domingo, 25 de maio de 2014

# atleticania (xvi)



Minhas lembranças da saga como atleticano iniciam-se por volta de 1982 e 1983.

No primeiro ano, o título paranaense -- ainda numa época em que os torneios regionais tinham alguma importância -- e um time que enchia os olhos, ainda mais para a vista impúbere de alguém que estreava pelos campos de futebol.

Lembro-me bem daquele domingo, lá no Couto Pereira, a comemorar a conquista ao lado do meu jovem pai, numa final em que atropelamos o Colorado por uma goleada cujo placar já não me recordo, mas que tem as suas emoções devidamente guardadas na eterna memória.

Lembro-me de muitos gols, a festa rubro-negra a invadir o gramado e o início de uma relação de amor pelas cores de um clube.

Depois, em 83, a semifinal do Brasileirão contra o global e midiático Flamengo, cuja partida da volta, em Curitiba, nos foi surrupiada pelos múltiplos e históricos interesses em jogo.

Lembro-me que tínhamos praticamente o mesmo grande time do ano anterior e logo com trinta minutos do primeiro tempo o Atlético já vencia por 2 x 0 -- mas doce ilusão acreditar que nos deixariam avançar, e o jogo acabou com este mesmo escore e a nossa eliminação.

E também me lembro deste outro domingo (e como se fosse hoje), lá na garagem da casa da minha vó, a ver meu ainda jovem pai saindo para ir àquele mesmo Couto Pereira -- naquela tarde, com quase 70 mil pessoas, fez-se o maior público da história do estádio -- e me dizendo: "Hoje você não pode ir, você é muito pequeno, estará tudo muito lotado, muita confusão, mas prometo que será a última vez...". Eu, triste, num abraço de colo, devo ter lhe dito: "Tudo bem, pai... mas eles vão fazer gols, né?".

Chamar por "eles" não tinha nenhum significado subliminar para quem, mesmo sendo um infante atleticano, bem sabia do que nosso time era feito.

É que, para além daquelas lembranças todas, a minha maior recordação era mesmo "deles".

Era uma dupla que conhecia o nosso valor, que incendiava a massa rubro-negra, que nos enchia de um orgulho máximo e que de mim fizeram um grande piá atleticano.

Eram dois negros, bigodes, camisas 8 e 9, ponta-de-lança e centroavante, cérebro e artilheiro, organizador e matador.

Eram como um só, e sempre juntos eram meus nomes e meus titulares absolutos em todos os times de pelada, de botão, de meia e de bolinha.

Eram Assis e Washington.

Washington, ontem, nos deu adeus.

E com ele leva a paixão infantil de um dos meus dois primeiros ídolos no futebol.

Coincidentemente, num dia em que vencemos outro "Atletiba".

De modo convincente e festivo, a nos animar por se ver tentar resgatar a essência do jogo e de um clube  e de recuperar a máxima de que a nossa camisa só se veste por amor.. 

E assim esperamos ver muitas outras vitórias como a de hoje.

Para que também possamos ver muitas outras crianças rubro-negras criando seus novos heróis, comemorando, vibrando e torcendo por eles.

E até chorando.

Obrigado, Washington.

Obrigado, Atlético.



sexta-feira, 23 de maio de 2014

# favas contadas

 
A chance de Dilma não ser eleita é zero.
 
Seria pelo ótimo governo que faz? É claro que não, pois não faz.
 
Seria pela falta de democracia político-partidária no país? É claro que não, pois não nos falta.
 
É, simplesmente, pelo absoluto caráter jocoso dos outros dois notáveis candidatos.
 
O primeiro, Aécio Neves, neto de um ex-quase-Presidente, é uma piada.
 
É o atraso do atraso do atraso.
 
É da turma neolibelô dos anos 90, daquele mesmo pessoal crente no Deus-mercado, no super-mercado e nas bravatas piratas e baratas das privatizações de tudo e de todos (v. aqui, aquiaqui e aqui).
 
É uma gente démodé, que sempre tentar voltar com aquele discurso cômico do "xoque de jestão" e aquela cantilena thatcherista – "não há alternativa!"  que quebrou parte do globo, para desespero do capital produtivo e de trabalhadores, e que disseminou crises mundo afora, para delírio dos donos do poder e do sistema financeiro. 
 
Ora, Aécio não tem nada além de arroubos perfumados e do ranço dos manuais ortodoxos de Economia, conservadores de Direito e reacionários de Política.

E terá, pois, seus pouco mais de 20%, como há doze anos sói acontecer, ainda que a reboque de todo o poder midiático e seus queridos heróis demo-tucanos.
 
O segundo, Eduardo Campos, outro neto de outra figura histórica, é o nada. 
 
