quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

# aspas (xxxiii)

f
    José Saramago, sobre o twitter -- e que cabe também, e principalmente, para as conversas virtuais (v. aqui):

     "Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."





 

domingo, 21 de fevereiro de 2010

# quadragesima


fdsPrivação, reflexão, abstinência, jejum, sacrifícios, reclusão, oração e caridade.
fdsÉ o período de quaresma, no qual, abdicando de pequenas grandes coisas que nos simbolizam esta fase, procuramos ser mais humano e viver mais como cristão.
fdsE, assim, aguardar que a conversão não seja efêmera, mas perene, em tudo que for possível diante das injustiças, das ilegalidades e das estupidezes da cotidiana vida humana que nos provoca o pecado da ira.
fds

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

# cariocas


Em meio a sambas, saraus, sapucaí, morros, mojitos e melódicas marchinhas, estamos no Rio, para mais um Carnaval, donde a abstinência internetica será total.

Saudações verde-e-rosa a todos.

E até às cinzas, deste e da quarta-feira.
fd

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

# lista de schindler

fdsHá uma falsa concepção de "talento" em nossa sociedade, a brasileira fundamentalmente.
fdsDe tempos (eternos) pra cá, a competência e o talento de qualquer um vem traduzidos em pecúnia, em coisas -- é a coisificação do homem e das relações sociais, em suma. Ganhar e acumular dinheiro -- embora a depender das circunstâncias, das razões e das causas, claro, jamais deva ser considerado um crime terreno -- ou exibir marcas e bens elegem-se como as maiores provas para que alguém possa ser considerado competente ou talentoso.
fdsA republicana medida adotada pelo Governo do Paraná, ao tornar público os vencimentos percebidos por todos os servidores do Poder Executivo, traduz ainda mais a falsidade e a improcedência de tal relação.
fdsNão me ative à tal lista -- afinal, cabe ao próprio Governador do Estado, de modo a justificar e dar uma raison d'être a tal medida, criar uma comissão que examine a situação, os descompassos e os absurdos ético-profissionais no âmbito dos planos de cargos e salários, a fim de propor o que deve (e pode) ser feito --, mas tive sim a pecaminosa curiosidade de ver a remuneração de um "servidor", um daqueles ainda responsáveis por firmar a (secular) figura do servidor público brasileiro -- medíocre, inútil (quando não contra-producente) e, ainda pior, ímprobo --, e lá estão, cumulativamente, injustificáveis e imorais R$ 16.769,45.
fdsEssa excrescência, um exemplo entre tantos, apenas evidencia (i) a malemolência estatal com este tipo de situação -- pois, por culpa própria, não reestrutura as suas "árvores de gestão" e, pior, aguenta toda essa gente tosca e não faz uso da prerrogativa constitucional de mandar embora servidor ineficiente e com baixo desempenho -- e (ii) o descalabro entre o que se paga para serviços e funções de mesma hierarquia em termos de importância estatal.
fdsAfinal, neste último caso, se a intenção de se ter um Estado é justamente para promover (e induzir) o desenvolvimento, fomentar (e exigir) a justiça econômico-social e o bem-estar e reequilibrar as distâncias de classes, nada justifica as brutais diferenças de remuneração existentes e que muito privilegiam, por exemplo, delegados, auditores fiscais e procuradores -- e os "advogados" --, em detrimento dos professores e dos profissionais da base da saúde e da segurança pública.
fdsAnos de estudo para se chegar naqueles primeiros cargos? Grandes responsabilidades que eles exigem? Bull shits. É, sim, apenas mais um ranço da nossa República que dá oportunidades distintas e cria reservas de mercado perenes à nata estatal e àqueles nascidos em berços (mais ou menos) esplêndidos. É, sim, apenas uma hipocrisia beata daqueles que ignoram as bases da educação, da saúde e da segurança pública como motores para o desenvolvimento nacional e, então pessoal.
fdsE não é só isso: há inúmeros casos, a priori inexplicáveis, de pessoas que muito bem poderiam ser substituídas por um ventilador, uma samambaia, um bebedouro ou um porquinho-da-índia, mas que, tão apenas pelo princípio da física, estão a ocupar um lugar no espaço, para nada servindo e, ainda pior, para desespero do erário, ganhando uma sobrenatural remuneração.
fdsO cidadão paranaense é o patrão dos servidores e tem todo direito de saber para quem paga salários e quanto paga, diz acertadamente o Governador Requião; todavia, a medida será inócua e superficial, além de esdrúxula, se apenas servir como ferramenta de curiosidade ou de vazias comparações.
fdsLogo, uma comissão deveria ser criado para investigar e saber o que (não) faz cada um dos seus servidores, quais são as suas (in)capacidades técnico-curriculares e qual (e como se mostra) o seu desempenho histórico nas atividades e no serviço dentro do Estado; porém, registre-se, grandes e paradigmáticas mudanças serão difíceis, pois os pseudoprejudicados serão certamente socorridos pelos braços convenientemente afáveis do Poder Judiciário, o qual manda equiparar, reintegrar, aumentar...
fdsAssim, em suma, tão-somente com a ficha corrida (e completa) de cada um dos servidores públicos, a cobrança da sociedade e a definitiva reflexão estatal acerca da configuração do seu plano estrutural-sistemático de cargos e salários, tal lista será útil, eficaz e funcional.
fdsCaso contrário, para nada servirá, senão apenas para catalisar os pecados capitais, acirrar o preconceito e mostrar que o talento quer significar a competência para se conquistar (e dissimular) outras coisas.
fdsEspera-se, pois, que dessa lista não sobrevivam todos.
fds

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

# il monstro


E eis que a última grande chaga mundial de todos os tempos, trazida pelo mais cruel godzilla, volta a cobrir as manchetes da mídia brasileira e os orçamentos dos entes públicos. Vamos aos fatos, de novo, como já muito por aqui discorremos (v. aqui). 

Bem, com a chegada do inverno, a Europa investiu um arsenal para combatê-la, como se numa guerra de mundos. Resultado: vários países europeus tentam se livrar do excesso de vacinas e apetrechos relacionados à gripe A (H1N1), que não foi tão forte quanto previsto. A Suíça, comprou 13 milhões de doses e agora deverá doar ou vender grande parte ao exterior,e manter outra em estoque para uma eventual próxima pandemia; a França, anunciou na última segunda-feira que cancelaria a compra de 50 milhões das 94 milhões de doses que havia encomendado; a Alemanha também tenta se livrar dos excedentes e renegociar as encomendas feitas durante a fase inicial da onda de gripe A (H1N1); e Itália, Espanha, Portugal e Holanda já reavaliaram as encomendas de vacinas que haviam feito no início da (mal) dita pandemia (v. aqui).

