quinta-feira, 28 de maio de 2015

# sobre vícios e descontinuação

Note-se bem: a alternância não é propriamente um princípio fundante da democracia, como resultado, inevitável ou não, do funcionamento pleno do sistema democrático. 
Ou seja, a alternância de poder não se reveste como um atributo ou fundamento da democracia, mas, sim, trata-se de consequência quase natural do debate e da participação políticas em uma sociedade aberta.

Portanto, no seu limite, consiste (apenas) em um elemento integrante da "oposição" -- e para ela vital.

Entretanto, pode muito haver oposição sem alternância -- e sem poder --, quando a oposição é fraca ou mesmo quando o povo está satisfeito com a situação, expondo nas urnas a sua vontade cívica.

Nestes termos, portanto, a sociedade pode muito bem desejar manter seus representantes, fazendo cumprir a estrutura edificante da democracia: governo do povo, para o povo e eleito pelo povo.
 
Claro que também pode haver, em tese, uma pseudodemocracia, caracterizada tanto pelas trocas sucessivas no poder como pela não-alternância; em tal contexto, a tendência seria a própria desnaturação progressiva dos seus princípios conformadores e da sua convolação de democracia real em meramente formal.
Mas a nossa gloriosa Câmara de Deputados, honra lhe seja, não se demente para novamente fazer bobagem, com a aprovação do projeto de emenda constitucional que, de novo, acaba com a reeleição para os cargos executivos (presidente, governador e prefeito) -- v. aqui.
É evidente que seria demais pedir coerência, sapiência e boa vontade ética da nossa, coitada, "Casa do Povo".
Mas, neste debate entre querer ou não a reeleição, o que o bando de engravatados, com suas falas vazias e os bolsos cheios, sequer discute é justamente o contrário.
Haja vista que executar requer equipe, liderança, planejamento, estratégia, gestão, coordenação, competências etc., é natural que um Presidente, um Governador e um Prefeito precise do longo prazo e, para isso -- se assim desejada pelo povo --, de continuidade para o exercício dos seus planos e políticas.
Ou melhor, se comparado ao que fazem e à a função constitucional que desempenham, é muito mais natural que,  Deputados, Vereadores e Senadores sejam proibidos de se reelegerem, e não aqueles que detêm cargos no Executivo.

Ou vá dizer que o poder econômico, a "máquina" e sabe-se lá mais quantos argumentos, mais ou menos comprovados, também não estão intimamente ligados às eleições parlamentares?
Depois, ora, qual o grande prejuízo para a construção nacional (e estadual, e municipal) em se trocar parlamentares a cada mandato?
Qual seria a grande perda em se vetar a reeleição para o nosso Poder Legislativo?
O que de nós seria subtraído se, por exemplo, a Constituição passasse a permitir a reeleição parlamentar somente depois de dois ou três mandatos?
Pouca coisa, confesse-se.
Portanto, diferente do que nossos Deputados querem, o que poderia provocar mudança  seria liberar o Executivo e limitar o Legislativo -- isso, ao menos, seria uma atitude sensata e adequada em termos de espírito público e administrativo.
E uma oxigenação sadia, ou no mínimo experimental.
Afinal, em sua grande maioria, estes senhores e estas senhoras que há tanto tempo reinam pelas Câmaras e Assembleias não costumam carregar qualquer pedra filosofal dos destinos e anseios do povo -- embora, na verdade, até disponham desta magia alquímica, na medida em que têm a mania de transformar mandatos em ouro.  

Ainda, o que tantos e tantos Deputados e Senadores fazem e trazem de tão significativo à sociedade que lhes asseguram ficar 15 ou 20 anos no poder?
Não... é mais, muito mais do que este tempo.
Pois, bem sabemos, trata-se de um poder que se frutifica em filhos, netos e tantos outras linhas sucessórias capazes de garantir feudos da República a certas famílias e grupos por décadas e décadas a fio.
E que a lógica do capital, nestas regras do jogo e neste tipo de política que se faz, mostra-se impossível de combater.
Assim, o que temos é um faz-de-conta, uma brincadeira de se fazer democracia.
E uma gigante plateia que ou dorme arrombada, ou dorme frustrada.



quarta-feira, 29 de abril de 2015

# centro cívico na democracia

 
 
Esta nossa “democracia” provoca coisas absolutamente incompressíveis.
 
Veja-se o caso deste Beto Richa.
 
Que história e que trajetória profissional, pública, política ou social ele tem para merecer o cargo que ocupa? Alguém lembra da sua atuação como parlamentar? E na Prefeitura de Curitiba, o que fez além de gastar milhões e milhões em narcisistas campanhas publicitárias, surfando na ultrapassada onda lernista de cidade-modelo? E o que falar do seu primeiro não-mandato de governador?
 
Ora, reeleito às custas de muita grana, de muito “apoio” de deputados em seus redutos eleitorais interioranos – afinal, foi por causa de verbas e cargos que a maioria dos canalhas do PMDB no Parlamento, cheia de votos no interior do Estado, apoiou e reelegeu Beto – e de muita alienação da massa conservadora curitibana, o sujeito a cada dia que passa consolida-se como um traste político e um infame administrador.
 
Dentre outras coisa, Beto Richa lembra muito aquela célebre personagem das crônicas de Nélson Rodrigues, a "Grã-Fina das Narinas de Cadáver", que, em pleno estádio, costumava olhar para o seu nobre acompanhante da hora e perguntar, sem titubear: “Hein, quem é a bola?”.
 
Ainda, parte da ópera bufa da reeleição reside na sua casca de bom-moço, de modos etiquetáveis, de limpinho-aromatizado-com-polo-de-jacaré-e-gel e de politicamente correto, cuja figura ainda se sustenta em relativa escala Paraná (e Curitiba, claro) adentro – mas que, evidentemente, não deveria ultrapassar os limites do Graciosa Country Clube ou do Iate Clube de Caiobá.
 