É o avesso do avesso do avesso.
É da turma que não sabe o que quer, que não sabe para onde é mais convenientemente correr e que promove um discurso vão, vazio e repleto de contradições com seus verdes, azuis e vermelhos a tiracolo (v. aqui, aqui e aqui).
 
É uma gente obtusa, ansiosa por se mostrar abraçada a um mundo colorido, de fantasias e unicórnios, ao mesmo tempo em que nas entranhas carrega as mesmas espécies sórdidas, sujas e malvadas que perambulam por qualquer ambiente político-partidário.

Ora, Campos não tem nada além de espasmos requentados, e esse requentado não presta, pois logicamente ininteligível e pragmaticamente estéril em qualquer ciência.

E terá, pois, seus pouco mais de vinte minutos de fama, salvo seja  soerguido pela grande e desesperada mídia como o mais novo mutante.
Enfim, é como o mantra que há tempos um grande amigo carioca professa: "Vai ter Copa! Vai ter Belo Monte! E não vai ter 2º Turno!" (v. aqui)

Só esperamos que para o próximo quadriênio Dilma e o PT mudem, para que reguiem o leme à esquerda.

E parem, definitivamente, de dançar com o diabo (v. aqui).


 

terça-feira, 20 de maio de 2014

# guilherme tell


A vida, e mais especificamente o futebol, provoca situações comoventes.

Incita incomparável emoção, faz o coração pulsar atabalhoadamente e vê correr sangue, suor e lágrimas.

Nele se veem surgir epopeias homéricas, nascer herois fabulares, criar lendas e multiplicar mitos.

Dele se fazem estátuas, dele se montam nações e dele se constroem impérios.

Hoje, terça-feira, quase meia-noite, o Vasco da Gama seguia jogando pela segunda divisão do campeonato brasileiro.

E jogava em Teresina, capital do Piauí, tudo muito árido e num clima meio de neblina, meio de guardamento.

E jogava contra o Sampaio Correa, time tradicional do Maranhão, cujo fardamento é daquelas mais excêntricas coisas que se vê no velho e rude esporte bretão.

E, não satisfeito, perdia o jogo até os 48 minutos do segundo tempo.

E levava sufoco, e agonizava, e sofria, e parecia ainda incapaz de expurgar os efeitos daquela barbárie do final do ano passado (v. aqui).

Aí, vindo do ocaso, eis que na grande área adversária raia o intrépido Guilherme Biteco, uma nova e reluzente estrela de São Januário.

E empata o jogo.

Para sair vibrando, ensandecido, despindo-se da gloriosa camisa cruz-maltina e jogando-a para o alto, em êxtase.

Atrás dele, numa euforia invejável, um time inteiro na busca impávida pelos braços do deificado artilheiro.

Ao cabo, se lançam para se amontoar no gramado, a formar uma pilha única de aliviados guerreiros.

E tudo parecia Iniesta e seus agradecidos compañeros na comemoração daquele solitário gol na final da última Copa.

O futebol é mágico, meus amigos.


domingo, 18 de maio de 2014

# atleticania (xv)


Iludem-se os atleticanos por pensar que, após outro empate -- agora contra os reservas do último colocado --, o problema esteja (apenas) com o arremedo de treinador, um paraguayo que especula no nosso comando técnico.

A máxima culpa é, como se faz notório, do mandatário do clube, o Petraglia.

Aquiaqui e aqui já muito falamos disso, e agora prometemos ser a última vez que perderemos tempo com o assunto.

Petraglia é um facínora, um ególatra, um cão raivoso que detesta o dia a dia do Atlético, o futebol do Atlético e a torcida do Atlético -- mas que gosta, e muito, dos negócios do Atlético, razão pela qual não larga o osso, e não o divide com ninguém, há décadas.

Com base na meia-verdade de que foi o cavaleiro solitário na recriação do Atlético no fim dos anos 90 -- embora jamais se negue a sua importância como líder daquela histórica geração administrativa --, o fanfarrão manda-chuva hoje julga-se onipotente, onisciente e o ovo de Colombo.

Ele odeia tudo e todos, só enxerga o umbigo e só voltou ao Atlético -- como causa do rebaixamento e da péssima gestão do seu antecessor e ex-aliado -- para buscar os cifrões desta nova Baixada e a audiência desta Copa.

Ele parece escalar o time, desmontar o elenco, desagregar o sistema, espantar colaboradores....

Ele quer destruir um clube de futebol e criar uma S.A, para depois tergiversar seu "fim", como fez com a empresa da qual era sócio (v. aqui), e sair-se bem.

Ele não suporta futebol, não suporta quem adora futebol e não suporta quem suporta quem adora futebol.

Se o Atlético fosse um shopping center, para ele tanto faz. Seria até melhor, porque não sentiria o cheiro da massa.

Afinal, ele odeia o povo e tudo o que diz respeito ao povo.

E o futebol é do povo. O futebol é uma das máximas expressões culturais deste país, movimenta massas e paixões.