Hoje, a nova “chaga”, dantes considerada uma mina de ouro do setor, cujas vendas de vacinas eram consideradas uma benção para as indústrias farmacêuticas, já não assusta e a receita dos fabricantes de vacinas e as perspectivas de lucros com a pandemia da gripe A (H1N1) já se mostram bem incertas. 

E a maior prova disso (e de toda a campanha midiática acerca da falsa epidemia) é motivo de investigação por alguns dos parlamentos europeus e de criação de uma “comissão de inquérito” por parte da União Europeia, com vistas a analisar a influência (e o lobby) dos gigantes laboratórios transnacionais sobre os dispêndios públicos em vacinas e congêneres. 

Assim, a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa (APCE) abriu um inquérito em janeiro sobre a influência das empresas farmacêuticas na campanha global da gripe A, focando especialmente sobre a dimensão da influência da indústria farmacêutica na OMS. Trata-se, pois, de um passo há muito necessário no sentido de existir uma transparência pública quanto a um “Triângulo Dourado” de corrupção na área dos fármacos entre a OMS, a indústria farmacêutica e cientistas acadêmicos. 

No Brasil, embora tudo mais distante em relação a processos de investigação, a situação prática dos gastos públicos e do temor populacional fora idêntico ao que se passa na Europa. Aqui, também, o nome científico para o que ocorreu – e, parece, está em visas de se repetir – é "estado hipocondríaco transitório movido por um estresse psicossocial"; o nome fantasia -- ou a chaga social -- é "cegueira branca", aquela mesma descrita por José Saramago, talvez um pouco metamorfoseada.
 
Estava a se falar demais sobre o "nada", dando ao "nada" status de "fato", a criar mensagens subliminares que (inconscientemente) intentavam mostrar a todos a aproximação de um monstruoso enxame de rãs, de sarnas e de gafanhotos, o qual daria início ao grande dia do juízo final. E assim, lendo o que repercutia à época a mídia, este parecerista começou sim a temer pela sua vida: não por causa da gripe, mas porque é o primogênito.


No último inverno ao sul do Equador, renomados especialistas, desprezados pela grande mídia -- como a Diretora do Hospital das Clínicas de SP e Mestre em Epidemologia, Sra. Anna Sara Levi, e o Diretor da Faculdade de Medicina da USP e Doutor em Infectologia, Dr. Marcos Boulos (v. aqui e aqui), afirmaram veementemente que a fome, o frio, a esquistossomose e a malária matam (e matarão) centenas de milhares de vezes mais do que o "monstro" da nova gripe, o (pseudo)anúncio do apocalipse.


Fazer política partidária ou lobby econômico com notícias de saúde, além de imoral, tem “efeitos colaterais”, da ordem econômica, relacionados à falta de recursos públicos em certas áreas -- vez que há um típico caso de trade-off --, e, também, de ordem social, cujos efeitos impregnam no estado negativamente extático da população, cujas consequências, dentre outras, remetem àquelas da gripe aviária de 2007 e da febre amarela de 2008: milhares e milhares de pessoas vacinaram-se desnecessariamente e, como a vacina tinha contraindicações, várias acabaram hospitalizadas e algumas morreram (ora, para ir rápido ao abastecimento dos produtos, em algumas vacinas se tem utilizado adjuvantes cujos efeitos não foram testados suficientemente... 

E porque tudo isso e essa suspeita típica dos enredos dos grandes thrillers? A memória não é tão curta (v. aqui). 

Em abril de 2009, quando chegou o primeiro alarme do México acerca de uma "nova" gripe, a OMS quase imediatamente declarou uma "pandemia", mesmo que esse elevado nível de alarme não se correspondesse com o números dos "casos". Não havia nem mil enfermos e o alerta máximo se baseou em que o vírus era novo. Porém, todo profissional das áreas da saúde sabe, uma característica das enfermidades gripais é que se desenvolvem muito depressa, por meio de um vírus que cada vez toma formas diferentes e se instalam em novos hóspedes. Nada novo. Todo o ano aparece um novo "vírus da gripe". Realmente não havia nada que justificasse semelhante grau de alarme. 

Isto tem sido possível desde que a OMS, em maio de 2009, numa manobra jurídica, mudou sua definição de "pandemia". Antes dessa data não só era necessário que a enfermidade se manifestasse em vários países por vez, senão que, ademais, tivesse consequências graves com um número de casos mortais, maior que a média habitual. 

Na nova definição se eliminou esta parte e só se manteve o critério do ritmo de propagação da enfermidade. E se pretende que o vírus seja perigoso porque as populações não tinham desenvolvido defesas imunitárias contra ele. O qual é falso no caso desse vírus, porque podemos observar que as pessoas com mais de 60 anos já possuíam anticorpos, vez que já tinham estado em contado com vírus análogos -- por outra parte, essa é a razão de que praticamente não tenha havido pessoas com mais de 60 anos que tenham desenvolvido a enfermidade. 

E a recomendação da OMS em utilizar unicamente as vacinas especiais patenteadas? Sem embargo, não havia nenhuma razão para que não se acrescentassem, como se tem feito todos os anos, as partículas antivirais específicas do novo vírus H1N1 para "completar" as vacinas que se utilizam para a gripe estacional. Não se fez, senão que se adotou pela utilização de materiais de vacinação patenteados que os grandes laboratórios tinham elaborado e fabricado para que estivessem preparados no caso de que se desenvolvesse uma pandemia. E procedendo dessa forma não se duvidou em colocar em perigo as pessoas vacinadas. Em outras palavras: querem utilizar forçosamente os novos produtos patenteados em vez de usar as vacinas segundo os métodos de fabricação tradicionais, muito simples e confiáveis, e mais baratos. Não há nenhuma razão médica para isso. Unicamente razões de mercado. 

Todavia, mesmo diante de todas essas (quase) evidências, a grande mídia corporativa e a parcela pestilencial da saúde pública ou privada brasileira já pressionam e advertem o Estado para o infernal inverno que se aproxima e que, agora garantem, a tal peste vai mesmo dizimar o resto da população sobrevivente.


E o Estado, o que deve fazer? Ora, não importa o que faça será, claro, jogado aos leões, afinal: (i) se realmente ignora essa pseudo-hecatombe e não gasta a querida fortuna em arsenal anti-gripe suína, mas algumas pessoas morrem da gripe, ele será eternamente criticado por não ter se preparado, por não ter investido, por ter sido negligente etc.; e, por outro lado, (ii) se realmente dá ouvidos às notícias e aos reclames da mídia e das indústrias fármaco-hospitalares, e gasta uma fortuna para se precaver e combater a tal gripe, e ela não vem (ou vem, como bem se viu, como outra doença qualquer que, mais ou menos sólida, se desmanchou no ar), será eternamente criticado por ter desperdiçado tempo e dinheiro público, por não ter examinado direito a situação, por não ter sido eficiente etc. Sim, é assim que o jogo sempre funciona, e a solução, vez que os dados com que se joga são vidas humanas, sempre tende para essa segunda. 