Depois, as “ideias” (sic) e a “gestão” (sic) de Beto escancara os efeitos ultranocivos das ladainhas neoliberais e de xoques de jestão propagadas pela turma demo-tucana, tudo e sempre em nome da mão divinal do mercado, do não-Estado e do vale-tudo nas relações público-privadas.
 
Resultado: quebrou o Paraná.
 
Mas isso tudo ainda não era suficiente.
 
E agora Beto e a sua equipe de pulhas, picaretas e piás de prédio deram para surrar e quebrar centenas de professores e servidores públicos, num dos episódios mais repugnantes que o Centro Cívico da capital paranaense presenciou.

Cenas de guerra, de um massacre absurdo promovido por um governo sem pés e, muito menos cabeças -- por sinal, registre-se: o "secretário" de Educação de Beto Richa era um agente do mercado historicamente envolvido nas privatizações das empresas de telecom...
 
Bem, jamais se esperou alguma coisa desta gente, mas confesso que se poderia esperar qualquer coisa, menos o que foi visto hoje.

Beto Richa, assim, se já podia ser considerado o pior governador que o Paraná já teve, depois desta quarta-feira também será lembrado como um dos mais indignos da nossa história.
 
A propósito, já pensaram o que se mostraria e falaria, Brasil afora, se o governo paranaense fosse do PT ou de alguém pouco afeito às colunas sociais?


 

# minha segunda casaca


Há muito tempo estou para escrever sobre eles.

Talvez desde quando virei a casaca, nos idos de 2002/2003.

Acompanhando religiosamente o meu Atlético na Baixada, vez por outra usava um boné preto do meu time de basquete, o Boston Celtics, que desde a adolescência acompanhava e torcia, ainda fruto do que o espetacular branquelo Larry Bird fazia pelas quadras nos anos 80 e eu, iniciante, tentava imitar.

Entretanto, certa feita, estava no estádio com um primo que, lá pelas tantas me lança: “Pô, está ridículo você com este boné deste time verde... não dá pra usar... isso lembra muito os Ervilhas...”.

Na hora não dei importância.

Mas, chegando em casa, ao abrir a minha gaveta para guardar o boné que usara, eis que lá vi, com outros olhos, um mar de outros tantos, em cores verde, verde-e-branco, preto-e-verde...

Enfim, era mesmo muito verde para alguém com o sangue rubro-negro se permitir usar.

E pensei: isto não está legal.

E como nem o próprio Bird já não era Boston – afinal, senão quando jogador, ele sempre foi Indiana, e de Indiana --, vi que deveria mudar.

Foi quando me apresentaram Gregg Popovich, Tim Duncan, Manu Ginobili, Tony Parker e o jogo do San Antonio Spurs.

E desde então mudei-me para as cores preto-e-cinza do time texano.

E desde então o que tenho visto é um deslumbramento para quem gosta e entende o basquetebol.

E hoje posso afirmar, sem mais dúvidas, que o San Antonio daquele técnico (Pop) e daquele que constitui o trio mais vencedor da história da NBA (Tim, Manu e Tony) é  ou foi  o maior time de basquete de todos os tempos.

Com uma média de 36 anos e na fase final das suas carreiras, o trio – hoje junto do ótimo Kawhy Leonard, no alto dos seus 23 anos…, e de Green, Diaw, Mills, Splitter e Belinelli – continua a jogar um basquete de encher os olhos, de por vezes comover os mais atentos e de mostrar que a maioria dos adversários não passa de um bando que enterra.

Ora, nesta onda toda de triunfos midiáticos, individualismos exibicionistas e vale-tudo mercantil, também na NBA temos muito clara a divisão de mundos.

De um lado a turma do playstation, do shopping center, do sea world, dos jogadores-margarina, tudo meio de plástico como se fabricado em alguma clínica estética de Coral Gables.

Do outro, espécies de boinas verdes, de legionários, que jogam basquete, que jogam e pensam, que abusam da estratégia, da técnica e da tática, sem piromania, sem pirotecnia e sem onda, quase soviético mas globalmente made in USA, comme il faut

Sem firulas, sem flashs, sem fan zones, eles afundam os modos dos garotos de circo vendidos pela mídia como frutos da tese única do jogo e do comportamento -- sim, porque o jeito e a forma do San Antonio não é vendável, pois secos de apelos e lantejoulas tão queridos pelo showbusiness da sociedade de consumo.

Ora, nos dias de hoje, o que os Spurs insistem em fazer, em todos os seus fundamentos, regras e lógicas, é “basquetebol”, o resto é streetball

Os Spurs jogam o jogo socializante, pensado, treinado e estratégico – e não um repetitivo, forçado, afortunado e individualizado mano-a-mano de méritos questionáveis.

Os Spurs põem em prática o melhor da globalização, que é reunir grandes valores mundo afora obedecendo-se às suas origens. E por isso nele se vê estadunidenses, franceses, argentino, brasileiro, australiano, neozelandês e italiano oferecendo o melhor do que dispõem, sem desprezar as suas idiossincrasias nativas, mas também sem permitir rebeldias gratuitas contra o sistema de jogo desenvolvido pelo timoneiro Popovich.

Os Spurs resgatam o espírito do bola ao cesto: o coletivismo belo e coreográfico, desenhado como pinturas renascentistas, modelado em movimentos clássicos de um nove milímetros magistral e talhado à mão.

E reproduzem ao máximo a velha escola do legítimo basquetebol.

O jogo que acaba de terminar, o quinto dos playoffs contra o bom lado B de Los Angeles, foi apenas mais uma prova disso tudo.

E uma das últimas provas, afinal, muito provavelmente estes estejam sendo os últimos jogos desta turma, o trio se desmanchando e o fim de uma era.