Petraglia desconsidera a paixão -- por ele, o Atlético seria uma nova franquia da NBA, só com consumidores, sendo tudo em torno do jogo uma "experiência" ou um simples "entretenimento". 

Petraglia abomina o vermelho e preto -- para ele é tudo cinza, inclusive porque é neste tom, no lusco-fusco do nublado que consegue os melhores negócios.

Petraglia tem ojeriza pelos gritos, pelos cantos, pelas lágrimas, pelas faixas, pelas fantasias, pela energia viva e vibrante que só um gol ao vivo causa na vida de um andrajo qualquer.

Petraglia é, pois, a cara mais triste da distopia do mundo do capital, do mundo sem alma girando em torno de cifrões. 

Mas não suficientemente contente com a ética do mercado e da política, mediante o seu isolacionismo individualista acredita que no futebol a sua ética -- nem tão-pouco a ética do futebol -- deve prevalecer.

E para isso desmonta um time, degenera uma torcida e deflagra o ódio.

Petraglia representa um outro tipo de retrocesso no futebol, à moda moderna, do "clube-supermercado", legitimado por ter reconstruído o clube após um estágio pré-falimentar, mas que hoje caminha para um estágio pós-futebol.

Petraglia quer nos enterrar, bem longe da Lapinha, sob a lápide cinza de quem está inumado em rubro-negro.

Petraglia, se lá nos anos 90 foi uma luz no fim do túnel, hoje é o nosso fundo do poço.

Há um enigma posto: decifremos o Atlético ou Petraglia nos devorará.



quarta-feira, 14 de maio de 2014

# a mentira e a justificativa do medo


Por que o medo do fim da gestão do PT  estampado em vídeo da pré-campanha deste ano  é diferente do medo do fim daquela gestão do PSDB, encampado nas eleições de 2002?

Bem, primeiro uma observação: este governo do PT está longe de ser um "Governo do PT", das suas bases, das suas raízes e da sua gente centro-esquerda  razão pela qual diversas críticas são feitas e absolutamente merecedoras à atual gestão –, o que, todavia, não significa que seja minimamente cogitável admitir o regresso demo-tucano ao Palácio do Planalto.

Retome-se a pergunta acima: por que em um há medo e no outro havia um pseudo-medo?

E já de pronto se responde: porque, hoje, o medo é de algo que já conhecemos, enquanto que, antes, se tinha medo de algo ficcional e subjetivo.

A ideia de 2002, que tentava amedrontar o povo brasileiro acerca da possível vitória de Lula e do PT  lembrem daquela atriz, com aquela burlesca cara de pavor, dizendo bobagens sem tamanho, com lábios trêmulos e olhar aterrorizado... –, parecia exemplo perfeito da "retórica da intransigência", ideia da famosa obra de Albert Hirschman.

A tese do cientista político alemão muito bem explica o desejo felino dos conservadores em ser contra a mudança e o progresso, a se assentar em três argumentos: a ameaça (ora, nas teses progressistas oculta-se um brutal desejo de mudança que traz perigosos custos para as preciosas realizações anteriores), a perversidade (ora, com as teses progressistas gera-se uma cadeia de consequências imprevisíveis que provocam o oposto do que se deseja alcançar, exacerbando-se a situação que se deseja remediar) e a futilidade (ora, as teses progressistas rigorosamente não servem para nada, a provocar meras mudanças ilusórias).

Ou seja, tucanos e cia insistiam nos meios de comunicação  e eram incentivados pelos próprios meios de comunicação, como de praxe  que o fim da era PSDB e a vitória de Lula/PT resultaria no caos ("ameaça"), no caminho a um buraco negro ("perversidade") e no nada ("futilidade"): "Socorro!", gritava a madame no salão do clube com seus bóbis e luzes no cabelo..."Vou fugir!", bradava de dentro do seu conversível o sujeito de cebolão platinado no pulso.

Ora, como disse Maquiavel: os homens ofendem por medo ou por ódio  e aquela gente ofendia por ambas as formas.

Porém, nada daquilo poderia se sustentar, pois o Estado brasileiro jamais teve um governo de centro-esquerda eleito e não se fazia possível realizar qualquer comparação, a restar inútil, injusta e indecente a propaganda terrorista e do medo.

O que é muito diferente de hoje: conhece-se o inimigo, de tantos outros carnavais, e por isso o medo real e objetivo.

O medo é a retomada do poder pelos prosélitos do neoliberalismo, pelos adoradores do Deus-mercado, pelos filhos do mainstream e pelos capachos da ditadura financeira global (v. aqui e aqui).

O medo é a rechegada no comando político de um partido que não acredita no Estado, que despreza o país, que detesta a democracia e que não suporta uma nova configuração social do país.