Portanto, o que a população necessita, de verdade, é de “kits” e “vacinas” contra os surtos midiáticos -- afinal, então sim, quanto mais prevenção maior será a proteção. Para a gripe, precisa-se, na verdade, de muita ciência e muita cautela (v. aqui).fds


P.S. O hilário Il Monstro, de Roberto Benigni, pode muito bem servir como paródia para o fato aqui descrito. fds

# ratos


fdsA Venezuela, quando em 2007 promulgou a sua nova Constituição, avançou em vários pontos relacionados à democracia e à participação direta da população nos rumos e na governança do país.
fdsDentre essas mudança, passou a prever o instituto do "Referendo Revogátorio", o qual permite aos cidadãos venezuelanos solicitar um referendo, após dois anos do mandato de qualquer Chefe do Executivo -- prefeitos, governadores e o presidente --, para decidir se ele deve ou não continuar no exercício do cargo.
fdsAssim, desesperadas e sem ainda crer no rumo sócio-político-econômico que segue o país -- a passos largos e sem retroceder, embora isso não signifique a precisa releitura de certos programas e políticas lá em voga --, por que a direita e as oligarquias venezuelanas não clamam "toda" a população que parece apoiá-las e solicitam esse Referendo, ao invés de ficarem promovendo estes tantos tumultos e paralisações, tão-somente com o fim de (tentar) desestabilizar o Governo?
fdsOra, como elas sabem que o atual Governo tem o apoio de ampla maioria do povo, tentam a via da violência, a pretender chamar as atenções para outros países e, quem sabe, buscar "aquela" ajuda, bem comum nos anos 60-70.
fdsNão se faz por demais lembrar que em 2004, por conta própria, Hugo Chávez submeteu-se a um plebiscito nestes mesmos termos. E venceu com mais de 60%.
fds"Eu os desafio a fazer um referendo revogatório se acreditam que os ratos estão abandonando o barco, se acreditam que começou a desordem (...). Violência e desestabilização sempre foram os códigos de contrarrevolução para tentar derrubar o governo. Vamos ver quem pode mais. A mesa está servida. Não devemos nos deixar levar pelo caminho da violência”, desafiou o presidente venezuelano -- reeleito com amplo apoio popular --, para frustração da grande mídia americana (latina e do norte), que, a fazer o possível e o impossível para que o caos se instale na Venezuela, esperava que Chávez afrouxasse.

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fdsA oposição, que em setembro vai disputar os votos para a eleição parlamentar, colocou nas ruas para protestar estudantes de algumas escolas particulares. Fazem barulho, porque as suas manifestações contam com todo o apoio de um amplo setor da mídia conservadora que considera Chávez o diabo.
fdsE essa gritaria toda ainda tem outros fundamentos, como a suspensão temporária de seis emissoras de TV a cabo, uma delas a RCTV -- a Globo de lá.
fdsPorém, a nossa mídia manipula a informação, a editar o noticiário que dizia que o Governo venezuelano fechou os canais de televisão simplesmente porque se recusaram a transmitir os pronunciamentos do presidente venezuelano.
fdsOra, as emissoras foram suspensas temporariamente até que demonstrassem que estavam seguindo a legislação midiática aprovada pelo Congresso. Nada ilegal, portanto, como o noticiário induz. Em poucos dias, cinco grandes canais a cabo entregaram a documentação exigida pela Comissão Nacional de Telecomunicações e comprovaram que são canais internacionais, o que permite restabelecer as transmissões. Caso a RCTV a cabo não faça o mesmo, continuará suspensa.

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fdsEnfim, se o reeleito presidente venezuelano -- com amplo apoio popular -- não se ligar, os chauvinistas porcos da direita tomam-lhe o poder, na marra (por outro viés, aqui já alertamos).
fdsAinda mais depois da declaração do presidente da Federação de Câmaras e Associações de Comércio e Produção da Venezuela, Noel Álvarez, em uma entrevista na RCTV: a única solução para a saída de Chávez é a “solução militar” (v. aqui).
fds
fds

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

# antifahrenheit 451 (xix)

fdDas duas investigadas razões para a rebelião ocorrida há algumas semanas na "Penitenciária Central do Estado", em Piraquara" – e que foi contida em 16 horas mas elevada à hecatombe pela grande mídia que não recebe um tusta para propaganda –, ambas confirmaram-se: (i) o confronto entre facções rivais, talvez facilitada por corrupção de servidores que permitiram misturá-las nas mesmas alas do presídio, e (ii) a sabotagem de agentes penitenciários, os quais há meses pressionam para, absurdamente, portarem armas e mudar a escala de trabalho, em que trabalhariam 8 dias por mês e folgariam 22.
fdSim, dois agentes penitenciários já foram presos sob a acusação de tramar a rebelião. O Centro de Operações Policiais Especiais (Cope) cumpriu nesta terça-feira outros nove mandados de prisão contra detentos da PCE, também acusados de envolvimento na rebelião e que foram transferidos para presídios do Paraná e de outros Estados.
fdEntre os agentes envolvidos na trama estão o chefe e o subchefe da segurança da penitenciária.dAs investigações foram conduzidas pelo Cope, da Polícia Civil do Paraná, que descobriu que o motim foi tramado e incentivado através da colocação de presos rivais jurados de morte numa mesma ala. O objetivo, segundo a polícia, seria forçar a volta dos 20 policiais militares retirados da guarda interna do presídio dias antes.
fdSegundo o Secretário de Segurança Pública, Luiz Fernando Delazari, a investigação foi acompanhada e chancelada por um Promotor de Justiça e também pelo Juiz-Corregedor dos presídios, o qual afirmou que a investigação foi conduzida com muita seriedade e lisura e que foi acompanhada pela Corregedoria dos Presídios desde o início.
fdDe acordo com o relatório de investigação do Cope, a rebelião foi resultado de uma “imprudente” decisão de remover presos rivais para uma mesma galeria, dominada por uma das facções criminosas.
fdO inquérito policial ainda aponta que a experiência de mais de 20 anos de agentes penitenciários no presídio lhes daria perfeita condição de saber o que estaria por acontecer com essa transferência, o que reforça a ideia de que o motim resultou de uma “trama muito bem planejada pela chefia de segurança e alguns presos, tendo como premissa maior o retorno de policiais militares ao estabelecimento prisional”, conforme traz o relatório.
fdEm relação às mortes e aos danos ocorridos, o Cope assinala que fizeram parte do planejamento, tendo em vista que algumas vítimas e agressores dispunham de armas e conhecimento sobre o confronto que ocorreria. “Nesse contexto, é de se presumir que os chefes da segurança do presídio protagonizaram o papel de verdadeiros intermediadores de uma arena de gladiadores, o que corresponde dizer que dispuseram meios para ambos os lados se digladiassem, insuflando-os a contenta até a morte”, conforme traz o inquérito.
fdO Promotor de Justiça da 10ª Vara Criminal, Pedro Carvalho Santos Assinger, baseado em indícios muito fortes de que toda a rebelião foi tramada e articulada pelo chefe e subchefe da segurança do presídio, concedeu parecer favorável às prisões temporárias e ao cumprimento dos mandados de busca e apreensão.
fdAlém destas prisões, a Delegacia de Piraquara prendeu dez funcionários do Centro de Triagem II que trabalhavam como auxiliares de carceragem e foram acusados de facilitar a fuga de dois detentos – um deles transferido recentemente da PCE, envolvido na rebelião e jurado de morte.
fdAs investigações continuam e a polícia tem o prazo de 10 dias para concluir o inquérito, que tem 182 páginas. (v. aqui)
fd