Agora, enfim, o Boston que me perdoe, mas aquele verde de outrora hoje amadureceu e está bem melhor.

E já me sinto San Antonio Spurs desde criancinha.

Só acho, claro, que ainda lhe falta um certo vermelho…




terça-feira, 28 de abril de 2015

# que ser sou eu?

O que é a vida?
Abujamra se foi, e com ele se vai uma das poucas pessoas que estavam na televisão para refletir e fazer pensar.
Não falarei do que fez com Eurípedes, Shakeapeare e Brecht nos teatros do Brasil afora.
Mas, sim, do que realizava no seu excepcional programa "Provocações", que circulava pelas tv públicas brasileiras há quinze anos.
Sem espaço na grande mídia – motivo de orgulho – e sem paciência para redes sociais – outro orgulho –, este seu programa de entrevistas era, como o próprio intelectual se referia, longe de ser uma janela para o mundo, mas apenas “um periscópio sobre o oceano do social”.
Intrigante, angustiado, poético, cético e utópico ao mesmo tempo, o eterno Ravengar – infelizmente só assim foi apresentado ao grande público – era um dos melhores provocadores.
Filósofo de formação (e alma), não permitia frase-feitas em seu talk-show, não consentia com a ciranda falsa de quem quer holofotes e não se rendia ao bom-mocismo do politicamente correto.
Ao mesmo tempo, contudo, nunca expunha ou perquiria por simples agitação ou vaidade pessoal, do pior daqueles tipos que querem a polêmica por si, burra e rasa, ou que pensam ter o rei na barriga enquanto nem sequer ainda sabem quem eram si próprios.
Quem à sua frente sentava sabia que não se estava ali de brincadeira, e por isso a conversa fluía séria e trágica, cômica e lúdica, direta e verdadeira, sem purpurina ou máscaras.
No início, suas entrevistas se encerravam com a oportunidade aos entrevistados “enforcarem-se nas cordas da liberdade”, deixando-lhes dizer o que bem entendessem sobre qualquer coisa, fixando-se numa câmera alternativa.
Ultimamente, mudou.
E passou a encerrar o programa com uma pergunta bastante simples ao entrevistado: “O que é a vida?”.
A pessoa titubeava, às vezes pensava um pouco, mas respondia, meio com chavões, meio sem sentido, meio até certa de si.
E ele tornava a perguntar, pausadamente: “O que é... a vida?”
A pessoa, confusa, respondia mais ou menos, meio diferente de antes, meio em dúvida.
E ele, de novo, ainda mais pausado e ainda mais impactante: “O que... é... a... vida?”.
A pessoa, se sagaz fosse, percebia então onde ele finalmente queria chegar.
E praticamente se calava, recebendo do provocador um grande abraço.
Salve, Abujamra!

terça-feira, 14 de abril de 2015

# quando a alma não se apequena



Com a confirmação do nome do Prof. Dr. Luiz Edson Fachin para o STF  a quarta baita indicação seguida deste Governo Dilma, depois de Mangabeira Unger (Min. Assuntos Estratégicos), Jessé Souza (IPEA) e Renato Janine (Min. Educação) , reproduzo abaixo um texto publicado em março de 2014 que ilustra um pouco este grande homem e jurista paranaense.


# quando a alma não se apequena

Há momentos na vida em que se aprende como nunca.

São lições de gratidão, de dedicação, de amizade, de humildade e de sabedoria que em nós se perenizam.

E esta noite de terça-feira  como convidado para estar na "Academia Brasileira de Letras Jurídicas", em sessão solene para a posse do paranaense Luiz Edson Fachin como mais novo "acadêmico" (cadeira nº 10, de Rui Barbosa) e para as condecorações de membro honorário ao português António José Avelãs Nunes  foi um desses momentos, tamanha a grandeza dos discursos por ambos proferidos na cerimônia.

Prof. Avelãs, da Universidade de Coimbra, é uma das maiores vozes de uma outra Europa,  hoje esvaziada do pensamento crítico, social e humano. É um dos maiores jus-economistas portugueses, intelecto eminente da Economia Política e um trilhar político-científico que faz invejar a sua nacionalidade (e me honrar com sua amizade).

Prof. Fachin, da Universidade Federal do Paraná, é um dos grandes orgulhos do meu Estado, árido de expoentes nacionais. É um dos maiores juristas pátrios, mente brilhante do novo Direito Civil e com uma trajetória acadêmico-intelectual que faz galhardear a conterraneidade (e que tive o prazer de conhecer).

Mas não são estes atributos o que mais importa, como aqui já se poderia confirmar.

Títulos, prêmios, cátedras, livros, tudo fica à margem de quem são, do que fazem e de como fazem.

Sim, porque estes dois senhores, mais do que singulares pensadores do Direito, são grandes homens, plurais e que idealizam o coletivo.

Hoje, vendo-lhes nas suas narrativas apaixonadas  daquelas que vêm da pura alma do bem-fazer e do bem-viver e de quem têm a ética como prumo e o social como horizonte , recrudesce o nosso sentimento de que a vida deve ser simples e vale simplesmente por isso.

Não por acaso, ao trazerem da memória o valor das suas origens, o conteúdo afetivo dos que sempre o cercaram, e, principalmente, o papel dos respectivos pais em suas histórias e em suas formações, as palavras vieram esculpidas em lágrimas, absolutamente sinceras, caídas com o orgulho de quem ali chegou de pé e pelas meritórias mãos do afago materno e do suor paterno.

Vê-los se declararem às ciências humanas, à humanidade e à família foi daquelas provas de que é no navegar destes homens que o mundo merece seguir.

Um navegar simples, cuja bússola é o amor.