O medo é a reexecução de teses político-econômicas falidas, a execração do serviço público e a consagração do interesse privado.

O medo é a precarização da nossa cultura, a idolatria do estrangeiro, a flexibilização da ordem e o travamento do progresso.

O medo é o novo desembarque na nossa Normandia daquela gente que vendeu o país por trinta moedas, que entregou nossas riquezas a preços vis e que arrendou a alma produtiva brasileira.

O medo, pois, é conhecido e imediato, não era o medo retórico e intransigente da cambulha do PSDB, a reboque da mídia e do mercado.

Mas, por outro lado, este atual governo do PT  repleto de coalizações, de coligações, de alianças e de apadrinhamentos sem limites  não deve se iludir.

Pelo contrário, deve exigir-se uma urgente e transformadora reflexão, sob pena do medo vir de dentro.

E aí será sério e verdadeiro.


segunda-feira, 12 de maio de 2014

# bar, baco e babacas


Assombra, inclusive o mundo mineral, a babaquização geral, enfestada de um consumo voyeur idiota e nonsense.

E se trata de uma mixoscopia reflexa, em sentido oposto, daquelas que do ato próprio só se realiza no que o outro vê (v. aqui).

De uns tempos pra cá a onda cai e a pomba gira em torno de espaços private, lojas boutique, salas vip, áreas soho, produtos gourmet e tudo o que se quiser associar de francofonias ou expressões inglesas a fim de oferecer status aos envolvidos.

Recria-se uma coisa ou hábito qualquer e se oferece ao mercado com a assinatura de chefs, bem recomendada por celebridades, se acresce um ou outro ingrediente importado ou de incompreensível pertinência e pronto: a fetichização do consumo irá levá-lo às alturas e o fará sublimar num mundo cheio de ilhas da fantasia.

Para piorar, a verve é oferecer status para tudo e para as trivialidades do dia a dia: alimentos, roupas, acessórios... tome-se, agora, dois exemplos: beber vinho e cerveja.

Vocês já notaram o que virou isso?

Começou com o vinho, e de modo um tanto quanto, pois o estereótipo criado para ele e para o seu consumo não coaduna com a sua rica história.

Mas, convenhamos, a própria aura colocada pela gente que trabalha com ele é a grande causa disso tudo, que faz questão de agregar uma simbologia atroz para o seu comércio e consumo, que vai do elitismo aos grandes lucros.

Na Europa, por exemplo, não existe nada disso que se alarda em torno da bebida. Nas regiões produtoras tradicionais como Portugal, França e Itália, essa bebida sempre foi e continua sendo popular. Nesses lugares, o vinho é considerado um alimento e é indispensável nas refeições, tanto à mesa do rico quanto à mesa do pobre. Lá, todos consomem, como por aqui qualquer brasileiro simplesmente bebe  bebia?  sua cerveja.

Logo, a elitização  e o pseudo-privilégio  é coisa notória do novo mundo vinífero.

Em nosso caso, talvez porque índios e negros, raízes da brasilidade, não tiveram no vinho um elemento cultural. Talvez porque aqui o vinho era importado, caro e restrito a poucos  lembro-me, pois, da pequena fortuna que um certo senhor de Curitiba fez, nos anos 80, ao importar as primeiras cargas daquele vinho branco alemão da garrafa azul ("Liebfraumilch"), sucesso absoluto em todos os grandes eventos da capital, que era comprado nas gôndolas alemãs por dois dólares e por aqui vendido às madames a preços nababescos, para entornadura delirante da massa fina e cheirosa nativa.

Mas, fora isso, há também uma razão contemporânea: a nossa atual moda enófila veio acompanhada de toda uma babaquice empolada que distingue e afasta as pessoas da bebida. 

Um linguajar supostamente técnico, comparações esdrúxulas com aromas de outro planeta, rituais esotéricos para se beber, regime de pontuações bizarros que os não-iniciados sentem que só aprenderiam com décadas de estudo... enfim, houve a transformação dessa bebida em algo esnobe, doutoral e quase mediúnico. 

Usa-se a analogia com frutas e alimentos que não fazem parte do nosso dia a dia, que não explicam nada e que, regize-se, apenas buscam embustear o negócio.

E agora veio a cerveja, sim, a sacrossanta cerveja e os seus botequins. 

Para a qual se dispensa quaisquer comentários, bastando ler isso aqui.

Como se diz, meus amigos, o fim está próximo.


sexta-feira, 25 de abril de 2014

# um mestre



Os EUA costumam diferenciar teacher, professor e coach.

Fernando Cruz Sanches conseguiu reunir as três categorias em uma só: um mestre.

Um ícone do esporte paranaense, para o qual fez de tudo, ele foi o melhor e o maior treinador durante os anos dourados do meu basquetebol.

E justamente na fase aguda da juventude, foi também um professor, professor lato sensu.