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

# coelho branco: o não-segredo

fdsO leitor Lucas e o amigo Valmir Parisi explicam-me o que era e onde cheguei quando, no final da tarde deste domingo, encontrei o Withe Rabbit.
fdsO negócio, enfim, era o quarto domingo do bloco pré-carnavalesco "Garibaldis e Sacis", que há 10 anos, num ritmo alucinante (e alucinógeno) de crescimento, faz a grande e divertida festa de rua de Curitiba. E que eu não conhecia.
fdsO bloco, que se reúne no Largo da Ordem nos seis domingos anteriores ao Carnaval, tem seu início em frente à clássica Sociedade Garibaldi, lá fica por algumas horas e depois desce, pelas antigas ruas do Largo até o Conservatório de MPB de Curitiba, aos arredores do bar do Saci.
fdsDomingo que vem tem mais, avisam.

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fdsE já neste ritmo, lembro a todos (e a todas) que neste próximo sábado de véspera do carnaval (dia 6), em São Paulo, o amigo Samy Garson e toda uma grande equipe saem às ruas e comandam um dos já famosos blocos de rua paulista, para a 4ª edição do bloco “Passaram a Mão na Pompeia”, em um clássico trajeto -- recheado de bares&botecos -- que roda o tradicional bairro da cidade.fdsAinda que o sol resolva aparecer, você paulista ou você de passagem pela "terra da chuva" não pode perder o festivo e organizado bloco, com muita marchinhas, fantasias e cultura popular (v. aqui).
fds

# rubro-negras (ii)

fdsNa pauta vermelho-e-preta deste final de semana, mais do que a obrigatória vitória contra o plurinominal time de São José dos Pinhais, o destaque foi a "Carta Aberta ao Torcedor Atleticano" (v. aqui), na qual Antônio Lopes expõe, tecnicamente, as razões pelo bastante fraco desempenho do Atlético nessas primeiras rodadas deste bizarro campeonato.
fdsMostra, no documento, ciência da realidade e consciência do que está a fazer, diferente daquilo que a onisciente mídia esportiva paranaense insiste em repercutir (e tergiversar, e inventar).
fdsPorém, um fato foi omitida na carta -- como, claro, haveria de ser por questão de hierarquia profissional: a negligência da Diretoria que insiste em não contratar um grande jogador, um grande centroavante -- a nossa mais absoluta carência (e explico abaixo a razão) --, a preferir inchar o elenco com 5 ou 6 nomes de 20 ou 30 mil reais.
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fdsMuitos falam -- embora, em tese, seja mesmo uma carência -- da necessidade de se contratar um grande lateral. Mas discordo do investimento.
fdsCom a volta -- a grande volta -- de Alan Bahia, já temos um segundo-volante e podemos voltar a jogar no 3-5-2, cujo sistema exige alas, e não meros laterais.
fdsUm temos, o cabeludo Azevedo; o outro, pela direita, seria criado: o garoto Marcelo, o qual, a mostrar disposição, técnica e cacoete, será ensinado pelo Prof. Lopes e aprenderá a jogar no setor, como outrora aconteceu com Wesley, já de saudosa memória.
fdsE com a recuperação de Paulo Baier e o sorteio de qualquer um dos meia-atacantes que temos (?!) para jogar como segundo homem de ataque (Bruno Mineiro, Wallyson, Serna, Tartá, Ximbica etc.), faltar-nos-ia uma única grande peça: um centroavante.
fdsSim, um senhor centroavante, altius, citius & fortius, daqueles vips, daqueles de parar o trânsito, daqueles de fazer fila em supermercado para distribuir autógrafos e de ser carregado em caminhão de bombeiros.
fdsO mundo atleticano por um centroavante.
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fdsOuvi a coletiva do Lopes após o jogo e, por outro lado, ouvi o que a turma da rádio (e da tv) repercutiu no final de semana.
fdsImpressionante como dissimulam as palavras e como não compreendem -- dolosamente ou não -- o que explica o treinador rubro-negro.
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fdsE por falar na mídia radiofônica esportiva, faça minha a irrepreensível metáfora apresentada pelo amigo causídico Luiz Antônio Grisard, comentarista da Rádio Mais, sobre o zagueiro atleticano: "Esse Rodolpho parece painel de jipe: não tem recurso nenhum!".
fds

# coelho branco


fdsfdsCuritiba tem a sina de ser um Portugal no Brasil, tamanha a sensatez e a alegria com que faz a maior festa do mundo, o Carnaval.
fdsfdsPorém, no final da tarde ensolarada deste domingo, em despretensiosa, pero no mucho, passagem pelo Largo da Ordem -- centro histórico-cultural da cidade --, um baque, um susto.
fdsfdsEis que me deparo com uma pequena multidão em êxtase, em esfuziantes danças&cantorias e num amontoado ziriguidum&telecoteco, a lotar a praça histórica da capital. "Quanto riso, oh quanta alegria!", eu me disse.
fdsfdsNum microtrio liderado por meia-dúzia de tenores e uma simpática charanga, o povo -- na sua maioria jovens e mulheres, belas e alternativas --, sem resfolegar-se, pulava, cantava, sorria, beijava e bebia ao som das grandes marchinhas de carnaval e dos nossos mais clássicos sambas-enredos.
fdsfdsNão sei o que foi, nem quem inventou ou promoveu. Mas quero registrar aqui a grande ideia e o grande barato do negócio.
fdsfdsPor alguns instantes, eu parecia ter entrado no buraco de Alice e caído noutro lugar, noutra terra.