# a arte de conviver sem se curvar



O reencontro entre Cuba e EUA, afora reforçar o fato de que o Papa Francisco -- arquiteto moral da reunião -- caminha para ser o mais importante líder religioso da história moderna, revela que "diplomacia" pode muito bem conviver com "soberania".

Cuba, com a medida, dá sinceras mostras de que quer -- porque precisa -- avançar e se adaptar à realidade do mundo, aos poucos reconhecendo que os cinquenta anos que se passaram desde a revolução tiveram, nesta dinâmica global, o efeito de uma "Era", cujo presente mostra um passado insustentável diante do cotidiano real e das necessidades virtuais dos seus mais ou menos jovens, que não querem só comida, diversão e arte (v. aqui).

A Ilha, pois, sabe que para sustentar o seu modelo de Estado precisa adequar-se à tese do revolucionário chinês Deng Xiaoping, na retomada pós-Mao: "não importa a cor do gato, desde que cace o rato"

Todavia, diante da sua história de audácia, resistência e bravura, Cuba certamente não haverá de se curvar a ponto de anular os seus tão caros valores nacionais e humanos.

Os Estados Unidos -- ou seriam apenas uns poucos democratas? --, muitos anos depois de convenientemente aceitarem (e sublimarem) China e Vietnan, já não veem mais sentido em continuar a desrespeitar Cuba e a sua autodeterminação popular, já não veem mais a mínima lógica em inventar uma cortina que separa os maus barbudos e os bons yankees e já não veem mais como agradar a imensa população hispânica que preenche os seus Estados fora de Miami.

Além disso, já veem os bons dividendos mercantis que o vizinho caribenho poderá lhe trazer, mitigando os efeitos negativos de uma preterição econômica e geopolítica, haja vista a notória ocupação de espaço do Brasil em todos os planos latinoamericanos. 

Mas, o motivo dos motivos, é outro (e para além do império tupiniquim): temem que os russos novamente cheguem primeiro, haja vista a intermitente "guerra fria" entre Tio Sam e Tio Putin que hoje parece retomar fôlego.

Em suma, uniram o externamente agradável ao internamente útil.

Entretanto, devem agora finalmente reconhecer a excrescência que é manter o abusivo e indecente bloqueio econômico -- um "ato de guerra", confessou a ONU --, que vai para muito além da mera vedação ao comércio bilateral -- algo que se poderia não contestar --, na qual se excetua apenas uma pequena lista de itens agrícolas e farmacêuticos.

O problema do negócio é que, como se vê aquiaqui e aqui, o embargo alcança indiretamente o mundo inteiro que comercializa com Cuba.

Ou seja, para os EUA a regra real desse bloqueio travestido de "embargo" é, tipo birra de colégio: se você fizer negócios com Cuba, não fará mais comigo".

Porém, a jurássica mídia, claro, não deixa qualquer espaço para se refletir o assunto -- e, muito menos, pensar sobre alternativas institucionais, sobre como se constroem sistemas de saúde e educação com um PIB ridículo (v. aqui e aqui), sobre como se obtêm índices de violência em níveis escandinavos  e, claro, sobre o grande estrago que faz o tal embargo.

Na real, esta grande imprensa apenas dá a sua imutável e jocosa versão para insistir na caricatura do negócio, de modo a bem entreter o seu público e os seus interesses, que como chapeuzinhos azuis gritam pelas estradas afora do Brasil coisas como "Vá pra Cuba!" ou pedem socorro diante de uma invasão "bolivariana".

Enfim, em que pese a questão principal não ter sido resolvida -- a manutenção do bloqueio econômico, repita-se --, já se pode dizer que a Política aparentemente venceu.

E as economias nacionais -- e, evidentemente, a economia mais fraca -- poderão aos poucos lograr os frutos deste arranjo.

Com os avanços que a abertura econômica e a livre comercialização global proporcionarão, o Estado cubano vai se permitir atualizar-se no tempo e no espaço, o que não significa abrir mãos de valores e de ideias (v. aqui).

Afinal, valores e ideias baseadas na dignidade humana e na igualdade social devem ser "atemporais" e "universais".

E, ao menos nisso, Cuba ainda é uma viva fonte de lições.



sexta-feira, 10 de abril de 2015

# coisas di vomitar


Eis que se nota a chegada deste negócio horrendo chamado "Comida di Buteco" (v. aqui, nos mínimos detalhes).

No império do consumo, é angustiante ver o quanto o sistema se reinventa para criar o "nada", a provocar um consumo vazio em que muito se vende e muito se lucra à custa da idiotização de tudo e de todos, descaracterizando-se lugares e tradições e travestindo tudo no tom pastel da pasteurização geral.
E nela, uma arrogância que por tantos cantos do cotidiano provoca-nos as mais coceguentas urticárias.
E, atenção, não me refiro a um ou outro caso em que seria até natural encontrar vestígios e raspas de soberba comportamental, como na Academia e nas Artes, onde, afinal, erudição e eructação costumam não se confundir.

Falemos, pois, do ambiente, do dia a dia, do jeito da massa bem-cheirosa -- cujos atributos em regra encolhem-se no menor bolso graxo da roupa de grife -- se comportar.

Daquelas situações em que o arrogante é um alienado, um débil social, um daqueles que acha feio o que não é espelho ou que acha insustentável a presença do ser que não seja um ser dos seus.

Outrora já lembramos do que acontece na relação dessas pessoas com vinhos e cervejas (v. aqui), com seus hálitos e hábitos (v. aqui) e com os tratamentos que se dão (v. aqui).

Agora tratemos deste mesmo público, que roda pelas mais infaustas rodas, e a sua relação com a comida.

Sim, se não bastasse a pantafaçuda sopa de espumas, torres, gotas, granulados, desenhos e combinações minúsculas de troços mais ou menos óbvios que ostentam em pratos fotogênicos para a compartilhada fotogenia da rede...