Dos meus doze a dezoito anos mantivemos um convívio quase diário, em treinamentos, jogos, viagens, excursões e eventos sociais; depois, os encontros eram mais esporádicos, pela distância do esporte e pelos caminhos da vida, mas sempre que ocorriam eram festivos e alegres.

Foram tantos ensinamentos, tantas aulas, tantas orientações, tantos conselhos, tantos gritos, tantos abraços com ele por aqueles anos todos...

Foram tantos campeonatos, tantos títulos, tantos prêmios, tantas convocações, tantas viagens com ele pelo Colégio Santa Maria, pelo Clube Santa Mônica e, em especial, pelas Seleções de Curitiba e do Paraná.

Fernandão me levava, me indicava, me escalava e por ele rodei o Paraná, Santa Catarina e o interior de São Paulo, jogando por tantos clubes e cidades. 

Fernandão era tanto...

Fernandão era emoção e lealdade puras.

Fernandão era um craque na beira da quadra.

Fernandão se foi.

Do meu baú, uma última foto ao seu lado, quando já aposentado fui convidado para um torneio promovido pela Federação Paranaense de Basquetebol como homenagem a ele, "Torneio Fernando Sanches", em 2003 (v. aqui). 

Destas coincidências da vida, foi meu time o campeão daquele torneio.

E então pude receber troféu e medalha de suas mãos, pela derradeira vez, tendo ela até hoje guardada com apreço. 

Aqui fica a homenagem do seu atleta, aprendiz e amigo.

Viva, Fernandão!

Do seu capitão,

Gava




quinta-feira, 17 de abril de 2014

# despedida do tempo


Duas premissas um tanto quanto óbvias: um cão não é um ser humano e dezesseis anos não são dezesseis semanas. Isso posto, porém, não imaginaria que pudesse vir a duvidar disso.

É que num destes insólitos fatos corriqueiros da vida, enquanto hoje eu cavava uma cova para no quintal da minha antiga casa enterrar o cachorro da família, na memória carregava aqueles dois temas – cães e tempo.

E chamar as coisas pelo que elas são provoca, por isso, uns mal-entendidos.

Embora tenha desmedida racionalidade no trato com os animais de estimação, hei de confessar que a perda deles, estimados no cotidiano, superestimados na dedicação, faz o nome dado soar meio estranho.

Soa menos racional, soa menos "animal" – a morte, meus caros, não soa natural e, por isso, um cão tão velho é por vezes menos um bicho envelhecido de estimação e mais um estimado membro antigo da família.

São quase como aqueles tios-avôs, enrugados, de bengala, que já andam pouco, que já pouco vivem, mas que sempre estão por ali, nos eventos, nas festividades, calados num canto na expectativa da morte lhes chegar.

E vendo a cena que preparava para o nosso cão, impossível não me lembrar do tempo.

De pá e enxada à mão, pés descalços já cobertos de terra e grama, não via apenas o buraco dos meus gestos de cavar ir aumentando.

Ali, na minha memória daquele quintal, templo da minha infância, via aumentar o drama de ver os anos voarem.

E, ao contrário do que se diz, era eu – e não o cão – quem ali sentia o tempo multiplicado por sete.

Era eu um cão engarrafado numa ampulheta em queda livre, em gravidade sétupla, sobra indefectível da inflação cósmica que nos consome.

Via, perdido na minha máquina do tempo, toda a vida de criança naquele espaço, como criança também foi aquele pequeno cachorro quando naquela nossa casa nasceu.

Hoje, para enterrado e enterrador, a vida adulta passou e passa a passos largos, inexoravelmente largos – e a única criança era a que ali estava ao meu lado, abraçada em lágrimas às minhas pernas.

Era Gabriela, minha afilhada, num choro de quem dava incompreensível adeus pela primeira vez na vida.

Ali, lembrei que por vezes um cão pode valer por um ser humano, e que dezesseis anos podem parecer não mais do que dezesseis semanas.

E o tempo, assim, vai se despedindo da gente.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

# reino da república


Assim que conheci a Escandinávia particularmente os reinos da Dinamarca, Suécia e Noruega , disse ter encontrado o maior e melhor Estado de Bem-Estar Social do planeta.

E mais: disse que, se é possível existir a Utopia, essa terra seria aquele conjunto ali, com mais uma ou outra praça mundo afora.

E não falo à toa, pela imaginação fértil da viagem, pelo deslumbramento do que se vê nas ruas, parques, praças, casas e pessoas escandinavas ou, ainda, pelas explicações e revelações da gente nativa.

Falo também por isso tudo, é claro, mas é possível falar principalmente pelos números, pelas pesquisas e pelos estudos que desnudam a vida, a sociedade e o Estado nas terras vikings.

