direito  de ser, literalmente, o país do futebol.

O maior espetáculo da Terra na terra da sua mais ilustre gente, que fez do futebol a sua máxima expressão cultural e desta a sua maior identidade planeta afora.

Não é pouca coisa.

E o Brasil mudou, cresceu, amadureceu.

Mas nem tanto.

A partir de hoje, a cada momento em que aqueles onze caras pisarem no gramado, perfilarem-se para o hino nacional e se prepararem para a batalha que se sucederá, seremos inadvertidamente imaturos, imberbes sorvidos pela crua comoção de uma Copa do Mundo.

Sob a mais irracional paixão, seremos dominados pela emoção do velho e rude esporte bretão em seu traje de gala, com todas as pompas e circunstâncias.

Transpiraremos como nossos laterais, berraremos como nossos beques berram, xingaremos como volantes brucutus, festejaremos como festejam os avantes artilheiros e daremos suspiros tal qual nosso goleiro salvo pelo gongo da trave. 

De joelhos, uns farão figas e acenderão velas, na eterna certeza de que aquele gesto vai mudar o jogo, vai mexer a bola ou vai ser um mero vodu em face da ameaça inimiga.

De eterno e surrado suéter verde, pantufas amarelas em pés trocados e a mesma briosa bandeira engomada a tiracolo, outros manterão rituais sem qualquer sentido senão o sexto sentido da fé, do axé, da mandinga, da intuição ideológica e sem freios.

Gritos toscos, roucos, febris, frívolos, glóticos, guturais e juvenis, em uníssono, movem e unem uma família inteira, um mundo inteiro tropical e abençoado chamado Brasil.

E novamente aqui da nossa casa, em nossa casa, no nosso caminho, em nosso solo tão gentil. 

Haverá festa na cumeeira, nas ruas, nos barracos, nos bares, nas calçadas, nas praias, nas margens das ribanceiras enfeitadas com as cores da nossa gente... tudo sob um aparente mistério como sói acontecer a cada quatro anos, nesta coisa mágica que, mesmo sabendo que além de tudo engorda, acaba por nos enfeitiçar, nos engolir e nos fazer quase duzentos milhões a postos, pra frente, ao ataque e na defesa do nosso pavilhão.

Enfim, a nossa pátria, em raios fúlgidos e vívidos, em campo estará pelos próximos trinta dias.

E o mundo vai parar para nos ver em ação.

Salve, salve, a seleção!  


quarta-feira, 11 de junho de 2014

# malígrina


Depois de 2006 jurei nunca mais fazer juras de amor pelo futebol da seleção canarinho.

Aquele escrete  circense, negligente, fanfarrão e desidioso  formou as nossas "chuteiras apátridas", que provocaram traumas, ódio e lições (v. aqui).

Passou 2010 como se jamais houvesse acontecido, a ficar esquecido no tempo como ficou aquele 1990.

E cá estamos na Copa do Mundo no Brasil.

Entre tantos desgostos, misturada a tanta contrariedade e temperada com muito dissabor, aqui estamos na nossa Copa do Mundo.

Sim, vingaremos 50.

Vingaremos cada Barbosa, Ademir, Friaça, Zizinho e Jair, chuteiras da nossa pátria de 64 anos atrás; e vingaremos o nosso povo, os nossos tantos avôs que choraram aquela guerra perdida, como muito bem aqui já se escreveu. 


Cada minuto sangrado, cada lágrima largada, cada coração partido por aquela derrota será devidamente vingado agora, ao vivo e a cores.

E disso não tenho dúvidas.

Não só pelo que ocorrerá dentro das quatro linhas, mas pelo clima de festa e guerra, ideias antagônicas que bem devem preparar e temperar uma Copa do Mundo em casa e que parecem pairar no ar.

Salve, a seleção!


segunda-feira, 9 de junho de 2014

# réguas


Aqui já dissemos: no Brasil a criminalidade e a desordem são pequenas. 

E me refiro aos crimes contra o patrimônio, coisas como furto, roubo e extorsão, e às greves e manifestações que discutam trabalho e salário.
 
Ora, o que se vê é fruto muito miúdo diante da nossa desigualdade, incomparável mundo afora, inimaginável em qualquer sociedade minimamente decente.
 
E recentemente mais um dado que me colabora: a única capital nordestina que não está entre as 20 cidades mais violentas do país é... Teresina, no Piauí.
 
Sim, a capital do Estado mais pobre do país não figura na lista de um trabalho promovido por uma ONG mexicana (v. aqui).
 