E se não bastasse o inclassificável tripúdio sobre a gourmetização e a glamourização do mundo animal, vegetal, líquido, gasoso e mineral, a etiquetar tudo que se ingere com purpurinas e lantejoulas que muito bem euforizavam os índios nos escambos com os nossos descobridores...

E, ainda, se não bastasse as fortunas depositadas nos caixas de refeitórios doze estrelas, a fim de justificar a gulosa luxúria como uma legítima ação da ordem agostiniana do livre arbítrio...

Eis que os últimos arrotos, imberbes num misto de petulância com sabujice de dar dó, estão no sopro de "reinventar" os tira-gostos de bar, na forma deste concurso encampado pela vênus platinada, e, também, a velha comida de rua, que doravante chamam -- percebam o ar descolado -- "food truck".

Impávidos e colossos, empinam os narizes imperiais para comentar, pelas colunas de jornais ou por seus espaços nas redes sociais, que a onda agora é valorizar esta tal "gastronomia".

Modernos, chiques e na última moda, socorrem-se à avalanche de falsas autoridades que surgem para firmar e ratificar a boa-venturança desta cozinha e desta atitude, só digna dos bons trópicos.

Arrogam-se, agora, como bandeirantes dos bares e das ruas.

Melhor que ficassem em seus clubes privés ou com seus restaurantes estrelados.

Afinal, eles se merecem.



sábado, 4 de abril de 2015

# sábado de aleluia


A missa da Vigília Pascal é o centro e o grande “sacramento” da vida cristã.

Batismo e Eucaristia – centros desta liturgia – tornam presentes e atuais os acontecimentos celebrados, comunicando-os a vida nova do Senhor Ressuscitado.

E dos ritos da vida, acompanhar a cada ano esta Santa celebração consiste em um dos momentos mais significativos e de mais profundo simbolismo para nós cristãos. 

Nesta noite, somos iluminados e atingidos pela luz de Cristo ressuscitado (“Liturgia da Luz”), fazemos memória das ações maravilhosas de Deus na história (“Liturgia da Palavra”), renovamos nossa consagração batismal (“Liturgia da Água”) e, por fim, celebramos a Santa Páscoa (“Liturgia Eucarística”). 

A Igreja escura, o altar vazio, os fiéis em silêncio, as velas todas apagadas em respeito ao Senhor morto... e logo se inicia a Santa Missa, e depois das primeiras antífonas, o primeiro momento inspirador da noite: um breve lucernário, em que se acende o Círio Pascal e, com o seu fogo, as velas carregadas por cada um de nós, sinalizando o renascimento de Jesus Cristo.

Depois, vem a Igreja a meditar nas maravilhas que o Senhor, desde o princípio dos tempos, realizou em favor do seu povo confiante na sua palavra e na sua promessa, até o momento em que é convidada para a mesa que o Senhor, com a sua morte e ressurreição, preparou para nós, fruto de todo o seu caminho de entrega e misericórdia.

E já no Evangelho da ressurreição de Jesus Cristo, devemos atenção à Galileia, o lugar da primeira chamada e onde tudo começara – Partam para a Galileia. Lá Me verão” (Mt 28, 10). 

Afinal, como anunciou o Papa Francisco na sua Homilia da Missa de hoje, "é preciso voltar à Galileia, para ver Jesus ressuscitado e para se tornar testemunha da sua ressurreição".

Ora, voltar à Galileia significa reler tudo a partir da cruz e da vitória: a pregação, os milagres, a nova comunidade, os entusiasmos e as deserções, até a traição. Reler tudo, a partir deste supremo ato de amor à vida e à nós, a partir do fim, que é um renovado início. 

Não é voltar atrás, não é nostalgia. É voltar ao genuíno ato de amor, para receber o fogo que Jesus acendeu no mundo e levá-lo a todos até aos confins da Terra: horizonte do Ressuscitado, horizonte da Igreja, horizonte de cada um de nós no desejo intenso de encontro – portanto, ponhamo-nos a caminho! 

Sim, "partir para a Galileia” significa uma coisa estupenda, significa redescobrirmos a nossa fé como fonte viva e a nossa esperança cristã como fonte a ser vivida. Significa, antes de tudo, retornar lá, àquele ponto onde a Graça de Deus tocou a todos no início do caminho. 

E em cada um de nós também há uma “Galileia”, mais existencial: a experiência do encontro pessoal com Jesus Cristo, que nos chama para O seguir e participar na sua missão – neste sentido, voltar à Galileia significa guardar no coração a memória viva desta chamada, quando Jesus pede-nos para recuperar a sua lembrança e os seus ensinamentos.

Hoje, nesta noite, podemos nos interrogar: qual seria a nossa Galileia? Onde está? Lembramo-nos dela? Sabemos como seguir a caminhada?

E, se não sabemos ou se andamos por estradas que nos fizeram esquecer, peçamos ao Senhor que nos ajude a redescobri-la. 

Por fim, neste bendito Sábado de Aleluia, lembremos de descer ao Santo sepulcro a fim de trazer tudo o que lá está para uma nova vida, de modo a nos salvar e a nos transformar no mais fundo de nossas almas. 

Ressuscitemos na Páscoa como pessoas salvas e libertas, com a coragem cristã de refletir sobre os nossos próprios sepulcros e de sepultar tudo o que nos distancia da vida e da verdade.



domingo, 29 de março de 2015

# sexto domingo


O Domingo de Ramos tem um tom muito melancólico.
 
É claro que a história da chegada do Senhor, arrastando uma multidão à cidade repleta de escribas, fariseus, autoridades e senhores da lei, tem a sua beleza e traz grandes lições.
 
Mas, para mim, neste fim de quaresma, é realmente uma melancolia que mais me marca com as infinitas releituras que sempre fazemos deste seu percurso, que vai da triunfal entrada em solo reacionário de Jerusalém, passa pela Santa Ceia e acaba no Dia da Paixão.
 