"Índice de Desenvolvimento Humano", "Taxa de Sonegação Fiscal", "Número de Homicídios", "Dados de Saúde Pública", "Pesquisas de Satisfação de Vida", "Estatística de Crimes contra a  Ordem Financeira", "Índice de Felicidade", "Estudos de Eficiência e Eficácia Educacional", "Ecologia e Sustentabilidade", "Modo de Relacionar Capital e Trabalho", "Coeficiente de Gini" e "Mulheres Lindas e Simpáticas".

Em tudo e em todos os levantamentos, a Escandinávia é praticamente imbatível.

E por aqui alguém fala nela? A grande mídia se debruça sobre isso? E a nossa política? E os donos do poder? E a turma da grana? E a classe média?

Não. Para quase toda esta gente, o modelo, o paradigma e o fim é os Estados Unidos da América. Por quê?  

Ora, porque lá como aqui, o vale-tudo é permitido, a falácia da "meritocracia" hipnotiza todos e o ter supera tudo, diz tudo e vale por tudo. 

Porque lá como aqui a desigualdade é aceita como lógica do sistema, o Estado é proibido como um mal patológico e o mercado é louvado como um ser mitológico; o consumo é supra-humano, políticas sociais são desumanas e o umbigo é o ser humano.

Porque lá como aqui, educação, saúde, segurança, transporte, energia, a água... a vida deve ser privatizada, vendida, comprada, mercantilizada, se quiser alçar voo. 

Porque lá como aqui, impera a sociedade de vencedores e vencidos, de bem-nascidos e mal-nascidos, de encastelados e periféricos, e cada qual deve se suportar e se convencer desta efeméride. 

Ora, não agrada aos nossos "donos do poder" que um Estado seja a cabeça pensante e organizadora da realidade nacional, que uma sociedade se reveja, se refaça e se reconstrua para socializar o bem-estar.

E como na Escandinávia a educação é exclusivamente pública, a saúde é eminentemente pública, o mercado participa no que deve participar, a desigualdade alcança níveis monásticos, todos pagam tributos e os ricos pagam mais tributos que todos e todos vêm (quase) tudo funcionar, todos defendem e compartilham da res publica e, fundamentalmente, todos se veem como cidadãos.

E já aqui este grande segredo: mesmo sob monarquias, estes países conseguem estabelecer que a virtù está também nos seus cidadãos, e assim adorar um dos máximos princípios – ou "molas", como ilustra Bobbio – que movem as repúblicas.

Por fim, e por tudo, todos acreditam no Estado.

Estado que aqui é motivo de chacota, asco e ódio – e por culpa dele próprio, mas que infelizmente apenas reflete o jeito da maioria da nossa gente.



quarta-feira, 9 de abril de 2014

# anotem as placas (ou, "a lânguida decadência do nosso futebol")


O Brasil, com dinheiro e sem inspiração, está a praticar um futebol que pode ser considerado um dos mais feios e vazios do planeta – não disse pior, disse "feio" e "vazio".

E não falo apenas em comparação ao desbunde daquele praticado no Velho Mundo, com a reunião de astros e esquemas de máxima grandeza.

Comparo-o ao que tenho vista em nuestra América – Argentina, Colômbia, Chile e Uruguai têm suas seleções jogado mais do que nós , e nestes jogos do maior campeonato da Terra (v. aqui), cujos clubes hermanos mostram um futebol  em suas partes tática, técnica, física e mental – superior ao nosso. 

Ontem, por acaso, foi apenas mais uma prova, como também já tinha sido na terça-feira e em toda a competição latino-americana.

Com jogadores caros e de nível barato, Atlético, Flamengo e Botafogo, por exemplo, levaram um banho.

Argentinos, mexicanos e até bolivianos mostram-se muito melhor preparados, com um padrão e sistema de jogo absolutamente superiores e, até, muito mais técnica.

O condicionamento físico de Flamengo e Botafogo deu pena. Antes mesmo da metade do segundo tempo, a grande maioria sofria para caminhar, olhando a banda de mexicanos e argentinos passar. 

Culpa, claro, de um futebol brasileiro que ainda se importa com os torneios estaduais, os quais impedem uma pré-temporada e uma preparação adequada – imagine que, já no começo de um moribundo janeiro, os grandes clubes obrigam seus atletas a estarem competindo, vagando pelos campos de pelada interior adentro. Ademais, tal qual aqueles nossos criativos japoneses, lembremo-nos que, historicamente, os nossos jogadores são menos atletas do que os jogadores dos outros, 

Em termos táticos, os brasileiros são medíocres e andam sofríveis. Não há nada, nada pensado, treinado, armado, engenhado. Nenhuma alteração, nenhuma variação e nenhum ensaio. É o trivial, o básico e o bumba-meu-boi, resgatando o futebol europeu de priscas eras, baseado no chuveirinho e na correira desenfreada.