 
fds

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

# antifahrenheit 451 (xviii)


fdsDiversos emails, em especial fora do Paraná, vêm indagar-me sobre a iniciativa de parte do PMDB nacional lançar o Governador Roberto Requião como candidato à Presidência da República. Vamos aos fatos.
fdsNo Paraná, pobre não paga luz e a água tem uma cobrança simbólica. As microempresas não pagam impostos. Aproximadamente 95 mil itens de consumo popular tem isenção de ICMS (reduzindo o preço final daqueles bens básicos e fundamentais que são adquiridos pelos trabalhadores, como alimentos, vestuário, higiênicos e medicamentos). Policiais militares e professores do ensino médio e fundamental têm os melhores salários do Brasil.
fdsAqui, a Agência Estadual de Fomento (criada depois que venderam o Banestado), cria o "Banco Social", com taxas de juros bem abaixo dos de mercado e novas linhas de crédito voltadas para micro e pequenas empresas e têm como mote a geração e manutenção de empregos. Com os financiamentos agrícolas da mesma Agência aos pequenos produtores rurais, os investimentos públicos na infraestrura de zonas rurais e a reativação (e criação) de dezenas de Escolas Agrícolas, conteve-se a migração para os grandes centros do Estado e desenvolveu-se as regiões pobres do interior.
fdsCriou-se o maior programa nacional de bibliotecas públicas, sendo construídas "Bibliotecas Cidadãs" em quase 300 municípios, e, com as quase 150 unidades dos "Centros de Saúde da Mulher e da Criança", tem-se um projeto sem igual no país, a oferecer pleno e especializado atendimento médico-ambulatorial a essa parte da população.
fdsNão se terceiriza serviços, negócios ou mão-de-obra fins; tem-se o porto mais lucrativo do país -- já que o "lucro", para tantos, é o sacrossanto resultado da "eficiência"... -- e uma Ferroeste que faz não acabar o sonho de se investir dinheiro público neste importante modal de transporte. Aqui, os movimentos sociais tem crucial voz, em todas as suas vertentes, enfrentando-se assim os preconceitos da tradicional elite branca nativa. E com propaganda em rádios, tevês, revistas e jornais privados não se gasta 1 real.
fdsEntretanto, mais importante do que esses dados e números, é a postura prática e o ideal politico deste Governo, afinal, mesmo antes da crise, já se admitia (e se mostrava) que o Estado é vital para o desenvolvimento. No Paraná, portanto, tem-se as "algemas" e os "motores" que regulam e impulsionam a mão livre e invisível do mercado.

fdsHá problemas? Claro. E o pior deles é a gente picareta ou incompetente -- seja ou não nepote -- que, infelizmente, brotam em todos os cantos da iniciativa estatal e cujas mazelas, inevitavelmente, também acometem o atual Governo, com a conivência (ou não) de tantos agentes públicos estaduais que poderiam (ou não) extirpá-las ou ao menos controlá-las. E isso, infelizmente, atravanca o progresso e inibe o melhor desempenho estatal. São, afinal, os custos de uma democracia não-representativa e, maiormente, da pluralidade partidária.
fdsMas, e Requião como Presidente do Brasil? Certamente conseguiria transferir para todo o país grande parte das políticas públicas estruturantes aqui promovidas, além, claro de certamente manter todas as políticas sociais do Governo Lula. Ademais, creio que não hesitaria em acabar com a farra soberana do Banco Central e da política rentista e usurária que permite aos bancos extorquirem empresas e cidadãos, fato que incontestavelmente macula a gestão federal atual. Também, retomaria a função republicana da Política Federal, impedindo-a de ficar à mercê dos interesses privados, bem como aceleraria o enfrentamento (e a solução) de questões ambientais e agrárias.
fdsNão se iluda, porém. Lá, enfrentaria os mesmos problemas que aqui, pois (i) grandes projetos -- como, p. ex., a (re)estatização de serviços e negócios essenciais (ou estratégicos), o fim do pedágio e a quebra de outros contratos nefastos ao interesse estatal, a desapropriação de terras com vistas ao interesse público e à reforma agrária etc. -- seriam impedidos ou atravancados por um Poder Judiciário extremamente conservador, e (ii) grandes problemas seriam inventados -- ou os pequenos catalizados -- por uma grande mídia que (quase) controla o país e a opinião pública.
fdsEnfim, como Dilma -- ressalvadas algumas das maiores questões acima comentadas -- e Ciro Gomes, Requião é sim um grande nome, especialmente se comparado aos demos (DEM), aos tucanos (PSDB) e a outra grande banda do PMDB que deseja o poder.
fdsTodavia, haja vista os grandes interesses individual-partidários em jogo, sabe-se que é um nome relativamente utópico.
fds


# rubro-negras (i)


fdNão vi o jogo. Nem precisava.
fdA ousadia criativa não significa, de per si, brilhantismo; ao contrário, pode muitas vezes traduzir-se em lambança, em papelão, em negligência, em provocado infortúnio.
fdNa noite de ontem, em Cascavel, o Delegado Lopes -- cujo trabalho e capacidade técnica, diga-se, merecem toda a nossa admiração e respeito -- armou o time com tamanha invencionice e com tamanho despropósito, que o resultado não poderia ter sido outro: li e ouvi, em todos os veículos de comunicação, que o time foi um desastre.
fdOra, não haveria mesmo de se obter eficiência diante das peças convocadas e da maneira que o nosso Professor Ludovico escalou esses jogadores: (i) a pensar que Alan Bahia e Alex Sandro eram Pelé e Tostão, insistiu em colocá-los lado a lado (ou sobrepostos...), prejudicando ambos; (ii) a imaginar que o esplêndido Manoel poderia ser Djalma Santos, arremessa-o numa ala-direita e acaba com ele (e com a nossa zaga); (iii) a acreditar que Chico um dia ainda vai virar um Beckenbauer, insiste com ele como titular; e, por fim, (iv) a aparentar crer em Netinho como a intocável solução para substituir Paulo Baier, fica refém de uma Diretoria que não contrata um armador ou um ponta-de-lança (mas, afinal, se não ele, quem escalar com a 10?).
fdEnfim, não obstante essa grande responsabilidade da Diretoria, entrar em campo com três zagueiros, três volantes e sem um ala-direita e um grande armador, mais do que uma grande invenção, parece ser um lampejo de esquizofrenia. Ou muita soberba.
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fdDas pitorescas mudanças promovidas (e das insistências irritantes), a que mais causou celeuma foi a colocação do Manoel na lateral direita.
fdSinceramente, a priori, tal estratégia não seria de todo mal. É assim, afinal, que vários times e seleções da Europa jogam -- e peguemos, por exemplo, o catenaccio de vários clubes italianos e a falada seleção espanhola, que jogam com quatro zagueiros, dois deles como recuados laterais.
fdO problema é que o Atlético, por não treinar assim e por não ter as peças aptas para jogar assim, não se armou para jogar com um zagueiro como lateral.
fdNeste esquema, deve haver pela direita um jogador que atue como armador&ponta; porém, com Alan Bahia pelo centro, com outros dois canhotos pela esquerda (Alex Sandro e Netinho) e com Marcelo ignorado na ponta-direita, o sistema afunda.
fdE mostra-se capenga e inócuo, como se mostrou ontem.
fdfds