Afinal, carregamos esta angústia ao recordar que o mesmo Cristo que foi aclamado como Rei pelo povo neste Domingo, foi crucificado e morto na Sexta-feira, sob os pedidos de grande parte dessa mesma gente.
 
Neste Domingo, lembramos com ainda mais atenção toda esta derradeira caminhada na Terra do Senhor: a serenidade mortal no Monte das Oliveiras, o Sangue vertido com o suor, o beijo traiçoeiro de Judas, a prisão, os maus-tratos nas mãos dos soldados e dos sacerdotes, o julgamento estúpido diante de Pilatos, a condenação de Herodes, o povo a vociferar pela sua crucificação, as bofetadas, as humilhações, o calvário, o consolo das santas mulheres, o ato venerando do marginalizado na cruz, a sua conversa definitiva com o Pai, a sua morte e a sua sepultura.

Neste Domingo, o Senhor vem, mas não rodeado de pompa, como se fosse conquistar a glória.


Ele não discute, nem grita, e ninguém O ouve; pelo contrário, é sereno, tranquilo e humilde, a se apresentar com vestes pobres e aparência modesta, absolutamente ciente da divina missão a cumprir. 

E, eu, continuo sempre a me perguntar sobre tudo isso, como se já em seguida não soubesse a resposta: eis, claro, o mistério da salvação, e nele a ordem das coisas e as razões pelas quais cá estamos e para que estamos.


Hoje começa a Semana Santa, os sete dias em que o Senhor corre para a sua Paixão e até a Ressurreição da Páscoa.


Difícil, admito, aceitar isto tudo.


Mas não é difícil compreender a nossa infinita pequenez diante deste gesto, diante destas palavras e diante deste máximo sentimento de amor emanados Dele.

Ora, Ele veio ao nosso encontro e conviveu conosco, tornando-se um de nós, para nos elevar e nos reconduzir a si – tudo meio complexo, tudo ainda pouco decifráveis para nós humanos, demasiadamente humanos (Nietzsche).


E, por isso, seria simples dizer o óbvio, como se pretendendo uma fuga deste meu espírito: tenho  a certeza de que só estaria no meio daquele gente que foi ao seu encontro neste Domingo, com ramos às mãos para louvá-lo, e não, e jamais, entre aqueles que lotavam a praça para mandar crucificá-lo, na Sexta-feira... será?


Neste santo dia de Ramos, refletir isso é prostrarmos sob o Senhor, com humildade, sobriedade e integridade, para entender o Verbo e recebermos aquele Deus incontido -- o
u que em algum lugar há de estarmos contidos.

Afinal, como Ele sempre nos ensina, com atitudes, exemplos e palavras, o Seu Reino, de fato, não é deste mundo.


E, se diariamente merecedores, tão-pouco há de ser o nosso.




 

sexta-feira, 27 de março de 2015

# na jugular


 
Esta turma é estranha, no mínimo.
 
A confundir alhos com bugalhos, não percebem o óbvio ululante; maltratados pela "cegueira branca" de Saramago, não olham, não veem e não reparam o que acontece.
 
Afinal, não estamos no auge da corrupção!
 
Pelo contrário, vivemos o auge da punição de um bando de filhos da puta que sempre roubaram no e do Estado.
 
Empresários, profissionais liberais, políticos e servidores públicos que, como "nunca antes neste país", estão sendo descobertos, acusados, presos, processados e condenados.
 
Trata-se de uma verdade insofismável -- tal como aquela que revela ser o crime de "sonegação" financeiramente muito mais prejudicial que a "corrupção" (v. aqui).
 
E como o Estado brasileiro tem feito isso?

Empoderando as suas instituições estratégicas no combate a este crime: Polícia Federal, Controladoria Geral da União, Ministério Público... todos com liberdade, autonomia e instrumentos para atuarem no espírito e nos limites das suas atribuições e responsabilidades.

Além disso, Dilma Rousseff já regulamentou a "Lei Anticorrupção", que vai na jugular das empresas bandidas.

Dilma já encaminhou ao Congresso Nacional -- que certamente não se agilizará -- projetos que tornam crimes a prática de "caixa dois", a "lavagem de dinheiro nas eleições" e o "enriquecimento ilícito de servidor", afinal, acreditem, nada disso ainda é crime...

Afora isso, embora alguns ainda achem que nos faltem a "forca" ou a "masmorra", falta-nos urgentemente proibir o financiamento privado de campanhas (v. aqui e aqui).

Ora, a prática no Brasil -- e no mundo! -- sempre foi proteger os seus filhos brancos, limpos e poderosos.
 
Eram social e moralmente inimputáveis.
 
Para eles -- sim, só para eles -- a presunção de inocência (e a certeza de impunidade) era um fato absoluto, e um escárnio.
 
Sim, contra eles nada se encaminhava (e nem se caminhava) até que se provasse, muito bem provado, quase com a exigência de uma certidão passada em cartório do Céu e assinado embaixo: Deus, com firma reconhecida -- diria Vinícius.

Mas hoje o Estado brasileiro começa a torcer o rabo desta gente, há tanto tempo tão nefasta aos interesses público e nacional.

Até já se começa (vejam só!) a entender que é "feio" roubar do Estado e, tanto quanto, ostentar os frutos disso... Afinal, não nos esqueçamos, é aqui que está o segredo do negócio, ou seja, na educação diária para a transformação moral da sociedade, que prescinde de ordens e diretrizes estatais.
 
E o bando que vai às ruas e circula pelas redes sociais, cheios de palavras de choque e ordem, pregando o caos e o advento de algum falso salvador que expulsará a presidenta eleita da República?
 
Perdoemo-lo, pois não sabe em absoluto o que faz.