Culpa, claro, da má preparação dos nossos profissionais, do descaso com o estudo e a estratégia do jogo e das atitudes de quem ali à beira do campo pensa saber tudo – e por isso ignora o óbvio ululante  ou sabe que não pensa em nada – e por isso insiste só nas obviedades.

E, tecnicamente, o jogador brasileiro tem a cada ano piorado. Os três times eliminados desta Libertadores são apenas o corolário desta fase horrorosa dos nossos jogadores, que não conseguem trocar três ou quatro passes, que vivem de chutões e de bolas paradas e que desconhecem qualquer sentido de organização e coletividade. 

Culpa, claro, da má formação técnica, da falta de preparo nas categorias de base, da insistência em confundir "habilidade" com "técnica" e do desprezo com que sempre encaram qualquer conformação plural, ainda a pensar que resolvem tudo a hora que bem queiram e, ignorando o football association, não admitindo a nossa flagrante escassez de didis, niltons, gersons, rivelinos e zicos.

Não, o futebol brasileiro há tempos já não tem esta moral e esta profusão de individualidades geniais.

A eliminação precoce de metade dos times brasileiros no torneio, marcada por um atropelamento físico, tático e técnico dos adversários, é apenas mais uma prova disso.

Talvez esta Copa do Mundo poderá nos fazer enxergar isso em definitivo.

E do pior jeito possível.


# bala na agulha


Quem mais mata no mundo, manda mais?

China e EUA encabeçam listas de comandos político, econômico, produtivo e, também, de extermínio legalizado.

Já, já aparecerão estudos que ligam poder, grana e eficiência pública à matança estatal... (v. aqui).




terça-feira, 8 de abril de 2014

# atleticania (xiv)


Teto retrátil, mármore nas pias dos lavatórios, ultra-led 3d na fachada, cadeiras com assento reflex, sistema de som acústico surround, jogadores que falam outras línguas ou técnicos que falam a língua do pê...

Eis o sentido da vida para o mandatário do Atlético, o Petraglia.

O rubro-negro não sofreu a desclassificação do maior campeonato do planeta (v. aqui) ontem, para o hipossuficiente e rarefeito time boliviano.

Não sou de chorar leite derramado, mas o Atlético mostrou para o que vinha desde que Petraglia, por birra, orgulho e preconceito, desmantelou e jogou no lixo toda uma estrutura construída, ainda que por muito acaso, em 2013.

E não estou falando aqui de uma "laranja mecânica", de um "carrossel húngaro", de super-heróis ou de grandes ídolos da humanidade, cujo desarranjo para ir à grande Europa ou aos petrodólares seria inevitável; tão-pouco me refiro a algumas espécies raras, deslumbrantes e que solucionariam todos os nossos problemas de time, como aqui já dissemos.

Acontece que Petraglia, por razões absolutamente vãs, resolveu, numa manhã qualquer, ao olhar para o espelho, o espelho dele, que aquilo tudo deveria ruir.

E dispensou Vágner Mancini e Moraci Santanna do comando técnico – e que ótimo trabalho faziam! , e mandou o experiente Luiz Alberto às favas 
– e que outro zagueiro há no elenco além do bravo Manoel? , e fez pouco caso do Bruno Silva – e que falta nos fez um volante! , e desdenhou do Éverton – e quem correu e jogou no nosso meio-campo? – e tripudiou em cima de Paulo Baier, escolhido o melhor armador do Brasileirão de 2013 e grão-responsável por fazer Marcelo e Éderson jogar o que jogaram.

Tínhamos, pois, um esqueleto, fora e dentro de campo.

Mas não, Petraglia preferiu especular, sempre pensando em negócios aparentes antes de pensar no futebol, e sempre achando feio o que não era dele ou da ideia dele.

E aí trouxe este Calma Cocada, o sujeito espanhol sem a mínima noção do que deve fazer e que se diz treinador – na verdade um empresário e intermediário da vinda da seleção da Espanha para o nosso CT, na Copa – , e aí disseminou o factóide Adriano, e aí inventou uns dois ou três gringos, e aí flertou com uma meia dúzia de pestes bubônicas, e aí fez jogar uma trupe que há anos não nos serve...

Ora, repitamos: de um time que entra em campo – como titulares por toda a Libertadores – com Suéliton, Cleberson, João Paulo e Mirabaje, se espera o quê (v. aqui)?

De um time que se (in)digna a colocar em jogo múmias como Dráusio, Bruno Mendes, 
Paulinho, Coutinho, Fran Mérida e outras coisas desse naipe, o que se deve esperar?

De um time que arrisca queimar uma grande safra, não enxergando que os ótimos Marcos Guilherme, Mosquito e Nathan, com seus 18 anos, não podem resolver agora a nossa vida, se imagina o quê?