 

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

# um outro mundo é possível (2)?





fdsfdsDe hoje até 29 de janeiro uma enorme gama de cientistas, intelectuais, estudantes, artistas, políticos e trabalhadores de todas as partes do mundo concentram-se em Porto Alegre/RS para a décima edição do "Fórum Social Mundial", encontro que estimula o debate, a reflexão, a formulação de propostas, a troca de experiências e a articulação entre organizações e movimentos engajados em ações concretas, do âmbito local-regional ao internacional-global, pela construção de um outro mundo, mais solidário, mais democrático, mais igual e mais justo.
fdsfdsApós ter rodado partes do globo -- Índia, Quênia, Venezuela, Paquistão etc. --, o fórum volta à sua cidade de origem (Porto Alegre/RS) para se confirmar como o mais importante e mais crítico evento mundial com vistas a debater o mundo sob um viés frontalmente contrário daquele debatido (e querido) no "Fórum Econômico Mundial" de Davos, na Suiça -- embora, diga-se, desde a nova crise esse tenha se mostrado mais, sei lá... humano.
fdsfdsCertamente a grande mídia insistirá em abafá-lo, menosprezá-lo ou ridicularizá-lo, mas, perdoai-os, pois eles não sabem o que dizem... E, assim, você poderá acompanhá-lo nos diversos canais virtuais que cobrem o evento, como o sítio oficial do Fórum (v. aqui) ou a "Carta Maior" (v. aqui), ou mesmo na TV Educativa do Paraná.
fds

# aspas (xxxii)

f
dsNa linha do que à profusão escrevemos neste nosso sideral espaço virtual, o sociólogo gaúcho Cristóvão Feil (v. aqui) brinda-nos com o texto abaixo:
 
fds"Há um visível recrudescimento na idiotização das pessoas.fdsA mídia é a principal usina de produção em série de idiotas e tolos de todos os calibres. O nivelamento por baixo e o achatamento geral do imaginário médio é a principal contribuição dos modernos meios de comunicação de massas. Hoje, é muito fácil encontrar o que eu chamo de idiota triunfante, aqueles sujeitos que se orgulham da própria ignorância e pobreza de espírito. O tolinho jactancioso tira prazer onanista da sua condição, e se basta.
fdsO espírito de nossa época --o Zeitgeist, como diz apropriadamente o alemão -- flutua numa emulsão formada por dois elementos: a ciência (as tecnologias) e a idiotice. Os idiotas de nosso tempo se projetam nos gadgets que encontram pelo caminho.fdsObservem: todo o tolo que se preza porta pelo menos um artefato mecânico ou eletrônico. Não vive sem essas muletas. É a sua forma de se referenciar com o mundo, de comunicar a sua estupidez relativa ('afinal, estou conectado ao futuro!').fdsMas o fenômeno não é original. Gustave Flaubert, o corrosivo crítico da burguesia, ainda no século 19 já havia detectado o fenômeno da tolice social. Para tanto, começou a colecionar os ditos correntes do senso comum e reuniu-os no famoso 'Dictionnaire des idées reçues'. O escritor francês comentou -- e publicou nesta pequena obra de pouco mais de cem páginas -- todas as bobagens ditas pelas pessoas que queriam parecer inteligentes e atualizadas. Aliás, Flaubert seria o descobridor da tolice.fdsQuem garante é Milan Kundera, para quem a tolice é a maior descoberta de um século - o 19 - tão orgulhoso de sua razão científica. Antes de Flaubert não se duvidava da existência da tolice, embora esta fosse compreendida de um modo diferente. A tolice era considerada como uma simples falha do conhecimento, um vazio provisório, passível de ser preenchido pela instrução.fdsMas Flaubert insiste, e praticamente sustenta a sua obra baseada no tema da tolice e da idiotia. Ema Bovary é uma tola que aspirava ser amada por todos os homens. Bouvard e Pécuchet são dois pequenos idiotas que aspiram conhecimentos enciclopédicos acerca de tudo. Leio agora na Wikipédia que Barthes considerou 'Bouvard e Pécuchet' como 'uma obra de vanguarda'. A considerar a idiotia galopante de nossos dias, pode ser.fdsKundera brinca afirmando que 'a descoberta flaubertiana é mais importante para o futuro da humanidade que as ideias mais perturbadoras de Marx ou de Freud'. Pois podemos imaginar o futuro do mundo -- prossegue Kundera -- sem a luta de classes ou sem a psicanálise, mas não a invasão irresistível das ideias feitas, estandardizadas, pasteurizadas, que, 'inscritas nos computadores, propagadas pela mídia, ameaçam tornar-se em breve uma força que esmagará todo o pensamento original e individual e sufocará assim a própria essência da cultura européia dos Tempos Modernos'.
fdsO mais chocante -- constatado pelos geniais romances de Flaubert -- é que a tolice não se apaga diante da ciência, das altas tecnologias, da pósmodernidade (seja lá o que isso signifique). Milan Kundera ousa afirmar que 'ao contrário, com o progresso, ela também progride!'.
fdsArrisco a dizer que os bobalhões e as baratas sobreviverão ao próprio planeta. 'Coisas da vida' - como diria Kurt Vonnegut, outro escritor especialista em tolos e idiotas."
fds


 