 

quarta-feira, 25 de março de 2015

# praxes e trouxas



Surge à tona a questão dos "trotes", quando a mídia vem mostrar as festas & festividades nas quais os calouros universitários são castigados, humilhados e coisificados, como aqui.

Lembro-me bem do meu tempo universitário, e acho meio óbvia a questão: tanto quanto os "veteranos", os grandes idiotas dos casos são também os próprios calouros.

Afinal, por que ir aos tais eventos de "boas-vindas" promovidos com claros e manifestos propósitos de castigar e humilhar?

E, ainda que de modo mais ou menos masoquista queiram lá ir, por que aceitar, serenos e cordiais, a submissão animal a eles imposta?

Freud explica?

-- x --

É óbvio ululante que, nos primeiros meses de vida universitária, toda reunião extramuros tem por alvo esculhambar com os calouros.

Cocô, lixo, blush, tinta, mijo, raspagens, agressões, lesões, roubos e extorsões, tudo conspira para que os calouros sejam humilhados.

Repergunto: por que ir a estes negócios?

À minha época, quando calouro na UFPR, lembro-me de alguns esfuziantes colegas que tinham a plena (in)consciência do que aconteceria nas tais "recepções" e, mesmo assim, iam para depois curtirem a experiência do que sofreram -- e, às vezes, lamentarem, como se não fossem responsáveis pelo que haviam cativado, quase Pequenos Príncipes às avessas... -- e se creditarem, orgulhosos, para fazer nos calouros do ano seguinte tudo aquilo a que se submeteram.

Dizem que isso tudo faz parte da jovem idade; encaro, porém, como parte da imbecilidade.

Afinal, só otários vão para "eventos" desta natureza, ou enxergam algo de sublime em dar ou receber "trotes" desta natureza diante de uma massa de desconhecidos.

E, se antes das redes sociais essa coisa toda já era ultrabadalada, imaginem agora, tendo à mão um facebook que instantaneamente mostra ao mundo a sua "nova fase", a tua badalada testa pichada de bosta e o teu corpo banhado de ovo bento... não é o máximo isso?

-- x --

E, ainda mais estúpido que ir, é aceitar aquilo tudo, submisso.

Será que o calouro rebelde seria submetido a tratamento tão degradante quanto aquele oferecido à coletividade (ou à manada) de calouros?

Certamente não, afinal, poucas humilhações públicas (crimes?) restariam para além daqueles normalmente praticados pelos veteranos nesses tipos de "eventos".

Repergunto: por que não recusar? Por que não se rebelar? Por que não mandar todo mundo tomar no olho do cu?

No meu início de competições desportivas, com 12 ou 13 anos, eram frequentes as viagens com atletas mais velhos -- frequentemente viajava e jogava com atletas dois ou três anos mais velhos, o que praticamente significava a distância entre as eras cenozoica e paleozoica -- e, não raras as vezes, havia o conflito entre "veteranos" e "calouros".

Numa delas, para alguma cidade do interior do Paraná, na noite em que toda a chefia da delegação havia saído para jantar, eu já sabia que coisa boa não viria.

Dito e feito.

Atenienses de um lado -- uns dez -- e nós três calouros do outro.

Os veteranos queriam impor um jogo: "cubol", uma aberração cujo nome mistura a parte interna das nádegas e algo tipo bola.

Ainda mais novo que os outros dois colegas calouros, fui o primeiro a ser apontado como um dos "jogadores".

Insurgi-me: "Não!".

E negava por várias vezes três.

Desaforos, ofensas, pequenos tapas e empurrões, grandes ameaças... e nada me desabalava e nada me faria ir para aquele "jogo".

"Não vou!", insistia em alto e bom som.

Era, ali, um digno espartano.

E não fui e não fiz -- e acho que não me mataram.

Hoje, duas décadas depois, ainda me vem à memória a imagem dos outros dois colegas, mezzo descontraídos, mezzo deslumbrados pelo momento, correndo pelados, de cócoras, de um lado para outro daquela imensa sala, com uma tampa de xampu (ou uma bolinha de ping-pong ou um naco de sabonete, já não lembro) enfiada por entre as nádegas e com o objetivo de empurrar para um tênis como simulacro de "cesta".

À frente, já veterano e líder de time, comprei inúmeras brigas por jamais admitir que tal prática -- e outras deste nível, meras aberrações infanto-juvenis -- fosse feita nas tantas viagens em que estive presente.

Mas, confesso, não faltavam aqueles calouros que lamentavam não ter todo aquele nauseabundo ritual.

Seriam aquelas que faziam porque queriam.




quarta-feira, 18 de março de 2015

# sangue nas veias


E como um dos itens presente em nove de dez listas que se faz apresenta como agenda para a “reforma política”, o financiamento público de campanhas destaca-se com importância ímpar (v. aqui).

Por quê? Porque é crucial para que se mitigue a elitização das campanhas, a nobiliarquia nos cargos eletivos (e comissionados) e, claro, o toma lá - dá cá de quem está no poder com quem quer se beneficiar do poder.

E exemplos não nos faltam.

Qualquer campanha para deputado nos maiores Estados brasileiros não sai por menos de R$ 2 milhões; nos grandes centros, qualquer campanha para prefeito ou governador atinge R$ 5 milhões; para a presidência da República, os números causam inveja aos tios patinhas de plantão. Pior. Os dados mostram que os gastos de candidatos e partidos políticos com campanhas eleitorais saltaram de quase R$ 800 milhões nas eleições presidenciais de 2002 para R$ 4,6 bilhões em 2012, as últimas eleições municipais – um crescimento de 471%, que causa rubor em qualquer chinês (v. aqui e aqui).

Ora, o nosso Parlamento, com seus vereadores, deputados e senadores, salvo uma ou outra exceção, recheia-se de condes, viscondes, barões e marqueses, sempre pomposos e babacas,  sempre vistos enfeirados em seus "bons" ternos, enfeitados com seus "bons" vinhos e enfeitiçados com seus "bons" modos.