Não creio que seja pelo exímio aparato policial; tão-pouco que seja resultado da máxima eficácia da gestão pública piauense; e, menos ainda, que represente um povo melhor abastecido de educação, de saúde e das necessidades básicas.
 
A tese é que lá a "desigualdade" é menor, resultado de uma generalidade pobre, sem bolsões de riqueza, com (quase) todos num mesmo nível de escassez.
 
É o que acontece com as grandes nações ricas do Atlântico Norte, com (quase) todos num mesmo patamar de abundância e nas quais a desigualdade é mínima – e, tal qual, os índices de crimes e desordem.

Somos, pois, o avesso do avesso do avesso.
-- x --
 
Para além disso, se nota nas capitais arranjos para a paralisação geral de motoristas, cobradores e de toda a gente que trabalha nos ônibus, metrôs e trens das grandes cidades.
 
Primeiro, não se esqueça que uma coisa é a greve de servidores públicos – em regra, uma atrocidade e um não-fim em si mesma (v. aqui); outra, bem diferente, é a greve daqueles que trabalham em empresas que (mal) prestam serviços públicos.
 
Mal prestam os serviços, mal remuneram e mal dão satisfação do que fazem, em regra (des)reguladas pela falácia da regulação.
 
Ao cabo, querem os trabalhadores grevistas condições e salários mais dignos para o trabalho – no mínimo, e ao menos, proporcional às fortunas que os seus patrões (os senhores concessionários de serviços públicos) amealham com os contratos que detêm à nossa revelia.
 
E convenhamos: se este é o propósito, a massa está absolutamente certa.
 
Afinal, enquanto a picaretagem nas licitações e nos contratos que envolvem o transporte coletivo persistirem – v. aqui sobre a máfia dos ônibus , jamais a sociedade (e, também, os trabalhadores) poderão estar minimamente satisfeitos no atendimento das suas necessidades.
 
Já passa da hora de o Estado esclarecer à população como isso tudo funciona e escancarar as as engrenagens sujas de uma graxa vezeira em manchar o interesse público.
 
Porém, para isso acontecer, será necessário que nossos comandantes, chutando a porta e erguendo a mesa, se convençam de abrir mão dos milhões ofertados por tais "grupos empresariais" para financiar as campanhas eleitorais.

Resta-nos, pois, rezar pelos nossos mártires.

 

domingo, 8 de junho de 2014

# do pó


Meus poucos (mas fiéis) leitores, só os profetas enxergam o óbvio, cunhou Nelson Rodrigues.

No rádio, na tv, na rede, nas bancas, na calçada, nos sonhos, vê-se tudo mirar o Brasil, mas tudo mira mais ainda esta minha aldeia, o onphalos nestes trintas dias que nos seguirão.

Copacabana borbulha, queima, arde, sufoca, contamina, pulsa e quase explode.

E vai ficando cada vez mais frenética, indecente, barulhenta, gosmenta, multicolorida.

Verde-amarelo a todo canto, em toda esquina, em todos os milhares de bares que a cada passo me atropelam, me sugam, me desassossegam.

Nela se escancara o óbvio da brasilidade, a explicitar, a eclodir e a fazer a nossa espuma de pátria amada brilhar em raios mais fúlgidos. 

E eis-me aqui, nesta capital do Brasil, neste Rio de Janeiro (e de todos os meses do ano), a morar neste bairro e a ter como meu literal quintal esta mais amada praia desta maravilhosa cidade do mundo.

Pois é, ano passado já tive uma especial visita, cuja jornada aos arredores me tentaram fazer compreender isso tudo (v. aqui).

Mas é só agora, no microcosmos deste caos, que finalmente o enxergo.

Salve, salve a Copa.


quinta-feira, 5 de junho de 2014

# quatro linhas e as hipotenusas


Com base em um discurso hipócrita, vazio e dissociado da realidade, os clubes de futebol estão reproduzindo, em massa, o fetiche da gestão.

E, junto com ela  e no lado oposto ao interesse maior  a babaquice está a imperar em cada setor, a elitização em cada atitude e a precarização do futebol em cada compromisso com o mercado.

Insiste-se, pois, em um clube sem o povo, sem o torcedor e sem um time  e isso, meus senhores, não é um clube de futebol: é uma mera organização.

E, pior, uma organização que não pode acreditar na fantasia do "sem fins lucrativos", pois é notória a mercantilização do negócio, que nas entranhas dos clubes beneficia, num círculo vicioso, dirigentes, empresários, patrocinadores e meia dúzia de boleiros. Ou seja, uma entidade dissimulada, uma fraude, um faz-de-conta sem final feliz.