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

# consciência e caminho



fffdsO ser humano é confuso; em tantos casos e situações, muito.
fffdsE lá e cá, do quase internacional norte amazônico ao bairro nobre da capital paranaense, duas grandes figuras -- a mim muito próximas noutros carnavais -- mostram-se sentimentalmente confusas.
fffdsA primeira, outrora retumbantemente dita de esquerda, de apoiador dos movimentos sociais, de preocupado com os rotos e os aleijados, de intransigente com a falta de terra e comida, de eleitor do luiz inácio, de exterminador do estado mínimo,
de contestador das coisas do grande capital, de opositor à grande mídia corporativa etc. -- capaz, até, de discussões madrugada e vinhos do porto adentro com este que vos fala, dantes um idiota que ainda transitava (e elevava-se) do egocêntrico e libertino mundo de luxo&riqueza para o justo mundo de saber o que é consciência --, mostra-se agora um firme defensor da banda UDN/ARENA/PFL/DEM e de todos os interesses que tal grupelho historicamente defende. Ossos do ofício? Tu quoque, Brute?
fffdsA outra, um veementemente autoaclamado "anarco-liberal", resolve, não sei se do dia pra noite, fiar e afiançar a ode que se faz ao governo dos milicos bundões e da canalha direita, nos anos de trevas totais que a nossa escrota ditadura propiciava. Dantes uma pessoa cujo sonho parecia ser um woodstock regido por mãos invisíveis, hoje parece delirar com um nazi-salazarismo comandado pela tradição, família e propriedade. Quo Vadis, Domine?
fffdsLembro aqui, e sempre, Voltaire -- "je ne suis pas d'accordavec un mot de ce que vous dites, mais je défendrai jusqu'à la mort le droit de le dire", ou algo assim... --, e por isso jamais admitiria vê-los calados, pois, além de cidadãos, são inteligentes e agradáveis (esta liberdade, inclusive, é um dos suportes da democracia que defendo, a qual, já se insista, não é essa que anda por aí, dissimulada no faz-de-conta das eleições).
fffdsContudo, que ambos parecem estar a passar por alguma aguda e conflituosa fase de autocrítica filosófico-político-social, ah, isso estão.
fffdsE então meus filhos, o que se há de fazer? Temo, talvez, pelo pior.
 
 
fds

# crime & castigo


fffdMuito já nos manifestamos sobre o assunto (v. aqui, aqui, aqui e aqui).
fffdE agora está quase provado.
fffdE as bestas de plantão, o que dirão com o não-fim do mundo e com o não-extermínio da raça humana?
fffdA seguir, as notícias que estavam à frente de todos, mas que a cegueira branca (ou a estupidez cretina ou a má-fé capitalista) da grande maioria impedia de enxergar: "Conselho da Europa investiga a ficção lucrativa e debate a 'pandemia inventada'" (v. aqui) e "Gripe A - a corrupção na saúde pública" (v. aqui).

--x--
fffdTodavia, mesmo diante de todas estas (quase) evidências, a grande mídia corporativa e a parcela podre da saúde pública ou privada brasileira -- que parecem financiadas pelos grandes promotores do golpe da gripe -- já pressionam e advertem o Estado para o inverno que se aproxima e que, agora garantem, a tal peste vai mesmo dizimar o resto da população sobrevivente.
fffsE o Estado, o que deve fazer?
fffsOra, não importa o que faça será, claro, jogado aos leões, afinal: (i) se realmente ignora essa farsa toda, não gasta a querida fortuna em remédios e em arsenal anti-gripe suína, mas meia dúzia de pessoas morrem do treco, ele será eternamente criticado por não ter se preparado, por não ter investido, por ter sido negligente etc.; e, por outro lado, (ii) se realmente dá ouvidos às notícias e aos reclames da mídia e das indústrias fármaco-hospitalares, e gasta uma fortuna para se precaver e combater a tal gripe suína, e ela não vem (ou vem, como bem se viu, como outra coisa qualquer que, mais ou menos sólido, não se desmanchou no ar), será eternamente criticado por ter jogado fora dinheiro público, por não ter examinado direito, por não ter sido eficiente etc.
fffdSim, é assim que o jogo funciona.

fds

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

# aspas (xxxi)



Joaquim Nabuco -- um dos grandes brasileiros da nossa história, motivo de tantas homenagens e comemorações neste ano do centenário da sua morte --, em 5 de novembro de 1884, em Recife, num discurso da sua campanha para deputado, já falava uma das grande verdades e necessidades do Brasil, ainda hoje insistentemente ignorada ou vilipendida pelo DEM/PFL/ARENA/UDN, pela OAB, pela CNA, pelos pré-modernos senhores feudais e pela grande mídia corporativa: a ampla e estruturada consecução da reforma agrária.

O nosso Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim -- o "maior chanceler do mundo", segundo matérias de alguns especialistas internacionais --, em recente conferência na Academia Brasileira de Letras, reproduziu trecho daquele histórico discurso de Joaquim Nabuco (v. aqui):

fdsfd“Não há outra solução possível para o mal crônico e profundo do povo senão uma lei agrária que estabeleça a pequena propriedade, e que vos abra um futuro, a vós e vossos filhos, pela posse e cultivo da terra. É preciso que os brasileiros possam ser proprietários de terra, e que o Estado os ajude a sê-lo.
fdsfdA propriedade não tem somente direitos, tem também deveres, e o estado de pobreza entre nós, a indiferença com que todos olham para a condição do povo, não faz honra ao Estado.

fdsfdEu, pois, se for eleito, não separarei mais as duas questões: a da emancipação dos escravos e a da democratização do solo. Uma é o complemento da outra. Acabar com a escravidão não nos basta; é preciso destruir a obra da escravidão.



 

# a música do brasil


Do twitter do Macuco (v. aqui cujo jornalista já tenta me convencer a também adotar esta mais (nem tão) nova ferramenta de comunicação , traz-se a notícia do mais novo vídeo feito para o samba-enredo da Mangueira de 2010: "A Mangueira é Música do Brasil".

E eu engrossarei o coro, lá no chão de esmeraldas do "Palácio do Samba" e na avenida, pilchado em verde-e-rosa para o Carnaval.


fds
fds

# antifahrenheit 451 (xvii)

ffdsO Sistema Penitenciário do Paraná, que estava (propositadamente?) sucateado e que já tinha diversos estudos privatizantes realizados pelo governo anterior, desde 2003 contabilizou quase R$ 100 milhões em investimentos, não só nas construções e reformas, mas na infraestrutura de equipamentos de segurança e de ressocialização, sendo que todas as penitenciárias contam com salas odontológicas e de pronto-socorro, bibliotecas, salas de aula, espaço para atividades de ressocialização, atendimento jurídico, de assistência social e psicológica aos presos e seus familiares.
ffdsNo final de 2002, havia 6.529 vagas em penitenciárias que se concentravam em 14 unidades em Curitiba e Região Metropolitana, Londrina, Maringá, Ponta Grossa, Guarapuava, Foz do Iguaçu e Cascavel. O atual governo praticamente dobrou o número de penitenciárias, sendo inauguradas 12 unidades nos municípios onde já havia presídios, além de Francisco Beltrão.
ffdsAlém disso, nos pŕoximos meses o Governo do Estado, com o Centro de Detenção e Ressocialização de Cruzeiro do Oeste e a Penitenciária de Regime Semiaberto de Maringá, criará mais 1.336 novas vagas no Sistema Penitenciário do Paraná, que passará a contar com um total de 15.904 vagas, um aumento de quase 150% em relação ao início da gestão em 2003.
ffdsAfora construir novas unidades, o Governo do Paraná promoveu reformas que possibilitaram a abertura de outras 1.234 novas vagas na Penitenciária Feminina de Piraquara, Penitenciária Industrial de Cascavel, Penitenciária Estadual de Piraquara, Colônia Penal Agrícola, Alojamento Parque Agrícola de Piraquara e Complexo Médico Penal.
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ffdsDe acordo com dados do Departamento Penitenciário do Paraná (Depen-PR), há pelo menos 100 atividades profissionalizantes ligadas ao programa de ressocialização de presos e 75 convênios com empresas.
ffdsAlém da escolarização, há canteiros de costura industrial de calçados, latoeiro, pintor de automóveis, alta-costura, produção de livros em braille, artesanato em geral, olaria, entre outros, e de capacitação profissional como cursos de prótese dentária, funilaria, operador de máquinas de costura e fabricação de produtos de limpeza. Hoje, mais de 3 mil detentos trabalham nos presídios paranaenses.
ffdsO preso recebe pelo seu trabalho no Sistema Penitenciário, através de transferência eletrônica dos valores estabelecidos pelo Fundo Penitenciário, para uma conta poupança em nome do prisioneiro. Até 80% desse valor pode ser repassado para a família, e o restante em crédito para o próprio preso, que pode resgatar o dinheiro, quando receber o alvará de soltura.
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ffdsEm relação ao número de agentes penitenciários, diferentemente do que a grande mídia nativa noticia em manchetes mentirosas (e criminosas), também teve um aumento significativo em oito anos: 91,5%. Em 2003, o Paraná contava com 1.246 agentes; hoje, conta com 2.388.
ffdsO salário pago atualmente também é o maior do país (R$ 2.550,65), bem à frente, pois, de São Paulo (R$ 1.895,15) e Minas Gerais (R$ 1.545,19), por exemplo. (v. aqui)
fds