E isso nada tem a ver com o fato de que continuamos querendo (e bendizendo) o nosso grandioso Joaquim Américo, o belo CT do Caju e um honroso histórico contábil-financeiro.

Porque, na verdade, isto não se dissocia do fato de que o Atlético precisa é rever os seus conceitos, precisa voltar a trabalhar com o futebol e pelo futebol e precisa parar de ser tratado de acordo com os rompantes histéricos e histriônicos do seu mandatário.

Sim, ele deve parar de achar que deslumbra a nossa gente rubro-negra com penduricalhos, objetos brilhantes e coisinhas que fazem barulho.


Afinal, ainda que Petraglia pense ser um pajé, nós não somos índios.



sexta-feira, 4 de abril de 2014

# ensaio sobre a loucura


É sabida a minha ideia em relação à máscara deste Estado-regulador (v. aquipor exemplo).

Porém, no exato momento em que a Agência Nacional de Saúde (ANS) passa a tomar (mínimas) medidas no sentido de obrigar as operadoras de planos de saúde a oferecer um (minimamente) razoável atendimento aos consumidores, eis que a doce Câmara dos Deputados entra na jogada e lança os seus tamancos na engrenagem do processo, a encaminhar uma medida que beneficia, exclusivamente, os senhores do negócio.

E, pior, com o apoio do Poder Executivo, pois o ardil foi referendado pelos líderes do Governo.

Em suma, o que se pretende? Reduzir o valor (e a quantidade) das multas aplicadas pela ANS em caso de infração das operadoras.


E como se fará isso? Por meio da inserção em uma medida provisória que tramita com assunto absolutamente estranho: a tributação de empresas no exterior.  E se levam a sério (v. aqui).


Bem, hoje as operadoras pagam multas que variam de R$ 5 mil a R$ 1 milhão por infração cometida multiplicada pelo número de ocorrências.

Com a nova lei, na prática, a operadora que cometer de duas a 50 infrações da mesma natureza, terá pena equivalente a duas infrações; de 51 a 100, a pena será como se fossem quatro infrações; e assim por diante, até um número superior a 1.000 multas, cuja pena será como se tivesse cometido vinte infrações do maior valor. 

Um exemplo: hoje, caso negue indevidamente a realização de um procedimento – o que não é raro , a operadora receberá uma multa de R$ 80 mil, sendo que a pena é aumentada proporcionalmente ao número de infrações. Com a esdrúxula medida, isso mudará: a operadora que negar de dois a 50 (!) procedimentos, receberá a mesma multa, de R$ 160 mil (R$ 80 mil multiplicado por dois).

Ora, poucos neurônios são capazes de mostrar que, além de reduzir substancialmente o valor total das multas aplicadas  fomentando cada vez mais o descaso das operadoras com seus serviços , esta mudança prejudica a própria política do governo de melhorar a qualidade no atendimento.

Isto tudo sem falar que cobrar não significa receber... Sim, as operadoras contam ainda com a máxima prerrogativa de desprezarem a cobrança administrativa e se lambuzarem com a conveniente morosidade do Poder Judiciário, que ao cabo deixam-nas livres e leves até uma logrativa prescrição do débito ou um afortunado perdão fiscal.


A justificativa dos nobres deputados para a medida?

Ah, neste ritmo de multas se está a onerar demais as operadoras, está tudo muito "exagerado". Ah, como está se inviabiliza o funcionamento delas, e isso prejudica os negócios, e isso não é sadio para o mercado.

É sério:  laissez-faire, laissez-passer, em estado bruto e duzentos e cinquenta anos atrasado, para decepção dos fisiocratas.

Como se receber multa por mal prestar o serviço fosse um ato falho do Estado, e como se prestar mal o serviço fizesse parte dos "serviços" e do "jogo do mercado" regulado pelo Estado.

Por isso, esta construção normativa soprada pelas operadoras de planos de saúde muito se assemelha àquela ideia dos muros da Paris de 1968: "seja realista, peça o impossível"

Ora, ciente de que tal escárnio não avançará, qualquer coisa que esta turma da Câmara consiga para minimizar o problema das operadoras será um ganho... e voilá, obtém-se o "possível", cumprindo-se o tal do jogo público-privado e a inexorável via de mão-dupla desta democracia representativa. 


E, para tornar tudo ainda mais surreal e impudente, a validade de tal medida normativa terá validade até 31 de dezembro.

Claro que o fato de ser ano eleitoral é mera coincidência.

Afinal, os deputados estão mesmo apenas pensando nas agruras do cândido mundo empresarial e num modo de minimizar esta sanha fiscalizatória estatal sobre os anjos que melodicamente tocam as suas harpas para ao bem-estar do consumidor e os seus planos de saúde.


Enfim, pergunto: financiamento público de campanhas e restrição de dinheiro privado? 

Não, não... isso é coisa destes socialistas radicais e barbudos.