Ora, a falácia da contabilidade azul, da gestão financeira pós-moderna e da contratualização fabulosa de tudo, além de mascarar o cotidiano sórdido de maracutaias sem fim, ocupa o espaço inamovível do campo, da bola e dos jogadores, autênticos e sacrossantos entes do velho e rude esporte bretão.

Não se prega aqui a crise, a bancarrota ou a picaretagem nos atos e nos intestinos dos clubes (v. aqui e aqui).

Mas, sim, quer-se o resgate da verdade e da razão de ser do futebol: um time e a sua torcida.

Um time que seja para a sua torcida, e não feito de jogadores escalados por interesses financeiros a mando de donos bufões e seus compromissos pessoais, por ordens televisivas ou por  convenientes intelecções técnicas.

E uma torcida que seja da sua gente, do seu povo, e não reduzida à nata social, com suas camisas oficiais de cem dólares, seus tickets a preço de ouro, suas bocarras de fast-food e seus flashs sincronizados com redes sociais e distantes do campo de futebol.

Há de se ter em vista que o nosso exemplo não pode ser os esportes profissionais estadunidenses, cujos tipos e fins são outros, intimamente ligados aos gostos, padrões e ideais ianques.

Afinal, o nosso mundo é o futebol, sobre a nossa cultura e como nosso patrimônio.

Chega de "arenas", de "balanços superpositivos", de "chuteiras coloridas", de "marketing", "pirofagia" e "malabares".

Chega de super-receitas para supérfluos times, de ingressos com valores nobiliárquicos e de menosprezo às tradições, à torcida e ao trato com a bola.

O futebol brasileiro quer times e torcidas, quer jogadores e estádios, quer, em suma, futebol.

Para o resgate da nossa própria gente e da nossa alma.


quarta-feira, 4 de junho de 2014

# um certo barbosa


Chega o fim da era Barbosa.

Injustiçado, polemizado, criticado.

Jamais bajulado, fetichizado, dissimulado.

Macambúzio, hábil, corajoso e incompreendido.

Jamais arrogante, falastrão, pernóstico e desequilibrado.

Infelizmente ele se foi, e carregou com ele as censuras de todo um Brasil em suas costas.

E jamais teve consigo a glória midiática, reluzente, platinada.

Sim, chega o fim da era do grande Barbosa, o goleiro negro de 50 que chorou a falha até o fim da vida e cuja falta sempre lembramos para neste histórico momento enfim querer expurgar.

E não de outro, de prenome Joaquim, que sai da história para alívio da ordem republicana e judiciária.

A era agora é a de Júlio Cesar, goleiro de quem a nossa nova Copa vingará a tragédia da era passada  como aqui, inclusive, já muito bem se vaticinou.

E não mais a época do déspota do Império Romano, nestes tempos travestido num outro negro que só agora se vai, a disseminar vinditas e trágicas decisões, remoendo ranço e rancor.

Sim, não tenho dúvidas.

Os deuses do futebol hão de fazer do nosso Júlio a redenção daquele nosso arqueiro Barbosa.

Enquanto a Deusa Têmis ainda chorará os desatinos do outro Barbosa e seu arquétipo à imagem e semelhança do Júlio romano.


segunda-feira, 2 de junho de 2014

# odisseia viva


Rever ou reler aquilo que já revimos ou relemos inúmeras vezes geralmente tem um motivo para além do simples prazer de novas visões ou leituras.

No meu caso, ter revisto "2001: uma Odisseia no Espaço" – a obra máxima do maior cineasta de todos, Stanley Kubrick  foi pelo seu lançamento em blu-ray e toda a tecnologia de som e cores que a nova mídia oferece.

Já havia visto em VHS, em DVD, na TV e, quando da morte de Kubrick, na tela do cinema, em sessão especial oferecida pela Cinemateca de Curitiba  e, desde já confesso, essa última experiência continua sendo a melhor, pelo simbolismo do momento, pela macrointensidade da tela e do som e pelo ambiente sempre especial de uma sala de cinema.

Já assisti meio dormindo, meio com a obrigação de cinéfilo, um tanto quanto ébrio, com ares de estudioso do cinema, pouco empolgado, muito animado, enfim, a incursão por "2001" tem sido bastante variada, a provocar, porém, sempre a reação de se viajar para além da imaginação, e a cada vez por caminhos diferentes.