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

# bastantes meias palavras


Dentre tantos com outras colocações, provocações, cumprimentos ou tergiversações em relação às nossas últimas bulas, diversos emails questionam-me sobre três pontos, já de pronto respondidos:

- Por que defender a "Comissão da Verdade"?

Ora, pelo simples fato de o Estado brasileiro, atrasado, ter uma dívida histórica com a sociedade brasileira e já ser o único país na América que se recusou, até hoje, a processar e julgar os criminosos que atuaram em defesa da ditadura (v. aqui).

- A vitória da direita no Chile pode indicar que Lula terá dificuldade para transferir votos para Dilma, como aconteceu com Bachelet e Frei?

Não! Absolutamente.

A composição centro-esquerda chilena, desde o fim de Pinochet, a cada nova gestão vinha se mostrando mais de centro que de esquerda.

Estagnavam-se as mudanças sociais, as políticas públicas de infraestrutura e os projetos de inclusão e redistribuição de renda.

A população cansou.

O povo cansou. E queria mudanças, quaisquer que fossem elas (tanto é que o candidato governista quase nem alcança o segundo turno). E infelizmente pagará o preço por isso, pois, muito pior que a estagnação, é o retrocesso político-social de um Estado.

Já no Brasil o cenário é completamente outro.

É só o tempo do povo saber quem é Dilma e que ela é a candidata de Lula.

E a vitória é certa, inclusive porque a grande alternativa é o Serra e porque a grande mídia nunca mais conseguirá repetir o fenômeno Fernando Collor.

- Por que esse papo de direita e esquerda, se dizem não mais ter isso?

Não?!

Ora, hipocrisia beata que apenas advém e se sustenta, adivinhem... na própria direita, por parte dos conservadores e reacionários de plantão, que hoje dizem ser tudo a mesma coisa e tudo igual, crentes no "pensamento único" e no "fim da história", posição de extrema conveniência e que apenas visa à manutenção do status quo.

Ora, são notórias as diferenças de ambos os lados e vontades, de ambos os pensamentos e doutrinas e de ambos os objetivos sociais, econômicos e políticos, que fazem sobrepor a solidariedade social ao "darwinismo social", o Estado protetor ao "Estado predador" e o interesse público ao "interesse privado" (v. aqui).



 

# e assim caminha a humanidade (xvi)


fdsfdEnquanto isso, numa sessão de fisioterapia, aproxima-se um senhor com o já de longe percebido sotaque lusitano.
fdsfdSenta-se num dos aparelhos ao meu lado e, a se mostrar simpático, indaga-me sobre a minha cirurgia.
fdsfdTem a resposta e o meu comentário sobre a minha passagem por Coimbra etc.
fdsfdE então já vejo o seu semblante mudar. Acho estranho, mas mesmo assim vou em frente e pergunto:
fdsfd- De qual cidade o senhor é?
fdsfd- Oh meu rapaz, sou de uma cidade muito pequenina, muito perto de Lisboa, chamada [já não me recordo]. O senhor não deve conhecê-la não... excepto se, na qualidade de estudante de Coimbra, reconhecê-la numa das tantas músicas de protesto que Coimbra ajudou a fazer na época daquela 'estúpida' e 'indecente' Revolução de 25 de abril... -- e, com cara de nojo, passa a cantar trecho da música que levava o nome da sua cidade natal.
fdsfdSim, meus caros e minhas caras, o septuagenário senhor estava a querer defender os malditos anos do golpe de Antonio Salazar que, de clara inspiração fascista, conduziu Portugal pelas trevas durante quase 40 anos.
fdsfdE eu, na qualidade de ex-estudante de Coimbra, era para ele quase como um inimigo, vez que a Universidade de Coimbra fora, naqueles anos de chumbo de Portugal, o grande suporte intelectual-estudantil dos opositores ao regime e, pois, dos que promoveram a Revolução.
fdsfdSim, ele, na escrota (ou burra) visão de alguém que, direta ou indiretamente, devia se beneficiar daquele governo plutocrata -- sempre em benefício dos grandes monopólios privados nacionais -- e daquela chauvinista, racista, autoritária, reacionária e conservadora direita que controlava tudo e todos, encheu a boca para dizer que a "Revolução dos Cravos" -- que em 25 de abril de 1974 acabou com o putrefeito salazarismo -- foi estúpida e indecente.
fdsfdSim, ele não mais merecia a minha atenção.
fdsfdEle, estúpido e indecente, talvez não fosse merecedor dos cravos nos canos dos fuzis dos revolucionários portugueses.



fds

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

# aspas (xxx)


fds
O escritor Eduardo Galeano lembra-nos as origens (mais remotas) do caos chamado Haiti, o país mais pobre da América Latina e que hoje também padece do fenômeno da "ongzação" (v. aqui):

fds "A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca ideia de querer um país menos injusto...
fds Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objectivos: cobrar as dívidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que proibia vender plantações aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis da invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".
fds O Haiti fora a pérola da coroa, a colônia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".
fds Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".
fds Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.
fds A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.
fds Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pénis.
fds Por essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indenização gigantesca, a modo de perdão por haver cometido o delito da dignidade.
fds
A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.
fds