São os nobres do séc. XXI, que trazem das urnas o respaldo para dissimular o que trazem nos bolsos e naquele sangue com traços de azul e fel.

Não há pluralismo político-partidário que dê jeito, não há democracia que avance e nem república que funcione neste cenário construído para não dar certo.

Afora a questão nobiliárquica, nos meandros do poder a verba privada que entra numa campanha sai pela descarga, na forma de contratos, de aditivos, de repasses, de oscips ou, indiretamente, com as indicações políticas que apadrinham fulanos e cicranos para, depois de inseridos na máquina, funcionarem de modo bastante peculiar, servindo interesses umbilicais e proxenetas. 

É claro que apenas o financiamento público não vai mudar tudo, tão-pouco vai conseguir destituir grande parte do que se apresenta na política brasileira.

Porém, não há dúvida de que, ao menos na formalidade da lei, uns não serão mais iguais que outros.

 

terça-feira, 17 de março de 2015

# a família não fluida: um sólido que não se desmancha no ar

 
 
No cenário do faz-de-conta midiático – e, pois, global platinado –, parece incontornável a máxima flexibilização das relações, das uniões, dos matrimônios.
 
Nesse mundo, vasto mundo, onde tudo é efêmero e muito casamenteiro, a família ainda brevemente resiste para não se deixar fadar ao fim, ao insucesso, à vala comum das ideias e dos comportamentos descartáveis.
 
E tal modus vivendi, na esteira de tantos desafortunados garotos e garotas-propaganda, já contagia lares e casais mais desavisados e alienados, menos maduros e espiritualizados.
 
Do outro lado, não obstante os personagens e os valores em jogo, também se compreende a necessidade da grande família merecer a devida repaginação, ainda que à moda da casa, da velha casa.
 
É, sem ser contraditória, a renovação de volta para o futuro, reloaded.
 
Entretanto, ainda que nesta conjuntura, a ordem jurídico-normativa não deve permitir a fluidez permanente da “célula-mater da sociedade” – nos dizeres remotos de Rui Barbosa –, sob a pecha de se amoldar à tal dinâmica pós-moderna.
 
Com dignas exceções, no que por aí se flerta -- como em parte do Projeto de Lei nº 674/07 -- escasseiam-se verdades e sobram bolhas de sabão com temas que, embora latentes no (novo) Código Civil, são ainda muito controversas na doutrina e na jurisprudência, sendo uma temeridade catapultá-las ao ordenamento como regras do cotidiano, como regras de uma vida que ainda não é (e que nem se sabe se há de vir).
 
Amantes taciturnos, bodas relâmpagos, sexos vãos, sociedades monoafetivas, enfim, consequências possíveis que se afiguram num cúmulo de ideias, teses e vontades incapazes de, por ora, merecer o devido respaldo moral, social e jurídico.
 
Sim, compreende-se (e defende-se) a necessidade de se promover eficazmente a tutela das novas composições familiares e a dignidade da pessoa humana sexualmente irrelevante; porém, questiona-se se tal sistematização, em tais modos, efetivamente logrará melhor sorte para a coletividade e garantirá a envergadura que a consagrada instituição familiar requer.
 
Afinal, se há a necessária compreensão de que a história da família é assinalada pelas sucessivas rupturas com os acontecimentos sociais, fato é também que a mera colocação em xeque – ou, quiçá, o mero desprezo – da estruturação familiar tradicional não se sustenta por si.
 
Se por um lado o intervencionismo estatal é vital para o desenvolvimento pleno e equânime da nação, o pragmatismo de tudo se normatizar não alcança êxito nas relações civis já pautadas pela eticidade e socialidade.
 
Se por um lado o legislador brasileiro não pode fingir-se cego em relação ao que se passa na Oropa, França & Bahia e diante do que o Poder Judiciário já vem, aos poucos, reconhecendo acerca dos novos pares, por outro se exige, do próprio Parlamento, prudência e constância na valoração dos conceitos e dos princípios que regem a instituição em si, na sua forma mais singular.
 
Se por um lado rechaça-se o moralismo e o conservadorismo vadios, travestidos de onisciente, num cego ensaio daquilo que inutilmente se pretende tapar (e não tocar), por outro se deve atentar, de olhos bem abertos, para a não admissão da imoralidade e do vanguardismo tunante, desfaçando-se de moderno.
 
Assim, é neste balanço, por vezes doce, por vezes amargo, que a família caminha, como se ensimesmada numa insólita fenda temporal e incapaz de buscar nas suas origens – menos remotas, senão insustentável os dias de hoje – a sua mais concreta redenção e solidificação.
 
As relações conjugais, as relações de filiação, as relações fraternas, as relações parentais, enfim, as relações humanas consolidadas no seio familiar exigem a mais urgente reflexão, para, ato contínuo, a mais urgente prática.
 
Nesta busca, o trânsito para estas relações menos hedonistas, menos eugênicas e menos egoicas passará, certamente, pela reconstrução da ordem familiar como o mais verdadeiro lugar de amor e reverência (lar), como o mais significativo instrumento de re-humanização social.
 
Todavia, diante deste grande desafio da contemporaneidade, a garantia de êxito não perpassa pela luxúria ou gula legislativa, nem pela inveja de certos setores da sociedade civil, nem pela ira vaidosa da Igreja, nem pela preguiça judicante em estudar a fundo os casos, mas, sim, pela conscientização individual a respeito das virtudes de se formar uma família absolutamente enraizada nos eternos ideais e valores cristãos.
 
E assim, quanto menos fluida for essa presença familiar, mais sólida será a nossa sociedade, arauto fundamental para o nosso desenvolvimento cidadão, pessoal e espiritual.