E, ontem, mais uma vez, o filme foi um desbunde para os olhos.

Afinal, é justamente este o maior fim da obra proposta por Kubrick: criar uma experiência visual que se desviasse do campo das palavras e penetrasse diretamente no subconsciente com um teor emocional e filosófico.

Kubrick insistiu, sempre, em não colocar legendas exegéticas para o filme, tão-pouco roteiros explicativos – negava-os, peremptoriamente. 

Para ele, o filme projetava-se para ser uma experiência subjetiva, intensa, que atingisse o espectador num nível profundo de consciência, exatamente como a música faz  não por acaso, imagem e som formam um único e inseparável meio para olhos e ouvidos. 

Assim, cada um está livre para especular e viajar como quiser sobre o sentido filosófico e alegórico do filme, o que provoca calafrios em muita gente que não suporta ter que desbravar este campo sem a muleta de uma sinopse comentada, a compreensão explícita do roteiro ou as placas anunciativas dos diálogos óbvios, redondos e fechados.

É cinema, é arte e é uma baita forma de deixar a mente pulsar, de abrir as portas.

2001... não é apenas sobre máquinas e inteligência.

É sobre a humanidade e a afeição.

2001... não é uma simples viagem pelo espaço.

É uma odisseia para dentro de você.


Afinal, qual evolução?

quarta-feira, 28 de maio de 2014

# carne e osso


Ainda sou da época em que as famílias se reuniam em torno da mesa para comer e conversar. 

Pequenas, grandes, ainda que apenas aos fins de semana, enfim, havia o hábito desta reunião, da conversa de balanço do dia ou da semana, da divagação de expectativas e frustrações, tudo desmascaradamente pulsante.

Mudaram os tempos, mudaram as famílias e (não só) este costume tem perdido espaço.

A nova dinâmica da relação espaço-tempo – fruto das globalizações – e a reconformação do papel da família – em termos de importância, de nucleação e de eticidade – transformaram aquele e outros tantos hábitos.  

Veio o fenômeno da desfamiliarização.

Sim, novos centros do cotidiano, novas perspectivas relacionais, novas ideias, novas vontades e novas necessidades que foram sendo construídas pela inaptidão do berço familiar em formá-las, supri-las e compreendê-las.

Sair da família, em tese, era sair do reacionário, da vigília, do medo, da punição.

Criar agrupamentos fora do sangue nosso de cada dia seria quase como uma condição de sobrevivência – ou mesmo de existência.

Tem-se outras famílias, outros núcleos, e de modo algum ruim, pois insistente na condição do intercâmbio físico, plural e ressonante do ser humano.

Ademais, fez-se romper a ideia da interação física.

E até se compreende, haja vista a velocidade do cotidiano, a profusão de simultâneos eventos e, mais ainda, o fim das cercas culturais que nos prendiam à mesma terra por toda a vida.

Porém, agora, o que acontece é a "individuação" e a sua metalinguagem do mundo virtual, sob o falso conforto das redes sociais, como neste negócio assustador chamado "facebook".

Hoje, cada qual pega a sua comida, senta-se na frente da sua preferida tela e come.

E não mais dialoga, apenas vendo passivamente todo o mundo passar à sua frente, sem se complicar, sem se afetar, sem pertencer a nada.

Ou dialoga com si, por meio dos seus vários “eus” e para um mundo virtual de outros tantos personagens pasteurizados, líquidos, liquidificados.

E se a interação na rede não interessa, aperta um botão e dá adeus.

Mas dar adeus ao cotidiano real e se desconectar das relações humanas, e das relações tão intimamente humanas, não é tão (ou nada) fácil.

Não é como um álbum de figurinhas para se colecionar, preencher e largar, tão-pouco produtos de gôndolas que se retiram, se usam, se curtem e se descartam.

O mundo real, vivo, a cores, com pele, tato, osso e sujeira, é um pouco diferente.

E como tudo hoje quer se mostrar mais simples, descartável e descomprometido, aos poucos cada um vai perdendo a capacidade de “ter-e-querer-se-envolver“ nos relacionamentos, de se dedicar e de se apresentar.

E de se fazer presente, vivamente presente.

Ora, buscar viver uma vida sem transformar os conflitos que valem a pena resulta numa vida que não vale a pena – e a vida, além de chata, seria vazia.

Como sem sentido e anoréxica é esta vida oniricamente enraizada num monitor, fantasiosamente criada sob esta retumbante pseudorrealidade social.

E plugada no nada.